Ainda não sei se quem escreve este texto é o jornalista ou o torcedor. Afinal (muitos de vocês sabem), fora do ar, sou botafoguense. No exercício da profissão separo uma coisa da outra. Mas hoje, para analisar o segundo rebaixamento do Botafogo. me permito misturar.
Foto: Michel Filho/Ag.O Globo
Porque este doeu mais. No primeiro, em 2002, o momento era péssimo há anos. Times medíocres, finanças descontroladas, emocional em frangalhos e falta de estrutura. Hora menos hora, cairia. E caiu.
Subiu NO CAMPO (detalhe importante) e começou um processo de reerguimento. Primeiro, com Bebeto de Freitas. Depois, com o primeiro mandato de Maurício Assumpção. Parte das dívidas foi saneada, o clube conquistou um estádio lucrativo, melhorou a estrutura da base e avançou tecnicamente. Virou referência administrativa no Rio.
Com eles, o Alvinegro voltou a decidir e a ganhar o Estadual (7 finais em 9 anos, com 3 títulos) e parou de ser eliminado pelo Americano. Foi mais longe na Copa do Brasil. E de 2007 para cá, brigou pelo título do Brasileiro em duas oportunidades e por vaga na Libertadores em várias outras. É pouco para um time grande, mas fazia parte de uma escalada progressiva. E a vaga na Libertadores 2014, com um bom time, um bom técnico, uma base funcionando e ídolos do quilate de Jefferson e Seedorf, mesmo sem o Engenhão, era o degrau que faltava.
Parecia o ápice. Até que o presidente Maurício Assumpção, em seu segundo mandato, estragou tudo. Errou no planejamento do seu ano mais importante. Fez um orçamento milionário considerando o time finalista da Libertadores. Gastou aos montes ao montar dois times. Contratou muitos atletas fracos, volantes em excesso e ninguém capaz de decidir jogos e substituir Seedorf. Efetivou o inexperiente técnico Eduardo Húngaro. O começo foi bom (4x0 no Dep.Quito e 2x0 no San Lorenzo, com Maracanã lotado). Depois, o time degringolou. Fraco e apático, perdeu em sequência. Foi 9º no Carioca e lanterna de sua chave na Libertadores.
Com isso, o orçamento não fechou e o Botafogo entrou em colapso. Que piorou quando o presidente omitiu receitas à Justiça, o que tirou o clube do Ato Trabalhista. Com 100% das receitas penhoras, se desfez dos jogadores mais importantes, não pagou em dia, não se reforçou e teve que sair do Rio. Para piorar, o irresponsável ex-presidente ainda demitiu 4 dos melhores atletas do elenco. Resultado: 22 derrotas em 37 jogos e rebaixamento na vice-lanterna.
O cenário de 2014 é o mesmo de 2002: time medíocre, finança descontrolada, emocional em frangalhos e falta de estrutura. A reestruturação parou. Retrocedeu. E outra, ainda mais forte, precisa começar já. Porque, embora Maurício tenha admitido a responsabilidade pela queda, não é ele quem jogará a Série B. É o Botafogo.
O Glorioso de Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Zagallo e cia. Clube que mais cedeu atletas à Seleção. Um dos 12 melhores times do século XX segundo a Fifa. Campeão de excursões pela Europa, tamanha a admiração do mundo pelo clube de General Severiano. Mas que hoje, por obra de um incompetente, é motivo de chacota.
Embora não seja o maior campeão ou o mais querido, o Botafogo é um gigante. Tem história de sobra. Precisa apenas de gente que saiba honrá-la e querer que o presente também faça parte dela. Quem sabe, um executivo? Alguém profissional, antenado às novas tendências do futebol? E, mais ainda, de sua torcida. Que, embora afastada, é o maior patrimônio do clube. E, hoje, único elemento capaz de trazer ao clube novos dias de glória.
Força, Botafogo! "Tu és e hás de ser o nosso imenso prazer! [...] Tu és o Glorioso".