Aaron sentia-se muito leve, e desconfiava que a filha de Psiquê à sua frente estivesse usando os poderes para fazê-lo sentir-se daquele jeito. Mas não reclamaria. Eram poucas as vezes em que sentia-se feliz daquela maneira, tão disposto a dar um sorriso. O fato de estar cozinhando, um de seus hobbies, apenas ajudava em seu bom humor.
“Isso está com um aroma tão bom!” Savannah sorriu, voltando a arrumar o cachecol em volta do pescoço. Aaron assentiu, concordando com a loira. Talvez sua felicidade tenha sido resultado de seu ato de justiça naquele dia. Dera alguns socos no garoto que deixara um olho roxo na loira. Ela insistira que não era preciso, mas Aaron também insistira que era, e o professor acabou fazendo o que queria, mesmo sem uma resposta positiva da Adamant. No entanto, sabia que, em algum lugar no fundo do coração, ela sentia-se vingada.
“Vai ficar ainda melhor quando estiver pronto.” Aaron riu, mexendo insistentemente a mistura de chocolate derretido e creme de leite que começava a ficar macia conforme ambas as substâncias se juntavam. “Eu geralmente não uso isso, mas como você já tem dezoito anos...” Sorriu com o canto dos lábios enquanto abria um armário, retirando de lá uma garrafa de conhaque. Seu objetivo era colocar cerca da metade da garrafa, mas Savannah o impediu antes de tê-lo feito, censurando-o com o olhar.
Agora voltando à sua habitual expressão emburrada, o Bertolazzo derramou o resultado de sua obra em outra tigela, sorrindo. “Pronto! Fondue de chocolate sem precisar de toda a parafernália profissional!” Bateu palmas para si mesmo, afastando-se. “Eu sei que sou um cozinheiro incrível, sabe, você pode di...” Ele foi interrompido quando a Adamant enfiou a colher suja em sua boca.
“Cale a boca, Bertolazzo.” Ela riu, e ele acompanhou-a, sem se importar em limpar o bigode de chocolate que agora havia se espalhado até seu nariz.
A cotovelada levou-o direto ao chão, a caixa torácica quase estourando devido à dor do golpe. Quando caiu, revirando-se de dor, levantou uma nuvem de poeira, assim como a professora quando se jogou no chão ao lado dele, logo depois de sua queda. Aaron levou alguns minutos para recuperar o fôlego. Era como se o golpe tivesse lhe tirado todo o ar dos pulmões. Molhou os lábios secos com a ponta da língua e o corpo parou, quieto em meio ao chão de madeira da arena.
Instantes depois, enquanto ambos os combatentes ainda descansavam, Aaron começou a gargalhar descontroladamente, o som que parecia um rosnado de lobo ecoando pelo local vazio. Kayla arqueou a sobrancelha, apoiando-se nos cotovelos para fitar o amigo. “Resolveu enlouquecer agora, Bertolazzo? Do que está rindo?”
“Estou feliz, oras. Acho que nunca estive mais feliz em toda a minha vida!” Disse, parando as risadas, mas preservando o sorriso em seu rosto. Fechou os olhos, suspirando profundamente, com consciência do olhar confuso da Baudelaire sobre si. Ela deveria pensar que ele era louco. Não era uma mentira ao todo.
“Você acabou de levar uma surra e está feliz?” Ela indagou, como se quisesse saber se não estava delirando ou ouvindo errado. Aaron levantou um polegar positivo. “Você é masoquista, Bertolazzo?”
Aaron levantou o polegar e o indicador, em um gesto que indicava ‘um pouco’, e logo depois voltou a rir. “Estava com saudade. Ninguém nunca conseguiu me vencer. Só você.” Levantou-se, sentando-se e rindo baixo, embora o sorriso parecesse levemente macabro devido ao sangue que manchava os dentes, resultado de alguns golpes sucessivos da professora. “Não que eu goste de sofrer ou perder. Mas é bom. Sentir que ainda há alguém que pode te parar se você... Sei lá, se descontrolar.” Explicou, a fim de deixar as coisas mais claras. “Até gosto de perder para você, Kayla. Quando eu começar a ganhar, daí sim vou começar a me preocupar.”
“É melhor que goste mesmo. Ainda vou te dar muitas surras, Bertolazzo.” Prometeu, dando um soquinho no ombro do italiano. Ele soltou um resmungo.
“Alerta ferimento não curado. Eu posso até me regenerar mais rápido por ser lobisomem, mas vamos com calma.”
“Você é mesmo um fracote.”
“Qualquer um é fracote perto de você, valentona.” E ambos riram.
Um de seus dedos deslizava lentamente pela mão gélida da mais nova, formando o caminho de suas veias até o pulso. A pele dela estava tão gelada quanto a sua, os batimentos cardíacos tão fracos quanto a respiração. Cassiopeia repousava calmamente em uma das camas da enfermaria. Tinha uma expressão tão calma que qualquer um que não soubesse de seu atual estado ou pudesse ver os equipamentos aos quais ela estava ligada julgaria que a menina estava dormindo. O cenário era claro e tranquilo, exceto por Aaron, em sua vigília interminável ao lado do corpo desacordado da Roosevelt.
“Senhor Bertolazzo... Por que não descansa? A senhorita Roosevelt levará mais algum tempo até recuperar-se totalmente. O senhor está aqui há dias, desde que ela deu entrada na enfermaria.” A enfermeira tentou persuadi-lo pela quinta vez naquele dia, novamente sem sucesso algum. Ele balançou a cabeça negativamente, agradecendo baixo, mas dizendo que não sairia ali enquanto Cassie não acordasse. A mulher assentiu de forma tristonha e puxou a cortina mais uma vez.
Era raro ver qualquer tipo de expressão que não fosse ameaçadora no rosto do homem, mas nem mesmo um cego não seria capaz de enxergar o nível de preocupação estampado nos duros traços do mancebo. A pior parte em ser um filho de Tânatos é poder sentir a morte e a aproximação da mesma, e embora o cenário da enfermaria pudesse parecer tranquilo para a maioria das pessoas, para Aaron era um inferno na terra. Era óbvio que se sentia muito mais forte tendo a morte tão perto de si, mas seu coração apertava ao saber que toda aquela energia negativa desprendia-se de um único corpo: o de Cassie. A morte dela aproximava-se. E ele nunca se sentira tão inútil, tão impotente diante de alguma situação.
Não foram raros os seus ataques de pânico nos últimos dias. Ele simplesmente corria para fora da enfermaria, desesperado demais para poder respirar direito. Tentava recuperar o ar que faltava nos pulmões, mas era incapaz de fazê-lo, e então se sentia perdendo o controle, uma dor incessante no peito, como se tivessem dado-lhe um soco diretamente no coração. Segundo as pessoas que o viam socando as paredes desesperadamente até os dedos quebrarem-se e o sangue escorrer, o professor sussurrava coisas desconexas, palavras que não faziam sentido algum. E ele sentia-se ainda pior por não conseguir lembrar-se de ter feito aquilo. Via o sangue em suas mãos e sentia os ossos regenerando-se dolorosamente, mas não se lembrava de ter feito aquilo.
Aaron pouco se importara com a opinião da diretoria durante os últimos dias, mas sabia que talvez devessem estar pensando em demiti-lo ou afastá-lo do trabalho. Escalara Annabelle para substituí-lo nas aulas, a fim de não perder qualquer melhora ou avanço no estado de Cassiopeia, mas suas esperanças eram cruelmente despedaçadas a cada novo dia, quando a energia de morte ao redor da menina ficava cada vez mais forte, mais pesada, mais negra. Muitas vezes, quando preparava-se para dormir ali novamente, podia jurar ter o vislumbre de uma figura encapuzada ao lado da cabeceira da cama. Era nesses momentos que apertava a mão de Cassie e rezava para seu pai, pedindo que não a levasse.
Mas seu pai não teve misericórdia. Mickaela pedira para que Aaron fosse almoçar junto de si naquele dia, e ele resolveu sair dali apenas um momento para acompanhar a irmã e comer algo. Quando voltava, foi capaz de enxergar a sombra negra (completamente turva devido a sua visão míope) ao lado de Cassie antes de poder fazer qualquer coisa. “Não!” Gritou, correndo em direção à maca, mas não foi capaz de fazer nada. A última coisa que viu foi seu pai levando sua filha, e o silêncio doloroso dos batimentos de Cassie.
Aaron soluçou compulsivamente e se transformou sem notar em meio à balbúrdia. Ele tentou berrar o nome do pai e de Cassiopeia, amaldiçoou Tânatos e implorou para que a trouxesse de volta. Os filhos de Apolo seguravam seus braços, alguns perplexos demais para entender porque o homem agora tinha os olhos vermelhos e aos poucos adquiria garras e outras feições animalescas. Outros já sabiam sobre a licantropia, e tentavam acalmá-lo da melhor maneira possível. Mas Aaron não escutava nada além da própria voz, o próprio desespero.
[ . . . ]
Devia ser mais de meio dia quando baixaram o caixão envolvido por uma mortalha negra. O tecido parecia ser algum tipo mais elaborado de veludo, adornado por pequeninos pontos prateados que indicavam as estrelas. Era isso que uma filha da noite merecia. Aos poucos as pessoas foram deixando o local, algumas dando tapinhas gentis nos ombros do mancebo, que se limitava ao silêncio. Mas ele ficou. As lágrimas silenciosas molhavam sua face, o olhos já inchados e vermelhos ardiam. A morte nunca fora gentil com ele... Por que resolveria ser agora?
Enfiou as mãos no bolso e sentiu, entre os dedos da mão canhota, o pequenino objeto de prata. Queimou seus dedos quando o tocou, mas o mancebo apertou a bala firmemente e ergueu o olhar, finalmente deixando o local. A bala de prata havia se alojado no ombro da Roosevelt, fora fatal para a mesma. Ele mesmo a retirou quando levaram sua beta para seus cuidados, mas não foi capaz de parar o wolfsbane que aos poucos se espalhava pelo corpo da morena. Ela entrou em coma um dia depois e nunca mais saiu. Porque morreu.
Morreu por um maldito caçador. Um filho da puta que não merecia nem ao menos a morte. Aaron se vingaria, lhe daria algo pior. Muito pior. Pela segurança do resto de sua alcateia e dos lobisomens que viriam à seguir, e, princopalmente, por Cassie.
Abaixo do Read More há: viadagem. Obrigada, de nada.
O aroma de flores daquele chalé não lhe agradava. Confundia seu faro apurado, fazendo-o sentir-se muito mais vulnerável. Por isso, mesmo a contragosto, sua melhor opção era deitar-se ao lado do filho de Afrodite que calmamente ressonava em uma das camas de casal. Se algo acontecesse, tinha plena certeza de que seria melhor enfrentar a possível ameaça com a ajuda de Andrew. Aaron resistiu tanto tempo quanto possível, mas foi incapaz de passar das quatro horas da madrugada. Vendo que ninguém havia ido até ali para “salvá-los”, sua única saída foi, a contragosto, arrastar-se até a cama do imberbe.
Silenciosamente, escorregou para baixo dos cobertores. Sentiu um alívio quase instantâneo quando os músculos gelados foram instantaneamente aquecidos pelos grossos tecidos. Ronronando, algo ridiculamente engraçado para um homem de seu tamanho, encolheu-se na cama e cobriu-se até o pescoço.
“Aaron, o que pensa que está fazendo?” Ouviu a voz do garoto ao seu lado perguntar, em um tom elevado. Abriu os olhos automaticamente. Não esperava que ele estivesse acordado.
“Você não estava dormindo?” Indagou, em um tom defensivo. “Estou me deitando para dormir. Que pergunta idiota.” Se fez de desentendido, continuando com as costas viradas para o loiro. Ouviu o Fairwoods bufar, e imaginou-o revirando os olhos.
“Se não percebeu, você estava parecendo um gato exageradamente musculoso e pesado ronronando. E seu ronrono parece um rosnado. Você não acordaria se houvesse um rosnado perto da sua orelha?” Era um motivo plausível, ele tinha de concordar, e por isso resmungou baixinho, dando razão ao filho de Afrodite. “Às vezes tenho que me lembrar que você deve ter tido algum parente filho de Poseidon. O que estou querendo dizer é: por que está deitado do meu lado? Existem outras camas vazias por aí, sabia?”
“Mas está fazendo uma temperatura negativa lá fora, e eu sou filho do deus da morte. Se minha pele já é fria, imagine durante o inverno! Eu acordaria congelado se não me deitasse aqui.” Respondeu. Maldita hora em que um filho de Hermes pensou que prender Andrew e Aaron dentro do chalé de Afrodite fosse engraçado. “Também não gosto dessa ideia, sabe, mas sou muito novo para morrer. Primeiro acabar com Hipnos, depois morrer. Acalme-se, ok? Eu não vou te estuprar enquanto você dorme.”
“Então não ronrone, rosne ou faça qualquer barulho. E se roncar, te empurro para fora da cama.” O filho de Afrodite preferiu ignorar a última frase. Em um tom claramente desgostoso, deram boa noite e fecharam os olhos.
Porém, diferente do que o filho de Hermes que os prendera ali pensara, o fato de terem acordado abraçados no dia seguinte não ajudou em nada para melhorar a situação entre ambos, embora tenha lhe rendido uma boa foto para uma futura chantagem.
Aaron nunca fora bom com direções. Era por isso que sempre preferia confiar em seus sentidos a usar um GPS quando dirigia ou pilotava qualquer veículo. Ele falhava apenas uma em dez vezes. Assim, quando encontrou a porta do vestiário masculino fechado, ao invés de optar pela solução mais simples para qualquer pessoa normal (que era procurar o zelador e pedir para que o mesmo abrisse a porta), ele decidiu escolher o jeito mais fácil de fazer as coisas para ele (que era escalando o castelo e, obviamente, entrando pela janela do segundo andar). Por isso, é claro, Aaron nunca fora considerado muito inteligente.
Levou alguns instantes para perceber que estava no vestiário feminino. Estragou o perfume que exalava dos boxes, mas pensou que, quem sabe, tivessem finalmente resolvido dar uma limpa naqueles vestiários terrivelmente fétidos! E sorriu, apreciando o aroma de flores no ar, até virar-se e ver uma bela Danika enrolada na toalha saindo de um dos boxes. Como se a cena fosse algo normal, ele cumprimentou-a com o mesmo sorriso, apenas não esperava deixá-la tão surpresa a ponto de a mesma deixar a toalha cair, certamente pensando o quão canalha Aaron era.
E seus pensamentos devem ter piorado ainda mais quando o professor encostou-se ao conjunto de torneiras e observou-a nua, parecendo não ter qualquer tipo de pudor. “Aaron, pelo menos finja que não está olhando!” Ela repreendeu-o. Ele arqueou as sobrancelhas.
“Por quê? O que é bonito, é pra ser observado. Fora que você ia ver que eu estou excitado de qualquer maneira.” Deu de ombros. “Mas acho que esse não é o vestiário masculino, é?”
“Não!” Ela respondeu. Aaron deu uma última olhada na mulher antes de dar-lhe as costas.
O choro baixo ecoava pelo quarto quando Aaron abriu a porta. Ela estava chorando de novo? Ele reprimiu o gemido estrangulado e fechou a porta do quarto, caminhando com passos lentos em direção à cama da irmã. Contornou o móvel e espiou a menina encolhida junto à parede antes de ir sentar-se ao seu lado. Sentia-se desconfortável. As emoções dela lhe faziam aquilo. Não gostava de vê-la triste, e a onda de sentimentos ruins apenas piorava a situação toda. No entanto, estava acostumado com o choro de Mickaela. Embora não gostasse do mesmo, sua irmã era naturalmente chorona.
“O que houve?” Indagou, mas compreensão o atingiu repentinamente. Em um segundo entendeu a tristeza da menina, mas deixou-a responder.
“Mamãe mandou-o embora! O Foice foi embora!” Se Aaron tivesse de descrever a voz da irmã, a única palavra certa seria ‘dolorosa’. Pousou uma das mãos no alto da cabeça dela, e riu. Seu riso era naturalmente zombeteiro, do tipo debochado que faz qualquer pessoa sair do sério. Aquilo não discordava muito da real personalidade conturbada do Bertolazzo. Mas a irmã não entendeu, mesmo conhecendo o gêmeo como sua palma da mão, e lhe lançou um olhar colérico. “Você está rindo do meu choro?” Indagou, com a voz embargada e os dentinhos cerrados.
“E eu seria capaz disso?” Aaron parou de rir, arqueando uma das sobrancelhas. Revirou os olhos, puxando a garotinha para si e abraçando-a de forma desajeitada. Logo depois, recomeçou a rir. “Eu menti.”
Mickaela foi rápida em desvencilhar-se do gêmeo, os olhos arregalados. Aaron nunca lhe dissera, mas amava vê-los daquela forma. O azul parecia muito mais vívido, se é que era possível. “Você está dizendo que…” Ela não conseguiu terminar, por isso Aaron o fez.
“Sim. Estou dizendo que não mandei o Foice embora. Eu o escondi no galpão de ferramentas. Ela nunca vai lá mesmo.” Disse, com um sorriso vitorioso. A expressão do menino tinha um quê de maldade, ainda que ele fosse bem novo. “Não chore por algo que ela fez. Ela não merece.” Balançou a cabeça negativamente, para dar ênfase ao que dizia, e logo depois beijou a testa da gêmea, puxando-a para perto mais uma vez. Ele odiava contato físico, mas com Mickaela não se importava.“Abrace-me. Quer dormir na minha cama hoje?”
"Leave me alone!" (tô atrasada, who cares. vai pro chatzy)
Aaron sentiu o coração apertar assim que entrou na arena. Não era de praxe que isso acontecesse, visto que a arena era um de seus lugares favoritos, por isso soube que havia algo errado. Sentia uma grande onda de sentimentos negativos vindo de algum lugar ali, alguma pessoa estava sofrendo no local. Não era de se admirar – os fracos costumavam sofrer muito na arena – mas não era o tipo de sofrimento físico que os visitantes do local geralmente conheciam. Aaron não era capaz de sentir isso. Era sofrimento sentimental, uma dor excruciante na alma. Era a dor do luto. Como filho de Tânatos, a conhecia melhor do que ninguém.
Não precisou procurar muito para achá-la. Embora uma pessoa comum pudesse demorar em ver a professora sentada ali, escondida entre os bancos de pedra, para ele foi fácil. Reconheceu-a pelo cheiro característico, o cheiro que já conhecia, e foi como se alguém fincasse uma agulha em seu peito. Era Kayla. Aaron se importaria com qualquer pessoa que estivesse sofrendo e chorando com uma onda de sentimentos tão grande quanto aquela, mas Kayla era ainda pior, ela era sua amiga. Sentiu vontade de acompanhá-la nas lágrimas enquanto subia os degraus da arquibancada com pressa, largando a espada para trás e sentando-se ao seu lado. Ela levantou o olhar e limpou as lágrimas da melhor forma que pôde, mas o rosto continuava inchado, os olhos vermelhos, e as lágrimas vertendo.
“Deixe-me sozinha.” Pediu, a voz firme de sempre, mas agora mais baixa para que apenas o Bertolazzo ouvisse, embora não houvesse mais ninguém ali. O italiano levou uma das mãos à dela, e apertou-a, mesmo que a professora tentasse fugir do toque. Ele procurou o olhar dela.
“Não.” Respondeu, o tom igualmente baixo e embargado, como se estivesse a ponto de chorar, estranhamente gentil e delicado. Mickaela fora a única com quem já usara aquele tom de voz. “Você estava lá quando eu precisei, e não foi embora quando eu te mandei. Eu também não irei. Não fale, se não quiser. Mas eu vou ficar ao seu lado.” Decretou, logo em seguida. A loira fechou os olhos. Aaron entendeu que ela concordava silenciosamente; nada mais justo.
Ele tomou a liberdade de abraçá-la logo após, um gesto lento. Ele sentia o sofrimento mais próximo, e tudo o que queria era acabar com aquilo. “Você não está sozinha.” Murmurou, apoiando o queixo no ombro da loira. E ela continuou a chorar, abraçada ao Bertolazzo. E ele continuou a ouvir seu choro, abraçando-a. Afinal, se havia alguém digno de ouvir o desabafo e o choro de uma guerreira, era outro guerreiro.
A lua cheia mal havia chegado e ele já sentia seus efeitos em tudo o que fazia. Quebrara cerca de dez taças na última semana, sua tensão parecia correr dos dedos ao vidro, e assim o Bertolazzo decidira beber apenas em copos de plástico. Ainda assim, conseguia amassá-los com um mínimo ferimento em seu ego. Estava tentando ser cauteloso, não deixar que os outros vissem os olhos vermelhos, e nem rasgar nada com suas garras – embora fosse divertido usá-las para tarefas cotidianas. Mas seu lobo estava inquieto, agitado e irritadiço. Aaron não viu outra maneira de aliviar-se se não ir até a floresta para se transformar e deixar o lobo solto por algum tempo, pelo menos para livrar-se de parte da tensão.
Seu plano era bom. Era mesmo bom, simples e direto. Mas tudo deu errado quando avistou uma pessoa conhecida andando pela orla da floresta, com passos lentos e calmos. O Bertolazzo bufou. Como se não bastasse ter uma pessoa ali, essa pessoa tinha que ser a namorada do Scorpina. Sabia que teria problemas caso machucasse a jovem de qualquer maneira, assim, tentou passar despercebido. Seu plano B também foi pelo ralo quando ela percebeu sua presença.
“Aaron, é você?” Ela chamou. O professor suspirou profundamente antes de virar-se.
“Você deveria estar na Academia à uma hora dessas, Spencer. A floresta é perigosa. E a lua cheia será depois de amanhã.” Respondeu. Ela entenderia, é claro que entenderia. Seu irmão e agora o namorado eram lobisomens. Tinha conhecimento sobre a licantropia de Aaron, e saberia que era melhor se afastar. Mas ela fez exatamente o contrário.
Quando a mente de Aaron soou o alarme de aproximação, a menina já havia invadido seu espaço pessoal, pousando a mão em seu ombro de forma carinhosa. O lobisomem arregalou os olhos, desconcertado, reprimindo a vontade de rechaçá-la e ameaçá-la. Não gostava de toques, tinha uma política restrita sobre os mesmos. Achava irritante o modo de que, mesmo deixando suas regras claras, as pessoas ainda o desobedecessem. As alunas lhe abraçavam no momento que entendiam ser o melhor, e as professoras... Aaron preferia manter contato apenas com Kayla e Ignis, evitando maiores desentendimentos com outras criaturas indesejáveis.
“Não toque em mim!” Exclamou, em um tom mais ríspido do que desejou, afastando-se. Virou-se de costas, e mesmo com os chamados da menina, adentrou a mata e embrenhou-se entre as árvores. Não iria permitir-se o descontrole e a carnificina apenas por um simples toque.