Se você leu a coluna desta quinta-feira (02), vai ver que eu já contava com o cenário de terra arrasada no Botafogo após o jogo contra o Santos. Desacreditei da classificação e cravei o rebaixamento, faltando 13 rodadas pro fim do Brasileiro. Parecia premonição, mas é recorrência.
Na manhã desta sexta, o presidente Maurício Assumpção dispensou quatro atletas titulares: Émerson, Edílson, Júlio César e Bolívar. A entrevista coletiva do dirigente foi desastrosa. Ele afirmou que não se tratava de questões técnicas e nem de indisciplina. Então, porquê? Pense bem: Émerson já criticou a diretoria. Bolívar foi o líder do piquete de abril que ajudou a eliminar o clube da Libertadores. Embora não haja registros de cobranças públicas à diretoria feitas por Júlio e Edílson, imagina-se que elas ocorreram, pois se trata de atletas de personalidade forte.
Maurício limitou-se a dizer que o discurso extra-campo não condizia com o desempenho dentro das quatro linhas. Balela, tratando-se de trabalhadores que não recebem há meses! Está na cara que foi represália a atletas que o contestam. E que são importantes para o time. Edílson é o único lateral-direito e faz diferença. Tem muito mais recurso técnico que o improvisado Dankler. O mesmo se aplica a Júlio César em relação ao outro lateral-esquerdo, Júnior César. Bolívar é experiente e vice-capitão. Não se omite, traz consigo liderança nata para fazer os companheiros vibrarem e não tem substituto. E Émerson, apesar das polêmicas e expulsões, é uma das maiores reservas técnicas da equipe. Imprescindível num momento de quase queda.
E o presidente os mandou embora, sem justificativa convincente. Até aqui, eu tentei defendê-lo em alguns momentos. Com ele, o Botafogo voltou à Libertadores, disputou um título nacional, foi mais regular no Brasileiro e teve um boa sequência de decisões e títulos estaduais. Melhorou a base e investiu em patrimônio e esportes olímpicos.
Até no atraso de salários, proveniente de uma má gestão, dei um desconto. Afinal, tinha relação também com a perda do Engenhão e de maus resultados em campo. Nem tudo era culpa dele. Mas o planejamento para o ano mais importante do ano desde 1995 foi tétrico. Superdimensionou-se o tamanho das receitas do clube, que naufragou rápido na Libertadores, após 16 anos. Resultado: desmanche e mais salários atrasados - cenários que já dura cerca de dois anos.
As dispensas de hoje e a forma como foram conduzidas foram a gota d'água. Não há mais como defendê-lo. As atitudes neste ano foram desastrosas. E a única atitude diante do iminente rebaixamento foi política. Foi pensando nele, não no clube.
Se até Vagner Mancini colocou o cargo à disposição é porque ele discorda dos afastamentos e contava com os atletas. Escrevam: foi a pá de cal. Depois da reação que o Palmeiras esboçou ontem, o Botafogo tem tudo para não sair mais da zona de rebaixamento e cair de novo, após 12 anos. E os degraus que o clube subiu a duras penas vai ter que escalar de novo. Com mais sacrifício. Uma pena! Um clube da tradição do Alvinegro merecia mais. Inclusive da torcida, que se mobiliza pouco para apoiar o time nos momentos ruins. A média inferior a 10 mil torcedores por jogo no Maracanã é pífia.