17:10 com fome mas rindo da ironia da vida
Sai de casa para uma entrevista de emprego. Preciso de dinheiro, o que significa que preciso me dedicar a ser uma profissional. Começo já com refluxo e ficando mais de 4 horas seguidas sem comer absolutamente nada além de sapos e ficar enjoada quando comer porque a barriga está vazia demais.
Fiquei mais de 2 horas esperando. Com fome. A moça da recepção era cativante e evangélica. Tinha um sorriso enorme e parecia conhecer todas as pessoas que estavam da recepção. Assim que cheguei, a moça da recepção me perguntou se eu estava bem em nome de Deus. Eu respondi que preferia estar melhor, mas não me aprofundei nos cistos estourados ou nas dores no corpo. Acho que ela não precisava desses detalhes. Amém, ela disse.
Só nós duas e a TV na Globo na recepção. Fátima Bernades. Encontro com. Eu só me encontrava com fome e chateada por esperar. Mariene de Castro começou a cantar uma música para Oxum(?) ou algum santo relacionado ao candomblé, mas eu não prestava atenção e procurava qualquer alguma coisa no celular para me distrair. O ritmo foi ficando mais enfático e mais característico. Era tambor batendo. Olhei. Ao mesmo tempo que a moça da recepção.
- Senhora Sara, você deseja mudar de canal? Assistir uma série, um documentário, alguma coisa?, ela perguntou com quase desespero.
Eu não me incomodava. Só ouvia e praticamente não olhava para a TV.
- Não, tá tudo bem. Você que fica aqui, pode escolher. Não tô nem prestando atenção!, balbuciei enquanto olhava para a televisão pela primeira vez direito e chegava a conclusão um tanto quanto óbvia da súbita vontade de mudar o canal.
Ela respondeu que não prestava atenção. Estava trabalhando. Justo. “Então deixe aí mesmo”, falei. Na verdade não queria falar, eu queria rir. Eu podia decidir sobre a mudança do canal e ela claramente estava constrangida porque eu preferi manter no canal que estava entoando cânticos a outros deuses.
Mais tarde, um senhor entrou na sala. Quase uma hora depois. Eu já estava maluca de fome, atrasada para o estágio e preocupada com uma zorra de um temporal que o Inema alertou e que até o presente momento, fim de tarde, não aconteceu.
- Boa tarde, senhor, meu nome é *moça da recepção*. Qual o seu nome?
- Jesus.
Eu quase cuspi minha água. Engasguei. Dei uma risada tímida porque minha barriga ainda está doendo demais e não consigo rir normalmente. A mulher, antes sorridente, parou de ser simpática de uma hora para outra. Era ironia demais.
- Esse é mesmo o nome do senhor?, séria, ela perguntou enquanto jogava um copo de plástico no lixo. Acho que as ações decorrentes do desconforto dizem bastante.
- Não, meu nome é Senhor alguma coisa que eu não lembro*.
Era senso de humor demais para mim. Fui atendida meia hora depois. Gratidão é a palavra que mais usam nesse mundo?