INEXHAUSTUS: the catalyst ❖ P.O.V {3/7}
“God bless us everyone We’re broken people living under loaded gun And it can’t be outfought It can’t be outdone It can’t be outmatched It can’t be outrun!”
O pequeno restaurante adjacente ao posto de gasolina possuía algumas mesas grudadas às janelas e uma grande bancada envidraçada, exibindo quitutes salgados e doces. As paredes enegrecidas pela poluição dos caminhões contrastavam com as janelas embaçadas pela gordura das frigideiras. Era noite e o pavilhão estava agitado, o ar deixado pelo fim de tarde era abafado, quente e pesado. Carreteiros, passageiros de ônibus e funcionários de transportadoras comiam e bebiam, naquela que era a última parada rodoviária em quilômetros. O chão, coberto de marcas de óleo, escorregava a cada passo. No ar, o odor de combustível se misturava ao fedor de urina, que escapava intermitentemente do banheiro sem portas. Caminhoneiros e motoristas iam e vinham, mas apenas três figuras permaneceram no local por mais do que alguns minutos.
Aaron abriu a lata de refrigerante e entregou-a para Amélia enquanto a mesma escolhia a cor do canudo. Levih ainda olhava para fora, os cabelos extremamente lisos penteados para cima em um rabo de cavalo, o que lhe fazia parecer ainda mais feminino mostrando as laterais raspadas da cabeça.
— Não sei como conseguem comer isso. É terrível. — O filho de Despina abriu uma caixinha de alumínio, retirando um cigarro rosado de dentro. Aaron rosnou baixo, mostrando os caninos.
— Você é tão bicha que não consegue fumar um cigarro de verdade? — O Bertolazzo reclamou, puxando o cigarro dos lábios carnudos do loiro. Levih continuou inexpressivo, nenhuma atitude exterior parecia afetá-lo. Suspirou profundamente, retirando outro cigarro. — Isso fede.
— Você é tão nojento que não se contenta com um hambúrguer? — O mais novo disse, com azedume, ao notar que a garçonete servia o prato do professor com outro hambúrguer duplo, rodeado por crocantes fatias de bacon.
Aaron deu uma mordida na iguaria, fazendo com que o molho sujasse os polegares. Mastigou por um momento antes de abrir a boca, mostrando a comida despedaçada para Levih. O filho de Despina soltou um barulho alto de desaprovação, virando o rosto para o lado e chamando a garçonete.
— Você tem uma garrafa de Perrier? — A marca foi dita em um sotaque perfeitamente francês. Aaron deixou o queixo cair.
— Tu é babaca, cara! — Exclamou, com o olhar demonstrando desprezo e irritação pelo pedido do garoto. Ele realmente achava que era possível haver água importada em uma lanchonete de beira de estrada? Levih o fitou como se não entendesse o motivo da exasperação.
— Podem parar de brigar por um momento? — Amélia bufou ao observar a agitação entre ambos. Não haviam parado de implicar e de se bater um minuto sequer, sobretudo devido aos gênios completamente desiguais. Levih revirou os olhos, virando o rosto para a janela novamente, e Aaron voltou a devorar seu hambúrguer. Um grupo de motoristas embriagados começou a cantar o hino de algum clube esportivo. A chuva parou, silenciando os pingos no teto de fibra. Uma música antiga tocava repetidamente no rádio do bar.
Amélia olhou por sobre as cabeças, como se procurasse alguém que estava para chegar.
— O que estamos esperando, afinal? — Ela suspirou, olhando diretamente para Aaron.
— Que eu termine meu hambúrguer — mas, ao entender a impaciência da garota, acrescentou:
— Estou calculando qual seria a melhor rota até o nosso destino.
— E qual seria esse destino? — Levih novamente intrometeu-se na conversa, mas ficou sem resposta, pois o Bertolazzo já prestava a atenção em Amélia mais uma vez.
Ela deu uma fraca cotovelada em Aaron. Dois homens com farda policial adentraram o salão. Usavam coletes à prova de balas e no cinturão traziam pistolas de grosso calibre, rádio, cassetete, algemas e munição para as armas. Andavam devagar, de um modo tão mecânico que chegava a ser assustador, e seu destino era óbvio: a mesa dos três semideuses. Seguiram diretamente até ali, sem nem ao menos olhar ao redor.
— Eu cuido disso. — Levih murmurou para os outros dois, enquanto virava-se novamente para o exterior e prestava atenção nas duas pessoas anormalmente próximas, preparando-se para a abordagem.
— Boa noite, amigo. — O policial não esperou que nenhum dos três respondesse, e não deixou claro para quem se dirigia. — O carro lá fora pertence aos senhores? — Um deles, aparentemente o mais velho, apontou para fora, indicando o velho utilitário que haviam estacionado no terreno baldio à frente, por Aaron não ter certeza se cobravam estacionamento ou não. Levih assentiu calmamente, ignorando a tensão entre os dois grupos.
— É de um colega. — Tanto Aaron quanto Amélia se surpreenderam com a frieza que o filho de Despina levava a situação, embora pudesse ser algo esperado.
— Eu quis dizer isso — o segundo policial focava seus olhos no filho de Tânato, que o respondia com o olhar na mesma intensidade. Pareciam estar se desafiando, como dois lutadores de MMA antes de um confronto. — Vai ter que vir comigo.
— Algum problema?
— Nada grave. Preciso checar os documentos. Só queremos verificar... — O mesmo que havia falado antes continuou. Aaron engoliu em seco. Havia roubado o carro, uma vez que o único veículo do qual disponibilizava normalmente era sua motocicleta, e nunca a arriscaria levando-a para uma missão. Foi a vez de Amélia assumir a situação, usando algum feitiço embutido na voz que deixou o próprio Bertolazzo sem fôlego.
— Está tudo em ordem, senhor, temos certeza. Se não se importa, estamos um pouco atrasados em nossa viagem, temos que aproveitar cada segundo. O que acha de nos liberar logo após uma rápida vistoria? — Eram palavras simples, mas que fizeram Aaron achar que, realmente, talvez tudo estivessem em ordem. Ele considerava a ideia de não ter roubado o carro realmente, embora se lembrasse de fazer a ligação dos fios para que ligasse sem as chaves.
Os policiais, no entanto, não pareceram estar tão convencidos.
— Também estamos, senhorita. Queiram nos acompanhar, por favor. — Girando nos calcanhares, o agente esperou Amélia levantar-se, levemente sem graça. Os três se entreolharam, perguntando-se como o truque não dera certo, enquanto seguiam os dois policiais.
Aaron limpou os dedos em um guardanapo de papel barato, mordiscando as últimas migalhas de uma fatia de bacon. No entanto, ele estava em alerta. Os guardas não o assustavam, mas havia algo de estranho na maneira como andavam e portavam – ele não sabia dizer o que era. E havia um cheiro desagradável.
Na parte anterior do terreno baldio estava estacionada uma viatura policial, de portas abertas, bloqueando a saída do utilitário. Ao volante os aguardava um oficial graduado, exibindo insígnia de capitão, assim como um quarto policial encostado do lado de fora do carro, ambos com as mesmas fardas de seus companheiros. Aaron olhou para dentro do veículo, percebendo a arma deixada no banco traseiro. Engoliu em seco. Poderia não ter uma coleção, como desejava, mas tinha um considerável conhecimento sobre os objetos e sabia usá-los muito bem, o suficiente para reconher uma SIG-Sauer calibre 45 ACP.
— Essa não é uma arma padrão da instituição, não? — O mancebo levantou o olhar para encarar um dos policiais novamente, o mesmo que havia falado, mas quem lhe respondeu foi o policial no volante. Aaron calculou que ele deveria ter uma idade próxima a 35 anos, talvez um pouco menos. Mas, apesar de ser um agente da lei, demonstrava expressão de bandido. O corpo era típico dos militares, com os antebraços especialmente largos. Os olhos eram negros e sombrios, delineados por sobrancelhas pretas. Os cabelos, igualmente escuros, estavam parcialmente escondidos sob a boina. Levantou-se imediatamente ao vê-los chegar. Encarou os dois, examinando-os por vários segundos. Arrostou Aaron num gesto de desafio, para à seguir anunciar, como um juiz que lê a sentença:
— Este carro foi dado como roubado. Estamos atrás do ladrão. Onde estão os documentos?
Aaron ignorou as palavras, deixando os jovens resolverem o assunto, e voltou a baixar os olhos, analisando o cabo da arma, estranhamente decorado por arabescos, junto de letras que formavam uma palavra desconexa aos olhos do professor. Amaldiçoou sua TDAH, e passou a concentrar-se nas letras douradas.
Pelo tom, Amélia entendeu que a acusação era séria. Ela não aprovava a violência, mas sabia exatamente o que fazer.
— Capitão, eu e meus amigos estamos muito cansados — argumentou. — E temos pressa. Estou certa de que entende isso. Agora, por que não esquece esse mal-entendido e tira a viatura de nosso caminho? Seria de imensa ajuda, e ficaríamos eternamente agradecidos.
Normalmente, ela não teria problemas em persuadir qualquer humano comum, mas o agente estava irredutível. Franziu a testa e pousou a mão sobre a coronha da arma na cintura.
— Também temos pressa.
“Castigo”, era o que diziam, quando Aaron finalmente conseguiu decifrar as letras moldadas na pistola no banco de trás do carro. Tragou o ar de uma vez só. Não sobravam dúvidas de que era uma armadilha.
Com o senso auditivo lupino, identificou o ataque alguns segundos antes do mesmo acontecer, escutando os policiais mais atrás sacando as armas e decidindo reagir. O policial mais próximo teve o pescoço quebrado pelas mãos do mancebo logo após o disparo, enquanto Amélia e Levih corriam para trás do velho veículo, escapando do tiroteio que veio a seguir. Aaron estendeu a mão e tocou a maçaneta da porta do utilitário, muito próximo a ele. Puxou a porta com violência e as dobradiças rangeram de modo alarmante quando pulou para trás do objeto. Os dois tiros alojaram-se na lataria enquanto Aaron arrastava-se com dificuldade.
Ele lembrou-se da arma vista no banco traseiro e apressou-se na direção da mesma.
— O que foi isso?! — Ouviu o mais velho ralhar, a voz estranhamente deformando-se, algo entre o feminino e o masculino.
— Eu não sei! Ele deve ter se desesperado. — Um dos outros murmurou de volta.
— Não importa. Pegue o maior, Hipnos o quer. Mate os outros. E cuidado com ele, é perigoso. — Mas a ordem ainda não havia sido completa nos lábios do mais velho quando um dos parceiros caiu ao seu lado, atingido por uma flecha bem no meio da testa. Levih soltou um uivo de dor quando a criatura sobrevivente atirou na direção de seu arco levantado.
Aaron fechou os ouvidos para as vozes. O que importava eram os sons: um passo, uma respiração descontrolada, e outras coisas do tipo. Ele ofegava, com os braços sujos de terra e o couro da jaqueta esfolado graças aos movimentos heroicos. Nunca mais confio em maníacos, jurou mentalmente. Mordeu os lábios e prendeu a respiração quando chegou à viatura, abrindo a porta e experimentando levantar apenas alguns centímetros para observar o que os policiais faziam; logo que viram o primeiro fio de seus cabelos, saudaram-no com mais quatro tiros, e ele convenceu-se de que os policiais não estavam dispostos a uma conversa amigável.
Levantou a mão o mínimo possível, e tateou o banco até encontrar o gatilho da arma, mas o que conseguiu sentir foi um bastão – o cabo de uma espada. É melhor do que nada. Puxou a arma para si, e um clarão alaranjado passou por sobre sua cabeça quando ergueu a arma. Era mais leve do que estava acostumado, mas adaptava-se às suas mãos. Precisava treinar o equilíbrio da arma, mas não tinha tempo para isso. Então se levantou.
O primeiro tiro foi mal mirado, e passou bem perto de seu braço esquerdo, mas conseguiu evitar o segundo, que com certeza se encontraria em sua testa caso não possuísse a lâmina de bronze nas mãos. Confiante, avançou como um urso, e com um golpe de espada, como se estivesse varrendo o ar, acertou a jugular do terceiro soldado, que tinha se colocado atrás da porta mal presa nas dobradiças. O outro prendeu a respiração enquanto seu parceiro virava pó diante de seus olhos, e Aaron sentiu-se exultante.
Virou o rosto para o outro policial, mostrando um sorriso de escárnio, mas assustou-se ao ver que ele havia desmaiado. Ele aproximou-se lentamente, sem muita certeza do que estava acontecendo. Ajoelhou-se, sem largar a espada, e checou o pulso do mais velho. Estava vivo, mas não oferecia perigo. Arrastando a espada, foi até Amélia e estendeu-lhe a mão para que pudesse se levantar. Ela aceitou sua ajuda de bom grado, embora pudesse se virar muito bem. Limpou a areia das saias florais do vestido e lhe deu um sorriso fraco. Provavelmente se borrou toda.
— Está tudo bem com você? — Aaron retirou os fios de cabelo grudados na testa da menina com um simples movimento do braço esquerdo, mas quando o fez, sentiu uma dor lancinante. Caiu para o lado e soltou um palavrão em italiano quando percebeu que havia se ferido. — Figlio di puttana!
— Pelo jeito, você é quem não está nada bem, senhor — Amélia segurou-o.
— Isso foi só um aperitivo do que está por vir. — Aaron rosnou, usando a espada para apoiar-se.
— Por que as criaturas não tomaram suas verdadeiras formas? E o que eram? E como você soube que iriam atacar? — Amélia parecia maravilhada com o combate. Aaron rosnou novamente.
— Talvez não quisessem que tivéssemos pesadelos mais tarde. — Ironizou, revirando os olhos. — Eram Fúrias, Erínias. Eu ouvi e senti um cheiro estranho.
Cutucou o porta-malas da viatura com a espada. Quando o mesmo abriu, surgiram dois cadáveres meio apodrecidos e algumas partes de outros. Um era de um jovem que devia ter mais ou menos a idade de Levih, e outro parecia com um dos policiais que virara pó.
— Deveras, interessante... — Levih analisou, enquanto Amélia arregalou os olhos e distanciou-se, indo vomitar. O filho de Despina olhou para a espada que Aaron havia largado. — Vai querer isso?
— Tenho cara de quem espolia os mortos que nem matou? Não responda. — Apontou para o utilitário com o braço, que ardia na altura do ombro. — A gente pode ir?
Levih balançou a cabeça positivamente, mas sentiu a barriga roncar e fez uma careta, bufando.
— Sabe aquele hambúrguer nojento? Acho que vou aceitar.
Acabaram passando a noite em um motel de beira de estrada. Aaron arrumou a porta o utilitário como pôde, pois não tinha os materiais certos, e tentou dormir à noite, mas foi em vão. Amélia fez um curativo em seu ombro, retirando a bala com magia, embora a regeneração lupina o ajudasse bastante no processo de cura.
Analisando a viatura policial das Fúrias disfarçadas, acabaram encontrando um endereço. Ironicamente, era de uma loja de colchões. Amélia e Levih passaram a fazer piadas sobre o hábito do sono de Hipnos, a fim de amenizar o clima, mas Aaron não ria de nenhuma delas, continuando sério, encarando a janela, com o papel apertado entre os dedos. Sabia que a morte o esperava.
Silenciosamente, começou uma prece para o deus da morte. O ar frio que fez seus pelos se eriçarem indicou que, sim, Tânato estava ao seu lado. Seu pai o amava. E isso lhe deu alguma coragem.
Não levou muito tempo para que juntassem os pertences, pagassem sua estadia e começassem a jornada novamente no dia seguinte. Aaron tinha um cigarro nos lábios e dirigia com apenas uma mão no volante. Levih escutava seus fones de ouvido, deitado nos bancos traseiros do veículo, enquanto Amélia olhava para o membro mais velho do grupo, arregalando os olhos, assustada com seu modo de dirigir.
Aaron não parecia notar o terror nos olhos da garota ao seu lado, murmurando a canção no rádio no ritmo de Blue Swede. A rodovia estava completamente deserta no final da tarde, quando chegaram ao seu destino. Amélia saiu do carro com as pernas tremendo, mas Levih, como sempre, estava alheio a tudo.
O trio seguiu até a porta do estabelecimento, Aaron adentrando-o por último, farejando ao redor como um cachorro desconfiado – uma boa comparação, visando seu estado de alerta. Sentia um cheiro característico, um fedor que conhecia – e amava, embora não gostasse de admitir – vindo de algum lugar atrás do balcão de atendimento. Mas a loja em si era agradável. Um sininho tocou quando abriram a porta, chamando a atenção do vendedor, que saiu de trás de uma cortina de contas grossas.
Havia colchões espalhados por todos os cantos, alguns tão pequenos que Aaron imaginou não servirem nem mesmo para uma criança ou um anão, enquanto outros tinham tamanhos exagerados. Além dos colchões, prateleiras abrigavam travesseiros e roupas de camas, provendo um pouco de cor ao local, embora o tom que imperasse entre as paredes fosse o branco.
— Ô, babaca... — Aaron chamou Levih, com o canto dos lábios, em um tom baixo. — Não gostei desse lugar.
— Você não gosta de nada, lobo mal amado. — O filho de Despina gracejou, sem dar um sorriso sequer, ainda usando o tom seco de praxe. Aaron rosnou, discordando.
— Que cara babaca! — Bufou. — Isso não é verdade. Eu gosto de Mickaela, de cozinhar e de quebrar as costelas alheias. — Lançou um sorriso sugestivo à Levih. Ele arqueou a sobrancelha, afastando-se.
O vendedor era estranhamente alto, chegava a ultrapassar os 1,92 de Aaron, mas não exibia os mesmos músculos do professor, limitando-se a um corpo extremamente magro. Não, não, magro não seria a palavra certa para descrevê-lo. Ele era seco, desnutrido, completamente cadavérico. O rosto encovado exibia sobrancelhas finas, feitas à lápis, e lábios tão quebrados que pareciam papel riscado. Os cabelos eram um círculo ralo ao redor da cabeça. Exibia um tom de pele muito mais claro que o de Aaron, quase translúcido, facilitando a visão de um circuito de veias azuis, verdes e roxas.
O Bertolazzo praguejou algo em italiano ao vê-lo, parecendo, pela primeira vez na viagem, assustado. Mesmo assim, recuperou a carranca habitual com uma cotovelada de Amélia.
— Em que posso ajudá-los, senhores? — O vendedor tinha um sorriso macabro, muito mais assustador e aterrorizante do que o de Aaron. Internamente, o filho de Tânato sentiu-se ofendido. Estava preparado para tomar as rédeas da situação, já levando a mão às costas e a cintura, onde alguém normalmente guardaria uma pistola, a fim de apanhar a espada, mas Amélia entrou em sua frente.
— Gostaríamos de dar uma olhada em seus produtos. — Ela sorriu docilmente. Se fosse possível, o sorriso do atendente abriu-se ainda mais.
— Oh, sim, façam o favor... — Ele estendeu as mãos, indicando a cortina de contas da qual viera. Os três seguiram para o local, embora Aaron tivesse a mandíbula travada e os punhos cerrados dentro dos bolsos, as garras já expostas. Os olhos verde-amendoados ameaçavam mudar o tom para vermelho sangue a qualquer instante, com o mínimo sinal de ameaça.
O homem foi logo atrás do trio. Aaron conseguia ouvir seus batimentos cardíacos acelerados... Havia algo de errado ali. Despiu a jaqueta, amarrando-a na cintura, esperando que a luz fosse ligada.
Um caminho de luzes foi acendendo-se, um par de lâmpadas de cada vez, iluminando um galpão com paredes desgastadas e sujas, escondidas por altas prateleiras com produtos, e diversos modelos de colchões expostos em camas mais simples. Dos mais luxuosos aos mais humildes, com variadas densidades, tamanhos e materiais.
Enquanto explicava sobre cada um dos modelos, Amélia fingia prestar atenção. Levih voltou a colocar os fones de ouvido, e Aaron ainda procurava uma ameaça, embora tudo parecesse muito bem, e ele perguntava-se se estava sendo realmente cruel em julgar o homem por um maníaco homicida apenas por sua aparência. Estava tão perdido em pensamentos que mal perceberam quando passaram por um dos colchões que, obviamente, era um dos mais caros e luxuosos.
Não sabia o porquê, mas Aaron sentiu uma incrível vontade de deitar-se ali, assim como seus parceiros. Ele parou, e todos também estacaram o passo diante daquele leito.
— E este, qual é? — O filho de Tânato apontou. O vendedor balançou a cabeça negativamente, parecendo apreensivo, e Aaron ouviu seus batimentos acelerando.
— Nossa edição limitada Emperor, senhor. — E começou a explicar os prós do modelo. — Este é um tipo de... Amostra grátis. Os senhores podem experimentá-lo.
Não levou muito tempo para que Levih, Aaron e Amélia estivessem aconchegados ao leito, grande o suficiente para abrigá-los com uma boa folga entre os três. No entanto, Aaron era alto demais. Quando levantou os braços acima da cabeça, os mesmos não tocaram o tecido macio do colchão, embora Amélia fosse capaz de fazê-lo sem dificuldade. Na verdade, ela era bem menor que a cama. Já Levih adaptara-se perfeitamente. Mesmo assim, tudo aconteceu muito rápido.
Quando se deram conta, estavam presos. Amarras de couro com prata haviam surgido no corpo do Bertolazzo, impedindo-o de se movimentar, e a prata queimava sua pele, fazendo-o urrar como um animal. Amélia, ao seu lado, estava na mesma situação. O único que se salvara fora Levih, que se levantara e procurava uma maneira de soltar os parceiros.
Um murro acertou a cabeça do filho de Despina e levou-o ao chão antes que pudesse evitar. Aparentemente, o vendedor era mais forte do que aparentava. Ele gargalhou sadicamente ao ver ambas as presas imobilizadas, e só então Aaron percebeu a serra que se aproximava de si, perigosamente, ameaçando cortar seus braços na altura dos cotovelos.
Rosnando, o Bertolazzo baixou o olhar para o homem, sentindo os primeiros espasmos musculares tomando conta de seu corpo. — PROCUSTO, CAZZO MALEDETTO FIGLIO DI PUTTANA! — Praguejou, em alto e bom som, competindo com o som das gargalhadas do homem. Aaron se lembrava dele, como não fora esperto o bastante para descobrir? Estava na história de Teseu, o homem que cedia um leito aos viajantes, mas cortava as partes que ficavam para fora do mesmo, assim como esticava os que não ocupavam todo o espaço.
Mas era tarde demais. Enquanto praguejava e debatia-se, tentando soltar-se, perturbado pelas gargalhadas sádicas do homem à sua frente, o lobo pedia passagem em seu peito. Diferente das outras vezes em que isso acontecia, Aaron disse sim ao descontrole, entregou-se ao mesmo, pulou na parte sombria de sua mente.
Quando a serra tocou em sua pele fria, rasgando pele, estraçalhando músculo e partindo osso, o lobo já havia assumido. Ainda assim, ele soltou um uivo doloroso quando o braço foi cortado, na altura do cotovelo. No instante em que abriu os olhos, as íris exibiam um tom temível de vermelho sangue. As amarras foram rompidas, e a última coisa que Aaron ouviu antes de perder a consciência completamente foi um grito, enquanto a escuridão de sua alma mostrava-se através dos globos oculares, e o empurrava para dentro de si mesmo.













