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DESAFIO I :: ALISTAMENTO / Tally Fairchild, Capital
- Por que não? - Minha irmã, Carter, insiste na pergunta, quase me fazendo perder a paciência. Reviro os olhos, me controlando para não dar uma resposta grosseira. Carter suspira, visivelmente irritada.
- Porque não, oras. Quem quer ir é você, e não eu.
- Eu sei, mas…
- Mas nada – Interrompo-a. Minha irmã faz uma careta, mas eu ignoro, e continuo: – Seja feliz se inscrevendo e se matando, eu vou ficar aqui.
Levanto da cama e ando até a janela, onde eu paro e observo a paisagem lá fora. Como meu quarto fica na parte de trás da casa, a vista da janela é o grande jardim que eu e minha mãe começamos à plantar quando eu tinha quinze anos.
- Deixe de ser careta. Vai ser legal! – Carter diz, entusiasmada. Viro-me para encara-la. – Se eu já sou foda sozinha, imagine duas de mim!
Reviro os olhos para o egocentrismo de minha irmã.
- Eu não sou você, Carter.
- Eu, você, tudo a mesma coisa – Ela dá de ombros – Nós seríamos imbatíveis na arena. Você sabe disso.
- Por que você não se contenta em destruir só a si mesma? – Digo um pouco mais alto e com mais firmeza também. Sinceramente, ela já estava me tirando do sério com toda essa insistência. – Por que precisa afetar a mim também?
- Eu só quero que você tenha alguma diversão em sua vida.
- Diversão? Jura mesmo? - Pergunto com ironia.
Carter porém, assente.
- Nós passamos os últimos vinte e um anos escondidas entre essas paredes. Nada de emoção, nada de viver. Mamãe e papai nunca nos deixa fazer nada, mas não podem nos impedir disto.
Eu arregalo os olhos de repente, e então abaixo um pouco a voz para perguntar:
- Nossos pais não sabem que você está pensando em se inscrever?
- Claro que não! – Ela sussurra também. – Nunca deixariam. Nos trancariam aqui até o fim do prazo do alistamento.
- Pode ter certeza que é por um excelente motivo. – Digo dando as costas para ela e indo em direção à porta. Só então me dou conta de que este é o meu quarto e me viro para ela novamente: - Aliás, esse quarto é meu. Saia daqui.
- Tally, por favor! – Ela exclama, fazendo uma expressão persuasiva. – Eu nunca pedi nada para você, não pode conceder esse único pedido?
Fecho os olhos irritada e suspiro. Eu conheço minha irmã, ela não irá desistir, então para que continuar discutindo se eu vou acabar cedendo mais cedo ou mais tarde?
- Se eu fazer a inscrição, mesmo sem ser selecionada, você promete que cala a merda da boca?!
Carter sorri, concordando e eu jogo os braços para o alto, me rendendo de uma vez por todas.
- Só não diga que sou uma irmã ruim. - Brinco, jogando-me em minha cama, cansada de tanto argumentar com Carter.
- Claro, Tally – Ela responde com um sorrisinho no rosto. – Você é a melhor irmã que alguém poderia querer.
[...]
Quando chegamos à antiga mansão presidencial, nós a encontramos vazia. Claro que há alguns funcionários, mas além deles e de uma mulher de meia idade sentada atrás de um balcão, nós somos as únicas pessoas presentes. Tento me acalmar respirando fundo duas vezes antes de me aproximar do balcão junto de minha irmã. Eu aceitei mandar minha ficha para o alistamento, mas achei melhor vir logo, antes que nossos pais voltassem para casa ou que eu perdesse a coragem. O que viesse primeiro.
- Olá – Cumprimento a mulher que fazia anotações em um caderno, com um sorriso falso no rosto.
- Como posso ajudá-las? - A mulher pergunta, meio mal-humorada.
- Estamos aqui para o alistamento para os Jogos Vorazes. - Carter responde por nós duas.
A mulher ergue uma sobrancelha.
- Sério? – ambas assentimos – Qual de vocês irá?
- Nós duas – Eu e minha irmã respondemos em uníssono.
A mulher pisca como se estivesse saindo de um transe e abre uma gaveta, retirando duas folhas de papel e em seguida nos entregando. Ela aponta para um conjunto de mesas atrás de nós e diz que podemos preencher as fichas ali.
Saio na frente, deixando minha irmã para trás e me sento na mesa esquerda. Segundos depois Carter se aproxima e se senta a duas mesas de mim. Encaro-a achando estranho tal ato, mas dou de ombros e encaro a ficha à minha frente. É tudo muito básico. Nome, idade, endereço... E o motivo de minha inscrição nos Jogos.
Encaro esse último item por mais tempo que o necessário. O que eu escreveria ali? Que a minha irmã gêmea havia praticamente me obrigado à me alistar? Suspiro, me sentindo em conflito comigo mesma. Por que eu estou me importando com isso, mesmo? Ora essa, eu não quero ir para os Jogos Vorazes! Decido apenas escrever na linha do meio a palavra "fama" com uma letra bem grande. Não seria muita novidade para quem quer que fosse ler essa ficha, afinal, basicamente todo cidadão da Capital quer isso. A glamorosa, porém traiçoeira, fama.
Levanto da mesa e entrego minha ficha para a mulher, que dá um sorriso educado e guarda meu papel. Ando até Carter olhando por cima de seu ombro e vejo que a ficha está completamente em branco. Franzo o cenho e pergunto:
- Problemas para preencher o formulário?
- Eu… É. – Ela diz, surpresa por me ver ao seu lado. Seu rosto está corado e ela parece meio sem graça. – Estou travada. Não sei o que escrever.
- Que tal começar por seu nome? – Aponto para o espaço onde se lia "nome completo". Carter dá uma risada fraca.
- Claro – concorda – Meu nome.
Espero ela escrever algo, mas Carter continua parada, olhando para o papel.
- Você… Já entregou a sua? – Minha irmã pergunta. Eu assinto.
- Acabei de levar lá. Sinceramente, achei que você terminaria primeiro! – Solto uma risada, tentado descontrair o clima, mas parece que não dá muito certo, pois Carter apenas esboça um sorrisinho sem graça. Então ela começa à escrever na ficha. Quando termina, entrega-a para a mulher e em silêncio nós saímos da mansão, cada uma indo para um lado oposto.
[...]
Quando eu cheguei em casa ontem à noite, eu não consegui nem encarar meus pais sem sentir culpa. Mamãe estava toda sorridente, me contando sobre seu dia e me pedindo ajuda para fazer a nossa famosa torta de maçã. Basicamente, todos os dias na casa da família Fairchild eram assim. Minha irmã ficava fora o dia todo e só voltava na hora do jantar, enquanto eu passava o dia todo com mamãe, fazendo doces ou cuidando do jardim. Em um certo ponto Carter tinha razão. A nossa rotina era entediante. Ou pelo menos a minha. Eu nunca me divertia. Eu nem ao menos tinha amigos de verdade. Tento me lembrar da última vez em que eu fiz algo realmente divertido. Só consigo me lembrar do meu último aniversário em que fui com meus pais à um parque de diversões. O que, lembrando agora, também parecia entediante.
Estou trancada em meu quarto desde cedo, lendo para tentar me distrair. Eu não queria pensar em que hoje a noite será o anúncio dos escolhidos para os Jogos Vorazes e que eu poderia ser escolhida. Quando estou quase terminando de ler o meu livro, eu escuto uma batida na porta. É minha mãe avisando que o jantar está pronto. Fecho o livro deixando-o na cama e saio do quarto indo até a sala de jantar, onde meus pais já estão sentados à mesa. Me sento no lugar de sempre e olho para o jantar.
- Parece muito bom, mamãe. - Elogio-a, pois sei como ela adora que apreciem seu dom culinário. Como previsto, ela sorri.
- Muito obrigada, querida. - Mamãe responde, mas então seu sorriso se desmancha quando ela olha para o lado e vê uma cadeira vazia. - Onde será que está a sua irmã?
- Arranjando problemas, provavelmente. - Papai responde por mim, num tom mal-humorado. Eu tento rir para quebrar o clima tenso.
- Ah, bem, vocês sabem como ela é. Deve estar na casa de uma amiga. - Digo dando de ombros, como se não fosse nada demais.
- Só espero que ela não chegue tarde demais. Mas, já que ela não virá mesmo, sobra mais sobremesa pra você, não é mesmo, bebê? - Mamãe sorri apertando minhas bochechas e eu dou um sorriso forçado, tentando não revirar os olhos.
Nós terminamos de comer em silêncio. Depois do jantar, minha mãe tira a mesa e nós vamos para a sala de estar, ver televisão enquanto comemos nosso pedaço da torta de maçã que eu e mamãe fizemos mais cedo. Está na hora, penso quando meu pai liga a televisão e Gavril Flickerman, filho de Caesar e o novo apresentador, aparece na tela. Ele começa à falar o bando de baboseiras de sempre e então avisa que está na hora da anunciação dos escolhidos. Me endireito no sofá, me sentindo tensa. Minha mãe percebe, mas não diz nada, apenas sorri e come mais um pedaço da torta. Tento comer outro pedaço também, mas eu estou tão nervosa que isso só me dá mais náuseas.
Gavril sorri para a cama, dizendo o primeiro nome. E então é como se tudo houvesse virado de cabeça para baixo. O nome Carter Fairchild pisca na tela e meus pais me encaram, completamente espantados. Minha mãe começa à chorar e o meu pai olha novamente para a tela, chocado. O nome de Carter desaparece e outro toma o seu lugar. Feelcy Klist. Não a conheço, então simplesmente ignoro-a. Segundos depois o nome Frieda Snow aparece na tela. A neta do antigo presidente Snow como tributo? Quanta ironia. Seu nome desaparece, apenas para dar lugar para outro Snow. Isso só pode ser brincadeira, penso sarcasticamente. O nome do outro neto de Snow aparece. Luke. Eu também não conheço nenhum dos dois, mas é bom saber que não foram apenas eu e minha irmã que nos alistamos. Isso quer dizer que eu tenho chances.
Chances de não ser escolhida.
Quando o nome de Luke Snow desaparece, outro dá lugar à ele. Meu coração para por um instante e eu encaro a televisão sem acreditar. Agora meus pais estão desesperados. Minha mãe grita, me perguntando por que nós nos alistamos, mas eu estou concentrada demais em minha própria dor. Carter havia sido escolhida e depois eu também fui. Não sei quando comecei à chorar, mas quando percebo já estou nos braços de minha mãe, chorando descontroladamente. Meu pai está de pé, andando de um lado para o outro na sala, tentando entender por que eu estou chorando se eu mesma havia me alistado. Eu choro até escutar a porta se abrir e minha irmã nos encarar sem entender nada. Papai encara-a com os olhos cheios de fúria.
- Você! - Ele aponta para Carter. - Você obrigou sua irmã à se alistar para os Jogos Vorazes.
- O que? Eu... Você contou à eles? - Minha irmã pergunta, com os olhos arregalados.
Nego com a cabeça, ainda abalada para falar.
- Nem precisou, Carter. Vocês foram escolhidas. Vocês duas. - Meu pai diz com uma voz amarga e depois solta uma risada sarcástica. - Mas é claro que vocês foram escolhidas. Até parece que eles iriam perder uma história dessas. Duas irmãs da Capital indo para os Jogos Vorazes juntas. É tudo muito dramático, não é mesmo?
- Pai, por favor... - Tento fazer ele parar de descontar sua raiva em Carter, mas ele me interrompe.
- Não, Tally, sua irmã tem que ouvir! Como você teve coragem de enganar sua irmã só para ir aos Jogos? E por que diabos você quer ir aos Jogos Vorazes? Será que tudo o que você aprendeu sobre eles na escola não foram suficientes?!
- Você fala como se fosse a pior coisa do mundo – Minha irmã murmura.
- Porque é! – Nosso pai retruca, aumentando a voz.
- Não, não é! – Carter diz, no mesmo tom de voz. Eu me encolho, fungando. – Sabe o que é tão ruim assim? Viver presa nessa droga de casa sendo obrigada a olhar para a cara dela – Ela aponta para mim e eu arregalo os olhos, sem entender o que ela quer dizer – todos os dias sabendo que eu nunca vou ser considerada como ela é!
- Do que você está falando? – Minha mãe pergunta, indignada.
- Ah, por favor! Tally sempre fora a filha perfeitinha de vocês. Tanta perfeição que eu sou apenas um detalhe na família!
Encaro minha irmã, chocada com suas palavras. Então era isso que ela pensava sobre mim? Reprimo a vontade de chorar. Eu nunca pensei que ela me odiasse tanto assim. Eu sabia que ela guardava alguns ressentimentos, mas esse ódio todo? Balanço a cabeça sem querer acreditar.
- E vocês querem saber de uma coisa? – Ela diz, olhando para todos; Quando seus olhos param em mim, eu desvio o olhar, magoada. – Eu prefiro mil vezes morrer naquela arena que morar aqui! - Sua voz falha nessa última parte mas ela não se abala. Apenas nos dá as costas e sobe as escadas, batendo a porta quando chega em seu quarto.
[...]
Eu praticamente não dormi ontem. Quando Carter fugiu da briga se trancando em seu quarto, eu retornei à chorar, me refugiando nos braços de minha mãe. Ainda era difícil de acreditar, mas estava acontecendo. Em poucas horas alguns funcionários da Capital chegariam para nos levar daqui. Eu não sei exatamente o que iremos fazer quando chegarmos lá, mas só de pensar que talvez eu nunca mais volte para casa, já fico apavorada. Quando eu finalmente dormi eu tive pesadelos. Com a arena, minha irmã e sangue. Muito sangue. Acordei de supetão, com minha mãe me chamando para me arrumar e depois de um banho e do café da manhã, eu me coloquei de pé diante da porta de casa, avistando alguns pacificadores ao longe, no final da rua. Quando eles chegam diante da porta de casa, eu olho para dentro, procurando minha irmã, mas logo paro e olho novamente para frente, engolindo em seco. Eu ainda estava muito magoada com as palavras que Carter havia dito ontem à noite. Mas logo ela aparece ao meu lado e acena para nossos pais, sem olhar nem uma vez sequer para mim. Eu também aceno para os nossos pais e então entramos em uma limousine, que provavelmente nos levará para o prédio dos tributos.
Já há quatro pessoas nela. Três homens e uma mulher. Eles não se apresentam. Na verdade, eles nem sequer olham diretamente para nós, então eu também fico quieta. Alguns minutos depois, o carro para e um pacificador abre a porta para nós. Eu sou a primeira à sair e logo depois de mim, um homem moreno e um pouco mais baixo que eu cambaleia para fora também. Ele é seguido pela mulher ruiva que estava junto aos homens. Quando Carter está prestes à sair também, a ruiva me puxa pelo braço e me leva até um quarto.
- Será seu até o dia da arena. - Ela diz, fazendo uma careta ao falar a palavra "arena". A ruiva me estende a mão, com um sorriso no rosto. - Eu sou Summer Vanderline, sua estilista.
Sorrio e aperto sua mão.
- Tally Fair...
- Eu sei. - Ela me interrompe com a voz doce, ainda com o sorriso no rosto. Sinto um cheiro de cigarro e me viro para o homem que havia nos acompanhado até aqui.
Quando ele percebe que eu estou o encarando, ele semicerra os olhos e depois me oferece o cigarro. Pego-o, apenas para joga-lo no chão e pisar em cima dele.
- Você vai morrer de câncer de pulmão. - Digo irritada, tossindo um pouco por causa da fumaça que ainda pairava sobre o ar. Ele me encara com as sobrancelhas erguidas, me olhando incrédulo.
- Isso era pra ser algum tipo de profecia? - Pergunta ironicamente, com um quê de desafio na voz.
- Se você continuar fumando perto de mim, sim. - Retruco no mesmo tom. Summer solta uma risadinha e então pigarreia.
- Certo, Tally, esse aqui é Edwin Bugg, o seu mentor. Ele tem uns probleminhas com a nicotina. - Ela diz e Edwin revira os olhos, tirando uma garrafinha de prata do bolso do terno, na qual ele dá um grande gole. - E com o álcool também.
Ela ri novamente e eu me permito soltar um riso fraco também.
- Bem, se a senhorita já está tão bem instalada e com uma ótima companhia, acho que eu já posso me retirar. - Edwin esboça um sorriso sarcástico. - Tenha um bom dia e tente não morrer antes de entrar na arena. - E com essas últimas palavras ele deixa o recinto, me deixando sozinha com Summer.
- Ele é esquisito. - Digo quando a porta é totalmente fechada. Summer dá de ombros.
- Não é tão ruim quanto parece. Ele tem apenas dezenove anos mas já passou por maus bocados.
- Como o quê? - Pergunto curiosa. Summer dá de ombros novamente.
- Isso não vem ao caso agora.
Ergo uma das sobrancelhas, mas decido não insistir no assunto.
- Devo me preocupar com uma possibilidade de morte por causa de um certo mentor bêbado que pode vir por acaso à esquecer de mandar um paraquedas com algum remédio milagroso? - Pergunto, só depois me dando conta da complexidade da pergunta. Rio quando Summer ergue uma das sobrancelhas parecendo confusa. - Deixa pra lá.
- Eu preciso ir agora, mas prometo voltar em breve. - Ela diz.
- Temos muitas surpresas pela frente? - Pergunto. A ruiva balança a cabeça negativamente.
- Eu não sei. Provavelmente, mas acho que nem mesmo Edwin deve saber. Procure ficar calma. - Ela aconselha. - Você pode ser apenas uma criança da Capital, mas todo mundo tem um guerreiro dentro de si. Ache-a e se prepare. O jogo começa agora.














