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Day 1018
promise of eternal life
DO JT
https://youtu.be/DR8fHT31aPA?si=sC5I3bmfPaAcAvXV
HELL yeah
Pudding, like a call. (w — Cath.
𝓐𝓷𝓷𝓮 𝓒𝓪𝓽𝓱𝓮𝓻𝓲𝓷𝓮
Era como se tivesse uma mosca zunindo incessante em sua cabeça, entretanto, no momento, era apenas a consequência de ter batido forte demais a cabeça contra um dos carrinhos hospitalares, provavelmente. Sentia junto a isso, o líquido quente correndo pelo rosto, mas não processou necessariamente o que aquilo significava e ainda tentava entender agora que não podia se mover mais.
Catherine gostava que não era mais presa a cama quando aquelas crises aconteciam, até porque não podia controlar. Já fazia anos demais desde a primeira e assistiu qualquer face familiar ir sumindo aos poucos de suas visitas, primeiro pela tristeza de vê-la vazia daquela forma e então pelo desespero em ver que não havia progresso nenhum ao quadro. A morena realmente não fazia ideia do que havia acontecido nos anos anteriores a sua perca de memória e por mais doloroso que fosse, acabou sendo a primeira a sugerir que fosse internada, não por não se lembrar, mas pela dor que tentar fazê-lo causava, por conta disso, é claro, em sua última crise meses atrás, sua mãe avisou — depois de outros familiares avisarem também —, que não iria mais visitá-la caso algo assim acontecesse, e seu primo tinha deixado um outro contato de emergência em seu lugar. Era infeliz que sempre acontecesse, todos vinham com tanta esperança, porque as crises podiam sempre significar a volta da memória, mas ver o brilho no olhar de todos se esvair ao perceberem que ela não se lembrava, também era doloroso, por isso não culpou ninguém diante a notícia.
As convulsões iniciais foram de longe as piores, principalmente quando não tinha ninguém ao redor, porque aparentemente, sempre tinha vivido sozinha e nunca tinha companhia, então veio o sentimento de vazio e os questionamentos do que teria acontecido para não ter mais que uma enfermeira que parecesse se importar tanto. Em algum momento, Liverpool tão pequena, começou a parecer grande demais para ela, e preferiu, mesmo que ninguém concordasse com sua decisão, se internar.
Ao menos ali dentro, tinha certa companhia, e as crises diminuíram de intensidade consideravelmente. Os médicos sempre foram gentis, até porque a quantia paga era bem gorda e mesmo sem trabalhar ainda recebia por suas peças. Tinha tido o desprazer antes de entrar ali, de ver as notícias sobre o próprio acidente, aquelas que diziam que era uma pena uma estilista tão nova e grande não poder mais trabalhar, até porque não se lembrava disso, desse sonho de modelar e criar, parecia tudo muito vazio e se absteve ao máximo uma vez dentro do quarto de paredes brancas. Não era tão vazio quanto poderia parecer, haviam plantas espalhadas pelos móveis, a cama ao meio como de praxe para uma clínica, das poltronas que a cercavam, uma estava apontada para a janela e tinha uma manta rosa sobre, que adorava usar para quando observava o lado de fora, claro que sempre era aconselhada a não fazer demais, por algum problema com a luz que não entendia como havia se originado, mas sempre que isso acontecia, sua enfermeira mais próxima ficava por horas falando da vida.
Ouvir sobre uma vida normal dava até uma certa esperança de que algum dia fosse novamente conquistar aquilo, talvez esse fosse o erro, ouvir demais as histórias que Charlotte contava e sempre tentar imaginar como era antes e como gostaria de ser, era sempre isso que acabava levando a uma crise, essa entretanto estava sendo bem pior.
Não viu de onde saiu ou para onde foi enquanto andava, as imagens não paravam de se repetir e aparecer, tal qual um projetor passa um slide: uma moto, um homem, uma tatuagem, sua mãe, um sorvete, sapatos, um rio, uma estrada, era normal que acontecesse por alguns segundos, mas tentou fazer de tudo para parar e não conseguia, a visão foi tapada pelas imagens, até porque sem perceber fechou os olhos enquanto andava, pediria por ajuda? Mas como? Em um momento, estava andando por corredores conhecidos e no outro não sabia exatamente onde estava. 22:35 A destra bateu forte em punho na cabeça, o cotovelo bateu numa superfície ao mesmo tempo em que viu uma arma apontada para si. Gritou, gritou como não gritava há mais de ano talvez, gritou porque como havia uma arma? Não entendia como esse tipo de sonho tinha entrado ali, só poderia ser isso, sonho, e de repente sentia que respirar era difícil, uma moto, um homem, uma tatuagem, sua mãe, um sorvete, sapatos, um rio, uma estrada, uma arma, sangue.
Sangue?
— Não! — Se sentiu ser segurada, mas não sabia por quem ou pelo que, então gritou, gritou mais alto que antes, dessa vez com os olhos marejados e abertos, porém desfocados. — NÃO, SOLTA, ME SOLTA, EU PRECISO IR.
O enfermeiro até tentou trazê-la de volta, chamar pelo nome, o que na maioria das vezes funcionava, mas a mesma mão que batia em si, passou a bater em quem estivesse em volta, queria fugir, não sabia mais o que estava acontecendo, só tinha que sair dali, ir pra longe, se livrar daquela sensação horrível de não poder respirar ou andar ou se mover. Não ouviu barulho externo algum quando conseguiu correr, ou entendeu quando o corpo se chocou contra uma maca no caminho, tombando o que tinha por ali até bater a cabeça no carrinho metálico.
Só então os médicos e enfermeiros conseguiram contê-la o suficiente para dar a dose calmante. Sentiu o corpo ficar mole de forma instantânea, mesmo que ainda tentasse se debater, desprender e fugir, os olhos estavam molhados e quando os fechou, sentiu as lágrimas presas ali correrem livres pelo rosto machucado, nem sentiu que a queda havia causado alguns cortes e alguns roxos pelo corpo, mas aquele zunido infernal foi ficando maior e maior até que não existisse mais nada.
𝐃𝐞𝐫𝐞𝐤 𝐒𝐭𝐲𝐦𝐞𝐬𝐭;
"É a última, patrão."
— Leva pro depósito e aí podem ir. — Disse ao rapaz que carregava mais uma das caixas, três dos outros estavam descendo a ladeira que levava ao subsolo. A noite estava fria, Liverpool estava castigando nos últimos dias daquela semana e o homem não parecia achar aquilo nenhum pouco ruim.
Caminhou até a mureta que cercava todo o galpão, se sentando nesta ainda que as pernas se cruzavam, Stymest estava exausto e a quem diria que a sensação era falta de uma boa noite de sono, mas ele dormia, comia, andava, transava, cheirava, roubava, viajava... Derek estava se consumindo dia após dia. Levando-se à exaustão antes de cair na cama e por sua vez ter boas e longas horas de sono. Não bastava, nada bastava.
A voz doce de Kalel saiu alta em meio ao terreno quase vazio, a respiração fazia com que uma cortina de fumaça pelo calor do corpo se formasse em frente aos lábios, Derek estava vestido em seu mais confortável estilo, a jaqueta surrada de couro era a mais quente devido ao grosso forro de moletom que também era o capuz sobre a cabeça, o rosto se quer aparecia enquanto de cabeça baixa ele assistia o vídeo. A criança sorria e o irmão mais velho tentava o ensinar a chamar papai.... O vídeo acabava com o choro estridente do bebê que perdeu a vontade de aturar o irmão.
Irmão.
Timothée agora era apenas uma memória, como tudo que ele vivenciou nos últimos anos, os dedos passaram pela tela e apagaram mais um vídeo... Você não sente o que não existe, e ele queria destruir todas as memórias que pudesse no mínimo lhe causar um pequeno sinal de que foi real, de que aconteceu. E ali estava a última mídia, a foto da mulher loira com o bebê em seu colo, o sorriso grandioso para a câmera como se ela soubesse que em algum momento em sua vida ele estaria parado embaixo da garoa fina encarando tudo o que ela representava em uma tela e a olhando nos olhos. "Por que fez isso comigo?", vinha perguntando isso constantemente nos últimos dias, era uma sensação de mágoa tão avassaladora que não tinha explicação. Algumas pessoas costumavam dizer que nos damos razões para justificar nossos erros, ele sentia como se fosse se arrepender de suas atitudes e de suas escolhas, principalmente depois de semanas que o pequeno já havia sido levado... Derek esqueria? Realmente esqueceria? Seus olhos se encheram de água e o hooligan levou o dedo até a lixeira do aparelho, vendo a destruição de mais um registro. " Estamos indo, chefe. " A voz lhe atraiu a atenção, levantou o olhar e respirou fundo. Derek não tinha tempo para essa merda, não tinha tempo para tristeza. — Obrigado, repasse o valor dos garotos. Se cuidem no caminho. — Não era como se o hooligan se importasse realmente, apenas não queria receber uma ligação que o tirasse de suas obrigações por erro dos outros. Ligação, como um gatilho de narrativa o celular vibrou em sua mão, em um jumpscare a ex e o filho que não mais tinha apareceram numa falha da tela antes de realmente mostrar o número do hospital psiquiátrico. — Stymest falando. — atendeu, e antes não tivesse o feito. Veja bem, Anne Catherine era parte de sua jornada, uma dessas que o homem amava tanto que chegava a se tornar parte de quem se era, mas uma dessas dolorosas demais. Derek apenas ouvia todo o relatório, o surto, o caminhar pelos corredores, os gritos, a vontade de ir embora, a mudança de contato principal e o dopar. Ela estava machucada, controlada e estável... Mas machucada, eles precisavam de uma assinatura se comprometendo estar ciente dos cuidados, tanto o desandar emocional quanto as marcas causadas em sua contenção. Derek precisava ir até o Hospital, precisava ver Catherine. Desligou a ligação e encarou a foto saindo do gerenciador de arquivos, aquilo seria uma coragem para outro momento, agora precisava entrar em seu Impala e seguir o chamado. Um problema a mais. Uma preocupação extra. Mais um erro dele. Sua culpa, sua responsabilidade. O cheiro daquele lugar horrível, uma mescla de dipirona, sangue e pinho sol. Talves fosse apenas por sua cabeça, luxuoso, a recepcionista jm doce, o enfermeiro extremamente educado. Qualquer um daria qualquer coisa para garantir que Stymest estava satisfeito com o serviço prestado para a mulher. O funcionário se despediu enquanto ele entrou no quarto e a viu deitada em sua cama. Parecia apenas uma boneca, ele não a via a anos.... E de repente se deu conta de quantas vezes perguntou e foi atrás para ouvir sempre as mesmas coisas. Derek era problema e ela estava em um quadro delicado, depois de muito tentar e insistir, apenas desistiu e agora a vida jogava em seu colo como se o lembrasse que não há fugas. — Eu acho que eu queria um pudim agora. — Ele sorriu numa fala que Anne deveria reconhecer, mas não iria... Ela talvez sequer poderia ouvir e se pudesse, talvez nunca saberia. — Cath?
𝓐𝓷𝓷𝓮 𝓒𝓪𝓽𝓱𝓮𝓻𝓲𝓷𝓮.
Acordar foi um baque muito maior do que a lentidão de ir dormir. Porque acordar veio também com o reconhecer de que havia tido uma péssima crise, o reconhecer de que sequer sabia se alguém realmente viria visitar e principalmente a percepção de que ainda sim, não se lembrava de nada, mesmo tentando muito.
Mas foi quando tentou se mover na cama que percebeu que não podia, estava muito fraca, estranhou, nunca tinha ficado assim após ser dopada, mas também nunca tinha tido uma crise do tipo que tivera, e fazia sentido que talvez a dose fosse maior, se perguntou o motivo então dos pensamentos estarem tão claros em sua mente, mesmo que sequer pudesse fazer o corpo suspirar, e então ouviu o nome ser chamado. Não se lembrava da voz e certamente não era chamada assim no hospital, e mesmo que quisesse responder, não conseguiu, então só esperou que talvez a pessoa fosse embora depois de ver que estava quieta demais, dormindo?
Se perguntou se dormindo seria o adjetivo correto quando estava tão consciente, mas não focou demais nisso, só não queria decepcionar alguém uma vez mais com sua falta de progresso.
𝐃𝐞𝐫𝐞𝐤 𝐒𝐭𝐲𝐦𝐞𝐬𝐭;
Engraçado, ou talvez fosse um pouco trágico, mas o que a vida era senão uma sucessão de eventos traumáticos dos quais você precisa se manter em pé? Um pouco dramático também, se for falar sobre isso e toda a percepção deturpada do que era viver, sentir ou passar pela percepção do crimininoso, mas é o famoso “viver o que aprendeu a ser vida”, certo? Derek se sentia numa espécie de filme onde constantemente o acaso viesse com uma mudança no enredo para que ele caísse e claro que era ser um tanto egocêntrico achar que a vida gira ao redor do seu umbigo, mas se era a vida dele... não era para ser assim?
De todo modo, ele chamou e chamar pareceu não fazer nenhum efeito. — O que eu to fazendo? — Perguntou pra ela, porque ele sabia, já tivera ali antes e já tinha a visto algumas vezes antes de desistir e agora sentia uma espécie de culpa ou remorso pelas poucas vezes que tentou a trazer de volta e por todas aquelas que ele poderia ter estado e apenas não esteve lá. Ele nunca estava lá, pra ninguém. Derek deveria mesmo ter feito mais. — Tem hora que eu sinto como se fosse chegar e de repente você fosse abrir os olhos e me encarar e falar "Oi, Destinho, quanto tempo." — Ele riu, porque o riso em si fazia um alívio acontecer e ele precisava de algum. Estava cansado, e veja bem... Não era como se ele fosse uma muralha e ele sabia tanto disso mesmo que as pessoas insistissem em lhe dizer: Não tem que carregar tudo sozinho, estamos com você.
Ele sabia,
melhor que ninguém que não estava sozinho, os amigos, a família, as inúmeras pessoas que lhe aceitavam e suportavam fosse pelo sexo ou coisa parecida. Mas solidão nem sempre é sobre quantas pessoas estão lá, mas quantas pessoas você consegue partilhar como se sente e ele não conseguia partilhar... E não tinha nada a ver com todos ao seu redor, era ele consigo mesmo, tinha medo de partilhar e tinha tanto medo do próprio sentir que quando se deparava com motivos para tal, se assustava também. Ficou uns segundos olhando para ela, a mão tocando a alheia num gesto receoso, só um deslizar dos dedos pelas costas dos alheios. — Por favor. — Lhe escapou, num momento onde o fingir não bastava mais. Catherine era seu porto seguro, a primeira amizade que se lembrava, a primeira que nunca se afastou. E por céus, o quão egoísta era vê-la em uma cama de hospital psiquiátrico lutando com a própria mente e lembranças e ainda querer que ela estivesse ali pra si?
O mundo ao redor de seu umbigo, talvez ele fosse mesmo um puta dum babaca.... Certamente, ele era um.
— Não é justo. — Disse, e os olhos se encheram de lágrimas e ele sabia que dali para frente era uma luta agora perdida. Lutar contra o sentir não funciona quando a lágrima chega, e ele sabia disso porque sua força era limitada e mesmo que lutasse constantemente para isso em algum momento as coisas só aconteciam e vinham a tona e ele já tinha a vivido vezes demais para tentar agora. — É isso. Sempre vem alguém e promete que vai ficar, mas não vai, porque eu também não ficaria se eu pudesse. Eu também iria embora no final porque cada um já tem suas próprias coisas, problemas, vida... E tá tudo bem, mesmo. Nada na vida é eterno e tudo tem seus lados, seus motivos, cada qual faz o que deve fazer para se sentir bem e... Eu to realmente pronto para lidar com despedidas dessa vez, mas ela morreu. Ela escolheu estar bêbada num motor v8, em uma montanha durante a noite... ela era piloto, ela sabia o que estava fazendo e eu não consigo entender...eu não consigo entender como em algum momento ela apenas decidiu que tudo bem...
A pausa aconteceu porque ele estava em pé falando com uma pessoa desacordada, andou pelo quarto cru, tudo nele parecia extremamente vazio. Sem vida, ou personalidade, não havia o brilho, as cores, as flores, o rosa, não havia Catherine, mas ele a olhou deitada ali novamente ao que se encostou na parede, as mãos foram para dentro do bolso, o rosto pálido demais e o respirar profundo. — Ela decidiu, sabia? — Não, nem ele sabia, não tinha como.N ão estava naquela noite, mesmo que ao fechar os olhos ele conseguisse asssistir o capotar do carro, a destruição, o choro, o corpo... as luzes. — Talvez a gente pudesse consertar... Talvez as coisas voltassem ao normal, talvez as brigas parassem, talvez a mágoa fosse embora... talvez... parasse de ser como uma doença terminal destruindo a gente dia a dia... Talvez. — Doía... Porra, doía tanto que os olhos ardiam, a garganta travava como se o ar não fosse sair diante as suas palavras. Todas as extremidades passaram a ficar extremamente avermelhadas, a ponta do nariz e as faces, assim como o cenho. Ele sentiu o rosto magro se enrugando pouco a pouco e então tentou rir de novo num forçar tão característico. — Como ela achou que a morte era o único caminho, Cat?
E então ele deitou a cabeça para trás, usando a parede para amparar e o olhar para o teto numa tentativa vã de segurar as lágrimas. — Como eu vou fazer isso sozinho agora? — Não era só sobre os filhos, sobre como alguém veio e se colocou como mãe deles, como tinha que falar todos os dias que ela era uma estrelinha no céu olhando para eles, sendo que no fundo ele queria só fazê-los odiar ela por ter partido, por ter apenas escolhido ir embora só porque era mais fácil. Os faria odiar ela por todas as promessas, pelas dívidas, pelos momentos, pela alegria, pelas tristezas, pela cura, e pela dor. Ao mesmo tempo que ele sabia que se não fosse tão orgulhoso teria feito o mesmo porque por céus, todos os dias, quando não estava mais trabalhando ou lidando com alguém, quando se via sozinho, ouvia as músicas, via os filmes, quando ouvia uma piada, ou entendia um meme, quando comia e quando esquecia de comer, na ponte que levava para fora da cidade, ou nas águas esverdeadas que separavam o rio mersey do oceano. Tudo, absolutamente tudo o fazia lembrar de que ele era um lixo realmente quebrado e que alguém em algum momento lhe consertou. E o choro veio depois disso sem qualquer amarra, tão doloroso como queria que ele fosse, e ele finalmente deixou as lágrimas molharem, o nariz escorrer e a boca doer por comprimir os lábios, da garganta travada que a mão teve que alisar como se tirasse a mão que lhe apertava tão forte. Do libertar numa lamúria vergonhosa com uma dor que ele sequer sabia ser capaz de ter segurado.... Era horrível liberar.
— Kartenhaus, não é? — A pergunta soou numa voz escassa, baixa. Mesmo que Cath não ouvisse, mesmo que ninguém entenderia que era sobre uma música que quase ninguém conhecia que descreveria exatamente o que ele achava agora. Derek e a sua mania idiota de sempre ter uma música para dizer aquilo que não podia. Mas ele era um castelo de cartas, que Kylie fez questão de erguer uma por uma, para deixar cair e desmoronar. Sentia como se tivesse desmoronado, e sentia como se tudo o que viveu tivesse que ser apagado. E ele apagou, ele apagou as lembranças, destruiu registros, fotos, ele deixou a mãe dela levar seu filho. Ele fez absolutamente tudo o que podia para que ela não existisse mais porque não queria mais lidar com a sensação de que talvez... Talvez não fosse suportável, talvez se sentisse mesmo sozinho e vazio, talvez nunca mais fosse encontrar alguém que soubesse que ele era alérgico a barrinha de banana com chocolate, ou que ria com ele assistindo Hora do Pesadelo porque sempre se lembrava do medo que sentia quando era menor. Talvez ninguém soubesse que ele brigava em jogos do Liverpool e queria uma conduta impecável, talvez ninguém compartilhasse de suas leis ou lhe amasse com a adoração e devoção que ela e talvez... talvez ele nunca fosse amar alguém de volta daquela forma, porque talvez... Talvez ninguém ficasse até a morte.
Porque ela o fez, e
ele não a perdoaria
porque até nisso ela garantiu magoar. Ela não perderia ou deixaria de ser, ela não seria alguém que passou e foi embora. Porque ela gostava de encrenca e era para soar como se ela não pudesse ter ficado.
E ele a odiava por isso.
Os segundos foram passando enquanto ele retomava a si mesmo, a expressão dolorosa aos poucos foi suavizando para a plenitude característica e o choro cessou, o silêncio tomou o ambiente e ele ficou encarando Cath na cama como se ela tivesse algo pra dizer.
— Você diria... — Pensou alguns segundos e assentiu devagar. — Diria o que tenho que fazer, diria como tenho que sentir... Você pegaria minha mão e olharia nos meus olhos e diria: Escuta aqui, Edward. Você é trevoso demais e ela era uma louca. Eu disse que não gostava dela, eu falei pra você. — E então ele riu, levantando a mão para secar os olhos. Porque ela odiava quando ele fazia aquela vozinha, “minha voz não é assim, Ed”. — Sabe... Não importa quem você era, o que fazia... Importa que agora você é. Você está aí e é cômico se eu disser que eu posso montar minha própria equipe de desmemoriadas, sabia? — Brincou, e percebeu que mesmo que doesse era tão fácil não doer mais, porque foi pensando em sua sorte e nas pessoas ao seu redor que tudo suavizou. Como em Sofie, o sorriso veio tão natural quanto antes, e Oak que além de tudo tinha simplesmente lidado com isso e recuperado pouco a pouco cada uma de suas lembranças de repente Derek sentia romper dentro de si tantas coisas que queria dizer pra ela, tantas coisas que queria que ela soubesse. Como Londres parecia bem perto e ele sequer corria tanto agora. Pessoas que conheceu, momentos que teve, a volta de Will, ou seus melhores amigos... Por céus.
— Até quando vai ficar se escondendo em não saber e deixando de recomeçar, Anne? — Ela odiava aquele nome, mas ele estava bravo... Ele estava tão bravo. Com Owen, Com Mad, com Raven, com Tyler, com Scar, com Louis, com Hannah, com Danka, Nat e Eleanor... Ele estava tão bravo porque todos viveram, e seguiram, enquanto ele estava parado na mesma porra de lugar, estava bravo porque ela também estava parada... E ele não podia simplesmente tentar ir em frente, se ela não desse a porra da mão porque Derek era assim, porque Derek não iria embora se ela não pudesse ir também, ele não a deixaria ali. Ouviu as batidas na porta e a médica entrou com um sorriso cansado.
"Vamos lá? Os papéis estão prontos.", ela disse e o hooligan desencostou da parede, foi até ela e se abaixou deixando um beijo demorado em sua testa. Era o gesto de carinho que ele mais gostava e por sua vez, era algo rotineiro. — A gente se vê, Bella. — Sussurrou e então assentiu para a Doutora que saiu na frente, e ele a olhou antes de ir um pouco atrás.
𝓐𝓷𝓷𝓮 𝓒𝓪𝓽𝓱𝓮𝓻𝓲𝓷𝓮.
Escutar os outros nunca tinha sido um problema para a morena, muito pelo contrário, gostava de ouvir as coisas por não se lembrar de muito. Era irônico até, porque guardava as histórias de outros com muito amor em sua cabeça mas não conseguia se lembrar do que precisava ou do que queria. Tal qual era a voz que falava ali tão perto de si.
Apesar de saber que estava perto por estar no quarto, também sentia que estava distante, não sentado ali como as vezes encontrava alguma enfermeira ou até mesmo um doutor, mas sim em algum lugar do quarto em que era possível ouvir e não tocar. Não que pudesse o fazer, não conseguia se mover e por mais que o pânico de sentir o corpo todo pesado estivesse ali, tentou se acalmar para ouvir.
Talvez não fosse sábio, sentia que estava invadindo um momento muito pessoal, mas não conseguia de fato entender de quem era aquela voz até ele dizer tão claro e triste o apelido. Se lembrava de Derek, claro que lembrava, se sentia extremamente segura nos meses em que conversaram, sabia que ele era importante desde a primeira vez que mirou os azuis depois de acordar anos atrás. Se aproximar era difícil, não sabia bem como fazer sem deixa-lo desconfortável por não entender nem metade das coisas que poderiam conversar ou conversavam, mas estava ali a segurança de sempre. Quase que como voltar para casa depois de um longo tempo, se acalmou de vez, o ouvindo.
O coração se quebrou na mesma velocidade em que havia respirado, queria se levantar, abraçar mesmo sem entender, gostaria de dizer que tudo bem estar uma merda e não entender as coisas, não entendeu exatamente o porquê, mas ouvir o chorar tão claro fez o coração doer muito mais do que esperava, afinal ele era quase um desconhecido. As palavras dele se misturavam com os pensamentos dela, que foram sendo engolidos pelo choro tão sufocado, tentou novamente se mover e expressar que poderia estar ali se ele aceitasse a versão errada, porque era assim que se sentia. Poderia estar ali e ele não estaria sozinho.
Haviam muitas dúvidas conforme ele falava. Kartenhaus? Edward? Por que incomodava tanto ser chamada assim por ele? Mas principalmente, o que era essa sensação tão estranha de saber que isso não era tudo? Saber que tinha muito mais, que todas as palavras eram apenas a superfície de algo muito maior? Por que sentiu internamente o corpo tremer depois de receber um carinho tão singelo e um apelido duvidoso?
Quando percebeu que ele não estava mais ali, ouviu o clique da porta e sentiu uma vez mais o vazio que a cercava, Marrie se esforçou como não lembrava de já ter feito, queria se mover e responder, alcançar, tentar pela primeira vez em muito tempo.
Foi assim que caiu da cama. No impacto de sua queda, foi como se o corpo ligasse novamente. Abriu os olhos e sentiu o quão molhados estavam, queria chorar, mas não ia, porque não era sobre ela, o momento, claro que não. Usou toda a força de vontade que tinha em si, e não deixou as imagens interromperem, pela primeira vez, seus pensamentos.
Uma moto, um homem, uma tatuagem.
As mãos juntas aos joelhos impulsionaram o corpo, arrastando-se até a porta, não sabia quanto tempo havia passado, mas esperava que não o suficiente para ele sair quando conseguiu alcançar a maçaneta, a dor na cabeça se intensificou e manchou a visão.
Um sorvete, sapatos, um rio, uma estrada.
Não.
Não.
Se escorou na porta e no que podia para se manter em pé, não era tarefa fácil, que porra de remédio foi esse? Inferno. Conseguiu passar por dois quartos antes de ser apoiada por alguém. Os verdes estavam muito atentos ao redor e suspirou de alívio uma vez que teve apoio. — Anne, o que está fazendo fora do quarto? — a voz do enfermeiro era claramente horrorizada, mas não se importou, muito pelo contrário. — Consegue falar?
— Derek, Derek ainda... está aqui? — Era um pouco enrolada nas palavras, ainda estava um pouco zonza pelo sedativo, mas precisava saber e sequer sentiu os pés moverem para acompanhar o homem. Provavelmente porque não estavam encostando muito no chão. — Não, por favor, só me diz.
As palavras em resposta ficaram confusas de entender, cansada demais de todo esforço que fez, e até fechou os olhos em derrota, isso é, até se sentir parar e não ser deitada na cama. Juntou as sobrancelhas e tentou ver, a respiração presa na garganta quando avistou o pássaro no pescoço, queria muito chorar e nem sabia o motivo. Não esperou que qualquer um tivesse reação também, mas juntou a força suficiente pra falar de forma alta e mais clara, como a mãe havia ensinado pela parte da vida que se lembrava.
— Eu posso não lembrar, e não sou a mesma. — Se algum dia alguém perguntasse de onde veio tanto impulso, ela não saberia dizer. Mas cedeu, porque sentiu que seria certo. — Mas eu faço pudim pra você, Ed.
𝐃𝐞𝐫𝐞𝐤 𝐒𝐭𝐲𝐦𝐞𝐬𝐭;
A mulher continhava falando um monte de coisas que ele não queria saber, uma enfermeira lhe ofereceu um lenço e ele agradeceu passando em seu rosto enquanto o limpava para só então limpar o nariz. Tudo ardia, e sentia que a qualquer momento ele iria mesmo querer dormir. — Tudo bem, você sabe dizer por que me ligaram? — A pergunta soou genuína, não estava reclamando, havia sido tão valioso para ele aquele momento quanto poderia imaginar. Ainda assim, a ouvir dizer que a família de Catherine parecia não responder mais as solicitações era realmente preocupante. Não pela família, ele os conhecia bem para saber que nunca se importaram com mais do que o dinheiro que ela podia dar a eles, mas ainda assim concordou. A caneta foi dada, mas ele preferiu ler todas as coisas que sequer entendia, nome de medicações e uma explicação técnica demais do que a tinha acontecido. Em algum momento o aparelho de celular foi tirado do bolso para pesquisar uma palavra ou outra apenas para ter certeza do que estaria compactuando ela ter sido tratada e por fim, depois de longos minutos e expressões irritadas com a espera que ele assinou o documento. Foi nesse momento, em tamanha concentração que ele ouviu a surpresa e as pessoas ao redor naquela recepção se movendo e ele demorou alguns segundos para entender o porquê. O olhar foi para ela em seguida, os pés descalços e a roupa que definitivamente não era feita para estar fora da cama.Seu sorriso nasceu e ele ficou um tempo parado como se qualquer movimento fosse fazer ela cair. — Tudo bem. Tá tudo bem. — Comentou com a médica que estava dando a volta rapidamente para sair da recepção. — Ela tá bem. — Como se ele fosse a droga do especialista ali, ainda assim ele soltou tudo no balcão de mármore e foi até ela, abraçou sua cintura, enquanto pacientemente pegou em seus pulsos a fazendo abraçar acima de seu pescoço deu um sorriso largo e ele a olhou vários segundos. — Com muita calda. — Ressaltou, nem gostava, mas ela não precisava saber disso já que em anos de amizade ela achou que ele amava mesmo o doce e sempre fazia para ele quando ele estava triste. No momento, ele só queria de um motivo para a levar pra casa porque não tinha motivo para ela estar ali. O homem então abaixou para pegar ela em seu colo, um braço atrás das costas e o outro atrás dos joelhos ao tempo em que ele sorriu. Às vezes a vida tira uma coisa e lhe dá outra, não sabia ao certo. Há males que vem para o bem? Tinha um milhão de ditados para dar naquele momento que talvez se aplicasse a frase, mas no momento ele a levava de volta para seu quarto. — Quer ir pra casa? — Perguntou, porque ela estava mesmo acordada, e lhe devia um pudim. ( ,,, )
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in exactly a week i will meet up with @lunemarii @l-majuscule and @miashyu for the best 4 days ever. I am SO EXCITED







