Saudades Saudades do tempo que éramos muitos; Das férias na umburana onde pescávamos de balaio o acarí que mainha preparava com aqueles tomatinhos que nunca maia avistei... Das cantigas que Delurdes e Lene cantavam sob a luz do luar ,que me enchiam de uma melancolia doce e serena como se advinhasse o que estava por vir. Saudades de Severino e Pedro que sumiram nesse mundo de meu Deus; Saudades da carne que dindinha colocava dentro da farinha e que vira e mexe eu ia lá roubar um taquinho; Saudades das pamonhas e bolos de tia Adilina; Saudades do mingau de banana com farinha de tia Borge e também do chocolate quente; Saudades do medo que eu e Eledir sentíamos quando atravessávamos a plantaçaõ de cacau, mêdo do saci pererê, da caipora, que supostamente se divertia matando de rir as pessoas que encontrasse pelo caminho; Saudades dos sonhos perdidos ao longo do caminho , do que poderia ter sido,da inocência perdida; Saudades da tia Mira e desse marido bonito dela; Saudades de tio Juracy agarrado na Dete ,de tia Alaíde,de Nice,de Carmem,da família coesa enfim; Saudades sobretudo de você Juninha,tia querida ,companheira de todas as horas, de uma capacidade genial em aceitar as pessoas como elas saõ,e ama-las sem exigir que se enquadrem a uma norma de conduta pré-estabelecida. Saudades de mainha ,das músicas tristes e desafinadas que ela cantava nas noites de trovoada,do corte no pé curado com borra de café. Saudades de pai, das festas na fazenda, da roda, da trança-fita, dos circos,das vaquejadas, das quermesses, dos bailes e carnavais. Os sonhos morreram, a realidade prevaleceu, mas o que importa é que mesmo tendo percorrido caminhos tortos, ainda assim, sobrevive a chama do afeto que nunca deixou de existir ainda que pouco visível. Ser é mais importante que ter, ser é resultado de toda influência familiar, reflete o que nos foi ensinado, e no que me diz respeito, apesar de todos meus defeitos, nunca pude ignorar ao chamamento da minha alma que sempre me reconduziu a pelejar pelo que eu acreditava ser moral e justo ainda que algumas vezes tenha me sentido tentada a pegar atalhos. Dizem que quem puxa aos seus naõ degenera, eu sou a prova viva de que envergar naõ significa cair, ainda que esmureça emcontra forças pra continuar. Hoje somos menos do que éramos, alguns já partiram, acho muito bonito e de extremar lucidez essa reuniaõ entre os que ficaram; por que chegará o dia em que seremos poucos,e entaõ tudo que restará seraõ lembranças dos que foram; Entaõ que essa reuniaõ seja a oportunidade de falar de amor, de reconciliar, de exercitar a sensibilidade, de ser capaz de vislumbrar o que se passa no íntimo dos que estaõ em nossa volta, de renascer. A gente costuma falar muito mas naõ revela o que realmente importa, hostilizamos quem naõ reza pela nossa cartilha,cada um com seus medos e certezas; Se olhássemos olhando, veríamos a alma em todas suas mútiplas faces. Quem enxerga a alma do outro não consegue ficar indiferente, naõ negará o perdaõ e acolhimento, por que é na alma que tudo se explica. É pena que seja taõ difícil praticar algo taõ óbvio, mas que possamos continuar tentando para que possamos aceitar a partida dos que se foram com a certeza de que lhe acolhemos em vida e que seremos acolhidos por Deus na morte. Que nesse ano que se inicia possamos esquecer o medo e abraçar a vida.Que nos transformemos em sêres maiores e melhores, que tenhamos as maõs limpas , Que esqueçamos as dores e aproveitemos as oportunidades que se apresentam agora. Continuar tentando. Sensibilidade é ser capaz de vislumbrar o que se passa. Pêra