Entre Facebook posts e hashtags que os deixarão para sempre disponíveis na rede, a comunicação visual das autárquicas de 2017 merece uma atenção redobrada do ponto de vista do design.
Será por via da estratégia utilizada - ou falta dela, será pelos incongruentes pleonasmos que formulam promessas em cartazes espalhados pelas freguesias e municípios ou do humorismo enfezado que as anima, mas as estratégias perenemente utilizadas pelos partidos políticos tendem muitas vezes a cair no ridículo, pela forma, tantas vezes pouco clara, como expõem a sua mensagem.
E, se a mensagem é normalmente comunicada através da imagem do rosto dos representantes políticos, para que de alguma forma se fomente a ilusão de proximidade entre representante-representado, esta estratégia acaba por se tornar obsoleta e repetitiva a partir do momento em que todos os candidatos se socorrem da mesma técnica. New campaign, who dis?
De forma contrastante, as freguesias de Lisboa e Águeda, sob a alçada do PS e CDS-PP respectivamente, apresentam uma estratégia interessante que vem combater esta norma de forma inteligente.
Em Lisboa o PS escolhe apresentar uma figura pública ao lado de uma figura desconhecida e popular, o que permite contextualizar a mensagem e de certa forma renovar o que normalmente seria o tradicional cartaz político, através de uma concretização entre mensagem e suporte visual, criando algo comum/uma ponte entre eleitor e candidato.
O CDS-PP optou por fazer de populares desconhecidos o rosto da sua campanha, mencionando sempre o nome da candidata ao partido. Salomé passa a ser cada um dos representados e vice-versa. Simplista mas funcional, esta comunicação encontra, da mesma maneira daquela do PS de Lisboa, uma concretização de suporte efectiva entre imagem e texto, sem necessidade de recorrer à cara do seu representante. Esta estratégia é tanto mais efectiva quanto provoca curiosidade no eleitor, causando a dúvida e uma observação mais atenta - Eu sou o Victor, mas podes chamar-me Salomé.
Adicionalmente, no Porto, a comunicação do PS apoia-se no conhecimento popular, de forma mais subtil, criando uma proximidade com o público não tanto através do rosto do candidato - que desta vez esta presente de forma bastante central - mas pela partilha de uma referência comum, ainda recente na memória das pessoas. A menção, quase indelével, à canção que levou Portugal à vitória no Festival da Eurovisão contrói a proximidade que tantas vezes se tenta atingir com este tipo de campanhas.
Dentro dos próprios partidos nota-se uma falta de homogeneidade a nível da estratégia utilizada, especialmente do litoral para o interior do país, onde se nota uma clara despreocupação com a forma e conteúdo do que se transmite. Não descurando a relação entre as diferentes formas de comunicação e os distintos públicos-alvos das diferentes freguesias, mas também a disponibilidade existente dentro dos próprios partidos para recorrer a estratégias mais elaboradas e orientadas. A freguesia de Penedono ilustra esta sensação de distanciamento de tipos de comunicação, optando por uma rima propagandista ritmada e mais popular - Com Sónia Numão Penedono vai ter Gestão.
Nenhuma das campanhas analisadas utiliza as práticas do design de modo a mais activamente criar alguma instabilidade, como o faz por exemplo a publicação Piseagrama, que usa as capacidades do design enquanto elemento disruptivo, capaz de prender a atenção e questionar paradigmas.
“(...) critical practice is about using what we know, what we have, our skills, our work, to raise, explore and make public a critique (...)”. (1)
Aqui, o design incorpora um carácter crítico e capaz de influenciar comportamentos e na cena política existe definitivamente oportunidade para que sejam utilizadas as capacidades do designer para tornar a crítica pública, ao serviço de todos os que dela podem beneficiar.
1. Mazé, R. (2009). Critical of What. In M. Ericson, M. Frostner, Z. Kyes, S. Teleman & J. Williamsson (Eds.), Iaspis Forum on Design and Critical Practice – The reader (pp. 385). Berlin: Sternberg Press, Iaspis.