As Ondas
Ela tem uma pinta no quadril. Nas costas, logo acima da bunda.
É o primeiro momento que eu paro pra pensar em tudo. Não tinha compreendido muito bem até agora como havíamos chegado a essa situação. Eu aqui, acordado como sempre, observando seu sono profundo, contando pintas em seu corpo nu. É interessante notar, agora que a pulsão sexual não me domina, o quão esteticamente perfeito é o seu corpo. Não é malhado, nada do tipo. Não tem qualquer músculo evidente. São apenas linhas sinuosas. Morros. Mar de morros. Minas Gerais. Ondas. Nada fora de lugar, como se tivesse sido retrabalhado à exaustão, até que fosse a mímese do movimento milenar da terra ao modelar os extensos planaltos de Minas. O que faria perfeito sentido, se ela não fosse japonesa. Essa cor também, transborda. Não é um bronzeado. É terroso, um terroso de índio. Vivo, pulsante, respirante, mas no momento bem devagar. Uma genética inusitada que saiu tão “certo” que parece negar a possibilidade de qualquer outro resultado. É engraçado o quanto um privilégio social tão notável quanto a beleza (ou ao menos como nossa cultura a concebe) pode se produzir assim, de maneira tão aleatória que culmina num ponto tão preciso. Não vou me perguntar por que comigo. Por que na minha cama. Deixarei a vontade e as decisões dela, plenas e conscientes, de fora.
Em vez disso quero me concentrar em uma outra questão. Já faz um ano que eu conversei com ela detidamente pela primeira vez. E o que você pensa em fazer? Não sei. Está gostando do curso? Não muito. Já tentou alguma outra coisa? Sim, mais de uma. E por que continuar aqui? Ainda não sei se vou continuar (a resposta mais longa, talvez). Então eu não te vejo depois das férias? (Não, essa pergunta eu nunca fiz). Mas ela voltou. Ainda estava lá, quietinha do canto dela, levemente destoada, raramente ouvida, constantemente observada, desejada (disso tenho certeza: a beleza, o privilégio - a combinação aleatória e tão precisa de fatores: irreproduzível). Sim. Algo estava fora de lugar, continua fora de lugar. É estranho imaginar alguma coisa fora de lugar nos cabelos milimetricamente lisos, um único traço descendente de um pincel mergulhado em nanquim. Ah, a coesão tão correta e imediatamente cognoscível da lógica formal nunca atingirá a profundidade estética da dialética, aquilo que o aufhebung traduz e concilia. Uma amiga muito próxima diria: é claro que haveria de ter um defeito. Mas ela não vê o que eu vejo agora. Nem seu olhar a recordaria do toque da pele morna a se tornar cada vez mais quente e úmida, temperada com suspiros, espasmos e gemidos. Não. Existe extremo sentido em todo o seu ser, assim como todo o ser, ao observarmos bem de perto. Talvez seja necessário partilhar a cama por uma tarde. Talvez isso não seja suficiente, ou talvez mais do que seria suficiente. Não há como saber: sabe-se apenas que esse conhecimento é empírico e não possui qualquer método definido.
A terra se move, morros viram ondas quebrando na praia. Quebrando o silêncio. Quase não tem pelos na vagina. Os olhos escuros me encaram. Mas fazem só isso. Ela não perfura nem sorri com o olhar. Sua complexidade está em outra coisa, que eu pensei ter entendido durante esses minutos. Mas não há nada. Julguei que fosse juntar suas roupas e se despedir com um beijo, e depois para nunca mais. Daquela contradição que citei, essa intensidade volátil seria uma consequência bastante possível. Mas sou tolo, por que me esqueço que só a contingência impera sobre o desconhecido momento futuro. E então ela me puxa de volta e vem por cima de mim, ardente, e as ondas cálidas de seu movimento banham todo o meu corpo. O gozo é a morte de todo o extremo sentido.









