Um futuro, um detalhe, entre outros muitos futuros
Das minhas fantasias a respeito do meu futuro, uma delas acaba sendo muito marcante, muito recorrente. O primeiro detalhe é que eu sempre sinto (ou imagino sentir) meu espírito leve. Eu me imagino feliz, ou pelo menos satisfeito com boa parte das coisas que a vida me trouxe (aqui está, muito claramente, a primeira armadilha). É sempre de manhã, e só eu estou acordado. Sei que tenho uma esposa e duas filhas, mas ela nunca aparecem. Participam, compõem parte da pedra fundamental que sustém essa cena, mas não a protagonizam. Ela tem muito mais a dizer sobre meu foro íntimo. Existe uma sala de estar, nenhum dos móveis é particularmente claro ou importante, e existe uma janela. Esta janela está aberta, o sol está nascendo, ou pelo menos muito baixo no céu. Mas não é brilhante, forte, pujante, e sim tímido. Divide seu domínio com nuvens cuidadosamente dispostas a atmosfera de um dia relativamente apagado, como um tom de cinza bastante, mas bastante leve. O segundo fato incoerente é o fato de ser muito cedo, uma vez que, salvo exceções raras, eu não acordo cedo naturalmente. Mas esse não é um detalhe muito importante. O que me intriga é que essa imagem ressoa de maneira muito forte uma vida familiar. Coisa para qual eu não me sinto nem um pouco seguro, capaz ou até mesmo ansioso para ter. No entanto, ao que parece, parte de mim a aprecia, a deseja, e se completa com ela. Pouco, ou mesmo nada, ela diz sobre minha vida profissional ou artística, os dois aspectos que sempre me pareceram ser os meus maiores pilares de apoio. Talvez haja um terceiro pilar, e ele se torne tão importante, ou até mais importante, do que os outros dois. Eu, para quem a solidão sempre foi tema até mesmo obcecado, posso encontrar sentido e paz numa vida compartilhada com três mulheres singularíssimamente (é neologismo mesmo e eu não dou a mínima) especiais.
Porém, ela também reflete um viés egoísta. As três dormem. Não participam da cena. Apesar do que já foi dito, não deixa de me perpassar a ideia de uma presença um tanto quanto acessória, o que me incomoda profundamente. A cena poderia ser um jantar, ou almoço de domingo. Mas só eu estou lá. Sei que elas também estão, vivas e bem, tudo está bem. Mas elas não aparecem. Anteontem, dia 27 de dezembro, foi a primeira vez que eu comecei a pensar criticamente sobre isso. Um passeio de família na praia. Observando algumas pessoas, especialmente crianças, comecei a imaginar que seria uma experiência interessante para uma criança crescer na praia. Por algum motivo, fiquei entre dois extremos, por que o outro também me veio com rapidez: uma praia, ou uma cidade enorme como a composição urbana que forma a Hillwood de Hey Arnold!. A vida da criança em um desses microcosmos me pareceu uma base bem sólida para a construção dela como pessoa. Não sei se existe uma razão em particular que eu pudesse explicar rapidamente. Imediatamente isso me levou a pensar às minhas duas filhas, fictícias, aguardando nas coxias de algum lugar no futuro. Quando muitas vezes pensei anteriormente sobre onde eu moraria no futuro, percebi que nunca havia levado elas ou a minha esposa em consideração. Novamente, isso tem uma razão simples: eu nunca havia pensado muito detidamente no terceiro pilar. Talvez seja a época. Talvez seja a casa cheia de gente, os grandes almoços, a fartura da mesa, a volta de uma esperança em uma vida familiar que me faça pensar nesses temas. É uma conclusão lógica a se chegar.
Por último, a esposa. A figura mais nebulosa, mais cambiante, mais improvável, de certa forma. Por algum motivo, existe uma pessoa que normalmente preenche esse lugar, em quem eu frequentemente penso como esposa, mas que no momento não tenho qualquer vínculo romântico, e raramente penso nela. Uma certa garota que anda por aí sempre segurando um livro, junto do peito, como se quisesse protegê-lo com a própria vida (o que não me impressionaria se fosse literalmente verdade). Ontem minha ex-namorada (que de certa forma conseguiu arruinar toda a minha vida amorosa posterior, não que isso seja necessariamente ruim, mas é um fato) me ajudou a clarear um pouco a esse respeito. Alguém apaixonada, obcecada por alguma coisa. E esse algo se perceberá na maneira de agir, de falar, de expressar a paixão, sem precisar dizê-la com todas as palavras: eu amo isso, eu não vivo sem aquilo. Por que será óbvio. É assim que será, é assim que eu espero que seja. Como sempre, especulações em relação à minha vida amorosa nunca faltam nesses textos (salvo raras exceções, talvez). Pensar em tudo isso pode muito bem ser um alerta para uma mentalidade menos egoísta. Ser protagonista na minha vida, mas também ser coadjuvante na de outrem, sem perder o valor da minha própria. Algo que deveria ser óbvio? É possível. Nem sempre o óbvio é óbvio pra mim. Sobre essa pessoa tão indefinida que é aquela com a qual eu vou passar uma parte bem extensa da vida (sem entrar, por enquanto, em algum território para além da monogamia), acho que posso tratar (não, com certeza tratarei) em outros momentos. Preciso ir, para a casa de minha tia. Mais um almoço em família, esse conceito recorrentemente tão distante de mim e das minhas preocupações.
Por ora, uma agradecimento a uma amiga, bastante recente, que incitou algumas dessas reflexões, que eu procurei expandir, monologamente (mais neologismos, quando a língua parece insuficiente), aqui.