Francisca, brilhante
quando eu olho pra você
eu vejo o futuro que escrevem pra mim
perambulando no meio do mundo, e rascunhando quem eu sou na minha cabeça antes de escrever de verdade
é tão difícil te olhar,
achei que era raiva de você por não me deixar ser menos que forte
mas como a mãe preta que pariu e ninou o brasil você teve que criar seus espinhos pra que não fosse doloroso pra mim
só que ainda é.
e é tão difícil te acolher. eu mesma, com tantas teorias, com tanta esperteza de decodificar as letras, por vezes não me acolho. ouço nas palavras de uma estranha que "como mulher negra" tenho que me acolher, mas não consigo passar da parte de olhar pra você. te olhar triste, te ver tentando fazer as pazes comigo, me faz ter uma compaixão dolorosa, porque parte de me acolher diz que eu tenho que olhar pras feridas que você me causou e fazer o sangue parar. o sangue nunca para. sinto raiva porque olhar pra elas me obriga a olhar pras suas e eu não escolhi ter essa culpa atrás dos olhos desde os 11 anos. desde os 11 anos eu descobri que o prato de feijão com arroz e ovo estalado não era só um prato de comida, era seu sangue, suor e lágrima. era sua ternura que foi se perdendo ainda menina. olhar pra isso tudo me dói porque eu tinha só 11 anos, igual você conta que seu mundo parou quando seu pai morreu aos 12. que mundo injusto é esse?! o que fazemos com nossas meninas negras e pobres?
mas comecei esse texto porque te li na Conceição Evaristo esses dias. te li na Lélia, te li também na Sueli, na Audre, e eu vou te ver em tantas outras mulheres negras brilhantes... você é brilhante mesmo com seus espinhos. por trás das olheiras do olhar cansado, a lembrança do seu cheiro algum dia foi aquilo que me fazia fechar os olhos e retornar pra casa quando eu estive longe. foi o carinho no cabelo enquanto a gente ouvia aquele disco de flashback dos anos 80. você que me ensinou a gostar talvez eu fosse alguma coisa sem essas estranhas - tão conhecidas - mulheres negras, negras como eu, que eu tenho lido. mas sem uma Francisca eu não seria ninguém. talvez eu nem estivesse aqui pra escrever esse texto. eu te amo com raiva porque eu não posso salvar o mundo pra gente viver. não posso esquecer de enxergar você.








