Gostaria de poder te dizer que está tudo bem. Gostaria de poder tedizer que a despedida foi leve e que não levei teu cheiro comigo pra casa e que não deixei metade de mim com você. Eu queria, não, eu daria tudo pra poder dizer que depois de ir, estava tudo bem por você não ficar. Mas eu tive que vir aqui depois de passar as últimas horas em silêncio, sentindo o peso da vida que morreu, de certa forma, depois que você beijou as minhas mãos e resolveu ir. Talvez nem tenha sido hoje, talvez tenha acontecido já há milhares de anos, eu não sei. Não, eu não sei.
Gostaria de não precisar te dizer que sentei na varanda e chorei baixinho. Não senti necessidade de esconder o rosto nas mãos porque, secretamente, esperei que num milagre completamente equivocado você aparecesse dizendo que preferia ficar, que a sua casa era aqui, e eu te olhasse subindo lá do finzinho da rua pra chegar em mim. Talvez eu tenha perdido tempo demais delirando, porque eu não percebi quando anoiteceu. Todas as luzes estavam apagadas e eu me levantei. Gostaria de poder dizer as acendi todas, mas abracei a solidão tão como o escuro que fazia dentro e fora de mim. Parecia condizente, eu não sei. Não, eu não sei.
Então vir até aqui me pareceu a resposta certa. E apesar de estar chovendo - dentro? fora? -, estou aqui e me sinto tão minúscula quanto um grão de areia. Existem tantas coisas que queria ter-lhe dito, mas a ansiosidade me consome e eu me atropelo. Gostaria de não precisar te dizer que desde agora já me desespera a tua ausência por depois e tenho medo do que vai acontecer amanhã. Nas últimas horas acho que alguma coisa aconteceu comigo, não sei muito bem. O que eu gostaria de te dizer de verdade mesmo é que te amo. E que por tudo na vida desejaria que você tivesse ficado e que quando você não olhou pra trás eu não tivesse me quebrado em mil pedaços. Mesmo assim não gritei, só observei enquanto você ia, ia, ia...
O tempo, eu acho que ele me engoliu. Vou sentir sua falta mais do que me seria saudável, muito provavelmente.