A recepção fora maravilhosa quanto a nossa chegada, assim como ouvir um "eu te amo" de minha mãe depois de tanto tempo. Talvez estivesse mesmo precisando daquele abraço, daquele aconchego de mãe que tanto me recusei. Por alguns segundos até me passou pela cabeça voltar para casa e esquecer de uma vez por todas aquela maldita cidade, mas logo lembrei-me de tudo que havia conquistado e a vontade sumiu.
Depois da longa e chorosa conversa que tive com minha mãe, fomos até a casa dos pais de Carol. Todos estavam reunidos na beirada da calçada, setados em cadeiras de área, rindo como crianças abobalhadas. Cumprimentei um a um, sentei-me no chão. Procurei me enturmar na conversar, até que descobri que o assunto era Beth. Sim, estavam falando sobre toda a minha vida depois que conheci Carol e então tivemos nos famílias bem próximas. Até a história do arroz doce fora citada entre aquele emaranhado de conversas paralelas. Uma roda feita por cadeiras sobre uma calçada larga e plana. Em ordem estavam: Carol, James, Mara, Danilo, Felipe, Marcos, Aline, Ana, Mônica e eu, a única sem cadeira aos pés de Ana.
— Mas mudando de assunto, — disse James — conte como está a vida de adulta.
— James, meu velho, tá uma delicia. — exclamou Carol.
— Não exagera, Carol. Digamos que esteja tudo nos conformes.
— Ela diz isso porque não viveu nada de interessante por lá. Ou talvez tenha vivido, mas não queira me dizer.
— Não começa, Carol.
— Opa! Já chega, né? — pediu James. — E por um acaso, Beth, essa mocinha tem dado trabalho?
Carol fuzilou-me com os olhos arregalados.
— Claro que não, James. Ela tem se comportado muito bem. — Danilo segurou o riso, pude perceber.
— Que continue assim.
Ficamos ali até o sol começar a se pôr. Aline, mãe de Carol, chamou-a para dormir aquela noite em sua casa, obvio que o pedido fora aceito, entretanto sairíamos naquela noite, todos nós, incluindo Ana e Mônica.
Voltei para casa junto de Felipe, Mara, Danilo e Nathália. Mamãe preparava o jantar, de longe senti o cheiro ma-ra-vi-lho-so de estrogonofe e frango assado. Depois de tantos meses comendo bobeiras, comida para microondas etc., ter uma refeição descente era tudo que eu mais queria no mundo.
Enquanto todos foram realizar o ritual para poder sair logo mais a noite, fui até a sacada com Marcos, colocar os papos em dia já que não nos víamos a meses. Com aquele abraço de irmão, colo de pai e atitudes de amigo, envolveu-me com os braços, apertando, beijou-me a bochecha respirando fundo, por fim, deitei em seu colo enquanto acariciava meus cabelos.
— Você cresceu demais, Elisa. Não parece aquela baixinha que peguei nos braços aos três anos.
— E você criou barba e bíceps. — rimos.
— Deve estar com vários carinhas ao seu redor, não é?
— Sim, os gays.
— Ah, fala sério!
— Estou falando sério. Uma garota que trabalha em uma livraria, quase nunca bebe e só sai de casa por obrigação, não faz muito o estilo dos garotos.
— Você encontra a pessoa certa na hora certa.
— As vezes a pessoa certa passou debaixo do meu nariz e eu nem vi.
Sorriu. — Quando é a pessoa certa, ela volta, vai, volta, mas nunca some de uma vez por todas. Se for a certa, será ela então.
— Que assim seja.
Meu ânimo para sair estava horrível. Depois de um banho, pijama posto e um prato de estrogonofe devorado, não sobrou-me nenhuma vontade senão deitar sobre o sofá e afundar nele. A boa notícia é que todos, depois do jantar, decidiram que ficar em casa seria bem mais proveitoso. Alugamos filmes, alguns refrigerantes e biscoitos, passamos a noite em frente à tv. Deitada sobre o colo de Carol, Ana usava uma calça justa escura, blusa branca (deixando transparecer a tatuagem que tivera feito na costela) e meias roxas. Mais digitava ao celular do que assistia ao filme, o que me fez tomar decisões drásticas em relação a isto.
— Vamos assistir ao filme, Ana? — olhei em seu rosto.
— Já estamos.
— Sério? Larga o celular. O que e de tão importante? Namorada nova?
— Ciúmes? — perguntou Marcos.
— Calado, Marcos. — Ana sorriu, levantou-se colando o celular sobre a mesinha de centro, que aquela altura já estava mais para o canto esquerdo do que ao centro.
— Pronto, Li. — apelido horrível — Não mexerei mais no celular.
— Não me chame assim, é ridículo.
— Tudo bem, desculpe. Mas enfim, preciso perguntar uma coisa.
— O quê?
— Venha cá.
— Sem cochicho, por favor. — disse Mônica e Carol o mesmo tempo.
Perguntou-me sobre Nathália. Disse que havia conversado com ela a caminho da casa dos pais de Carol, e o assunto fora algo imaginável por mim, ou seja, o assunto era eu. Pensar que duas garotas que nunca haviam se visto na vida, no primeiro contato trocariam palavras sobre a única coisa que as faziam semelhante, no caso Elisabeth, me assustara um pouco. Resisti a perguntar sobre o que exatamente era a conversa, mas não valeu de muita coisa segurar a curiosidade, Ana acabou contando-me da mesma forma.
Vocês nunca... não é? Perguntou-me Ana, como se tivesse esperando a resposta negativa. Talvez se houvesse tido mais tempo para a elaboração de uma pergunta, não teria a feito de maneira tão sem sentido, mas tudo bem, a compreendi. Voltamos ao filme, desta vez Ana deitara em meu colo.
Por conta do filme ter três horas (quase) de duração, ao terminar, a lua já estava bem ao centro do céu estrelado. Marcos já havia ido deitar-se, assim como Mara. Pensei na hipótese de que um "lance" estaria acontecendo entre eles, ainda assim preferi não me infiltrar a fundo na história. Danilo recostava-se sobre o ombro de Felipe que lutava contra os olhos, enquanto Carol e Mônica haviam ido até o quarto de hóspedes ter uma conversa descente. Sentei-me entre Ana e Nathália, abraçando-as beijei cada uma na bochecha.
— Agradeço muito por ter vocês duas, sério. Não me abandonam nem mesmo nos créditos do filme. — Riram. Nathália beijou-me o rosto, Ana acariciou-me a mão.
— Sabemos disso, não é Nathália?
— Claro.
— Vou dormir, acho que todos já fizeram o mesmo. Bem, vocês duas também têm de vir, o único quarto que resta é o meu.
— Até porque Carol e Mônica não saíram dali tão cedo. — disse Ana, enquanto caminhava em direção ao quarto. Fiz o mesmo, seguida de Nathália. A cama disponível era grande o suficiente para três magrelas, então nos aconchegamos.
— Dormir de conchinha com duas garotas não era uma de minhas vontades. — exclamei.
— Fique tranquila, será só por esta noite. — disse Nathália.
— Boa noite para vocês.
Encachei-me entre as duas. Demorou um bocado de tempo para pegar no sono, afinal nunca havia dormido com os braços sobre a cintura de uma mulher e tampouco com a respiração quente batendo-me na nuca, de outra. Mas enfim dormi.
Por alguns instantes nada parecia-me real. As cenas que se passavam a frente de meus olhos e outras que vivenciei, não passavam de meros capítulos de uma novela horrível. Falas elaboradas, abraços já previstos, camas propositalmente ocupadas e uma Elisa sentindo-se mais Beth do que qualquer outra vez na vida.