o tfc vai continuar gnt? me avisem pf pq n sei se posso continuar aq -wendy, a mais brilhosa
Sinceramente, não sei. Acho que ele entrou em Hiatus.
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o tfc vai continuar gnt? me avisem pf pq n sei se posso continuar aq -wendy, a mais brilhosa
Sinceramente, não sei. Acho que ele entrou em Hiatus.
Eu estou bem! e você Pryor?
/Clary
---
Ah, não muito, mas. /Pryor
Td bem?-Luke
Nope. /Pryor
Oi!-Luke
Heeey Luke /Pryor
Olá!
/Clary
----
Olá Clary. Tudo bom? /Pryor
Adoro que interajam comigo nos desafios c: /Jean ou Maddie ou Pryor
Desafio 2 - Conhecendo o inimigo.
Iremos facilitar um pouco a vida de vocês, tributos. O desafio de hoje é nada menos que diversão e folga não só para vocês como para nossas queridas organizadoras do jogos -- Jean, Alasca e Arya. Esperamos que aproveite bem, e vivam como se não houvesse amanhã!
O desafio deve conter (e nessa ordem):
Vocês acordando no dia seguinte: descreva como foi passar uma noite em Panem, como se sentiu ao acordar.
Passando a tarde em seu apartamento com seus parceiros de distrito: interaja. Brigas, beijos, abraços; tudo é permitido, menos machucar fisicamente.
De noite: Nesse momento, seus representantes da Capital leva-os para uma sala com todos os outros tributos -- vocês que escolhem se preferem ou não vestir algo melhor --, com as Fantasmas e a Game Maker. Descreva como foi encontrá-los. PS: Há bebidas leves e pesadas na tal festa.
O jogo: Este irá começar quando todo mundo dizer uma roda em torno de uma garrafa, a famosa brincadeira do verdade ou desafio -- Vale apenas quatro verdades, ein. -- Os desafios podem variar de acordo com a criatividade de cada um, coisa que também avaliamos. Nada de desafios pesados como mandar lamber o chão, tocar no cocô, etc.
O desafio deve ser entregue dia 20/01/2014 ás 22h -- horário de verão -- por SUBMIT. E lembre-se: que a sorte esteja sempre ao seu favor.
Quando será postado o ds 2?
Logo meu amor, espere um pouco. Amanha eu posto, até 00h. /Jean
Woho, aqui liz ifjghjklç
DESAFIO I :: ALISTAMENTO / Tally Fairchild, Capital
- Por que não? - Minha irmã, Carter, insiste na pergunta, quase me fazendo perder a paciência. Reviro os olhos, me controlando para não dar uma resposta grosseira. Carter suspira, visivelmente irritada.
- Porque não, oras. Quem quer ir é você, e não eu.
- Eu sei, mas…
- Mas nada – Interrompo-a. Minha irmã faz uma careta, mas eu ignoro, e continuo: – Seja feliz se inscrevendo e se matando, eu vou ficar aqui.
Levanto da cama e ando até a janela, onde eu paro e observo a paisagem lá fora. Como meu quarto fica na parte de trás da casa, a vista da janela é o grande jardim que eu e minha mãe começamos à plantar quando eu tinha quinze anos.
- Deixe de ser careta. Vai ser legal! – Carter diz, entusiasmada. Viro-me para encara-la. – Se eu já sou foda sozinha, imagine duas de mim!
Reviro os olhos para o egocentrismo de minha irmã.
- Eu não sou você, Carter.
- Eu, você, tudo a mesma coisa – Ela dá de ombros – Nós seríamos imbatíveis na arena. Você sabe disso.
- Por que você não se contenta em destruir só a si mesma? – Digo um pouco mais alto e com mais firmeza também. Sinceramente, ela já estava me tirando do sério com toda essa insistência. – Por que precisa afetar a mim também?
- Eu só quero que você tenha alguma diversão em sua vida.
- Diversão? Jura mesmo? - Pergunto com ironia.
Carter porém, assente.
- Nós passamos os últimos vinte e um anos escondidas entre essas paredes. Nada de emoção, nada de viver. Mamãe e papai nunca nos deixa fazer nada, mas não podem nos impedir disto.
Eu arregalo os olhos de repente, e então abaixo um pouco a voz para perguntar:
- Nossos pais não sabem que você está pensando em se inscrever?
- Claro que não! – Ela sussurra também. – Nunca deixariam. Nos trancariam aqui até o fim do prazo do alistamento.
- Pode ter certeza que é por um excelente motivo. – Digo dando as costas para ela e indo em direção à porta. Só então me dou conta de que este é o meu quarto e me viro para ela novamente: - Aliás, esse quarto é meu. Saia daqui.
- Tally, por favor! – Ela exclama, fazendo uma expressão persuasiva. – Eu nunca pedi nada para você, não pode conceder esse único pedido?
Fecho os olhos irritada e suspiro. Eu conheço minha irmã, ela não irá desistir, então para que continuar discutindo se eu vou acabar cedendo mais cedo ou mais tarde?
- Se eu fazer a inscrição, mesmo sem ser selecionada, você promete que cala a merda da boca?!
Carter sorri, concordando e eu jogo os braços para o alto, me rendendo de uma vez por todas.
- Só não diga que sou uma irmã ruim. - Brinco, jogando-me em minha cama, cansada de tanto argumentar com Carter.
- Claro, Tally – Ela responde com um sorrisinho no rosto. – Você é a melhor irmã que alguém poderia querer.
[...]
Quando chegamos à antiga mansão presidencial, nós a encontramos vazia. Claro que há alguns funcionários, mas além deles e de uma mulher de meia idade sentada atrás de um balcão, nós somos as únicas pessoas presentes. Tento me acalmar respirando fundo duas vezes antes de me aproximar do balcão junto de minha irmã. Eu aceitei mandar minha ficha para o alistamento, mas achei melhor vir logo, antes que nossos pais voltassem para casa ou que eu perdesse a coragem. O que viesse primeiro.
- Olá – Cumprimento a mulher que fazia anotações em um caderno, com um sorriso falso no rosto.
- Como posso ajudá-las? - A mulher pergunta, meio mal-humorada.
- Estamos aqui para o alistamento para os Jogos Vorazes. - Carter responde por nós duas.
A mulher ergue uma sobrancelha.
- Sério? – ambas assentimos – Qual de vocês irá?
- Nós duas – Eu e minha irmã respondemos em uníssono.
A mulher pisca como se estivesse saindo de um transe e abre uma gaveta, retirando duas folhas de papel e em seguida nos entregando. Ela aponta para um conjunto de mesas atrás de nós e diz que podemos preencher as fichas ali.
Saio na frente, deixando minha irmã para trás e me sento na mesa esquerda. Segundos depois Carter se aproxima e se senta a duas mesas de mim. Encaro-a achando estranho tal ato, mas dou de ombros e encaro a ficha à minha frente. É tudo muito básico. Nome, idade, endereço... E o motivo de minha inscrição nos Jogos.
Encaro esse último item por mais tempo que o necessário. O que eu escreveria ali? Que a minha irmã gêmea havia praticamente me obrigado à me alistar? Suspiro, me sentindo em conflito comigo mesma. Por que eu estou me importando com isso, mesmo? Ora essa, eu não quero ir para os Jogos Vorazes! Decido apenas escrever na linha do meio a palavra "fama" com uma letra bem grande. Não seria muita novidade para quem quer que fosse ler essa ficha, afinal, basicamente todo cidadão da Capital quer isso. A glamorosa, porém traiçoeira, fama.
Levanto da mesa e entrego minha ficha para a mulher, que dá um sorriso educado e guarda meu papel. Ando até Carter olhando por cima de seu ombro e vejo que a ficha está completamente em branco. Franzo o cenho e pergunto:
- Problemas para preencher o formulário?
- Eu… É. – Ela diz, surpresa por me ver ao seu lado. Seu rosto está corado e ela parece meio sem graça. – Estou travada. Não sei o que escrever.
- Que tal começar por seu nome? – Aponto para o espaço onde se lia "nome completo". Carter dá uma risada fraca.
- Claro – concorda – Meu nome.
Espero ela escrever algo, mas Carter continua parada, olhando para o papel.
- Você… Já entregou a sua? – Minha irmã pergunta. Eu assinto.
- Acabei de levar lá. Sinceramente, achei que você terminaria primeiro! – Solto uma risada, tentado descontrair o clima, mas parece que não dá muito certo, pois Carter apenas esboça um sorrisinho sem graça. Então ela começa à escrever na ficha. Quando termina, entrega-a para a mulher e em silêncio nós saímos da mansão, cada uma indo para um lado oposto.
[...]
Quando eu cheguei em casa ontem à noite, eu não consegui nem encarar meus pais sem sentir culpa. Mamãe estava toda sorridente, me contando sobre seu dia e me pedindo ajuda para fazer a nossa famosa torta de maçã. Basicamente, todos os dias na casa da família Fairchild eram assim. Minha irmã ficava fora o dia todo e só voltava na hora do jantar, enquanto eu passava o dia todo com mamãe, fazendo doces ou cuidando do jardim. Em um certo ponto Carter tinha razão. A nossa rotina era entediante. Ou pelo menos a minha. Eu nunca me divertia. Eu nem ao menos tinha amigos de verdade. Tento me lembrar da última vez em que eu fiz algo realmente divertido. Só consigo me lembrar do meu último aniversário em que fui com meus pais à um parque de diversões. O que, lembrando agora, também parecia entediante.
Estou trancada em meu quarto desde cedo, lendo para tentar me distrair. Eu não queria pensar em que hoje a noite será o anúncio dos escolhidos para os Jogos Vorazes e que eu poderia ser escolhida. Quando estou quase terminando de ler o meu livro, eu escuto uma batida na porta. É minha mãe avisando que o jantar está pronto. Fecho o livro deixando-o na cama e saio do quarto indo até a sala de jantar, onde meus pais já estão sentados à mesa. Me sento no lugar de sempre e olho para o jantar.
- Parece muito bom, mamãe. - Elogio-a, pois sei como ela adora que apreciem seu dom culinário. Como previsto, ela sorri.
- Muito obrigada, querida. - Mamãe responde, mas então seu sorriso se desmancha quando ela olha para o lado e vê uma cadeira vazia. - Onde será que está a sua irmã?
- Arranjando problemas, provavelmente. - Papai responde por mim, num tom mal-humorado. Eu tento rir para quebrar o clima tenso.
- Ah, bem, vocês sabem como ela é. Deve estar na casa de uma amiga. - Digo dando de ombros, como se não fosse nada demais.
- Só espero que ela não chegue tarde demais. Mas, já que ela não virá mesmo, sobra mais sobremesa pra você, não é mesmo, bebê? - Mamãe sorri apertando minhas bochechas e eu dou um sorriso forçado, tentando não revirar os olhos.
Nós terminamos de comer em silêncio. Depois do jantar, minha mãe tira a mesa e nós vamos para a sala de estar, ver televisão enquanto comemos nosso pedaço da torta de maçã que eu e mamãe fizemos mais cedo. Está na hora, penso quando meu pai liga a televisão e Gavril Flickerman, filho de Caesar e o novo apresentador, aparece na tela. Ele começa à falar o bando de baboseiras de sempre e então avisa que está na hora da anunciação dos escolhidos. Me endireito no sofá, me sentindo tensa. Minha mãe percebe, mas não diz nada, apenas sorri e come mais um pedaço da torta. Tento comer outro pedaço também, mas eu estou tão nervosa que isso só me dá mais náuseas.
Gavril sorri para a cama, dizendo o primeiro nome. E então é como se tudo houvesse virado de cabeça para baixo. O nome Carter Fairchild pisca na tela e meus pais me encaram, completamente espantados. Minha mãe começa à chorar e o meu pai olha novamente para a tela, chocado. O nome de Carter desaparece e outro toma o seu lugar. Feelcy Klist. Não a conheço, então simplesmente ignoro-a. Segundos depois o nome Frieda Snow aparece na tela. A neta do antigo presidente Snow como tributo? Quanta ironia. Seu nome desaparece, apenas para dar lugar para outro Snow. Isso só pode ser brincadeira, penso sarcasticamente. O nome do outro neto de Snow aparece. Luke. Eu também não conheço nenhum dos dois, mas é bom saber que não foram apenas eu e minha irmã que nos alistamos. Isso quer dizer que eu tenho chances.
Chances de não ser escolhida.
Quando o nome de Luke Snow desaparece, outro dá lugar à ele. Meu coração para por um instante e eu encaro a televisão sem acreditar. Agora meus pais estão desesperados. Minha mãe grita, me perguntando por que nós nos alistamos, mas eu estou concentrada demais em minha própria dor. Carter havia sido escolhida e depois eu também fui. Não sei quando comecei à chorar, mas quando percebo já estou nos braços de minha mãe, chorando descontroladamente. Meu pai está de pé, andando de um lado para o outro na sala, tentando entender por que eu estou chorando se eu mesma havia me alistado. Eu choro até escutar a porta se abrir e minha irmã nos encarar sem entender nada. Papai encara-a com os olhos cheios de fúria.
- Você! - Ele aponta para Carter. - Você obrigou sua irmã à se alistar para os Jogos Vorazes.
- O que? Eu... Você contou à eles? - Minha irmã pergunta, com os olhos arregalados.
Nego com a cabeça, ainda abalada para falar.
- Nem precisou, Carter. Vocês foram escolhidas. Vocês duas. - Meu pai diz com uma voz amarga e depois solta uma risada sarcástica. - Mas é claro que vocês foram escolhidas. Até parece que eles iriam perder uma história dessas. Duas irmãs da Capital indo para os Jogos Vorazes juntas. É tudo muito dramático, não é mesmo?
- Pai, por favor... - Tento fazer ele parar de descontar sua raiva em Carter, mas ele me interrompe.
- Não, Tally, sua irmã tem que ouvir! Como você teve coragem de enganar sua irmã só para ir aos Jogos? E por que diabos você quer ir aos Jogos Vorazes? Será que tudo o que você aprendeu sobre eles na escola não foram suficientes?!
- Você fala como se fosse a pior coisa do mundo – Minha irmã murmura.
- Porque é! – Nosso pai retruca, aumentando a voz.
- Não, não é! – Carter diz, no mesmo tom de voz. Eu me encolho, fungando. – Sabe o que é tão ruim assim? Viver presa nessa droga de casa sendo obrigada a olhar para a cara dela – Ela aponta para mim e eu arregalo os olhos, sem entender o que ela quer dizer – todos os dias sabendo que eu nunca vou ser considerada como ela é!
- Do que você está falando? – Minha mãe pergunta, indignada.
- Ah, por favor! Tally sempre fora a filha perfeitinha de vocês. Tanta perfeição que eu sou apenas um detalhe na família!
Encaro minha irmã, chocada com suas palavras. Então era isso que ela pensava sobre mim? Reprimo a vontade de chorar. Eu nunca pensei que ela me odiasse tanto assim. Eu sabia que ela guardava alguns ressentimentos, mas esse ódio todo? Balanço a cabeça sem querer acreditar.
- E vocês querem saber de uma coisa? – Ela diz, olhando para todos; Quando seus olhos param em mim, eu desvio o olhar, magoada. – Eu prefiro mil vezes morrer naquela arena que morar aqui! - Sua voz falha nessa última parte mas ela não se abala. Apenas nos dá as costas e sobe as escadas, batendo a porta quando chega em seu quarto.
[...]
Eu praticamente não dormi ontem. Quando Carter fugiu da briga se trancando em seu quarto, eu retornei à chorar, me refugiando nos braços de minha mãe. Ainda era difícil de acreditar, mas estava acontecendo. Em poucas horas alguns funcionários da Capital chegariam para nos levar daqui. Eu não sei exatamente o que iremos fazer quando chegarmos lá, mas só de pensar que talvez eu nunca mais volte para casa, já fico apavorada. Quando eu finalmente dormi eu tive pesadelos. Com a arena, minha irmã e sangue. Muito sangue. Acordei de supetão, com minha mãe me chamando para me arrumar e depois de um banho e do café da manhã, eu me coloquei de pé diante da porta de casa, avistando alguns pacificadores ao longe, no final da rua. Quando eles chegam diante da porta de casa, eu olho para dentro, procurando minha irmã, mas logo paro e olho novamente para frente, engolindo em seco. Eu ainda estava muito magoada com as palavras que Carter havia dito ontem à noite. Mas logo ela aparece ao meu lado e acena para nossos pais, sem olhar nem uma vez sequer para mim. Eu também aceno para os nossos pais e então entramos em uma limousine, que provavelmente nos levará para o prédio dos tributos.
Já há quatro pessoas nela. Três homens e uma mulher. Eles não se apresentam. Na verdade, eles nem sequer olham diretamente para nós, então eu também fico quieta. Alguns minutos depois, o carro para e um pacificador abre a porta para nós. Eu sou a primeira à sair e logo depois de mim, um homem moreno e um pouco mais baixo que eu cambaleia para fora também. Ele é seguido pela mulher ruiva que estava junto aos homens. Quando Carter está prestes à sair também, a ruiva me puxa pelo braço e me leva até um quarto.
- Será seu até o dia da arena. - Ela diz, fazendo uma careta ao falar a palavra "arena". A ruiva me estende a mão, com um sorriso no rosto. - Eu sou Summer Vanderline, sua estilista.
Sorrio e aperto sua mão.
- Tally Fair...
- Eu sei. - Ela me interrompe com a voz doce, ainda com o sorriso no rosto. Sinto um cheiro de cigarro e me viro para o homem que havia nos acompanhado até aqui.
Quando ele percebe que eu estou o encarando, ele semicerra os olhos e depois me oferece o cigarro. Pego-o, apenas para joga-lo no chão e pisar em cima dele.
- Você vai morrer de câncer de pulmão. - Digo irritada, tossindo um pouco por causa da fumaça que ainda pairava sobre o ar. Ele me encara com as sobrancelhas erguidas, me olhando incrédulo.
- Isso era pra ser algum tipo de profecia? - Pergunta ironicamente, com um quê de desafio na voz.
- Se você continuar fumando perto de mim, sim. - Retruco no mesmo tom. Summer solta uma risadinha e então pigarreia.
- Certo, Tally, esse aqui é Edwin Bugg, o seu mentor. Ele tem uns probleminhas com a nicotina. - Ela diz e Edwin revira os olhos, tirando uma garrafinha de prata do bolso do terno, na qual ele dá um grande gole. - E com o álcool também.
Ela ri novamente e eu me permito soltar um riso fraco também.
- Bem, se a senhorita já está tão bem instalada e com uma ótima companhia, acho que eu já posso me retirar. - Edwin esboça um sorriso sarcástico. - Tenha um bom dia e tente não morrer antes de entrar na arena. - E com essas últimas palavras ele deixa o recinto, me deixando sozinha com Summer.
- Ele é esquisito. - Digo quando a porta é totalmente fechada. Summer dá de ombros.
- Não é tão ruim quanto parece. Ele tem apenas dezenove anos mas já passou por maus bocados.
- Como o quê? - Pergunto curiosa. Summer dá de ombros novamente.
- Isso não vem ao caso agora.
Ergo uma das sobrancelhas, mas decido não insistir no assunto.
- Devo me preocupar com uma possibilidade de morte por causa de um certo mentor bêbado que pode vir por acaso à esquecer de mandar um paraquedas com algum remédio milagroso? - Pergunto, só depois me dando conta da complexidade da pergunta. Rio quando Summer ergue uma das sobrancelhas parecendo confusa. - Deixa pra lá.
- Eu preciso ir agora, mas prometo voltar em breve. - Ela diz.
- Temos muitas surpresas pela frente? - Pergunto. A ruiva balança a cabeça negativamente.
- Eu não sei. Provavelmente, mas acho que nem mesmo Edwin deve saber. Procure ficar calma. - Ela aconselha. - Você pode ser apenas uma criança da Capital, mas todo mundo tem um guerreiro dentro de si. Ache-a e se prepare. O jogo começa agora.
Carter Fairchild, Capital. Desafio 1. ~mandando pelo tumblr hispter por razões de sim~
- Por que não?
Tally revira os olhos pela milionésima vez em uma hora. Eu apenas suspiro, irritada, e pego um pequeno boneco que está no criado-mudo ao lado de sua cama. Analiso o bonequinho como se fosse a melhor coisa do mundo.
- Porque não, oras – ela responde – Quem quer ir é você, e não eu.
- Eu sei, mas...
- Mas nada – Tally me interrompe. Odeio quando ela faz isso. – Seja feliz se inscrevendo e se matando, eu vou ficar aqui.
Cerro os punhos. Não sei mais o que fazer para convencê-la. Por que minha irmã precisava ser tão cabeça-dura?
- Deixe de ser careta. Vai ser legal! – digo com entusiasmo – Se eu já sou foda sozinha, imagine duas de mim!
Ela revira os olhos. Milionésima e uma vez.
- Eu não sou você, Carter.
- Eu, você, tudo a mesma coisa – dou de ombros – Nós seríamos imbatíveis na arena. Você sabe disso.
- Por que você não se contenta em destruir só a si mesma? – percebo que Tally altera sua voz. Eu estava obtendo progresso – Por que precisa afetar a mim também?
Porque com você fora daqui, a filha preferida seria eu. Quase digo isso, mas me contenho no último momento.
- Eu só quero que você tenha alguma diversão em sua vida.
- Diversão? Jura mesmo?
Assenti.
- Nós passamos os últimos vinte e um anos escondidas entre essas paredes. Nada de emoção, nada de viver. Mamãe e papai nunca nos deixa fazer nada, mas não podem nos impedir disto.
Tally arregala os olhos de repente. Ela abaixa a voz para falar:
- Nossos pais não sabem que você está pensando em se inscrever?
- Claro que não! – sussurro também. As paredes de casa eram finas. – Nunca deixariam. Nos trancariam aqui até o fim do prazo do alistamento.
- Pode ter certeza que é por um excelente motivo. – ela se vira de costas e caminha em direção à porta, mas de repente para e se volta para mim – Aliás, esse quarto é meu. Saia daqui.
Decidi apelar.
- Tally, por favor! – faço minha melhor cara de persuasão. Sempre funciona – Eu nunca pedi nada para você, não pode conceder esse único pedido?
Ela fecha os olhos e suspira, e recoloco o boneco no lugar. Acho que finalmente consegui.
- Se eu me fazer a inscrição, mesmo sem ser selecionada, você promete que cala a merda da boca?!
Sorrio e assinto, sem fazer som algum. Ela joga os braços para o ar, se rendendo.
- Só não diga que sou uma irmã ruim.
Diminuo o sorriso que está em meu rosto. Tally sempre fora o centro da família – sempre recebendo mais elogios, sempre ganhando os melhores presentes, sempre sendo mais amada. Minha irmã era a gêmea perfeita: simpática, bondosa, doce, paciente, bonita (não posso negar; somos idênticas). Com isso, todas as desgraças humanas tiveram que cair sobre mim. Mas é claro que Tally não percebia o era fardo que era para mim.
- Claro, Tally – respondo – Você é a melhor irmã que alguém poderia querer.
(...)
Não há quase ninguém na mansão presidencial.
Na verdade, está vazia – com exceção de alguns funcionários, como o zelador interessado demais na tarefa de deixar o piso brilhando e a mulher sentada atrás de um balcão anotando algo em um grande caderno.
O hall de entrada era gigantesco. O teto fazia um arco sobre nossas cabeças e terminava em duas colunas – uma de cada lado. Lembrava algo como um palácio real ou algo do tipo.
Tally aceitou mandar sua ficha para o alistamento dos Jogos Vorazes, mas fez questão de ir logo em seguida – pois nossos pais não estavam em casa e também para que ela não mudasse de ideia ao longo do dia.
Não me importei. Quanto mais rápido eu fizesse isso, melhor. Antes que eu me pense melhor em minhas verdadeiras intenções.
- Olá – Tally cumprimenta a mulher que fazia anotações no caderno, sorridente. Resisto à tentação de revirar os olhos.
- Como posso ajudá-las?
- Estamos aqui para o alistamento – digo – para os Jogos Vorazes.
A mulher ergue uma sobrancelha.
- Sério? – ambas assentimos – Qual de vocês irá?
- Nós duas – eu e Tally dizemos em uníssono.
Ela pisca e abre uma gaveta, retirando duas folhas de papel e em seguida nos entregando. Ela aponta para além de nós – para um conjunto de mesas – e diz que podemos preencher as fichas ali.
Tally sai na frente. Estou atrás dela quando chamo pela mulher outra vez:
- Por que ficou tão surpresa conosco? – pergunto.
- Bom... Vocês foram as únicas pessoas interessadas nos Jogos que vieram aqui hoje.
Engulo em seco. Se ouvisse isso, provavelmente Tally desistiria na hora. Pego a inscrição e sento-me a duas mesas de distância de Tally. Ela realmente não poderia suspeita de nada.
Agora bastava apenas esperar. Seguro a caneta e finjo escrever na folha, mas não tiro o olho de minha irmã. Ela havia mesmo acreditado naquela história de “seremos imbatíveis na arena”? A intenção nunca fora essa. A ideia original era convencer Tally a ser tributo, mas não comigo. Tenho certeza que se ela mandasse a ficha, seria selecionada: como a própria mulher disse, é bem incomum tributos vindos da Capital.
Mas eu não iria com ela. Entregaria a ficha em branco. Tally iria sozinha para a arena, e como não tem nenhuma experiência em sobrevivência ou armas, morreria logo. E então a filha favorita seria eu.
- Problemas para preencher o formulário? – Tally pergunta. Ela está de pé, logo ao meu lado. Como não a vi se aproximando?
- Eu... É. – digo, sem jeito. Não a encarei; sei que meu rosto está corado – Estou travada. Não sei o que escrever.
- Que tal começar por seu nome? – ela aponta para o espaço onde iria minha identificação. Rio um pouco para quebrar o clima tenso.
- Claro – concordo – Meu nome.
Espero que Tally saia logo em seguida, mas ao invés disso, ela permanece onde está. Respiro fundo. Meu plano estava mesmo indo por água abaixo?
- Você... Já entregou a sua? – pergunto.
- Acabei de levar lá. Sinceramente, achei que você terminaria primeiro! – Tally ri, e eu sinto o coração dar uma batida a menos. Ela realmente não imaginava o que eu pretendia fazer.
Estava tudo acabado. Meu plano não iria funcionar. No fim, eu teria que ir para arena junto com Tally. Minha emboscada se voltou para mim.
Então fiz a única coisa que me restou: escrevi Carter Fairchild onde se lia “nome completo”.
(...)
Mandei Tally para casa e disse que precisava de um tempo sozinha – eu não conseguiria encará-la novamente por um bom tempo. Como eu pude deixar que minha estratégia falhasse? Eu estava tão certa de que funcionaria... E agora, o preço da minha falha será paga com a arena.
Passei anos e anos treinando como se fosse um tributo carreirista, assisti aos Jogos como uma expectadora fiel, vivo falando do evento, tudo para parecer mesmo que eu estava interessada. Não que eu não estivesse – os Jogos realmente me fascinavam, desde que eu estivesse do outro lado da tela. E o pior de tudo – não posso deixar que Tally desconfie de alguma coisa. Se ela descobrir, será o fim.
Percebo que eu não estava andando sem rumo, afinal. Acho que se passou apenas meia hora até eu chegar aqui – na casa de Ryan McCartt. Ryan era filho de um dos pacificadores da Capital e, assim como eu, tinha certo apreço pelos Jogos Vorazes.
Talvez seja por isso que nos damos tão bem. O resto do país – inclusive Tally – apenas via os Jogos como uma lembrança das rebeliões, tanto da primeira – quando começaram – como da segunda – quando terminaram. Mas pararam apenas por pouco tempo: alguns anos depois que o presidente Snow morreu, Paylor – a nova presidente – ordenou que os Jogos permanecessem. E então criou a nova era dos Jogos Vorazes: nada de colheitas obrigatórias. A arena era para quem queria ir, originando assim o alistamento. Geralmente os distritos 1, 2 e 4 têm tributos todos os anos, com alguns de distritos menores porém fortes, como 5 e 7. Mas a Capital, por ser a Capital, é muito raro.
- Olhe só quem está aqui – não percebi Ryan saindo da casa – Carter ou Tally?
- Adivinhe. – faço minha melhor cara de desafio. Sei que ele gosta.
Ryan atravessa o portão de sua casa e vem de encontro a mim. Não desvio o olhar ou recuo o passo. Ele se aproxima tanto que ouço com clareza as palavras que sussurra em meu ouvido:
- Carter?
Sorrio. Quando percebo, Ryan já me segura contra a grade do portão de sua casa. A rua não era movimentada; a impressão que dava era que havíamos apenas nós ali. E para mim, era realmente isso.
- Como adivinhou? – perguntei, afastando-o.
- Vamos ver... – Ryan faz uma cara pensativa – Talvez porque Tally não sabe que eu existo? – ele sorri e beija minha testa – Ou talvez porque você sempre vem à minha casa? – outro sorriso e outro beijo, dessa vez na ponta do nariz – Ou quem sabe porque você é a única garota da Capital que sabe falar “adivinhe” de uma maneira diferente?
Realmente, Tally não imaginava a existência de Ryan – nem meus pais; nem ninguém. Eu o conheci há dois anos, num dos bares da Capital que eu costumava frequentar. Desde então, tenho visitado Ryan regularmente às escondidas. Seu pai não sabia de nada também. Juntos, éramos o segredo da Capital.
- Você chegou cedo hoje – comentou ele, me tirando de meus devaneios – Meu pai está em casa. Aconteceu alguma coisa?
Congelo. Eu quase, quase havia me esquecido.
- Bom... Na verdade aconteceu sim.
Ryan olha ligeiramente para trás, e logo em seguida se volta para mim.
- Seja lá o que for, aqui não dá.
Sei o que aquilo significa. Sempre que precisamos conversar sobre algo sério sem que ninguém nos atrapalhe, recorremos ao nosso refúgio no centro da Capital: o pequeno bar onde nos encontramos. É o mais próximo que temos de um “lugar só nosso”. Foi naquele bar, aliás, que recebi a ideia de mandar Tally para a arena.
Enquanto caminhamos até lá, fico tentando imaginar o que aconteceria se eu fosse selecionada para os Jogos Vorazes. Minhas chances não são zeradas: em minha tentativa de parecer uma fanática, pedi para que Ryan me ensinasse o que ele sabia em combate – pedi a ele, já que seu pai era um pacificador. Havia um vasto arsenal com uma grande variedade no porão de sua casa, com todo o tipo de arma já usada nos antigos Jogos. Era como se eu realmente fosse uma carreirista.
Tally, ao contrário, sequer sabe segurar uma faca direito. E não faz questão de aprender o jeito certo – ela abomina tanto os Jogos Vorazes que só a ideia de ferir alguém é absurda. Talvez seja por isso que eu seja uma pessoa tão ruim. Minha irmã ficou com toda a bondade.
O bar está praticamente vazio, apenas duas mesas ocupadas e a garçonete no balcão. Sempre fora assim – nada de multidão aglomerada. Era realmente um ótimo lugar para discutir estratégias de manipular os familiares.
- Não deu certo – digo quando Ryan pergunta o que aconteceu – Tally mandou a ficha dela, mas eu também mandei uma minha.
- Você o quê?! – seus olhos estavam arregalados – Por que fez isso?
- Eu precisei! Ela não me deixou “preencher” o formulário sozinha. Não podia colocar tudo a perder.
- Você vai perder a sua vida, isso sim – ele diz. A garçonete de antes aparece e deixa dois copos em nossa mesa – Pelo menos diga que Tally não descobriu a verdade.
- É claro que não descobriu – dei um gole num dos copos. Vodka, sem dúvidas – É por isso mesmo que eu precisei me alistar. Para não levantar suspeitas.
Ryan suspira e vira o conteúdo do copo de uma vez. Logo em seguida, pede outra dose.
- Você sabe que a possibilidade de ir para a arena é grande, não sabe?
- Claro que sei. Por isso o plano era perfeito.
- É, mas o tiro saiu pela culatra.
- Por que você se importa tanto se eu vou para a arena ou não, Ryan? – minha pergunta sai mais áspera do que pretendia – Não somos exclusivos um do outro, você sabe disso.
- Eu também vou estar nos Jogos.
A declaração me pega de surpresa. De todas as ciosas que Ryan poderia dizer, essa era justamente a única que eu não esperava ouvir.
- Você se alistou?
- Não, não como tributo – Ryan desmente. Sinto um peso sair de meu peito – Não estarei na arena.
- Ah, certo. Vai ser Idealizador?
- Isso – ele confirma – Idealizador.
Não digo mais nada. Logo, a garçonete retorna com a outra dose de vodka – que, assim como a anterior, não demora a se esgotar.
- Bom, você está fodida – Ryan diz – Então só resta uma coisa a fazer.
- Entrar num coma alcóolico?
- Não. Treinar.
(...)
De todas as armas do arsenal de Ryan, havia uma única que eu ainda não havia tocado – o revólver de seu pai. Essa era a arma mais utilizada pelos pacificadores, por isso tantos exemplares e de tantos tamanhos diferentes.
- Aprenda a usar qualquer uma dessas, e eu garanto que receberá vários paraquedas.
Assinto, sem dar muita importância. Esperamos algum tempo antes de retornar à casa de Ryan, para ter certeza que seu pai não estaria aqui. Caminho por entre todas aquelas armas de fogo e escolho uma pequena, fácil de segurar.
Há três alvos pintados na parede larga à minha frente. Concentro-me no do meio e fecho os olhos. Então puxo o gatilho.
Só percebi meu erro quando foi tarde demais. O revólver deu um coice assim que disparou, me fazendo perder o equilíbrio e pender para trás. E, ainda por cima, errei o alvo.
- Faça assim – Ryan se aproxima e me manda segurar o cabo da arma com as duas mãos. Ele ergue meus braços até a altura do peito e me faz recuar um passo, para não desequilibrar novamente. Disparo. Funciona. – Agora repita esse processo cem vezes.
- Vai sonhando – reviro os olhos e disparo novamente.
Ele ri fracamente e pega outro revólver, analisando o próprio reflexo no cano. Percebo que ele leva um pequeno susto a cada tiro meu. Rio baixinho.
- Você nunca me disse de onde tirou essa ideia. – ele comenta.
- Que ideia?
- Essa. De mandar a sua irmã para a arena. – Ryan faz uma pausa – É algo bem cruel.
- Eu não me lembro de como pensei nisso – respondo – Faz muito tempo.
Eu estava mentindo. Eu lembrava muito bem.
(...)
Eram 19h37 quando saí da casa de Ryan. A tarde inteira foi basicamente desperdiçada puxando gatilhos e acertando alvos no porão de sua casa. Em momento algum seu pai apareceu. E, quando a brincadeira no arsenal perdeu a graça, subimos para seu quarto.
Eu sabia que precisava estar em casa antes do anúncio dos selecionados. Eu precisava saber se um milagre cairia sobre mim, e no final, o plano funcionasse. Ainda poderiam escolher Tally como tributo, e me deixar onde estou. Afinal, não há necessidade de duas de mim aqui.
Mas o contrário poderia acontecer. A selecionada poderia ser eu, e as mesas poderiam virar de vez. O quão azarada posso ser a ponto de isso acontecer?
Se eu fosse para os Jogos, não sei se faria alguma diferença: para nenhuma das partes. Minha família continuaria com Tally, e eu estaria longe deles – o único de quem eu sentiria falta, se sentisse, seria Ryan. Minha irmã teria 100% da atenção de nossos pais, enquanto eu teria pelo menos 5% da atenção do país inteiro. Talvez eu saísse ganhando.
E todo o tempo gasto praticando lutas armadas não seria em vão, afinal. Eu não seria tão inexperiente assim.
Acelero o passo ao ver que faltam dez minutos para o anúncio. Eu costumo ficar o dia inteiro fora e retornar quando o sol não é mais visível, mas hoje em especial eu preciso me adiantar. Não é possível que eu e Tally tenhamos sido as únicas pessoas da Capital a se alistar.
Ou será que sim? Os Novos Jogos eram mal vistos por toda Panem, mas principalmente para a Capital – até porque, nada mais era do que uma punição criada por eles mesmos se voltando contra. E é tão incomum pessoas daqui se alistarem; a maioria é indiferente aos Jogos, e o resto não tem nada pelo que lutar.
Passo em frente ao bar de algumas horas antes. Suspiro ao analisar o palco do início de tudo; as luzes ainda estão acesas e as mesmas pessoas que estavam ali antes permaneciam nos mesmos lugares.
Eu tinha dezessete anos quando passei por aquela porta e dei de cara com uma mulher totalmente desconhecida, a qual eu nunca havia visto por ali. Seus traços indicavam que sua idade não era muito avançada, uns vinte anos no máximo, e sua postura era de alguém importante. Mas mesmo assim, eu nunca a tinha encontrado antes.
Eu havia saído de casa devido uma discussão com Tally. Simplesmente não suportava mais olhá-la na cara e vi que me afastar seria o melhor. Então recorri ao meu esconderijo especial, onde eu sabia que ninguém me procuraria. Sentei-me num dos bancos no balcão e me deixei desabafar sobre todos os acontecimentos ruins na minha vida com Tally envolvida.
- Mas que desgraçada.
- Acho bom, para o seu próprio bem, que não tenha falado comigo.
Só então me dei conta de que eu estava logo ao lado da estranha mulher. Ela virou seu copo e passou a me encarar, com seus olhos calmos, mas perigosos.
- Não, claro que não – eu disse – Eu não te vi aí.
Para minha surpresa, sua expressão se tornou ainda mais letal.
- Então eu sou invisível, ahn?
Revirei os olhos.
- Só me deixe em paz.
Sabia que daquela vez eu havia de fato ofendido. Pensei ter visto-a fazer cara feia, mas na verdade seu semblante se suavizou. Ela passou a me olhar entretida.
- Parece que temos alguém com pensamentos ruins aqui – ela comenta.
- Que bom que notou.
- Por que você não divide sua discórdia comigo? – a mulher sorriu, convidativa. Talvez a solução fosse essa: desabafar com uma desconhecida.
- É muito a se dizer – ri fracamente.
- Eu tenho todo o tempo do mundo, quanto a isso.
Suspirei, e comecei a falar. Narrei praticamente minha vida inteira – desde quando Tally e eu éramos menores e as crianças sempre preferiam-na nas brincadeiras, até minha atual situação, onde em minha própria casa eu era a segunda opção. Em alguns momentos a mulher inclinava a cabeça como eu fosse a coisa mais interessante do mundo, mas sem perder o ar de mistério.
- Então você está dizendo que odeia sua irmã? – ela perguntou, quando termino.
- Basicamente – dei de ombros. Não era totalmente mentira; eu odiava ser esquecida.
- E não se livrou dela ainda por quê?
- Como assim?
- Se essa Tally destrói tanto a sua vida, por que ainda convive com ela?
Era uma pergunta interessante. Se meu desprezo era tanto, não havia motivo para eu ainda suportar Tally.
- Está dizendo que eu deva matar Tally? – perguntei. Seus olhos brilharam de um jeito sinistro.
- Agora estamos nos entendendo.
Olhei para ela. Fiquei imaginando se não era uma pacificadora disfarçada – ou pior, uma assassina em série.
- Não sei se conseguiria – murmurei.
A mulher ergueu as sobrancelhas. Parecia surpresa, mas ainda entretida.
- Já entendi – ela declarou – Você quer matá-la, mas não quer sujar as mãos.
Talvez fosse isso. Assenti.
- Nesse caso, deixe que façam o trabalho sujo por você – ela apontou para frente, para além de mim, e então me dei conta de que a mulher estava indicando uma tela. A cena que se passava era de um garoto bem mais novo do que eu segurando uma lança, e atacando uma menina mais velha totalmente desarmada.
- Os Jogos Vorazes? – perguntei. Ela assentiu – Como?
- Fácil. Faça o alistamento ser uma tentação. Sei que você pode ser bem persuasiva, se quiser.
Assenti, olhando para o balcão.
- Vou fazer isso ano que vem.
A mulher mudou de expressão.
- Não, não. Tudo tem que parecer real, você sabe. Espere alguns anos para isso.
- Alguns anos? – reclamei – Por que tanto tempo?
- A vingança é um processo lento – ela advertiu – É necessária muita paciência.
Pisquei. O que eu teria que fazer para parecer real?
- Tudo bem – concordei – O que eu terei que fazer exatamente?
A mulher suspirou, mas não estava entediada.
- Apenas finja que os Jogos lhe agradam. Faça o possível para pensarem que seu sonho é ser uma tributo. E quando achar que é a hora certa, convença sua irmã a se alistar com você.
- Então eu serei tributo também?
Dessa vez, ela revirou os olhos com desdém.
- Não seja tão otária – senti a maldade em sua voz, mas não fiz nada além de ouvir – Você só vai fingir que vai se inscrever, quando na verdade entregará a ficha em branco. É simples. É fácil.
- É cruel.
- É exatamente o que você precisa.
Ela estava sorrindo quando disse aquilo. Por um momento, não parecia uma sugestão de uma desconhecida que queria ajudar, mas sim uma execução planejada. Senti remorso. Mesmo que todos preferissem Tally, mesmo que ela fosse mais esperta, mais simpática, mais sociável e talvez até melhor que eu, não era culpa dela. Talvez a culpa fosse minha, por não ser tão boa quanto. E, apesar de tudo, ela era minha irmã.
- Diga um número – pedi à mulher. Ela pensou por um momento, e então me respondeu.
- Quatro.
- Ótimo – eu disse – Daqui a quatro anos, o plano começará de verdade.
Por fim, a tão desconhecida deu um risinho e pediu a conta. Ao pagar, ela deu um aceno rápido para mim e foi em direção à saída, mas de repente parou e se voltou para mim outra vez:
- Eu não sei o seu nome – ela disse.
- Carter Fairchild – respondi. Percebo que estou sorrindo também – E o seu?
O sorriso que ela me lança é frio.
- Você pode me chamar de Pryor.
Desde então, nunca mais vi Pryor em lugar nenhum. Era como se ela fosse uma espécie de anjo negro que desceu a Terra apenas para me encontrar e me dizer o que fazer. Eu também não fiz questão de procurá-la. Talvez Pryor não quisesse ser achada.
Quando finalmente avisto o portão de minha casa, sei que não cheguei a tempo. Devo ter passado alguns minutos, mas mesmo assim, a Capital é sempre pontual. Diminuo o passo conforme a casa cresce à minha frente, de modo que quando estou bem na porta, paro. Agora eu iria descobrir, de uma vez por todas, e o plano de Pryor funcionara.
Abro a porta.
- Você! – meu pai aponta para mim acusatoriamente – Você obrigou sua irmã a se alistar para os Jogos Vorazes com você.
Não digo nada. A expressão de meu pai é de raiva; minha mãe e Tally estão abraçadas e se esvaindo em lágrimas. O que significava duas coisas: ou a sorteada fora Tally, ou a sorteada fora eu.
- O que? Eu... – volto-me para Tally – Você contou a eles?
Tally balança a cabeça num “não”.
- Nem precisou, Carter. Vocês foram escolhidas. Vocês duas. – não sei de onde tiro coragem para encarar meu pai. – Mas é claro que vocês foram escolhidas. Até parece que eles iriam perder uma história dessas. Duas irmãs da Capital indo para os Jogos Vorazes juntas. É tudo muito dramático, não é mesmo?
- Pai, por favor... – Tally pede com uma voz melosa demais (se eu não estivesse tão fodida, até reviraria os olhos). Meu pai nem lhe dá ouvidos.
- Não Tally, sua irmã tem que ouvir! – ele olha novamente para mim – Como você teve coragem de enganar sua irmã só para ir aos Jogos? E por que diabos você quer ir aos Jogos Vorazes? Será que tudo o que você aprendeu sobre eles na escola não foi suficiente?
- Você fala como se fosse a pior coisa do mundo – murmuro.
- Porque é! – meu pai retruca.
- Não, não é! – dessa vez, levanto a voz. Com o canto do olho, vejo Tally se encolher – Sabe o que é tão ruim assim? Viver presa nessa droga de casa sendo obrigada a olhar para a cara dela – aponto para Tally – todos os dias sabendo que eu nunca vou ser considerada como ela é!
- Do que você está falando? – pela primeira vez, ouço a voz de minha mãe.
- Ah, por favor! Tally sempre fora a filha perfeitinha de vocês. Tanta perfeição que eu sou apenas um detalhe na família!
Sei que minha irmã está bem ao meu lado, escutando e assistindo tudo, mas as palavras praticamente pularam de mim. Guardar todo aquele desprezo por tanto tempo não era uma coisa boa, mas talvez se livrar dele fosse pior. Que culpa tinha Tally se todos a preferiam?
Toda. A culpa era toda dela.
- E vocês querem saber de uma coisa? – olho para todos; para Tally, para meu pai, para minha mãe – Eu prefiro mil vezes morrer naquela arena que morar aqui!
Minha voz falha ao dizer a última sentença. Não sei se era mesmo verdade – era melhor conviver com a concorrência ou morrer tentando se livrar dela? Seja lá qual for a melhor opção, não aguentei mais permanecer naquela sala. Virei de costas e subi as escadas batendo o pé.
(...)
Estou deitada na cama. Encarando o teto. Há três horas.
Não me conformo em como consegui não ter falado sobre o plano inicial. As coisas que eu disse saíram tão espontaneamente...
Eu esperava que a selecionada fosse Tally ou eu, mas as duas juntas foi realmente uma bomba para mim. Toda a estratégia fora traçada exatamente para eu não ter que matá-la eu mesma. E a partir de amanhã, nós seríamos oponentes naquele sádico jogo.
Mas, por outro lado... Eu teria um pretexto para matar Tally. Seria sua vida ou a minha. Seria justo, até.
O que eu estou dizendo? É claro que eu nunca teria coragem de sequer feri-la, mesmo com tanta vontade dentro de mim. Não sei por que, mas por mais que ela estragasse tudo, ela conseguia consertar. Como? Sendo a única pessoa que de fato se importa comigo, além de Ryan.
Na verdade, nem sei se Ryan se importa também. Qual teria sido sua reação ao ver meu nome na lista de selecionados? E, por ironia do destino, ele quem assinaria minha sentença de morte, já que se tornaria um Idealizador.
Viro de lado, encarando a janela. A quantidade de estrelas já é bem reduzida desde a última vez que eu checara. Acho que está amanhecendo. O que significa que em breve chegará alguns funcionários da Capital para nos levar daqui.
E o pior de tudo: Tally realmente acredita que tudo fora o destino. Nem se passa por sua cabeça o fato de tudo ter sido feito cuidadosamente com a finalidade de prejudicá-la. Ela acredita que eu sou a irmãzinha querida que faria qualquer coisa por ela.
De fato. Eu faria qualquer coisa.
Devo ter dormido em algum momento, pois lembro-me de ser acordada pela minha mãe, que dizia que eles estavam nos esperando na sala. Vesti uma roupa qualquer e desci as escadas.
Havia dois pacificadores, um de cada lado da porta de entrada. Tally já estava lá, seus olhos estavam vermelhos e seu rosto estava inchado. Ao lado dela, meus pais me fitavam com uma expressão que não consegui ler – acho que tristeza, incredulidade e até saudades.
Sem dizer uma palavra, permiti que minha mãe me envolvesse num abraço. Mesmo depois das coisas que eu disse ontem à noite, ela parecia a mesma de sempre – calma e serena.
Os pacificadores fizeram menção de sair, o que nos deu a deixa. Com um último aceno, deixamos nossa casa. E dessa vez, sei que pelo menos uma de nós não retornará.
Entramos no carro que nos conduziria até o prédio dos tributos. Era um veículo extenso – além de nós, havia mais quatro pessoas que deduzi que seriam nossos estilistas e mentores. Não fiz questão de olhar em suas caras. Ninguém ousou fazer sequer um ruído.
Alguns minutos depois, estávamos no prédio dos tributos. Tally foi levada para um quarto, e eu para outro. Reparo que duas das pessoas que estavam conosco no carro eram um menino moreno e uma garota ruiva, que devem corresponder a mentor e estilista de Tally. Comigo, restam dois garotos.
- Então você é a Carter – disse o mais alto. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos eram incrivelmente azuis. Eu assenti – Meu nome é Nathan Ainsworth. Eu serei seu mentor.
Sua voz era firme e decidida. Um tanto intimidadora, eu diria.
- Eu vim do distrito 2 – continuou ele – O maior distrito carreirista de Panem. E você, pelo que sei, é praticamente uma carreirista.
- Como assim “pelo que sabe”?
Só então parei para analisar meu suposto estilista. Ele estava de cabeça baixa, mas pode ver seus cabelos brilhando em dourado e uma pequena cicatriz nas costas da mão esquerda. Aquela cicatriz...
- Ryan! – chamei. Ele finalmente ergue o olhar – apenas para me encarar com um olhar de culpa. – Por que mentiu?
- Ser estilista não é exatamente a coisa mais respeitosa do mundo – ele afirma.
- Achou que eu fosse julgar você?
Saber que Ryan não confiava em mim foi a gota d’água. Sem nenhum motivo restante para permanecer ali, viro de costas e saio pela porta. Ignoro meu nome sendo chamado, continuo caminhando sem rumo pelos corredores do prédio – até eu avistar uma mulher no fim de um corredor, com cabelos ruivos ardentes e uma expressão calma, conversando. Mesmo com um cabelo diferente, eu a reconheci.
Pryor.
// Feelcy Klist // Capital // Desafio 1- Alistamento //
-
—Feels, não faça isso...— sinto as mãos de Quinn descendo pela minha cintura e puxando-me de volta para a cama.
— Fazer exatamente o que? Sair da cama ou me alistar?— sorrio para ele enquanto visto minha blusa.
—Hum... Os dois?— olho em seus olhos, um profundo violeta misturado com uma pontada de dourado, os cabelos loiros caem-lhe aos olhos e seu corpo musculoso está bem definido de baixo do fino lençol branco— Sabe, você não pode simplesmente ir. Precisamos de você aqui.
Levanto uma sobrancelha em sinal de dúvida.
—Ok, eu preciso suprir minhas necessidades sexuais!
—Agora virei sua escrava sexual?— sorrio enquanto ele me puxa para um longo e delicioso beijo
Quinn é meu melhor amigo. Bem, o conheço desde que me entendo por gente, e desde que o faço ele tem esse ar super protetor (ainda acho que é ciúme). Não temos uma relação séria, eu acho. Meus sentimentos por ele estão momentaneamente confusos. Antes eu tinha uma quedinha por ele, mas foi suprida quando começamos á “sair” frequentemente. Agora não sei mais se nos amamos ou apenas fazemos sexo casual. É uma relação meio estranha.
— Vai mesmo fazer isso, certo?
— Certo.
— Por que diabos decidiu isso da noite para o dia?
— Eu quero ir!
— Então eu te levo pra Antiga Mansão— ele se levantou rapidamente e colocou uma calça.
— Ok... — tirei a blusa e, repentinamente, decidi que usaria vestido. O sol estava escaldante— Vamos! Eu quero ser escolhida!
[...]
Como previ, o sol estava muito quente. Quinn me deixa em frente á antiga mansão, com um beijo de despedida, ele sussurra em meu ouvido: “Estarei contigo na hora da escolha. Espero que saiba o que está fazendo, Feels”.
Entro na mansão. Está praticamente vazia. Aparentemente, pessoas da Capital acham melhor ficar em casa do que morrer publicamente. Entro na pequena fila, retiram pequenas amostras de sangue das pessoas á minha frente e hesito. Eu odeio que me furem. Mas, mesmo assim, continuo até que chegue minha vez. Há uma mulher em minha frente, ela está com um sorriso forçado e parece estar prestes á chorar.
Quando, finalmente, chega minha vez, coloco minha mão na mesa e um pacificador retira uma amostra do meu sangue, me entregando uma ficha logo em seguida.
Nome: Feelcy Klist
Idade: 19 anos
Endereço:
Motivo:
Motivo seria o mais difícil para mim.Fixo meus olhos no teto. O azul dançante me lembrava a noite da aposta. Os cheiros doces, a grande casa de praia dos meus pais, o mar batendo em meus pés descalços convidando-me á entrar... Quando escuto Lauren me chamar para me juntar ao grupo. Ela está com um copo de bebida roxa e borbulhante na mão. Corro na praia até chegar ao grupo reservado de amigos. A fogueira crepitante sobe e desce, levando suas chamas até o alto da noite e, então, desce, como se temesse a escuridão, de alguma forma.
Pego uma taça da bebida vermelha e borbulhante e bebo, o líquido desce queimando pela garganta, mas a sensação é boa. A roda reservada de amigos me parece mais convidativa, as brilhantes estrelas no céu misturam-se com a escuridão formando um efeito estonteante.
— Entediante...— escuto a voz de Lauren ao meu lado— Vamos fazer algo mais emocionante!— ela soluça e bebe mais um gole de sua bebida roxa e borbulhante. A qual eu sequer sei o nome.
— Apostas. Apostas sempre dão certo!— disse o garoto ao meu lado, eu estava muito entretida com o efeito de minha bebida para lembrar-me seu nome— Ou errado. Mas é isso que as torna apostas!!!
— Apostas. Vamos, apostas!
— Quais serão as consequências para quem não as fizer...?— pergunto, cautelosa.
— Quem não as fizer...— Vizzi pareceu pensar— Se alistará nos Jogos desse ano!
— Nada mal— sorrio. Vizzi tem uma mente diabólica!— Estou dentro. O que vocês apostam?
Após uns cinco minutos de pura discussão sobre a aposta, ficou decidido que se alistar nos Jogos seria a decisão final. Não me lembro bem da aposta, mas sei que eu fiquei com a pior. Não por que perdi a aposta ou algo do gênero, mas por que Lauren foi escolhida.
Lauren é uma menina dois anos mais nova que eu, entretanto está sempre andando com gente mais velha. Costuma ser ingênua e muito emotiva, daquelas pessoas que estão chorando quer estejam felizes, quer estejam tristes, quer estejam medianamente bem. Está sempre reclamando também.
Ela, por algum motivo, não cumpriu a aposta. Como era nova de mais e muito emotiva, eu cedi á sua choradeira e “paguei a prenda” no lugar da garota. Eu não estava arrependida. Nem um pouco. Aquilo seria bom, eu iria voltar vitoriosa, minha, vamos assim dizer “popularidade” ia aumentar em mil por cento e... Eu não descumpro apostas.
Parei com meus devaneios e me virei para a folha em minha frente. Estava prestes á colocar “Não descumpro apostas”, quando vejo o pacificador me observando atentamente.
Motivo: Desejo sangue inimigo.
O que não é uma total mentira, eu desejo sangue.
Quando terminei de preencher o papel, o entrego para o pacificador e volto para casa. Meus pais esperam orgulhosos na entrada. Eles foram, um dia, do Distrito 2. Valorizam o fato de eu ter me alistado. Abraço-os.
— Fez a coisa certa, querida— diz papai. Seus olhos não caem lágrimas, mas posso ver o orgulho estampado ali.
Entro pra casa, onde faço tudo o que tenho que fazer, desde tomar um longo banho até tomar outro longo banho. Quando saio, já vestida, dou-me conta de que meus sapatos sumiram. Foram eles. Meus furacões pessoais que tenho o prazer de chamar de irmãos.
— Gringwald! Winst!— grito— Meus sapatos!
Vejo duas cabecinhas ruivas surgirem na porta.
— Seus sapatos?— Gring pergunta com um sorriso travesso.
— Eu não vi— Winst completa.
— Ah, vamos, cabecinhas de fogo! Eu preciso deles!— fiz minha melhor carinha triste que os convence.
—Obrigada!— sorrio e bagunço seus cabelos.
Depois de pronta, desço, apenas para descobrir que faltam apenas três minutos para as 20h. Quinn ainda não chegou.
Sento-me e belisco alguma coisa, entretanto, meu estômago está virado de ansiedade. Quando a porta abre, corro até os braços de Quinn, ele me dá um longo beijo com a mensagem de “Acalme-se” e caminhamos, juntos, até o imenso jardim, onde estão televisionando Gavril Flickerman. Escutamos palmas, então as enormes letras anunciando que o programa estava para começar.
Com a tecnologia atual altamente avançada permite aos telespectadores verem as coisas como se estivessem realmente lá. Sentimos cheiro, o holograma do palco, escutar as coisas sem interferência alguma...
A centralizada cadeira vermelha vira, vemos Gavril. Ele tem um enorme sorriso estampado em seu rosto, o cabelo verde e a sobrancelha combinando, a pele muda de cor á cada ano, ano passado fora uma pele azul, esse ano é um amarelo. Não se pode dizer que Gavril é feio, não, nem um pouco, ao contrário do pai, ele é bonito, tem os ombros largos e a cabeça erguida. Usa um terno laranja brilhante vibrante, especialmente feito para a data.
—Boa noite, Panem!— ele faz uma pausa—Hoje estamos aqui para anunciarmos o nome dos nossos participantes dos JOGOS VORAZES!
A plateia irrompe em palmas, as cores vibrantes da Capital ficando evidentes.
—Anos atrás, os distritos se rebelaram da tirania á qual eram infligidos—escuta-se alguns murmúrios na plateia— Vidas foram tiradas para que nossa sociedade viva em paz. E, finalmente, chegamos naquilo que chamamos de “Elísio”— a plateia aplaude o comovente discurso de Gavril— Embora tenhamos deixado a Era Sombria para trás, os Jogos continuam! De uma forma mais “pacífica”— a plateia sorri e ele também. Apesar de que agora os tributos colocam seu nome no sorteio por vontade própria, os jogos continuam sendo sangrentos— Então, agora, caros cidadãos de Panem, os nossos sorteados!
Aperto forte a mão de Quinn. Sinto que ele está tão nervoso quanto eu, e não digo isso só por que estou segurando sua mão, que está impressionantemente gelada e molhada.
Membros da Capital são os primeiros, por motivos óbvios. Gavril, então, abre um amplo sorriso.
— Começaremos pelas mulheres!— aperto a mão de Quinn mais do que antes. Eu preciso ser escolhida — E, de nossa amada Capital... Feelcy Klist!!!
Meus joelhos quase cedem. Quinn murmura um palavrão. Não posso acreditar... Sou levada até um palco no meio do jardim. Enquanto isso, Gavril continua falando os nomes. Outros tributos sobem ao palco comigo. Estão todos surpresos, talvez, e alguns até orgulhosos (como eu estava). Procuro gravar bem suas faces. Se tudo ocorrer da forma que eu espero, em pouco tempo estarão todos mortos.
Eu durmo como um anjo nessa noite. Talvez seja a última que vou realmente dormir. Não sonho, apenas um vácuo profundo... Acordo cedo, talvez mais cedo do que o esperado, e o sol sequer nasceu. Passo um tempo em claro, com apenas uma pequena luz acesa no fundo do quarto. Observo o céu e as estrelas, uma lua brilhante. Seria a mesma da Arena?
Quando o Sol finalmente desce, escuto meus pais conversando no andar de baixo. Eles não acordam essa hora... Coloco a cabeça para fora do meu quarto, mamãe está eretamente sentada no sofá e papai está em pé, bebendo algo.
—Não é um orgulho?— mamãe pergunta, sorrindo.
—Pelo menos agora, sim... Vamos ver quando ela entrar na arena com aqueles tributos sedentos por sangue...
—Ela vai ganhar. É a nossa garotinha.
—É isso o que me preocupa, May— ele diz— É isso o que me preocupa.
Rapidamente, volto para meu quarto, até a hora que escuto a porta se abrir. Rapidamente desço as escadas, vejo dois pacificadores tomando café, pacientemente. Há um homem sentado entre eles e três mulheres.
—Aí está ela!— exclama uma das mulheres. Ela tem os olhos amarelos e um extravagante cabelo combinando— Venha aqui, deixe-me olhá-la!— seus olhos amarelos explodem de felicidade.
Caminho até ela, que com um sinal de aprovação, passa-me para uma inspeção com outra mulher da pele rosa.
—Você tem cabelos lindos!— ela passa a mão em meu cabelo ruivo, como se estivesse com algo muito precioso em mãos— Sedosos... Macios... Mas acho que se fossem verdes...
—Deixe-a em paz, Pipy— fala o homem, levantando-se— Finnicyus, prazer. Essas são Pipy— aponta para a mulher de pele rosa— Yaccola— aponta para a mulher de olhos amarelos— E Dybbe.
Finnicyus é alto e, se o visse na rua, jamais diria ser um estilista. Os músculos bem definidos debaixo da blusa azul escuro e calça. O cabelo negro com alguns fios também azuis. A pele clara e com um leve blush azul.
É quando alguém entra. Um homem novo, não deve ser nem cinco anos mais velho do que eu. É loiro, alto e tem os olhos da cor do oceano. Em seu rosto há um sorriso tranquilo.
—Prazer, Feelcy. Sou seu mentor, Percy— ele estende a mão, e eu aperto-a. Um aperto de mão tranquilo— Espero tirá-la da Arena com vida.
— Espero sair de lá viva.
— Atitude... Útil— ele pisca um olho pra mim.
Os pacificadores terminam de tomar café, dou um abraço apertado em mamãe e papai.
— Volte para nós, Feel— sussurra ela em meu ouvido.
— O farei, mãe...
Aperto a mão de meu pai, mas logo ele me puxa para um abraço apertado e, particularmente molhado.
Meus furacõezinhos aparecerem para se despedir.
— Vou sentir falta de vocês, cabeças de fogo...
— Pra onde você vai, Feel?— pergunta Gring.
Estou prestes á entrar na choradeira. Eu quero ir, muito. Mas a carinha de bebê de Gring e Winst me faz querer abraçá-los e nunca mais soltar.
— Sua irmã vai orgulhar a família— responde meu pai.
— Vou sentir falta de vocês, pequenos...
— Você volta, não é, Feel?— West pergunta inocentemente.
— Eu...— prometer algo quando se está indo para os Jogos é muito arriscado— Eu farei o possível.
Bagunço o cabelo dos dois e acompanho os pacificadores e minha equipe, lançando um último olhar para minha família. É quando vejo Quinn aparecer correndo.
— Você já...?
— Sim— abaixo a cabeça, ele levanta meu queixo para um beijo.
— Volte para mim, Feels. Volte para todos nós.
—Voltarei, Quinn... Eu voltarei...
— Preciso de uma escrava sexual— diz ele baixinho em meu ouvido. Coro e abraço-o. Não é um abraço egoísta, não desejo nada dele... É um abraço puro e sem “fins lucrativos”—Eu te amo, Feels. Sabe disso.
Aceno com a cabeça e sigo minha equipe de preparação e, só então, lanço meu último olhar para minha família. Meu pai exibe um sorriso orgulhoso, juntamente á minha mãe. Winst e Gring estão agarrados á perna de nossos pais, talvez confusos. São muito novos para entender... E eu os invejo por isso. Quinn está com aquele sorriso de canto de boca sexy e tenta parecer calmo, como sempre.
— Eu amo vocês— murmuro— Muito.
Entro no carro e, rapidamente, estamos num enorme prédio mais afastado dos demais. O lobby é extravagante, como todas as outras coisas na Capital. Posso ver, através de uma porta de vidro, um jardim no centro no prédio. Subimos no elevador panorâmico, de onde vejo mais de perto o jardim. Tributos da Capital são no primeiro andar, então fico muito, muito, muito perto do jardim, é uma visão maravilhosa. Há uma fonte de água no centro, várias flores e árvores.
Quando a porta se abre, vejo o apartamento.
Então é aqui que tudo começa. Ou termina.
Desafio 1 - Ravena Sawyer - Distrito 7
Abri meus olhos sentindo a ardência do sol afetar minha visão. Havia dormido com a janela aberta, mas eu jurava que havia a fechado antes de dormir. Chutei o beliche acima de mim acordando minha irmã que dormia em cima.
- Mais que saco! - Reclamou Diana.
- Que saco digo eu! - Reclamei dando mais um chute no beliche acima - Quantas vezes tenho que dizer pra não deixar a droga da janela aberta?!
- Estava calor!
- Acontece que quem amanhece com o sol no rosto sou eu!
Me levantei e fui ao banheiro fazer a higiene pessoal. Olhei no espelho encontrando uma expressão de ódio em meu rosto. Preciso parar de me estressar com tão pouco. Da última vez que tive uma crise com Diana ela havia ficado três dias no hospital e o mais insano é que ela não dá a mínima e continua a me irritar me fazendo ser a vilã da história.
Diana é minha irmã mais nova, tendo quinze anos. Desde sempre eu fui um pouco bipolar, mas no começo eram por decisões bobas. As coisas pioraram mesmo quando eu virei adolescente. Diana se tornava cada vez mais insuportável ao meu ver e na escola não era fácil. Tentava ao máximo me manter invisível aos olhos dos outros e até conseguia na maior parte do tempo, mas em algum momento não conseguia mais controlar. Como toda escola, a minha tinha os idiotas que praticavam bullying e eu como a quieta que era, acabava sendo alvo algumas vezes. Mas não por muito tempo.
Uma vez uma garota grandona chamada Leah veio implicar comigo e eu é claro me mantive firme, mas Leah apesar de forte e de alta estatura sabia o que fazia e atingia às pessoas com palavras. Ela conseguiu me fazer perder o controle em menos de dez segundos e eu parti para cima dela socando-lhe a cara. É claro que ela era maior, mas o transtorno bipolar me faz mais forte, me faz me sentir imbatível e eu consegui fazer um belo trabalho a deixando completamente acabada. Quase fui expulsa da escola.
Meus pais tentavam me convencer a ir à um médico, mas eu ameaçava obter outro transtorno caso tentassem me forçar. Eu tenho medo de mim mesma, minha outra eu, à que é explosiva é tão intensa que às vezes me esqueço do que faço quando me torno ela. É doentio.
Fui até a cozinha ainda sonolenta. Meu pai assistia à TV enquanto minha mãe preparava o café. Logo Diana desceu correndo para ir à escola, com certeza estava atrasada.
- Tchau mãe! - Disse saindo de casa às pressas.
- Mais e o… - A porta bateu com força - Café.
- Deixe-a. Quando estiver morrendo de fome no intervalo se arrependerá. - Você não vai? - Perguntou meu pai me encarando com um olhar de reprovação.
- Não - Disse encerrando o assunto.
Peguei um bolinho e subi de volta para o quarto. Não contaria à eles o que havia acontecido ontém. Resumindo, uns amigos de Leah me provocaram - como sempre - e eu joguei um tubo de cola aberto em um deles que ficou completamente melecado e grudento, mas quando ele tentou me bater um outro interrompeu lembrando-o do que eu havia feito em Leah anos atrás. Com muita relutância o garoto se conteve, mas disse que se eu desse as caras hoje ele não pensaria antes de me bater. Não me leve à mal, eu sei me defender - quer dizer, meu outro eu sabe - mas não quero arranjar encrenca e nem me machucar, pois ele era bem alto e forte.
Meu dia foi tedioso como sempre. Fiquei o dia todo trancada em meu quarto até que Diana chegasse para me aborrecer.
- Você é tão isolada, sai desse quarto Ravena!
- Me deixe em paz - Retorqui mal humorada.
- Sabe quantos garotos da minha sala estão afim de você? Não sei por que, você é muito chata.
- Não me interesso em pirralhos.
- Ah claro que não, você já é afim do Peter - Zombou Diana com uma voz melosa.
- Não sou afim de ninguém Diana. Só porque Peter é o único a não rir ou zombar de mim não quer dizer que eu goste dele. Não me interessa a opinião de ninguém sobre mim, não importa se é boa ou não.
- Está mais ranzinza que uma anciã - Disse Diana revirando os olhos.
A TV do quarto se encontrava ligava e eu resolvi ignorar Diana e continuar à assistir, mas um anúncio muito importante estava programado para dentro de cinco minutos.
- O que deve ser? - Perguntei com preocupação.
- Não deve ser nada demais, a guerra acabou Ravena. Chega de pensar nisso.
Na TV, Paylor começara um discurso tediante sobre o começo de tudo. Desde à guerra da América até a guerra atual com Katniss Everdeen como protagonista mais conhecida como O Tordo. Achei que deveria ser coisa séria a ponto de falarem sobre isso e eu estava certa.
- É o começo de uma nova era sim, mas temos de lembrar sempre quem comanda à mão de ferro e anuncio à vocês a volta dos Jogos Vorazes!
Diana caiu do beliche levando o rosto ao chão frio de mármore. Fiquei estática preocupada com aquele anúncio, mas Paylor alertou à todos que os tributos se alistariam. Não seria nada obrigatório.
- Ufa! Achei que fosse morrer - Disse Diana soltando o ar aliviada.
"Você vai!"
- Não…
"Vai se alistar!"
- Não! - Gritei pondo as mãos aos ouvidos.
- Ravena…?
- Me deixa sozinha Diana.
Diana concordou assustada e saiu do quarto correndo. Subi em minha cama me deitando para o lado da parede enquanto tapava meus ouvidos. Era inútil, a voz vinha da minha mente, não importava o quanto eu tentasse fazê-la se calar. Aquela era a outra eu e é ela quem está sempre no comando.
Retirei todas as forças que me sobraram para levantar e trancar a porta do quarto jogando a chave pela janela. Eu sabia que seria inútil se Sawyer me dominasse, mas eu tinha de tentar. Aliás, Sawyer sendo meu sobrenome - um tanto quanto sádico na minha opinião - acabou ficando como o codinome da minha outra eu.
Caí de joelhos no chão ainda ouvindo ao anúncio na TV. Seria no dia seguinte. Isso fez com que eu me acalmasse. Por hora.
Diana não voltou para dormir, provavelmente ficou na sala já que eu dominei o quarto e não reclamou, o que estranhei. Talvez ela esteja finalmente me compreendendo. Está mesmo ficando crescida.
Fechei a janela e me deitei em minha cama pensando na vida.
"Que vida? Você é medíocre."
Me virei para a parede fechando os olhos e logo pegando no sono.
Acordei com Diana batendo incessantemente na porta.
- O que quer? - Gritei.
- Entrar, é óbvio! Também é meu quarto!
- Não dá! Me tranquei, depois joguei a chave pela janela!
- O QUÊ? - Gritou Diana histérica - Enlouqueceu?
- Sim! - Respondi finalizando a conversa.
Olhei para a TV vendo que havia dormido com ela ligada, mas quando levantei-me para desligá-la passava uma imagem do Edifício da Justiça do meu Distrito. Apertei ao botão desligar antes que visse coisa pior, mas era tarde demais.
Olhei para minhas mãos vendo que tremiam sem parar. Minha respiração estava acelerada e tudo o que pude me lembrar foi de chutar a porta do quarto com força a derrubando com tudo.
***
Andava pelas ruas do Distrito me sentindo livre, alegre, desimpedida. Foi uma ótima sensação. Ainda ria da cara que meus pais e Diana fizeram ao ver a porta do quarto ao chão. Idiotas.
Fui até a fila de alistamento impaciente por ter de esperar. Virou festa querer morrer, não imaginava que tantos se alistariam. Quanta bravura… Bleh, isso me enjoa.
Quando minha vez chegou preenchi tudo com muita calma. Nome, idade, endereço… Motivos para o ato? Simplesmente coloquei um “Porquê Sawyer quer assim e é assim que as coisas funcionam.” Pobre Ravena.
Saí do Edifício dando de cara com um rapaz loiro de olhos cinzentos. Era Peter.
- Ravena? O que veio fazer aqui?
- Ravena não está, quer deixar recado?
- Como assim não… - Ele paralisou parecendo compreender - Oh sim… Ãhn, e posso saber como te chamam?
- Sawyer, e se fosse esperto não ficaria no meio da rua conversando com doentes mentais.
- Não me parece doente pra mim.
- Muito fofo da sua parte. Agora tchau - Disse saindo de perto dele. Sinceramente esse garoto não se toca. Se nem a coitadinha liga pra ele, eu é quem não vou ligar.
Voltei para casa com um sorriso radiante. Diana e meus pais sabiam que eu estava fora de controle, então simplesmente resolveram me ignorar para sua própria segurança.
Odiava ficar naquele quarto, Ravena é uma idiota. Resolvi sair para caminhar um pouco. As pessoas pareciam felizes nas ruas, agindo como se suas vidas fossem melhores do que as do que se alistaram. Fiquei sentada na praça um bom tempo até anoitecer. Tudo parecia sombrio de noite, eu gosto da noite. É silenciosa e calma, exceto para as mocinhas que andam desinibidas e indefesas pelas ruas. Estupradores no Distrito 7 tem de monte.
Me levantei do banco voltando para casa. Estavam todos jantando quando cheguei. Me sentem no sofá e liguei a TV ouvindo a voz de Gravil Flickerman anunciando os tributos do Distrito 5. Cheguei à tempo.
- E do Distrito 7… Aaron e Charlie Malone, Clarissa Black Morgan e… Ravena Sawyer.
Diana deixou o garfo cair, meu pai se engasgou com a comida e minha mãe tentava ajudá-lo batendo em suas costas.
- SE ALISTOU? - Exclamou Diana perplexa.
- Sim e pelo visto ganhei - Disse satisfeita.
- Você… Vai morrer sua maluca!
- E quem se importa com a Ravena nessa casa? - Exclamei encarando cada um deles - Sei que você sim Diana, mas eles não! - Apontei para meus pais.
- Ravena…
- Sawyer - Corrigi.
- Tudo a mesma pessoa - Resmungou Diana.
Fui para meu quarto sendo seguida por Diana. Me deitei na cama e resolvi dormir.
- Vai dormir sem me explicar nada?
- A mais velha aqui sou eu. E fica na sua.
Diana suspirou e subiu para seu lado do beliche sem dizer mais nenhuma palavra. Dormimos ao mesmo tempo.
Acordei com Diana me sacudindo. Dei um tapa na cara dela - sem querer - levando outro de volta.
- Quer morrer? - Ameacei botando minhas mãos em seu pescoço. Um aperto e ela parava de respirar.
- Tem… Pacificadores… Lá fora…
Soltei o pescoço dela me levantando rapidamente. Tomei banho e troquei de roupa demorando no processo. Pouco me importava o quanto eles esperassem, precisava ficar apresentável.
Após me arrumar me olhei no espelho. Dava pro gasto, na Capital eles ajeitariam as imperfeições de qualquer maneira. Diana me abraçou antes que eu saísse do quarto me deixando sem reação.
- Vê se volta - Disse com uma voz chorosa.
- É claro que eu volto - Foi tudo o que consegui dizer.
Saí de casa sem me despedir de meus pais devidamente. Eles ainda estavam receosos em ficar perto de mim. Francamente, uma garota de quinze anos é mais corajosa do que aquele par de covardes.
Os Pacificadores me levaram até a estação de trem, onde além dos outros tributos estavam mais pessoas desconhecidas.
- Você deve ser Ravena - Disse um rapaz de meia idade, cabelos grisalhos e olhos castanhos. Uma voz calma e tranquila que sinceramente me deu sono - Sou Bruce, seu mentor.
- Prazer - Disse apertando-lhe a mão.
- Este é Onix, seu estilista.
Um estranho rapaz completamente vestido de preto estava ao lado de Bruce me observando e torcendo um pouco o nariz em sinal de ser esnobe. Eu poderia ajudá-lo a torcer mais um pouco com um bom soco na cara.
Quando o trem chegara, adentramos nele observando o quanto este era grande. A Capital é realmente podre de rica. Me sentei em um dos bancos observando os outros tributos passarem. Minha primeira impressão de cada um foi um tanto quanto interessante.
Clarissa tinha cara de santa, o que me deixou com um pé atrás. Essas são as piores. Os irmãos Malone pareciam auto-confiantes, mas admito que Aaron me deixou bem receosa, ele tinha cara de quem já aprontou muito nessa vida e quanto à Charlie, ainda não consegui decifrá-lo. Não me passava medo, mas também não parecia indefeso. Era uma incógnita.
Ficaríamos naquele trem por sete horas, então resolvi fazer algo produtivo como conversar com meu mentor. Ele era bom, me tratava como uma pessoa normal, não se importava com a minha bipolaridade e isso me deixou mais à vontade. No fim, as sete horas passaram voando, Bruce sabia conversar, me distraiu por todo àquele tempo.
Logo ouvi o barulho de pessoas gritando e torcendo lá fora. Claro, com a volta dos jogos muitos devem ter ficado felizes. A moda na Capital não havia mudado, continuavam estranhos e coloridos como sempre foram. Aterrorizante.
Quando o trem parou senti meus sentidos falhando. Oh não, Ravena estava voltando.
Ds1 Luke Snow-Capital
Estava sentado no chão. Olhos vidrados na parede branca, braço dolorido e cortado, barriga vazia (resultado de uma semana sem me alimentar). Ouvi uma batida na porta. Obviamente era minha mãe tentando me dar comida. -Lu? Posso entrar?-Ela falou por trás da porta -Tenho opção?-Falei da forma mais fria possível-E outra coisa! Não me chame assim! -Ok senhor extressado! Você não tem opção!-Ela falou. Não respondi. Apenas fiquei em silêncio sem desviar os olhos da parede. -Trouxe pão pra você!-Ela falou colocando uma bandeja ao meu lado. -Não quero!-Foi a única coisa que disse. -Você não come a dias bebê! Pensei em algo bem horrível para dizer. -Não me chame assim!-Foi a única coisa que falei. -Você vai comer Lucian Snow! -Não me chame assim!-Falei com ódio finalmente olhando ela nos olhos. -Esse é seu nome!-Ela falou irritada. -Não gosto dessa porra de nome! Me chame de Luke! Só Luke! Sem bebê, sem Lu e principalmente sem Lucian! Certo?-Falei totalmente sem controle. Ela não falou nada apenas me olhou irritada e saiu do quarto. Assim que vi a porta bater me levantei e fui até a minha cômoda e abri a primeira gaveta. Tirei um caderno de lá e puxei uma faca reluzente que estava embaixo dele. Voltei para o lugar onde eu estava e suspirei. Olhei para o meu braço coberto de cicatrizes e busquei um lugar vazio. Posicionei a faca perto do pulso e me cortei. A dor era grande, mas me sentia melhor com aquilo. Me aliviava. Era um jeito de me castigar. Me castigar por ser parente de um ser desprezível que destruiu vidas, matou por poder, que pouco se importou com a dor que as pessoas sentiram. Me castigar por não poder ter ajudado. Me castigar por ter vivido bem enquanto se empilhavam corpos dos distritos. Me castigar por ter comida e bebida em abundância enquanto pessoas passavam fome. Me castigar por estar vivo… O sangue começou a escorrer pelo meu braço. Me deitei no chão e olhei para o teto. Naquele dia seria o dia das inscrições pros jogos. Tinha vontade de ir lá. Repentinamente a porta se abriu. Era Frieda. Usava um vestido branco curto e o cabelo preso em um rabo. Não me levantei. -Luke! Por favor vamos comer algo!-Ela falou calmamente, mas é claro que com um tom de ordem, como se me obrigasse a comer. -Bom dia Frieda! Tudo bem com você?-Falei sarcasticamente e notei que ela se continha em não vir até mim e me bater. -Por favor Luke! Por mim!-Ela parecia realmente preocupada. Notei que ela virou os olhos para a faca e para o sangue em meu braço-Luke…-Ela falou de cabeça baixa-Você voltou com isso? Finalmente me sentei e olhei para ela. -Bem, não é como se eu já tivesse parado!-Foi só o que eu disse. -Você não precisa se culpar, Luke. Não precisa se culpar pelo que ele fez. Não precisa se culpar pelo seu pai, pela mamãe. Por ninguém. A culpa não é sua. -Não?-Falei olhando nos olhos dela-Então de quem é a culpa? Percebi a arrogância em minha própria voz e desviei os meus olhos do dela. Ela havia sofrido como eu. Sido discriminada como eu. Viu meu avô fazer o que fez como eu. Poderia estar se sentindo como eu. Mas achou um jeito melhor de lidar com tudo isso. -Minha?-Ela falou finalmente como se sentisse culpada. -Claro que não.-Falei a encarando. A ultima coisa que eu queria era que ela se sentisse culpada. Não queria correr o risco de vê-la na mesma situação que eu. Eu gostava da minha irmã, como nunca gostei de outra pessoa naquela casa. Ela parecia se importar mais comigo do que com seu status social as vezes. Coisa rara naquela mansão. - Okay. Apenas vai comer…-Ela encerrou a conversa, ainda parecendo um pouco insegura sobre o que eu disse. Então ela saiu batendo a porta e ela acabou nossa conversa como sempre: eu dizia algo que a intrigava e ela em sua defesa me dava uma ordem que eu obviamente nunca cumpria. Me deitei de novo e voltei aos meus pensamentos. Ir para os jogos era uma boa maneira de me sentir melhor. Queria sentir na pele a dor dos tributos. Claro que me olhariam como um inimigo, alguém que havia destruído suas vidas, mas eu não ligaria! Cresci diante de olhares duvidosos e de pré-conceitos! Eu estava decidido! Iria até a mansão e me inscreveria nos jogos! Me levantei com esforço e fui até o meu armário. Meu quarto tinha apenas três móveis: cama, cômoda e armário. O bastante para viver. Abri a porta do guarda-roupa e peguei uma camiseta e uma calça jeans. Detestava as roupas da Capital! Me vesti o mais rápido que pude e olhei para o meu braço. O sangue não havia nem começado a coagular. Abri a porta do quarto e a fechei com cuidado quando saí. Andei sem fazer barulho pelos corredores para não chamar atenção. Desci as escadas devagar e quando finalmente cheguei na saída fui barrado por um segurança. -Recebi ordens de sua mãe para não deixa-lo sair senhor!-Ele disse olhando para mim. -E eu te dou ordens para que você saia da minha frente senhor!-Falei tentando empurra-lo, mas ele parecia uma montanha. -Não posso senhor!-Ele falou -Me deixe sair senhor! É importante senhor!-Falei começando a me irritar. -Me desculpe senhor! Não posso senhor! Apenas o olhei irritado e me virei de costas. Ele pareceu se acalmar e voltou para o seu posto. Subi as escadas de novo e voltei para o meu quarto. Minha mãe sabia que eu iria sair pra isso. Bati a porta do meu quarto e a tranquei. Fui em direção a janela e a abri. Olhei para o chão. A queda era arriscada. Era alto. Mas minha vontade de ir para os jogos era bem maior. Coloquei uma perna pra fora e depois pus a outra. Olhei uma ultima vez para o chão e me joguei. Caí estranhamente de pé. Mas o impacto chamou a atenção dos seguranças. Eles me olharam e começaram a correr na minha direção. Demorei uns cinco segundos para processar o que estava acontecendo e depois comecei a correr em direção a o portão. O portão não estava longe, mas parecia estar a dez quilômetros. Vi que eles se aproximavam. Corri o mais rápido que pude e cheguei no portão. Comecei a escala-lo. Naquele momento agradeci a minha mãe por ter me obrigado a fazer aulas de parkour. Assim que cheguei no alto do portão os seguranças chegaram. Me levantei e pulei de novo sobre o portão. Dessa vez caí deitado. Eles me olharam por uns segundos e depois foram até o portão para abri-lo. Mas me levantei e mesmo doído saí correndo. Meu pé estava dolorido e meus joelhos arranhados. Eles começaram a correr, mas desistiram e voltaram para dentro de casa. Obviamente falariam pra minha mãe. Que me mataria depois. Continuei correndo até ter certeza que eles estavam longe. Depois de um tempo olhei para trás. Estava sozinho. Respirava ofegante. Meu pé parecia ter quebrado. Olhei em volta e vi onde estava. A minha antiga mansão ficava perto dali. Comecei a andar em sua direção, me esforçando para não chamar atenção. Aqueles malditos falariam para minha mãe que eu havia fugido e eu provavelmente teria que ouvir sermão. As pessoas não me olhavam, parecia que não haviam me visto correr que nem um louco a poucos segundos. Agora eu já estava em frente a mansão onde cresci. Sempre grandiosa e acolhedora. Um grupo de pacificadores estava na porta. Suspirei. Aquele lugar era recheado de lembranças. Tristes e felizes. Me lembrava de mim correndo pelos corredores e sorrindo. Sorrindo de verdade. Sem fazer força e sem sarcasmo. Eu conseguia ser feliz. Acho que depois que descobri o que meu avô fazia não consegui mais olhar para ele e sorrir. Não tinha mais essa capacidade. Me lembrava de meu avô berrando quando eu quebrava as coisas: “Lucian! Isso foi caro! Mas é pra isso que serve o dinheiro, não? Para gastar mais! Não se preocupe! Vovô compra outro!” Ele era sempre tão legal e parecia me amar! Contava histórias para mim… Cuidava de mim quando eu me machucava… E me chamava de Lucian… Acho que isso que me fez renegar meu nome! Meu avô me chamar assim. Acho que me lembrar dele sorrindo pra mim e me chamando assim me machucava. Me lembrar que era amado por um monstro. Mas mesmo com tudo o que ele fez sofri quando ele morreu. Olhei de novo para aquela casa e fechei os olhos. As lembranças não me impediriam de fazer o que queria! Subi as escadas devagar e vi os pacificadores me encararem. Era como se vissem um alienígena vindo na direção deles. -Bom dia!-Falei parando em frente a eles. Eles abaixaram a cabeça como se tivessem medo de me olhar nos olhos. -Bom dia senhor Snow!-Eles disseram em conjunto. Acho que eles não esperavam me ver ali. Imagino que fosse surpreendente ver o neto do antigo chefe deles se inscrevendo para algo que ele usava para castigar inimigos. Passei por eles e entrei pela grande porta. Tudo estava como me lembrava. Perfeitamente arrumado, com móveis caros que pareciam ter a função de causar inveja nas visitas… Enfim, tudo feito para marcar uma posição superior socialmente. Uma mulher estava sentada em uma mesa com uma pilha de folhas a sua frente. Ela me olhou com a mesma surpresa dos guardas. -Bom dia!-Falei -Bom dia Lucian!-Ela sorriu e puxou uma folha da pilha na sua frente-Vai se inscrever? -Sim!-Olhei em volta, o lugar estava vazio- Parece que só eu vou né… -Você chegou cedo senhor Snow! Acho que as pessoas vão chegar depois! -Tomara…-Falei num tom quase inaudível enquanto pegava a folha que a mulher me oferecera. Tinham apenas cinco perguntas na folha: Nome: Idade: Endereço: Motivo: Olhei para a mulher envergonhado. -Tem um problema… Não sei meu endereço… -Tudo bem! Sabemos bem onde você mora!-Ela falou sorrindo. Comecei a preencher a ficha. Nome:Lucian Snow. Idade:21. Endereço: Não sei. Motivo… Vontade própria. -Só isso?-Perguntei surpreso. -Só!-Ela afirmou-Tenha uma boa tarde senhor Snow! Entreguei a ficha preenchida e saí. Os pacificadores me olharam de novo enquanto eu descia as escadas. De repente senti uma tontura. Como se o mundo estivesse girando. Parei no degrau que estava. E antes que pudesse fazer qualquer coisa, virei meus olhos e caí desacordado. Acordei com a cabeça doendo. Não quis abrir meus olhos. De repente ouvi uma voz a o meu lado. -Você está acordado? Abri devagar um olho e me virei para a voz. Era uma enfermeira. Ela me olhava preocupada. -O que aconteceu?-Falei massageando minha cabeça. -Graças a Deus você está bem! Os pacificadores da mansão te viram cair das escadas e te trouxeram pra cá! Você desmaiou por falta de nutrientes no corpo e falta de sangue. Você não come a quanto tempo? -Uma semana… Ela me olhou surpresa e anotou umas coisas em uma prancheta. Ela sorriu e saiu do quarto. Finalmente pude notar no luxo e tamanho do quarto de hospital. Era grande, com uma televisão grande na parede, as paredes pintadas de branco. Devia ser um quarto especial. De repente Frieda entrou no quarto afobada. -Frieda!- Exclamei- O que você está fazendo aqui? -Eu que te pergunto! O que aconteceu?-Ela perguntou preocupada. -Falta de comida…- Falei indiferente- Pelo visto quando se passa uma semana sem comer você acaba desmaiando… -O que?! - Ela voou para perto de mim e me deu um tapa na cara.- Seu idiota! Como você pode ficar tanto tempo sem…- Ela se interrompeu -Quer saber? Esquece. No mesmo instante a enfermeira que havia me atendido anteriormente entrou no quarto e olhou surpresa para minha irmã. Conti minha vontade de fingir que estava muito ferido pelo tapa, para Frieda ser expulsa do hospital. -Quem é você?- Perguntou, cerrando os olhos. -Frieda. Frieda Snow. Irmã desse retardado. Hum, ele, sei lá, tá bem? -Sra. Snow, faltam muitos nutrientes e vitaminas em seu sangue, portanto recomendamos que seu irmão ingira mais carboidratos, ferro, vitaminas C, B e D. Ele se recusa, então vamos ter que deixá-lo em contato com soro direto na veia. Mas se o Sr. Snow continuar com essa recusa, teremos que recorrer ao tubo alimentício e… Era como se ela falasse outra língua. -Espera um pouco…- Interrompi- O que? -Resumindo, você está com falta de vitamina e carboidratos, e se não quiser colaborar, vão ter que enfiar um tubo no seu estômago.- Frieda disse, e pareceu ver a cara de nojo que fiz-Então a partir de agora, você vai ter que comer frutas como laranja e limão, que são ricas em vitamina C, carne, vegetais verdes, ovos e cereais, que tem a vitamina B, laticínios, da vitamina D e batata, pão e massa, que tem carboidratos, você não vai mais praticar muito esporte, e… -Nossa! Desde quando você entende tanto de comida?- Disse irritado. Ninguém me obrigaria a comer! Ninguém! -Sei lá-Foi apenas o que respondeu. -Sua irmã está certa, Sr. Snow, mas esqueceu de mencionar a falta de sangue-Provavelmente vinham dos meus corte,pensei- Eu aconselharia um transplante de sangue, pois seus globulos vermelhos não estão danificados, e poderiam começar a produzir mais sangue com uma dose extra, mas com todo respeito, não acho que alguém lhe doaria, já que vocês são… Hum… -Netos do Snow.- Completamos juntos, e a médica abaixou a cabeça, envergonhada. -Mas se os glóbulos vermelhos ainda estão em bom estado, o organismo dele vai produzir mais sangue normalmente!- Falou Frieda-Hum, mas o organismo dele só vai produzir sem a falta de vitaminas… -Na minha língua por favor…-Falei impaciente sem entender uma palavra do que diziam. -Se você não comer, vai morrer por falta de sangue e de nutrientes.-Ela falou de forma direta. O quarto ficou em silêncio. -Bem esclarecedor irmãzinha.-Conclui enfim. -Luke, você terá que passar a noite aqui, por que não comunica seus pais?-Alertou a enfermeira, como se não tivéssemos falado nada antes disso. -Talvez por que eles não dão a mínima para se eu tô em casa me cortando, ou no hospital morrendo.-Expliquei com calma, mas irritado por dentro. -Luke!- Minha irmã exclamou- Doutora, não tem a necessidade de chamar nossos pais. E por favor, vocês poderiam providenciar uma cama ou algo do tipo? Vou passar a noite aqui também… A médica moveu a cabeça positivamente e saiu do quarto. Eu e Frieda ficamos em silêncio nos encarando por dez minutos até dois homens chegarem carregando um sofá. Assim que se sentou caiu no sono. Como eu iria para os jogos se estava internado? Provavelmente isso não teria importância. Claro, que só teria que me preocupar se fosse sorteado. Coisa que eu temia que não acontecesse.
Fiquei olhando para minha irmã alguns minutos. Ela parecia tão… Delicada… Apesar de eu saber que não era. Desde pequenos tínhamos muitas diferenças. Enquanto ela passava horas brincando de boneca e de ficar trocando de roupa várias vezes, eu brincava de acertar os pacificadores com minha espada de madeira. Claro, que isso deveria ser normal! Ela era menina e eu menino! Tínhamos que ser diferentes! Mas a ideia de ter uma irmã parecia muito distante para mim! Era como se eu não tivesse uma irmã! Vivíamos em mundos diferentes. Sempre foi assim. Ela era a esperança! A menina da Capital! Aquela que sabia se portar diante da sociedade! E eu era o menino problemático! A vergonha! Aquele de quem eles queriam se livrar! Acho que estávamos destinados desde pequenos a seguir rumos diferentes. Ela se tornando alguém importante e eu morrendo ainda jovem nos jogos para limpar o nome da família Snow! Eu morreria para permitir que ela pudesse ser alguém. Para permitir que não fosse discriminada! Não planejava voltar dos jogos! De repente a TV ligou. Parei de pensar naquilo e me foquei no que estava passando. Uma mulher de roupas extravagantes sorria para a câmera e falava um discurso que eu era incapas de ouvir para manter minha sanidade mental. Assim que acabou foi colocada a sua frente uma mesa com uma lista em cima. -Bem, primeiro a Capital! As damas antes!-Ela sorriu e pegou a lista de cima da mesa lendo o primeiro nome -Tally Fairchild! A imagem de uma garota morena apareceu na tela. Ela parecia ter a minha idade. Ela sorria e seus olhos verdes se destacavam na imagem. -Próximo nome…-A mulher falou movendo os olhos mais para baixo-Carter Fairchild! Surgiu na tela a foto de uma garota. Ela era igual a outra… Tinham o mesmo sobrenome… Eram gêmeas! Eu nunca me familiarizei com gêmeas… Me assustavam… O modo como se pareciam… O como podiam ser confundidas… A imagem de duas pessoas idênticas fazendo a mesma coisa era assustadora… -Próxima…-Ela sorriu e leu outro nome-Charlotte Farewell! A garota era morena, tinha olhos azuis penetrantes. Parecia corajosa. Forte. E talvez aquele tipo de pessoa fosse o que mais poderia me atrapalhar nos jogos. -Feelcy Klist- Ela falou sorridente enquanto lia o nome. Uma garota ruiva surgiu. Ela parecia ter a idade de Frieda. Tinha um olhar feliz. -E a última garota da Capital…-A mulher olhou para a lista e mostrou um olhar confuso-Frieda Hope Snow! A imagem de uma menina morena de olhos lindos azuis apareceu. Ela sorria. Estava linda. Como ela pudera fazer aquilo? Eu notei que deixara uma lágrima escorrer. Em outra ocasião eu teria limpado a lágrima e fingido que não tinha nada errado, mas estava devastado. Estava simplesmente morto por dentro. Tinha vontade de arrancar o soro do meu braço e morrer, mas agora mais do que nunca eu teria que ir para os jogos. Para protege-la. Não tinha mais vontade de ver TV. Queria dormir. Ou beber, mas duvidava que tivesse bebidas alcoólicas num hospital. -E agora o único tributo masculino da Capital-Ela olhou pra folha e depois pra câmera-Lucian Snow! Os dois netos de Snow participarão dessa edição! Claro! Eles não deixariam escapar a oportunidade de jogar num matadouro, não um, mas dois Snows! Uma foto minha apareceu. Eu não parecia mal como nos últimos tempos. Haviam selecionado a minha única foto em que eu não parecia ou drogado, ou doente, ou maluco. Não que eu não fosse todas essas coisas. Também não era como se eu me importasse com o que iriam achar. Eu só não queria que pensassem que eu era fraco ou incapaz. -Agora o tributo do distrito um!-A mulher falou animada olhando para a lista- Phyllis Lahey! A garota que surgiu na tela tinha uma expressão ameaçadora e cabelos loiros. Em outro momento eu teria medo dela, mas naquela hora meu maior medo era de perder Frieda. E ele parecia ser maior do que qualquer outro medo ou sentimento. -E agora os tributos do distrito três!-Ela olhou a folha de papel-Mary Alice Withlock! A imagem de uma menina de cabelo ruivo e olhos claros surgiu na tela. Parecia certa do que queria apenas pelo olhar que lançava. -Lyna Becker!-A mulher falou lendo mais um nome. A foto de uma menina loira surgiu. Parecia mais nova que o resto dos tributos. O ato de se inscrever poderia ser considerado uma coisa para se orgulhar ou um devaneio de uma pessoa que precisava de algo que a inscrição traria. -E por último, Rose Tyler! Uma menina loira de olhos verdes apareceu. Era bonita. Parecia ter a idade de Frieda. Por mais que sorrisse na foto notava que o sorriso não era real. Era algo superficial. Seus olhos entregavam sua tristeza. -Agora os tributos do distrito quatro! Greyjoy O’Connor! Ela era morena. Olhar destemido. Não parecia indecisa em relação ao que fazia. -Agora o tributo masculino!-A mulher desceu os olhos e leu em voz alta mais um nome-Freddie Odair! O garoto era pouco mais novo que eu. Pelo que eu conhecia do sobrenome ele devia ser parente de Finnick Odair. O antigo vencedor dos jogos que morrera na batalha contra a Capital. Supus que ele me odiaria. Seu pai morreu por causa do meu avô. Aquela não era a melhor primeira impressão que poderíamos ter um do outro. -A tributa do distrito cinco será… Melody Hutch! A garota era loira. Olhos castanhos e bem desenhados. Ela parecia ter saído de um conto de fadas, se não fosse, claro, pelo fato de ela em uma semana se tornar mais uma assassina. As aparências podiam enganar. -Do distrito sete… Ravena Sawyer! Uma garota surgiu. Era de certa forma bem bonita. Cabelos escuros e olhos penetrantes. Mas algo nela mostrava que não era só mais um rostinho bonito de Panem. -Clarissa Black Morgan! A menina que apareceu era simplesmente encantadora. O cabelo ruivo caia como uma cascata pelas costas. Ela se destacava das outras garotas que eu já vira. Ela parecia alguém especial. Que eu deveria proteger. -E os rapazes… Charlie Malone! O garoto que surgiu era assustador. Tinha cabelos escuros, da cor dos olhos. Algo nele fazia com que eu me sentisse ameaçado. -E Aaron Malone! Esse garoto parecia menos ameaçador. Apenas parecia. O cabelo era mais curto e sua aparência era de alguém mais rico. -Do distrito dez… Wendy Chase Jones! A garota da foto sorria. Era loira e não aparentava ter mais de quinze anos. -E por fim o distrito treze! Temos como tributo feminino… Rebekah Fray! A imagem que surgiu mostrava uma menina morena de cabelos curtos e de aparência séria. -E como tributo masculino… Chon Waynes! Aquele deveria ser o tributo mais velho. Parecia já ter vivido mais dificuldades do que os outros. Parecia ser mais experiente. Algo me dizia que ele seria um obstáculo. Logo depois que passou a última foto desliguei a televisão e me virei de lado. Eu só queria dormir. Dormir pra ver se esquecia a realidade. Acordei no dia seguinte pouco depois das onze. Meus olhos estavam inchados. Como se eu tivesse chorado a noite. Não duvidava que aquilo tivesse acontecido. Não seria a primeira vez pelo menos. Fui até o banheiro e tranquei a porta. Me olhei no espelho. Parecia acabado. Morto. Se minha mãe estivesse lá me olharia espantada e me mandaria passar alguma coisa na cara para fingir que estava tudo bem. Ela me obrigaria a jogar junto com ela o jogo do cego. Minha família jogava a décadas. Você só tinha que fingir não ver o que acontecia a sua volta, só tinha que dizer a todos que estava tudo perfeitamente bem. Eu nunca gostei desse jogo. Não me parecia certo fingir estar feliz. Pessoas da alta sociedade brincavam de casinha e vestiam uma máscara de eterna felicidade. Me cansei de brincar quando tinha quatorze anos e sempre que podia saía de casa como queria, sem fingir, ou seja parecia um louco. Por isso minha família foi se afastando de mim. Meu pai evitava olhar nos meus olhos e dirigir a palavra a mim, minha avó me olhava com nojo e minha mãe me olhava como se eu fosse uma desgraça. Com o tempo passamos a ser ameaçados. Recebíamos muitas. Por correio, telefone, em conversas… No começo eu morria de medo, todos morríamos. A ideia de que qualquer um poderia nos matar era assustadora. Minha mãe demitiu todos que trabalhavam em casa com medo de serem eles os assassinos. Estávamos completamente loucos. Cegados pelo medo. Um dia não me lembro ao certo porque, comecei a pensar que estava cansado. Cansado de ter medo de andar na rua, cansado de ter medo de ficar em casa, cansado de ter medo de ficar sozinho, cansado de ter medo de falar com as pessoas, cansado de me esconder… Comecei a pensar no porque do medo. Concluí que ele não se passava de algo da nossa cabeça, não era nada mais do que a incerteza. A incerteza sobre algo que vai acontecer. A dúvida sobre o futuro. A incerteza em relação a se eu morreria, quem era a pessoa que nos ameaçava, se ela falava sério, se mataria todos nós, se eu a conhecia… Eu entendia que o perigo era real, mas o medo era uma escolha. E eu escolhi não ter medo. Desde então parei de sentir medo, e aos poucos a maioria dos meus sentimentos pelas pessoas e pelas coisas foi diminuindo. Não amava, não sentia medo, não sentia admiração, não sentia pena… Sentia apenas nojo e ódio. Pelo menos pela maior parte das pessoas e coisas. Minha irmã era um exemplo de pessoa que eu não conseguia odiar. Talvez porque ela não parecia ter raiva ou vergonha de mim. Eu nunca fora o tipo de pessoa que interagia ou que era super animada e extrovertida. Sempre me mantive na minha, evitando muito contato com as pessoas e passando minhas tardes sozinho lendo. Minhas mudanças então não mudaram muita coisa na minha convivência com as pessoas, já que era quase inexistente, mudou apenas as coisas dentro de mim. Até aquele dia eu pensava ser imune ao medo. Pensava que nunca o sentiria novamente. Mas quando ouvi o nome da minha irmã na lista de pessoas que provavelmente morreriam, senti medo. Mais medo do que eu jamais sentira. Medo de perde-la. De não poder mais olha-la todos os dias. De não poder mais brigar com ela. De não poder rir com ela. De não ter ela por perto. Ouvi batidas na porta. Voltei a realidade e limpei as lágrimas que escorriam. -Senhor Lucian está tudo bem com o senhor?-A enfermeira falou de trás da porta. -Está tudo ótimo! Não posso nem mais mijar em paz?-Falei irritado abrindo a porta bruscamente. A mulher pareceu sem graça. -Me desculpe… Deseja algo? -Hum… Um copo de água por favor.-Respondi. -Já trago! A enfermeira deixou o quarto. Me sentei na cama do hospital e suspirei. Não ingeria nada líquido a pelo menos quatro dias. Estava me torturando de forma completa. Sem água, sem comida e me cortando. Não sabia como não haviam notado a desidratação nos exames. Fiquei observando a parede branca atentamente até a enfermeira vir com minha água. Assim que ela chegou agradeci e a dispensei. Antes de dar um primeiro gole na água resolvi chamar Frieda. A balancei e a chamei com calma. -Ei! Acorda! Ela nem se moveu. -Acorda, Frieda!-Dessa vez falei irritado e impaciente. -Cinco minutos mãe…-Foi o que ela disse de forma sonolenta. Olhei para o copo de água em minha mão e tomei uma decisão adulta. Joguei toda a água nela. -Ah! O que foi?!-Ela berrou irritada. Ver ela irritada e ridicularizada daquele jeito me divertiu. Era uma espécie de vingança. Sorri de forma breve torcendo para que ela não tivesse visto. -Bom dia…-Falei me virando de costas e saindo do quarto. Ao mesmo tempo que deixei o quarto uma enfermeira entrou. Caminhei pelos corredores do hospital. Pessoas muito doentes passavam com suas aparências abatidas e olhares tristes. Me sentia mal por elas. Muitas ali jamais sairiam de lá, passariam o resto de seus dias sofrendo, pensando na vida que poderiam ter tido… Eram cadáveres que estavam presos a esse mundo, mendigando mais tempo de vida. Vivendo apenas pelo medo de morrer, de não se ver mais quem ama… Acho que era como eles. Vivia um dia após o outro vendo dias virarem noites, noites virarem dias, vendo dias se tornarem semanas, então meses e anos que duravam eternidades para passarem. Aquilo era um inferno, mas o pior de tudo era saber que ele estava apenas começando… Vi uma criança andando pelo corredor. Devia ter uns cinco anos. Olhar triste. Roupa de hospitalizado. Parecia amedrontado. Arrastava um poste com um soro pendurado que estava ligado ao seu braço. Ele me olhou e parou de repente me encarando. -Qual é seu nome?-Perguntei me abaixando para ficar da sua altura. Ele levantou os olhos castanhos e me encarou. -James… E o seu?-Ele esboçou um sorriso, mas via a tristeza em seus olhos. -Luke!-Respondi -Por que você está aqui?-Ele me perguntou. -Desmaiei na rua…-Falei sorrindo- Tive que ser carregado até aqui! Ele riu. -Sabe porquê estou aqui?-James perguntou. -Não… -Minha mãe me levou no médico e ele disse que eu estava doente-Ele começou-Daí viemos pra cá fazer uns exames e minha mãe me disse que iríamos para casa depois. Chegou uma mulher depois de eu fazer os exames e disse que eu tinha câncer. Mamãe começou a chorar e foi embora e me deixou aqui, não me levou pra casa que nem prometeu. Depois disso estou morando aqui… Não vi mais o papai e a mamãe! Eles pagam o que podem pra eu ficar aqui, mas não temos dinheiro… -Uma lágrima brotou de seus olhos-Acho que vou morrer… O olhei triste. Antes que pudesse perceber o estava abraçando. -Vai ficar tudo bem…-Cochichei no seu ouvido. O soltei e olhei nos seus olhos. Pareciam menos tristes, mas ele ainda chorava. Ele levantou o canto do lábio, puxou uma pulseira dourada do braço e me entregou. Era daquelas que se ganha quando nasce. -Quero que fique com ela para se lembrar de mim quando estiver nos jogos!-Ele falou limpando uma lágrima que escorreu-Lucian Snow! Fiquei parado olhando para ele. -Como você… -Vi TV ontem!-Ele me interrompeu. Sorri e puxei uma das minhas pulseiras de amarrar do braço. -E essa é para você se lembrar de mim quando eu estiver lá…-Falei enquanto amarrava a pulseira no pulso dele. James me abraçou e sorriu. Passei a mão no cabelo preto dele sorri de volta. Ele me olhou uma última vez e saiu andando pelo corredor de novo. O olhei enquanto se afastava. Quando ele já se misturava com a multidão desviei o olhar e me foquei na pulseira que ele me dera. Caberia em mim se eu a emendasse com outra. Peguei uma pulseira de couro que minha mãe me dera quando eu era menor que estava apertada mas que eu levava no bolso sem que soubessem e amarrei com a de James. Coube perfeitamente no meu pulso. Olhei para ela e sorri. Seria uma lembrança de uma pessoa que eu amava e de um guerreiro que eu desejava ser. Aquele seria um motivo pelo qual lutar. Caminhei até a recepção. A recepcionista me olhou confusa. -Bom dia… No que posso ajudar? -Poderia me informar sobre onde é o quarto do paciente James? -Temos mais de um paciente com esse nome… Você pode me falar o sobrenome dele? -Eu não sei… Ele deve ter uns cinco anos… É só o que sei dele… Ela me olhou irritada. E desviou os olhos para p computador digitando o nome. -O paciente James Harris está no quarto 136 na ala sul. -Essa é a mais barata…?-Perguntei confuso. -É sim senhor.-Ela me respondeu. -Os tratamentos da doença são piores…? -Sim senhor. Desviei os olhos dela e puxei do meu bolso um bolo de dinheiro que eu guardava para encher a cara e joguei em cima do balcão.
-Isso deve pagar o quarto que eu estava e a estadia dele lá… Prazer! Sou Lucian Snow! Paciente do quarto 300 de luxo da ala norte.
Eu e Frieda estávamos sentados na recepção a uma meia hora sem falar um com o outro. Ela me olhava de vez em quando como se quisesse conversar, mas eu devolvia um olhar irritado e bufava. -Sabe…-Ela começou e nem me dei o trabalho de me virar para ela, apenas olhei com o canto dos olhos do modo mais irritado que consegui-Eu tenho tanto direito de me voluntariar quanto você. O que muda? Estava bolando uma resposta inteligente e irritada apresentando mais de vinte razões óbvias para ela não poder se voluntariar e eu sim, mas, quando abri a boca para responder, um grupo de pacificadores chegou. Reconheci um entre eles. Leo. O chefe. Detestava ele. O modo como se achava o máximo porque era o chefe e como já me prendera mais de uma vez, me irritava. Não gostava de quem me prendia. Me levantei e andei ma direção do grupo. Olhei com ódio para Leo e ele me retribuiu olhando para o lado, como se não tivesse visto. Notei que todos que estavam lá nos olhavam. Olhares irritados e curiosos. Em outra ocasião os olharia e sorriria de modo sarcástico, mas me sentia derrotado. Como se eu já tivesse perdido antes de começar. Olhei para trás. O chefe dos pacificadores estava falando com Frieda. Não gostava daquilo. Como eles se conheciam? Talvez de alguma das vezes que Frieda fizera besteira. Não queria mais pensar nela. Nem mais sabia ao certo se queria esgana-la ou abraça-la.
Finalmente chegamos aos apartamentos em que ficaríamos até os jogos. Era lá que eu viveria minha última semana de vida. Lá eu criaria minhas últimas lembranças. Nunca pensei que acabaria assim. Nunca me imaginei morrendo nos Jogos. Mas talvez o inusitado fosse bom. Talvez aquele ato de morrer nos jogos melhorasse a vida de minha família dali pra frente. Daria um jeito de salvar Frieda. Iria para os jogos apenas para protege-la e para garantir que ela não fosse mais odiada quando saísse. Os pacificadores nos levaram para dentro e indicaram onde ficaríamos. Era um apartamento grande e luxuoso. Tinha toda a tecnologia que a Capital podia oferecer. O apartamento tinha seis quartos, devido a quantidade de tributos que tinha. Frieda ficou olhando o lugar, mas não estava nem um pouco paciente para isso. Logo chegariam os outros tributos e também não estava com vontade de socializar. Marchei até um quarto no fim do corredor e me joguei na cama. Várias coisas passavam pela minha cabeça. Tudo o que eu queria era me aliviar. Algo que tirasse aquele peso de mim. Me levantei apressado e fui até a cômoda ao lado da cama. Abri a primeira gaveta e busquei algo. A minha faca. Não estava lá. Aquela não era minha casa. Eu precisava de algo cortante. Qualquer coisa. Não achava nada. Tudo parecia ter sido projetado para abrigar uma criança. Fui até o banheiro e lavei o rosto. Me olhei no espelho. Eu estava mal. Doente. Como poderia proteger minha irmã daquele jeito? Que exemplo eu seria para o pobre menino que vi no hospital? O que minha família pensaria de mim? Quem gostaria de alguém como eu? Eu era um louco. Doente. Mal-humorado. Triste. Esquentado. O tipo de pessoa que qualquer um iria querer longe. Me olhei uma última vez no espelho. Vi uma pessoa desprezível. Antes que pudesse me controlar, já estava socando o espelho. Ele se despedaçou e cortou toda a minha mão. O sangue começou a pingar pelo banheiro. Me agachei e fiquei ali sentindo a dor dos cortes. Me sentia melhor. Depois de alguns minutos deitado no chão do banheiro pensando me levantei. Peguei um caco do chão do banheiro e me olhei nele. Estava sangrando pelos pedaços de vidro que caíram e o cortaram. Me levantei e lavei meu rosto e retirei os cacos presos na pele. Limpei as lágrimas e o sangue do rosto e me olhei no caco de espelho de novo. Estava melhor. Parecia normal. Ouvi uma batida na porta do quarto e fui até ela com um sorriso no rosto. -Está tudo bem senhor?-Um pacificador perguntou. Olhei para ele sorrindo. -Quebrei o vidro do espelho com uma pedrinha sem querer…-Ele me olhou mais tranquilo- Está tudo bem… Tudo ótimo…
Rose Tyler- DS 1 - TFC
Rose acordou tarde como de costume, ela preferia muito mais passar o seu tempo sonhando com o impossível do que viver num mundo terrível, ela nem sabia mais diferenciar o real do imaginário. Sua mente foi tão desgastada com coisas inúteis, que foram se tornando importantes para menina… Pobre Rose. Sua cabeça não aguentava mais esse mundo cinza, ela não via mais felicidade, ela não sorria.
Foi até o banheiro, onde haviam sinais de automutilação e sangue seco espalhado por toda a pia. Rose se olhou no espelho, com a mesma cara de séria e nos olhos uma grande tristeza, mas sem lagrimas, pra ela não adiantava mais chorar. Prendeu o cabelo num rabo alto, sem nem mesmo pentear os seus cabelos. Escovou os dentes e retornou ao quarto.
Rose tirou o pijama e botou uma blusa cinza, uma calça Jens e um casaco preto para cobrir as cicatrizes no pulso esquerdo. Calçou um sapato qualquer e desceu as escadas, seus pais e seus irmãos estavam tomando café da manhã, ela passou reto e foi em direção a porta.
-Rose, não vai comer? -perguntou a mãe fingindo que se preocupava
Rose fez que não com a cabeça e saiu apressadamente de casa. Foi caminhando pela cidade, olhando as árvores, as suas folhas, flores e frutos… Tudo tão belo, mas para Rose, tudo aquilo era apenas mais um componente do cenário… Para ela, um rio é só um rio. Ela não tinha mais sensibilidade para enxergar a beleza nas coisas, o modo de como foi tratada dês de criança que tornou essa menina tão sem sal e cinza. Mas o que ela mais queria, é que o mundo voltasse a ser colorido.
Finalmente chegou a praça, mas não apenas UMA praça, era A praça. Sentou no banco e observou as pessoas. A maioria dos adultos estava de cara séria e fechada, como os adultos costumam ser: sérios e fechados. As crianças, por outro lado estavam sorrindo e cheios de energia, o que apenas comprovava a teoria de Rose “crianças são felizes porque não conhecem o mundo onde vivem”. E os adolescentes? Provavelmente cuidando da sua “vida social” ou transando. Rose, provavelmente, é a única adolescente que nunca teve e nunca terá uma vida social, e ainda por cima, vai morrer virgem.
Mas também o que adiantava viver para ela? Se como quase todos os adultos são cinzas -o que era quase inevitável para Rose, do jeito como as coisas estão indo-, e depois se tornar uma velha rabugenta que nunca sai de casa, e por fim, morrer solteira… A ultima coisa que Rose queria era ter uma vida dessas.
Mas como ela poderia tentar mudar se nunca deram uma chance a ela? Ela sempre foi a “menina excluída” ou “aquela que senta no canto da mesa sozinha” ou até mesmo “aquela que nunca sorri”. Ninguém além da família sabia o seu nome, e ninguém a conhecida realmente, nem ela própria. Rose sempre tentou ser o que os outros esperam dela, e não o que realmente é. Rose Tyler já havia morrido a muito tempo, só restava matar o corpo que ainda está vivo.
Rose ouviu duas mulheres conversando sobre os Jogos desse ano, que horror, mortes e mais mortes… Pelo menos os tributos desse ano serão voluntários, ou seja, tem um motivo bom para isso.
Ao ouvir as mulheres, se lembrou de tudo dos jogos, e como poderia se livrar daquele sofrimento que a corroía por dentro, então saiu apressadamente do parque e foi para o edifício da justiça se alistar, sem consultar absolutamente ninguém.
"Meus pais não ligam para minha existência, a final, sou só mais um fardo na vida deles. Não tenho amigos, nem motivos para ser feliz. E como prefiro morrer lutando, vou me alistar, estou fazendo o certo." Pensou Rose.
A caminho do edifício, Rose avistou a sua antiga colega de escola, Zoe. Mas, na verdade não era uma simples colega, era menina que praticava Bullying com ela na infância. Rose imediatamente colocou o capuz, cobriu a mão esquerda completamente e se apressou, torcendo para que Zoe não a reconhecesse.
-Rose! - Zoe disse dado oi com a mão
"Droga" Rose pensou. Ela respirou, fechou os olhos e se virou, dando um pequeno sorriso falso sem mostrar os dantes.
-Então, quanto tempo! Como anda a sua vida? - Zoe disse abrindo um sorriso de orelha a orelha
-Ótima, e a sua? - Exclamou Rose, ela não iria falar de jeito nenhum que sua vida estava ruim
-A minha também! Super bem
Um longo silencio se passou, e Rose tentou se segurar para não meter um soco na cara de Zoe.
-Bem, tenho que ir, tchau - Disse Rose, voltando a suas feição fechadas e tristes
-Até! Adorei te rever, querida! - Zoe a abraçou, porem Rose não retribuiu
Rose se virou e continuou andando sem olhar para trás, e a unica coisa que conseguia pensar era “Será que ela não lembra do que aconteceu? Do que ela fazia comigo? Ou ela só estava fingindo?”. O que tinha acabado de acontecer só a lembrou mais do seu passado assombroso, e só confirmou mais que se alistar era a melhor coisa a fazer. Não é bom quando reviram sentimentos dentro de Rose, os resultados são variados e nunca agradáveis…
{…}
Quando chegou ao edifício da justiça, viu que estava quase vazio, praticamente deserto, o que já era de se esperar, pois a maioria dos adolescentes são felizes, e a maioria dos adultos tem coisas melhores para fazer do que entrar dentro de uma arena para matar uns aos outros como animais selvagens.
Rose se dirigiu a um grande balcão que havia bem no centro da recepção, onde havia uma moça que lhe entregou uma ficha:
“Nome: Rose Tyler
Distrito: 3
Idade: 19 anos
Motivo para o ato: depressão”
Rose devolveu a ficha para moça e saiu sem dizer uma palavra.
{..}
Quando Rose chegou em casa eram mais ou menos cinco horas, ela subiu para o seu quarto e se jogou na cama ,”Cama, você vai ser a unica que vai dormir comigo, aposto!” pensou Rose aconchegando a sua cabeça no travesseiro e pegando um livro que estava em seu criado mudo, Perdão Leonard Peacock. Devo dizer que esse não era o livro mais recomendado para Rose, pois falava sobre um menino que queria matar o ex-melhor amigo e depois se matar, ou seja, só deixava Rose mais depressiva.
Rose devorava aquelas palavras incessantemente, queria terminar o livro antes de ir para Capital - Caso fosse escolhida, é claro -. Quando chegou exatas oito horas, Rose acabou o livro, deu um suspiro de tristeza e desceu as escadas para jantar. Era contra a politica de Rose sorrir ou chorar por coisas inúteis, pois toda felicidade é passageira, e toda tristeza deixa marcas eternas.
Quando chegou a sala, todos estavam assistindo a escolha dos tributos voluntários, Rose revirou os olho e sentou na cadeira no canto do comodo. Gavril Flickerman -filho de Caesar- que iria anunciar os tributos desse ano. Devo dizer que ele tem a mesma animação que o pai tinha…
Gavril começou a anunciar os tributos da capital, depois o do distrito um, dois… Logo chegou o três, e Rose se inclinou para frente apoiando os cotovelos nos joelhos, ansiosa. “Rose Tyler”.
Os pais de Rose se levantaram e começaram a gritar com a TV e com Rose, fingindo que se importavam com ela… Todos que conhecem a família de Rose, sabem quem os pais não se importam nem um pouco com ela…
-Olha, pelo menos não vão ter que se preocupar em gastar comigo…- Argumentou Rose
-É verdade .. - Exclamou o pai dela
-Shiu! - Exclamou a mãe dando um pequeno beliscão no braço do pai- O que você estava pensando quando decidiu isso?
-Que Rose Tyler já morreu a muito tempo - Exclamou Rose subindo as escadas
Entrou no quarto e trancou a porta, colocou musica no fone no ultimo volume se desligou desse mundo.
{…}
No dia seguinte acordou cedo, Rose sabia que os seus pais impediriam ela sair de casa, mesmo não podendo… Iriam fazer um escândalo! Então se apontou e saiu de casa pela janela. O fato de seu quarto ficar no segundo andar não atrapalhava o ato, pois não era tão alto assim, e Rose pulava com a muita facilidade.
Havia deixado um bilhete para os seus pais em cima de seu travesseiro, explicando o motivo de tudo isso, e revelando a eles o que nunca havia contado a ninguém. Se encostou na porta e esperou os pacificadores que provavelmente passariam por lá a qualquer momento.
Horas se passaram e nenhum sinal de pacificadores e pessoas da capital, somente inúmeras pessoas normais do distrito 3, mas não se via nenhum sorriso amigável…. Será que o mundo esta perdido mesmo ou só Rose que não recebia sorrisos? Porém ela nem se importava mais, se nem ela sorri pra si mesma, quem sorriria? Nem seus próprios pais… Coitada da menina! Não tem amigos! Qual era a probabilidade de alguém sorrir para ela naquele momento ? Quase nenhuma, praticamente zero, porem, de todas os inúmeros acontecimentos improváveis, pelo menos um iria acontecer naquele momento… Mas nada aconteceu.
Depois de mais ou menos uma hora os pacificadores chegaram, com aquela mesma expressão séria de sempre que se assemelhava um pouco com a de Rose. Eles demoraram um pouco para entender o que ela estava fazendo do lado de fora da casa, porem logo a levaram sem pestanejar. Foram ao trem, e as primeiras horas do fim luxuoso de Rose haviam começado, o caminho para morte mais rico que se poderia imaginar.
Ao entrar no trem vista foi poluída com milhares de coisas de cristais, brilho e cor, fazendo ficar pequena perto de tanta riqueza. “Meus pais me trocariam por tudo isso…” Pensou tristonha.
Não quis conversar com absolutamente ninguém, apenas se sentou numa cadeira e ficou “brincando” com objetos pontiagudos que haviam por perto, tentando não manchar nada. Se ainda não percebeu, momentos “sociais” não são o forte da Rose, ela prefere guardar pra si mesma tudo que pensa, e raramente -nunca- puxa assunto com alguém, ainda mais se for desconhecido. Observou a sua volta os objetos caros e com pouca utilidade que dominavam toda a vista. Tenho que dizer que Rose ficou morrendo de vontade de quebrar alguma coisa para extravasar a dor, e afinal ninguém iria sentir falta, mas ficou com um pouco de medo.
Algum tempinho se passou, até que finalmente chegou a sua “casa pelos próximos dias”. Mas pensando bem, Rose nunca teve uma casa que pudesse chamar de Lar. Lar é um lugar onde você se sente a vontade e feliz, perto de pessoas que ama, e Rose não sentia isso desde que tinha 8 anos. Foram recebidos por 3 lindas mulheres, com olhares penetrantes e focados, mas Rose nem as cumprimentou, apenas passou reto curvando levemente a cabeça como um sinal de “oi”, mas bem seco e sem vida, como ela sempre era. Viu varias pessoas cheias de brilho que até ofuscavam um pouco a cara fechada de Rose, e só a deixavam mais invisível do que já é… Revirou os olhos e seguiu em frente, tentando se concentrar em outra coisa além daquelas pessoas com roupas que mais parecem um cenário de uma peça de teatro.
DS 1- Frieda Hope Snow - Capital
Olhei mais uma vez para o relógio, era pelo menos a vigésima vez que consultava a hora, mas mesmo que eu soubesse que só teria se passado alguns segundos desde quando fora 3:28, ia continuar encarando os três ponteiros que anunciavam mais um minuto, segundo e hora de minha miserável vida. Agora já eram exatos 3:30, e assim que o ponteiro dos minutos apontou para o 6, ouvi o barulho de passos, que logo cessaram, seguido pelo som de uma chave tilintando no espaço, que foi substituído por essa mesma chave girando no trinco da porta. Agora, á minha frente, estava um pacificador vestido inteiramente de branco, como é de se esperar de um pacificador, ele me olhava severamente, e fez sinal para que me levantasse do banco de pedra onde estava sentada. Assim fiz, levantei-me e fui seguindo o pacificador, abandonando minha cela e passando por muitas outras, onde rostos frios e sem vida me acompanhavam com o olhar, aqueles olhares vazios e moribundos, de gente que cansara de ter esperança, e agora só esperava pelo pior. “Vovô fez isso a muitos deles…” Pensou a voz em minha mente “Eles sabem quem sou. Todos sabem. Devem me odiar.” Em algum momento eu havia parado, e nem percebi que encarava uma cela pequena, onde havia somente um pequeno corpo atirado no chão. Um corpo magro, com as costelas aparecendo, coberto apenas por um pano branco manchado de sangue, na cabeça haviam tufos loiros de um cabelo curto, e as feições duras não pareciam combinar a um ser tão pequeno. Era um menino. Uma criança. Em seu rosto haviam arranhões e hematomas, e vi em seu braço, um escrito, um nome, um nome chique e complicado, aqueles nomes ridículos e típicos da Capital. Provavelmente estava sendo punido por algo que sua família havia feito. Comecei a me imaginar ali, no lugar daquele menino, eu merecia estar ali, sendo maltratada em uma cela fria e abandonada para pagar o que alguém cujo o mesmo sangue que o meu corria nas veias havia feito. Mas estava naquela prisão horrível após uma noite em que perdera o controle e fizera algo errado, e em breve estaria livre, sem nenhuma punição, e essa seria apenas mais uma das tantas noites que eu passei e irei passar pelo o resto de minha vida, apenas mais um mísero detalhe insignificante que meu cérebro tratará de algum dia, eliminar. Já aquela criança, ia sofrer sem poder fazer nada até o fim de sua curta vida. Senti lágrimas quente rolarem por meu rosto, o sangue fervia em todo meu corpo, a adrenalina me dominava, e o que restara do álcool me impulsionava, quando percebi, estava correndo em direção á cela da criança. Coloquei minhas mãos para dentro daquela grade e segurei os dedos pequeninos, senti um aperto de volta, e vi os olhos do menino se levantarem e me fitarem, seu olhar transmitia apenas uma coisa: medo. Minhas mãos soltaram a do menino, e agora agarravam a grade de sua cela, eu as puxava com força, e estava gritando alguma coisa que não sei identificar o que era, estava desesperada e confusa, nunca me sentira tão mal como agora, chutava e puxava as grades da cela, e sentia meu cérebro rodar e minha sanidade se esvair, todas minhas emoções conturbadas em relação ao que eu fizera, a noite na prisão e a pobre criança, se misturavam, e a última coisa que senti antes que tudo ficasse preto, foram mãos fortes segurando meus braços, e o rosto do pacificador a minha frente. — Me olhei mais uma vez no espelho, estava igual á última vez em que me olhara. Os cabelos negros presos em um rabo, o vestido branco e curto que custara mais caro que a geladeira da casa, os sapatos de salto dourados, o rosto perfeitamente maquiado… Estava igual. Mas conseguia perceber ao observar meus próprios olhos no espelho, que as lembranças ainda estava nítidas. As lembranças da noite em que eu fora parar na prisão, as lembranças do dia em que já estava a tempos sem comer, tivera uma recaída, misturada á álcool, o que resultara em acordar em uma cama com lençóis cinzentos onde o Sol brilhava quadriculado através da grade. O dia em que eu descobrira as injustiças desse mundo, e tivera certeza do quanto eu não deveria estar viva. -Não gosto dessa porra de nome! Me chame de Luke! Só Luke! Sem bebê, sem Lu, e principalmente, sem Lucian! Certo?- Ouvi gritos do quarto no fim do corredor. Suspirei. Era Luke. Gritos eram muito comuns na mansão de nossa família, gritos de minha mãe com meu irmão, de meu padrasto agredindo mamãe, ou de qualquer um que morasse aqui gritando consigo mesmo, afinal, somos todos os loucos e amaldiçoados Snows. -Mamãe? O que está acontecendo?- Me aproximei de minha mãe lentamente, ela virou seu rosto pálido e cansado para mim, abriu a boca sem emitir nenhum som, e simplesmente socou a parede ao nosso lado. -Ele não come nada.- Murmurou.- Luke tem suas próprias maneiras de encontrar a morte. Ela me lançou um último olhar débil e fraco, antes de se arrastar pelo grande corredor em direção ao seu quarto. Não pude evitar olhar para a foto que tinha de minha mãe na mesinha do corredor, aquele mulher bela e alegre, que fazia com que todos a sua volta se alegrassem apenas com sua beleza, mas que também possuía um olhar mais frio que gelo e mais afiado que uma faca, que fazia com que todos quisessem se curvar a ela. Agora, Elizabeth Snow era apenas uma mulher louca, a filha do presidente que todos odiavam, a mulher rica que recebia ameaças de morte pelo correio, a mãe de uma anoréxica cleptomaníaca, e de um suicida perigoso. Suspirei, e entrei no quarto de Luke. Admito, que odiava entrar em seu quarto. Meu quarto era típico de uma mulher da Capital, rosa, com roupas de grife espalhadas por todos os cantos, o de minha mães era luxuoso e moderno, assim como o resto de nossa impecável mansão. Todos lá demonstravam seu poder e riqueza em suas atitudes, posses e roupas, apenas para compensar quem éramos por dentro. Eu, minha mãe, vovó e meu padrasto éramos iguais a um belo saco cheio de vento, interessantes e bonitos por fora, mas vazios por dentro. Luke não era assim. Ele era verdadeiro e insensível não ligava para a imagem que passaria, e entrar em seu quarto, e ao menos ter uma conversa com ele, era como um soco da realidade, me mostrando que minha vida era uma farsa, e que além de minha atitude arrogante e roupas luxuosas, eu não era nada. -Luke. Por favor vamos comer algo!- Falei, calma e serenamente, mas com uma porção de meu jeito mandão, como se estivesse o ordenando a comer com um sorriso meigo no rosto, embora não fosse o tipo de pessoa que pudesse dizer algo em relação a comida para alguém. -Bom dia Frieda! Tudo bem com você?- Ele me respondeu com sarcasmo, e segurei a vontade de enfiar a comida em sua boca. -Por favor Luke! Por mim!- Disse, dessa vez preocupada, por que um dos poucos sentimentos verdadeiros em mim, era meu sentimento por meu irmão. E quando terminei de falar, reparei ma faca que estava a seu lado, e em seu braço ensanguentado.- Luke…- Murmurei de cabeça baixa.- Você voltou com isso? -Bem, não é como se eu já tivesse parado.- Ele respondeu calmamente, como se pudesse se explicar com apenas essas palavras. -Você não precisa se culpar, Luke. Não precisa se culpar pelo o que ele fez. Não precisa se culpar pelo seu pai, a mamãe… Por ninguém. Não é sua culpa. -Não?- Ele me fitou, seus olhos focados nos meus e vice versa.- Então de quem é a culpa? Fiquei em silêncio pensando. Culpa. Um sentimento com o qual lutei por muito tempo. Luke passara pelas mesmas coisas que eu, e talvez ele se sentisse como eu em relação a vovô. Culpado. -Minha? -Claro que não.- Ele disse, mas não me sentia segura sobre isso. Tantas coisas que aconteceram ao longo do tempo foram minha culpa. -Okay. Apenas vai comer… - Terminei nossa conversa por ai, e sai de seu quarto, batendo a porta atrás de mim. Desci as eescadas e andei em direção á sala de jantar, passando pela sala de estar e pelo jardim de inverno. Mamãe já estava sentada, em seu lado esquerdo estava meu padrasto, e em seu lado direito a cadeira vazia me incomodava, pois era o lugar onde Luke deveria sentar. Dei de ombros, e sentei-me ao lado da cadeira vazia. O café foi silencioso como sempre. Fiz como todas as refeições, comi o que considerava saudável, o que era menos calórico, e em pouquíssima quantidade. Ao fim da refeição apenas me levantei, minha barriga roncava, tinha vontade de voltar para a mesa e experimentar o bolo de chocolate e brigadeiro, o pão com queijo cheddar, o leite com nescau, mas não podia. Enquanto subia as escadas vi meu reflexo me seguindo e assombrando, era eu, meu rosto, meus olhos, meu cabelo, mas sempre que me olhava em um espelho via minha silhueta gorda, me observava muito mais cheia do que costumo ser, esse pensamento me assombrou, precisava de um regime urgentemente, precisava me livrar daquilo! Precisava… Olhei para o grande relógio de ouro na parede, estava em minha hora. Corri para meu quarto, peguei minha bolsa, e sai mais uma vez, agora seguindo em direção á saída. Desisti de ir ao banheiro me livrar da comida, podia compensar isso no almoço. Na porta principal haviam muitos seguranças, obviamente. -Onde você vai, senhorita?- Perguntou um deles, me olhando como se eu fosse alguma espécie de alien. Era esse olhar que eu recebia de todas as pessoas com quem encontrava. -Não é como você se importasse caso eu fosse embora e nunca mais voltasse.- Falei em tom desafiador, e esperei para que o homem me desse caminho, quando finalmente o fez, pude sair daquela gigantesca mansão, e me senti como alguém que passou anos em uma caverna escura, e estava finalmente vendo o Sol, como aquela historia da Era dos Dinossauros, da princesa que ficou trancada na torre, e conseguiu sair, fugindo da bruxa má. No fim do jardim, onde já apontava a rua, estava parado um homem. Ele se vestia inteiramente de branco, menos por um distintivo dourado, indicando sua posição de pacificador-chefe. O pacificador estava impaciente, olhando para todos os lados, como se estivesse procurando por algo. Ou alguém. Andei sorrateiramente em sua direção, e quando estava atrás do homem, o abracei pelas costas. -Oi…- Sussurrei de forma sensual em seu ouvido. -Frieda…- Ele me respondeu, e se virou, colocando as mãos em minha cintura. Sorri, e puxei para cima o capacete do pacificador, estávamos nos aproximando lentamente, até o ele se afastar um pouco. -Não deveríamos ficar em público.- Falou ele. -Eu sei que não, mas estou cansada de nos encontrarmos só em restaurantes pequenos, parques abandonados e na sua casa. -Serio? Eu não costumo me incomodar quando estamos sozinhos em casa… Eu dei um pequeno sorriso, desde o dia em que eu fora presa, costumamos sair em segredo, era um relacionamento perigoso, não só pela diferença de 7 anos de idade, ou por eu ser a neta de Snow e ele o pacificador-chefe, mas talvez por que Leo era casado. -Você tem razão, eu também gosto, mas… Agora que você e Vivian vão se divorciar, talvez devêssemos ter um encontro no cinema, ou você poderia ir em casa, conhecer minha família e…- Antes que pudesse terminar, ouvi um barulho eletrônico, olhei para Leo e ele para um aparelho preto que estava pendurado em sua blusa. -Pacificador-chefe na escuta.- Disse o homem me fazendo um sinal para ficar em silêncio.- O que? Vocês o levaram para o hospital? Qual o nome do garoto?- Eu o olhava preocupada, emergencias aconteciam a todo momento, e ele estav sempre pronto para tudo, mas a expressão que assumiu seu rosto naquele momento, era no mínimo tenebrosa.- Pode deixar, eu avisarei a família. O olhar de Leo estava duro, ele segurou minha mão e fitou-me nos olhos, antes de dizer: -Seu irmão estava saindo da antiga mansão Snow, ele estava se alistando para os Jogos.- Não consegui conter uma exclamação de surpresa.- Ainda não sabem o que aconteceu, ele foi encontrado por um pacificador, eles o levaram para o hospital mais próximo. Quando ele terminou de falar, senti um desespero terrível me dominar, o que poderia ter acontecido com ele? Suicídio? Desmaio? Não ia esperar para saber. Sai correndo pelas ruas, andando em direção a minha antiga mansão, havia um hospital, a duas ruas de lá. Não estava perto da mansão, e os saltos-altos prejudicavam minha corrida, mas ignorri isso, meu desespero era maior. Quando percebi estava em frente a minha antiga mansão. Senti uma imensa necessidade de entrar, precisava ver como estava o que um dia fora meu lar. Assim fiz. Assim que entrei, vi vários olhos se focarem em mim, me encaravam com expressões mistas que nem quis estudar. -Frieda! -Exclamou uma das mulheres que estava dentro da mansão, ela trabalhara em casa, me vira crescer.- Você… Você veio se inscrever? Suas palavras ecoaram em meu ouvido, nunca havia cogitado essa ideia, mas só agora percebia o quanto isso se encaixava perfeitamente a mim. Neta do snow, odiada por todos, seu nome carrega milhares de mortes, roubara o marido de uma mulher, vivia em uma família louca, roubara de inocentes… Os Jogos pareciam uma oportunidade perfeita para pagar todos esses maus de si mesma e de sua família, quem sabe se não morresse nos Jogos, isso limparia o nome da Família Snow? -Sim.- Respondi sombriamente, e esperei que a mulher me desse uma caneta e uma folha, onde haviam os seguintes itens: Nome, endereço, idade e motivo. Preenchi a folha, minha mão tremia, e quando olhei para aquela palavra “motivo” pensei por muito tempo, mas achei que seria mais interessante, apenas deixar aquele tópico em branco. -Obrigada.- Murmurei, entregando a folha para a mulher.- Por favor, você pode me dizer qual o hospital mais próximo? A mulher olhou para os outros que estavam na sala, todos pareciam um pouco espantados, e continuaram se entreolhando, quando um finalmente abriu a boca para me responder: -Si.. Siga reto, direita e direta de novo. Pensei em agradecer, mas não gostei da forma que eles me olhavam, então apenas mandei um olhar neutro, e sai da mansão, tentando parecer o mais superior possível que alguém que estava se auto-indicando para os Jogos conseguia parecer. Dessa vez, fui andando, não queria correr, apenas não queria. Andei tranquilamente, até chegar a um grande hospital branco, e lá, entrei rápida e ansiosamente, pois quase conseguia sentir o sofrimento de meus irmão nesse momento. Ninguem nem ao menos me perguntou para onde estava indo, nem mesmo na recepção, a unica vez que abriram a boca para me dizer algo que não fosse xingamentos sussurados, foi quando me indicaram o quarto onde Luke estava. Era o primeiro quarto do corredor, um quarto grande e completamente luxuoso, não queria nem pensar no quanto aquilo custava. Assim que entrei, vi Luke deitado em uma cama, ele parecia estar bem, sem contar por tubos conectados a seu braço. -Lizzie!- Exclamou ao me ver.- O que você está fazendo aqui? -Eu que te pergunto! O que aconteceu? -Falta de comida…- Ele falou indiferente, como se dissesse o que comeu no café da manhã.- Pelo visto quando se passa uma semana sem comer você acaba desmaiando… -O que?! - Praticamente voei para perto de meu irmão, ergui minha mão e lhe dei um tapa no rosto.- Seu idiota! Como você pode ficar tanto tempo sem…- Mas antes que pudesse terminar a frase, vi em minha mente eu mesma, jogando meu almoço no lixo, vomitando após as refeições… Não tinha muita moral pra falar de comida. -Quer saber? Esquece. Uma enfermeira entrou nesse exato momento, eu a olhei, e ela me olhou de volta. -Quem é você?- Perguntou, cerrando os olhos. -Frieda. Frieda Snow. Irmã desse retardado. Hum, ele, sei lá, tá bem? -Sra. Snow, faltam muitos nutrientes e vitaminas em seu sangue, portanto recomendamos que seu irmão ingira mais carboidratos, ferro, vitaminas C, B e D. Ele se recusa, então vamos ter que deixá-lo em contato com soro direto na veia. Mas se o Sr. Snow continuar com essa recusa, teremos que recorrer ao tubo alimentício e… -Espera um pouco…- Interrompeu Luke- O que? -Resumindo, você está com falta de vitamina e carboidratos, e se não quiser colaborar, vão ter que enfiar um tubo no seu estômago.- Disse, e vi a cara de repulsa que Luke fez. -Então a partir de agora, você vai ter que comer frutas como laranja e limão, que são ricas em vitamina C, carne, vegetais verdes, ovos e cereais, que tem a vitamina B, laticínios, da vitamina D e batata, pão e massa, que tem carboidratos, você não vai mais praticar muito esporte, e… -Nossa! Desde quando você entende tanto de comida?- Disse Luke, senti o tom de deboche, mas ignorei, ele estava irritado, e eu entendia. -Sei lá. -Sua irmã está certa, Sr. Snow, mas esqueceu de mencionar a falta de sangue. Eu aconselharia um transplante de sangue, pois seus globulos vermelhos não estão danificados, e poderiam começar a produzir mais sangue com uma dose extra, mas com todo respeito, não acho que alguém lhe doaria, já que vocês são… Hum… -Netos do Snow.- Completamos juntos, e a médica abaixou a cabeça, envergonhada. -Mas se os glóbulos vermelho ainda estão em bom estado, o organismo dele vai produzir mais sangue normalmente!- Falei, meu conhecimento em medicina não era tão bom, mas tinha certeza que prestara atenção nas aulas de ciências. -Hum, mas o organismo dele só vai produzir sem a falta de vitaminas… -Na minha língua por favor… -Se você não comer, vai morrer por falta de sangue e de nutrientes. Fez-se um silêncio. -Bem esclarecedor irmãzinha. -Luke, você terá que passar a noite aqui, por que não comunica seus pais? -Talvez por que eles não dão a mínima para se eu tô em casa me cortando, ou no hospital morrendo. -Luke!- Exclamei um tanto espantada e triste, não queria que ele pensasse assim.- Doutora, não tem a necessidade de chamar nossos pais. E por favor, vocês poderiam providenciar uma cama ou algo do tipo? Vou passar a noite aqui também… ~o~ Aquela tarde, fui dormir cedo, montaram para mim uma pequena cama que foi instalada no canto do quarto, Luke ficou recebendo soro, e fez com que ligassem a TV lá pelas 7 horas, ele queria ver quem foram os escolhidos como tributos… Não apenas ele como também todos os enfermeiros que estavam por perto. Mas eu não queria ver, não estava arrependida do que fizera, mas ver na TV seu rosto e o de seu irmão a destruiria completamente, portanto, enquanto toda a Panem estava grudada em suas televisões, apenas me deitei na cama, e dormi. Depois do que pensei ser 5 ou 6 horas, finalmente acordei, Luke estava dormindo, a sala estava escura, apenas com uma frestinha de luz vinda do corredor. Resolvi me levantar, passear um pouco. Fui andando, visitei ponta-a-ponta do Hospital, até mesmo conversei com alguns funcionarios, era surpreendente o quanto um hospital era silencioso pela noite, mas minha mente estava perturbada, e eu precisava relaxar um pouco, decidi que como muito provavelmente amanhã seria uma tributo, precisava fazer uma terapia de compras. Havia uma loja dentro do hospital, não era grande coisa, mas dava para o gasto, abri minha carteira, e havia muito mais do que o suficiente para umas comprinhas, mas qual a graça em comprar algo quando se paga por isso? Entrei na loja, e inicialmente apenas a observei, haviam quatro câmeras, além de duas atendentes e uma balconista, não seria fácil. Rodei pela loja, e peguei dois casacos com dois bolsos cada, um vestido curto e leve de seda e um colar de diamantes. Coloquei o vestido e o colar entre os casacos, e escolhi uma arara lotada de roupas como alvo. Me aproximei da arara, e fingi tropeçar, me jogando no chão e derrubando a arara com todas as roupas. As duas atendetes vieram me ajudar, aproveitei a confusão de tecidos, para disfarçadamente colocar o colar e o vestido amassados dentro dos bolsos dos casacos. -Oh! Me desculpe!- Fiz biquinho, e voz melodiosa, parecia realmente magoada.- Eu sou tão desastrada! Estou sempre quebrando tudo!- Suspirei pesadamente.- Sabe, meu pai costumava me dizer o quanto eu era inútil e destruidora quando me trancava para fora de casa, ele tem tanta razão! Sou uma pessoa tão horrível!- Resolvi ficar em silêncio, já estava fazendo drama em excesso, mas tinha certeza que meu teatro havia comovido as lojistas. -Querida, não se preocupe!- Exclamou uma delas.- Nós vamos arrumar tudo! -Me desculpe! Por favor! Eu… Vou no provador! Duas peças.- Ergui os casacos, e me entregaram uma fichinha com o numero 2. Não esperei, me dirigi imediatamente ao provador. Passei um tempo lá dentro, retirei o colar e o vestido e coloquei-os em minha bolsa, esperei mais um pouco e finalmente sai. -São peças tão bonitas! Bonitas demais para mim…- Murmurei baixinho, tentando abafar uma risada ao ver como as atendentes me olhavam com pena.- Aqui, duas peças.- Entreguei os casacos e a fichinha.- Acho que vou voltar para ver meu irmão, e por favor, me desculpem qualquer coisa…- Sai andando apressadamente, com medo de que desconfiassem, não olhei para trás até que já tivesse longe, próxima ao quarto. Quando entrei, estava exausta, mas era uma sensação boa a de roubar algo, uma sensação ótima. Me deitei na cama, e diferente da outra vez em que me deitei aqui, não dormi imediatamente, tinha tantos pensamentos assombrando minha mente, rolei várias vezes na cama, tentando retirar tudo de minha mente, e depois de um longo tempo, consegui dormir, mergulhando imediatamente em um lençol de sonhos. ~o~ -Ei! Acorda!- Ouvi alguém me chamar.- Acorda, Frieda!- Dessa vez a voz soou mais alta e impaciente. -Cinco minutos mãe…- Murmurei sonolenta, e a voz se calou. Depois de certo tempo, apenas senti algo frio e molhado atingindo meu rosto, e rolei para o chão com um grito.- Ah! O que foi?!- Exclamei irritada, Luke estava parado de pé com um copo de vidro, em seu rosto um sorriso ameaçava sair. -Bom dia…- Luke murmurou, e se virou, saindo do quarto. Suspirei. Esse comportamento com certeza significava que eu havia sido escolhida para os Jogos -não que houvesse alguma dúvida, já que ninguém pensaria duas vezes em mandar a neta do Snow para os Jogos Vorazes- Luke sempre se mantivera na sua, sempre fora muito ausente e reservado, o meio sorriso que ele dera hoje ao jogar a água em mim, acho que fora a única vez em que o vi sorrir em 10 anos. Assim que me levantei, uma enfermeira entrou no quarto, ela me olhava com o que parecia ser pena. Pena. Odiava esse sentimento, odiava sentir pena de alguém, e odiava mais ainda que sentissem pena de mim. Eu a lancei um olhar superior, o mesmo olhar que via no rosto de minha mãe sempre que saiamos de casa. Nunca havia percebido o quão falso esse olhar é. -Tem algum chuveiro por aqui?- Perguntei, olhando para minha unhas e fingi do um interesse especial em uma cutícula qualquer. -Mas é claro. Esse é nosso melhor quarto. Naquela porta.- A mulher apontou para uma porta no canto da parede.- Se tiver algumas dúvidas com os botões e a tecnologia… -É algum tipo de brincadeira?- Perguntei tentando parecer ofendida.- Eu cresci com tecnologias avançadas.- Suspirei e a encarei como se dissesse “Ai meu Deus, não acredito nisso.” Depois de uma troca de olhares irritados, joguei o cabelo molhado por cima do ombro, e entrei no banheiro. ~o~ Estava sentada ao lado de Luke no sofá do hall do Hospital, nós não havíamos dito nada nos pelo menos vinte minutos em que estávamos ali, mas tinha certeza de que Luke estava bravo comigo, pois cada vez que o olhava, via uma expressão irritada de volta. -Sabe…- Disse quando recebi um olhar raivoso de canto dos olhos.- Eu tenho tanto direito de me voluntariar quanto você. O que muda. Luke me encarou, parecia estar bolando uma resposta, mas quando abriu a boca para falar, um barulho me chamou a atenção na entrada do Hospital. Haviam pacificadores, eram em cinco, além de algumas outras pessoas que es escondiam atrás dos mesmos, pelo brilho das roupas, com certeza eram os mentores e estilistas. Mas entre tanta gente, meu coração doeu quando meu olhar e o de um dos homens se cruzaram, pude ver os olhos azuis claros inconfundíveis, que junto ao brasão de pacificador chefe me davam a certeza que se tratava de Leo. Luke ficou de pé e caminhou em direção aos pacificadores, ele parecia estar derrotado em um jogo que nem havia começado. Me levantei também, mas diferente de meu irmão, exibi o meu mais confiante sorriso, e mantive o rosto sempre erguido, atravessei o hall do Hospital como uma modelo atravessa a passarela, com uma pose de dignidade que eu não possuía. Os pacificadores me olhavam com um ar de deboche, pareciam me achar uma verdadeira piada. Mas Leo me olhava diferente, me olhava com tristeza. Eu sempre fora boa em desvendar expressões faciais, já Leo, sempre fora bom em ser indecifrável. -Senhores- Falou o pacificador-chefe- Vocês poderiam esperar um minuto enquanto eu converso com a Fri… Hum, Srta. Snow.- Leo colocou a mão em meu ombro e me guiou em direção a um canto menos lotado. -O que deu em você?- Perguntou, o rosto irradiando uma mistura de raiva e preocupação. -Parecia a coisa certa a fazer.- Respondi encolhendo os ombros, em um gesto quase indiferente. -Parecia a coisa certa a fazer? Se entregar para um Jogo onde só duas pessoas saem vivas parecia a coisa certa a fazer? Você quer morrer?!- Leo agora estava gritando, me encolhi, assustada, nunca o vira tão alterado.- Desculpe. Eu… Só me preocupo com você, quero que volte para casa. Para mim… -Eu vou voltar…- Murmurei, em uma tentativa de consolo.- Afinal, anos de treinamentos de lutas e defesas pessoais vão ter servido para alguma coisa, não? -É, e eu vou te ajudar, prometo. -Você não deveria prometer coisas que não pode cumprir. -Mas eu vou te ajudar com todo meu poder de pacificador-chefe, e na Arena, quando estiver sozinha, com frio e com fome, pense em mim, em nós, em nosso futuro juntos. Ele tinha razão, a simples ideia de uma vida em paz e sossegada ao lado de Leo era incrível. Seria o melhor pensamento para se ter nos piores momentos da Arena. Dei um beijo rápido em sua bochecha, e caminhei novamente em direção ao grupo de pacificadores. Um dos gigantescos pacificadores segurou em meu ombro, esperei que ele diria algo como “Vamos”, ou “Estão prontos?”, mas ele não disse nada, apenas agarrou meu braço e violentamente foi me empurrando para fora do Hospital. Um gesto. Apenas um gesto. Mas um gesto nunca é apenas um gesto. E esse gesto, como todos os gestos, era mais do que apenas um gesto, era uma mensagem para nós, os novos tributos. Uma mensagem que afirmava sem qualquer possibilidade de dúvida que nós não importávamos para eles, que agora estávamos em suas mãos, e que não haveria mais meiguice, nem piedade. Os Jogos haviam começado. Olhei uma última vez pelas ruas enquanto andávamos, as lojas estavam fechando suas portas e deixando abertos apenas uma fresta de vidro, as ruas estavam com uma aglomeração de pessoas que nos observavam. Aquelas tão conhecidas ruas, aqueles tão conhecidos rostos, tudo aquilo com o qual eu estava tão profundamente acostumada. Até ontem, as pessoas, ruas e lojas possuíam uma graça e beleza, eram coisas que realmente me admiravam, mas a escuridão das ruas e estabelecimentos mesmo quando o Sol brilhava no Céu, o ódio resplandecendo nos rostos que todo o dia me exibiam sorrisos… Isso sempre fora assim? Tudo com o qual eu estava tão acostumada sempre fora uma falsidade. Eu nunca havia percebido, mas agora parecia que a realidade sussurrava em meu ouvido “Oi queriida, finalmente você se ligou que eu existo? Bobinha…”. Me senti tão inofensiva e exposta enquanto andava arrastada por pacificadores, agora conseguia entender o por que o ódio gratuito que minha família sempre recebia, mesmo que não fosse nossa culpa o que nossos antepassados causaram, nós vivíamos uma vida falsa. Uma vida perfeita. Ao menos eu, até ontem vivia uma vida de conto de fadas, sonhando com um felizes para sempre que não existia. Não existia. Não existiu. Nunca existirá. Esse era um pensamento tão frio e triste, pensar o quanto miserável era minha vida perfeita, quanta falsidade recebíamos, perceber que tudo o que passávamos era uma mentira. Ouvi um barulho de “Splash”, olhei para o chão, eu pisara em uma poça de água, olhei para o meu reflexo, estava com o rosto triste estampado, era por causa disso, perceber como é a realidade, era frustrante, descobrir que minha vida sempre fora uma farsa me deixava triste, desolada, perdi toda a confiança que estava sentindo a poucos minutos. Era o que o efeito de descobrir que sua vida sempre fora uma mentira causava, olhei para Luke, ele sabia, tinha certeza disso. Era por isso que ele era assim? Estava em um profundo momento de reflexão, e esses momentos são os que mais gosto, momentos em que me sinto importante, inteligente, mas andar pelas ruas sob o olhar de todos me atrapalhava, pensei rapidamente e tomei a decisão de que precisava sentar, talvez meditar um pouco como eu aprendera na aula de Yoga. Assim fiz, achei um lugar da calçada que não estava sujo, estendi meu casaco e me sentei na posição de meditação. Juntei os dedos, fechei os olhos e inalei o ar, tinha um cheiro delicioso de plantas. Comecei meu momento de reflexão com o tão conhecido “Amuuuuum”. -Ei! O que deu em você?- Perguntou uma voz grossa e impaciente. -Faça silêncio, por favor.- Respondi educadamente, meu momento de reflexão na verdade fora transformado em um momento de “vou me acalmar, estamos passando por uma fase difícil, mas eu sei que vai dar tudo certo”. -Levante, garota. Agora! ~o~ -Querida, vamos por aqui…- Murmurou Daila, minha estilista, a qual eu havia sido apresentada alguns segundos depois de levar um tapa. Nós já havíamos tido um grande dialogo que consistia em: “Não acredito que o Ronaldo fez isso! Ei, Ronaldo, por que você não vai se foder? Ah, e á propósito, sou Daila.” Observei-a, era uma mulher bonita, ou pelo menos fora uma mulher bonita. Seus olhos verdes eram grandes e bonitos, porém estavam cansados, tristes. Ela possuía um cabelo loiro, daqueles que nunca foram tingidos, e provavelmente -se a mulher fosse esperta- nunca seriam. A determinação estava estampada em sua rosto, junto ás marcas da idade, que indicavam uma jovem senhora, na casa dos 35 a 40 anos. Mas o que mais chamava atenção em seu rosto, com certeza era a grande cicatriz que cortava desde a sobrancelha esquerda até o canto inferior da narina direita. -O que houve no seu rosto?- Perguntei, tocando o início da cicatriz. -Ah. Isso?- O olhar da mulher de repente ficou sombrio, sua determinação desapareceu, os olhos se voltaram para o chão, os ombros curvaram-se para baixo, ela pareceu vulnerável e fraca, estava com certeza mergulhando no profundo transe das lembranças.- Minha família era muito pobre, vivíamos com muito trabalho, caça ilegal, e até roubo. Meus pais foram assassinados por pacificadores em frente á todo o Distrito 8, e eu e minha irmã menor fomos morar com nossa avó. É, você deve estar achando um saco a história, não? -O que? Imagina! Continue, por favor… -Enfim, vovó fale ficou doente e veio a falecer, assim eu e minha irmã tivemos que nos cuidar sozinhas, e um dia, ela foi pega roubando, foi horrível, minha pequena irmã, com seus 13 anos, foi transformada em avox…- Vi uma lágrima rolar do rosto da mulher, mas sua expressão dura e forte não foi afetada.- Agredi um pacificador, e bom, você deve imaginar como isso surgiu.- Ela apontou para a cicatriz. -Sim… Sabe, uma pessoa uma vez me disse que quando passamos por coisas ruins, isso vai nos tornando mais fortes, e com certeza mais inteligente, eu sei que isso não é reconfortante, mas… É o que tenho para te dizer.- Seguido da minha fala veio um silêncio tenebroso. Mas não me parecia certo quebrar aquele momento, era como se fosse uma espécie de luto para Daila, e eu deveria deixá-la interromper a o silêncio quando ela quisesse, por que ás vezes, a melhor cura para uma pessoa não são os conselhos, e sim apenas um delicioso silêncio. -Você deveria conversar com as game makers, sabe, conquistar a simpatia delas.- Daila fungou, e mesmo que eu não quisesse conquistar a simpatia das Game Makers, percebi que ela queria ficar sozinha, e respeitava isso. -Se você diz…- Sorri, olhei para os longos corredores do prédio onde ficaríamos, queria saber onde era meu apartamento, mas duvidava que conseguisse achar o mesmo sozinha. Decidi conversar com as Game Makers mesmo, mas não como uma forma de sacanagem, ou tentar puxar saco, eu já ouvira falar tanto de Alasca, aquela que deveria ser temida e que ninguém sabia sobre sua história, Jean, que possuía tantas personalidades diferentes, e Arya, a misteriosa Arya. Aprendi por experiência própria, que quando muitos lhe conhecem, surgem boatos, e a pessoa se torna uma figura tão distante e desconhecida, que tudo o que se conhece, acaba sendo baseado nas experiências daqueles conhecidos, ou o julgamento dos desconhecidos. Por algum motivo, eu gostaria de saber se elas eram como sempre ouvi falar. Depois de andar um pouco, encontrei Jean, tinha certeza que era Jean, não só pelos cabelos ruivos, que eram com toda certeza invejáveis, mas também por um olhar distante e sonhador, um olhar sereno, e se o que todos dizem é realmente verdade, Jean era a mais bondosa de suas personalidades. Mas mesmo que não me dessem essa informação, eu teria mais facilidade em descobrir, pois ao olhar nos olhos da Game Maker, dava para observar um brilho completamente diferente de qualquer brilho que eu já observara em um olho, parecia haver uma disputa entre suas múltiplas personalidades, e alguma vez eu já mencionei que o olhar é como o guia dos humanos? Se souber lê-lo… Não consegui deixar de pensar que mente de Jean deveria ser perturbada, ela devia possuir um grande autocontrole para suportar três personalidades diferentes dentro de si. Era forte… Virei de costas para Jean antes que ela percebesse minha presença, eu apenas não sabia o que diria a ela se iniciássemos um diálogo. Andei mais um pouco, observando aquele lugar, eu já estivera ali alguma vez, tinha certeza. Quando estava virando, para conhecer outro lugar, encontrei Arya, a outra Game Maker, ou melhor, ela me encontrou. -Olá…- Murmurou uma voz feminina, virei-me, e vi uma mulher com cabelos castanhos e olhos claros, que pela distancia, não consegui distinguir se eram azuis ou verdes. -Hum, oi.- Não vi escolha senão me aproximar, e cumprimentá-la.- Sou Frieda. Frieda Snow.-Ergui a mão, mas Arya não devolveu o cumprimento, imaginei que fosse pelo impacto de meu sobrenome, mas só então percebi, que Arya estava escrevendo algo em um caderno. Lembrei-me de Gavril, em um programa, onde ele falava um pouco sobre as idealizadoras desse ano, não me lembrava de muita coisa, mas sabia que ele dissera que Arya passava muito tempo se dedicando á seus trabalhos.- Ah, desculpe, acho que estou atrapalhando…- Murmurei, embora ao que parecesse, a mulher já voltara a se concentrar no que estava fazendo, tentei imaginar o que seria, provavelmente, algo para os Jogos. O que diziam sobre Arya era verdade, ela com certeza era muito dedicada em seus compromissos… Lentamente fui me afastando, até já estar longe, em uma outra sala, era uma espécie de cozinha, imaginei, e assim que pisei no lugar, senti o olhar de vários Avoxes sobre mim. Seus olhos demonstravam que algo estava errado. Estava tentando descobrir o por que de tanta agitação, até um deles se aproximar, e apontar para uma placa pendurada na porta, onde estava escrito “Apenas Autorizados.” -Ah, me desculpem!- Exclamei, e me virei rapidamente para sair, vai que tinha alguma espécie de punição por entrar em lugares proibidos? Mas em minha pressa, acabei esbarrando em alguém, e derrubando nós dois ao chão. Engatinhei para longe da porta, e me levantei apressadamente. Uma mulher com os cabelos castanhos cobrindo o rosto se levantava também, a pessoa que eu derrubara. Quando ambas estávamos de pé, percebi quem era, era a Game Maker que tinha um nome que eu adorava, Alasca. Naquele momento, quis apagar o que havia acontecido, mas já era tarde, e eu nem ao menos tinha a intenção de conversar com as Game Makers, quanto mais derrubá-las. -Hum, eu juro que não tinha a intenção de te derrubar no chão.- Disse apressadamente.- Desculpa, mas tá tudo bem, tudo ótimo, ninguém se machucou, por favor não me mate…- Disse de modo um pouco desesperado, Alasca apenas me olhou com indiferença, devia estar me achando uma louca covarde. Desastrada, assustada e estranha, esse não era o meu lado que não queria que conhecessem? -Está tudo bem.- Ela disse por fim, com uma fala carregada de mistério, mas um sorriso quase assassino. Ao final, acabei encontrando Daila novamente, ela parecia estar recuperada já de sua seção “vamos sofrer pelo passado”, e me pediu para conhecer minha mentora. Delicadamente recusei, minha cabeça estava latejando, e só então percebi que era por dormir tão pouco na noite passada, portanto, pedi apenas que me indicasse onde seria “meu quarto”. Estava com vontade de falar com Luke, sentia mais uma vez que tínhamos 5 e 7 anos e estávamos brigando pela última batata-frita, o clima estava estranho e diferente, o que era comum entre irmãos, mas agora, alguma coisa havia mudado, quando eu entrei nos Jogos, algo mudou. Não, na verdade, tudo estava diferente…
Roupa da Frieda: http://www.polyvore.com/frieda_desafio/set?id=107440588
Lyna Becker | Distrito 3 | Desafio 1
“- E de todas as guerras, a passada em nossa mente é a pior. Não derrama sangue, mas nos desmembra de todas as maneiras possíveis. Repetidamente. - Havia dito Eleanor entre sussurros a Lyna no dia que a havia conhecido. Eleanor havia conhecido Lyna Becker durante em um dia comum no orfanato: a pobre garota chorava aos prantos, e se escondia debaixo do escorregador do parquinho precário do orfanato. Preocupado com o choro, Eleanor procurou a fonte de onde saia todos aqueles gritos sufocados. Eleanor era um homem que aparentava ter apenas dezessete anos. Possuía um porte atlético, seus olhos possuíam duas cores: azul bebê e castanho escuro. "Oh, que lindos olhos ele tem." pensará Becker muitas vezes. Seus fios de cabelo eram pintado delicadamente na cor louro. Para muitas pessoas, o cabelo encaracolado de Eleanor poderia parecer-lhes estranho. Mas, a vista da garota, era lindo.
- Leanor, - como costumava chamar-lhe a garota - se eu fosse grande o bastante... Casaria-me com você! Quero dizer, ainda irei crescer então me aguarde até lá, tudo bem?
Eleanor sufocou um riso.
- Tudo bem, minha garota.
- Sabe o que isso significa? Significa que caso o senhor me traia, estará com sérios problemas. - A garota bufou, e por fim, deu-lhe um grande abraço. Ambos riram.
_*_
- Não sabe, não sabe! – Cantavam todos á Lyna. Apenas por ter errado um simples verso de uma canção que todos adoravam. Ah, e que aos olhos de Lyna, soava totalmente idiota:
“Oh, potato
Oh, potato
Oh, sweet potato
How sweet thou art
Have you been told that today? "
Minutos depois, Lyna se encontrava sendo confortada por Leanor.
- Querida, não chore assim... - A voz de Elenor soava doce.
- Eu quero matar eles. - As lágrimas escorriam por todo o rosto da garota.
- Não é necessário. Eu posso cuidar de tudo, agora trate de limpar este rosto já, mocinha. - Disse Leanor assumindo um tom mais firme. Como filho do diretor do orfanato, Eleanor poderia tratar de vários problemas apenas tendo uma breve conversa com seu pai.
Um barulho estridente se ouviu. Não se ouvia mais nenhum barulho vindo do orfanato, todos haviam calado a boca. A menina sentiu no clima pânico.
Lyna ouviu passos combinados vindo em direção ao parquinho.
- Eles estão vindo para cá. - Sussurrou a pobre garota.
- Eu sei. Fique calma eles não... - O homem foi interrompido por uma voz grave que agora, aparentemente estava em frente ao escorregador.
- Sim, ele mesmo. Está aqui. - pronunciou calmamente o Homem da Voz Grave.
Então Eleanor foi puxado bruscamente, deixando Lyna só. E a última coisa em que a garota se lembra de ter ouvido, era seu próprio choro.
_*_
Lyna passou sua mão por seu rosto e percebeu que ele estava completamente molhado de suor. Não, não de suor. De lágrimas.
- Lyna! - Entrou bruscamente Alice em seu quarto, que possuía as paredes pintadas de branco, uma simples cama, seu guarda-roupa, e a janela, que segundo a opinião de Lyna, uma linda vista era possível se ver daquela janela. - Ouvi você gritando, está tudo bem?
- Oh, claro. - Mentiu. Não estava tudo bem, a garota sentia saudades de Leanor. - Pode sair de meu quarto agora?
Ela pareceu incomodada com a pergunta, mas se retirou lentamente.
Lyna Becker afastou - com certa dificuldade, embora não admitisse - seu guarda roupa e detrás do mesmo, retirou um pequeno espelho.
Becker via um cabelo louro natural totalmente despenteado, e grandes olhos dourados, cujos mesmos começavam a demonstrar indícios de olheiras. “Eleanor diria que eu deveria dormir mais." pensou Lyna com um sorriso no rosto.
Lyna caminhou silenciosamente até o banheiro da casa, ao chegar a porta do banheiro, hesitou ao ouvir duas palavras: Capital, Eleanor?
A garota entendeu de imediato. Caminhou até a pia do banheiro e lavou seu rosto ainda manchado pelas lágrimas, e voltou para seu quarto. Vestiu uma saia longa preta e sua melhor blusa branca, calçou seus sapatos pretos lustrosos e caminhou apressadamente até a porta na qual dava acesso a rua.
- Lyna? Aonde vai? - Apareceu repentinamente Alice.
- Encontrar um amigo. - Lyna olhou fixamente para Alice, que continuou olhando-a com desconfiança. A garota que agora possuía treze anos havia aprendido a mentir. - Volto em algumas horas. Eu prometo.
Lyna Becker exibiu um largo sorriso, o que fez Alice piscar continuamente, como se tivesse acabado de sair de um transe.
- Tudo bem. Apenas dê um jeito de avisar caso volte muito tarde.
A garota assentiu e virou-se de costas para Alice.
_*_
Poucas pessoas se encontravam no lugar. E definitivamente mais do que a garota havia imaginado. Aproximadamente vinte pessoas se organizavam em uma fila para se cadastrar nos Jogos Vorazes.
- Qual seu nome? - perguntou repentinamente uma voz masculina. Lyna virou-se de costas e deu de cara com um garoto de aparentemente vinte anos, possuía cabelos castanhos e olhos na cor azul.
- Não vejo necessidade de dizê-lo, desconhecido. - Sua voz soava diferente. Quase formal.
- Sou Erick. - disse o garoto estendendo a mão. Quando Lyna estava prestes a apertar a mão do rapaz, ouviu a palavra próximo e avançou na fila.
- Olá, bom dia! Você deve escrever seus dados pessoais e o principal: o motivo de querer ir para os Jogos.
Lyna Becker assentiu lentamente. Mesmo não tendo vivido na época em que os Jogos Vorazes era obrigatório, a garota sabia por meio de histórias, que ninguém gostava dos Jogos, todos com exceção dos carreiristas - jovens que treinavam com armas diariamente em uma academia especial, até finalmente estarem prontos para se voluntariarem e vencer os Jogos - , obviamente. E o que mais impressionava ela, é que apesar de seu Distrito não ser carreirista, até havia muitas pessoas migrando para a morte. "E eu sou uma delas.” pensou. Mas tirou o pensamento da cabeça quando leu no formulário a frase: motivo de querer ir para os Jogos. Ela só conseguia pensar em uma palavra:
“Eleanor."
_*_
Não se passava das vinte horas quando a garota chegou em casa. Obviamente, não havia passado toda a tarde se inscrevendo, depois da inscrição, Becker foi visitar o orfanato em que vivia quando criança. "Bebê feliz" agora se encontrava em total decadência. O lugar fedia a mofo e mesmo de longe, era possível se ver quanta infelicidade o lugar havia segurado.
Ao passar pela porta da frente, imaginou Alice lhe abraçando, preocupada. Mas não, ela olhava fixamente para o televisor. Lyna havia se esquecido dos Jogos.
- O que há Alice? - fingiu não saber de nada.
- Vão sortear os tributos que irão participar dos Jogos. Sente-se. - Alice chegou para o lado no sofá, dando espaço para a garota sentar.
"Durante décadas, os antigos líderes políticos da Capital obrigavam os Distritos a oferecerem um garoto e uma garota entre doze e dezoito anos, para lutar nos Jogos Vorazes, até que restasse apenas um vencedor. - pronunciou Gavril Flickerman - Todo este procedimento permaneceu igual, até Katniss Everdeen, resolver mostrar a todos quem somos e o que queremos. Uma guerra se seguiu, e finalmente conseguimos o que queríamos: paz. Porém, ainda restaram pessoas doentes, pessoas a beira da morte nos Distritos, e resolvemos recriar os Jogos Vorazes. Donde apenas aqueles que se inscrevessem poderiam participar dos Jogos."
Gavril sorriu.
“Vamos agora com tributos, primeiramente, a Capital! Carter e Tally. Do Distrito um: Phyllis. Do Distrito 3: Rose Tyler, Lyna Becker e Mary Alice. Do Distrito 4..."
Alice desligou o televisor. A face da mulher demonstrava espanto.
- Aparentemente você foi a mais um lugar além da casa de seu amigo, não é mesmo? - Alice abriu um fraco sorriso, era possível ver que a mulher estava segurando suas lágrimas. - Pode ao menos me dizer o por quê de ter feito isso?
- É importante, apenas isso.
- Você não entende, não é? Cuidei de você durante anos para que pudesse ter uma vida boa e é isso que faz? Deixando uma mãe de luto pela morte de sua filha que permaneceu longe por anos?! - O rosto de Alice agora estava em lágrimas.
- Você chamou-se a si própria se mãe?
_*_
Batidas na porta interromperam o sono de Lyna.
- Eles estão aqui, Lyna. - Disse Alice através da porta. A garota havia entendido após uma breve discussão que havia ocorrido, dois pacificadores bateram á porta da casa, avisando que pela manhã, os pacificadores iriam buscá-la juntamente com o mentor e o estilista.
A garota vestiu apressadamente um vestido azul claro, deixou seu cabelo a solta e saiu pela porta da frente.
- Oh, querida! – disse alegremente uma voz masculina à direita de Lyna. A voz parecia-lhe familiar. – A casa vez que lhe vejo a senhorita está mais bonita!
Becker virou-se na direção da voz e surpreendeu-se ao notar que o dono da voz era Erick, o garoto que havia conhecido no dia anterior.
- Erick?! O que está fazendo aqui?
- Ora, Lyna, já conhecia seu mentor? – disse Alice, se colocando no meio da conversa.
- Como sua mãe disse, sou seu mentor! Não é ótimo?!
Lyna Becker permaneceu em silêncio.
- Oh, quase me esqueci. Gryn! Lyssa! Evan! – Gritou Erick. E segundos depois, apareceu três figuras no corredor. O que parecia mais velho possuía cabelos na cor verde e usava um terno completamente dourado. Já as outras duas mulheres, concentraram seus enfeites nos acessórios e maquiagem. Ambas usavam cílios postiços, porém, uma delas usava em um na cor rosa e a outra dourado. Seus cabelos eram multicoloridos e suas faces cobertas pela maquiagem.
- Senhorita Becker? – disse o homem do grupo. Sua voz era grossa. – É um grande prazer, sou Evan, e essas são Gryn e Lyssa. Sua equipe de preparação a seu dispor.
_*_
O trem era recheado de grandes lustres e talheres de prata. Era impossível não notar o luxo.
- Então, Lyna, que acha dos demais tributos? – perguntou-lhe repentinamente Erick. Ele estava tentando puxar assunto.
- Não os conheço. – A tentativa de Erick falhará. – Mas e quanto às pessoas da Capital?
Erick soltou uma risada falsa.
- Ora, há muitas pessoas que vivem na Capital.
- Não há ninguém com tenha... Contato? – Lyna começará a duvidar de que Eleanor poderia estar na Capital. Afinal, existem muitas pessoas com o mesmo, e “Eleanor” não deveria ser uma exceção.
- Claro! Bem, há o Sr. Mexter, e devo admitir que aqueles cabelos louros e o lindo par de olhos bicolores me deixam... – Erick fechou os olhos e deu um longo suspiro, e logo em seguida continuou: - Há também a Srª. Jeckel e sua filha. Deixe-me ver...
Ele hesitou por um momento.
- Por que quer saber de meus amigos na Capital?
- Oh. A Capital sempre me pareceu tão... Viva! E eu gostaria de saber como é realmente lá. – mentiu. A única coisa com que a garota se importava realmente era Eleanor.
- Sim, sim, sim! Tudo é sempre tão vivo tudo parece uma festa infinita... – Becker desviou sua atenção para a decoração do trem, enquanto Erick continuava a citar todas as qualidades da Capital.
“E se Eleanor não estiver na Capital? O que irei fazer?!” “Ir para os Jogos de qualquer maneira, idiota.”
Isso acontecia freqüentemente, Lyna e uma breve discussão consigo mesma.
“-... Batatas! Como pude me esquecer?!” – Lyna ouviu Erick dizer.
“Oh, potato...”
Lyna lembrou-se da canção, e, adormeceu com a música em mente.
_*_
- Querida? Querida! – Gritou Erick. Ele não parecia satisfeito. – Você dormiu durante nossa conversa. Agora ande, chegamos à Capital.
Erick encaminhou Lyna para a porta do trem. Era possível sentir a velocidade do trem diminuir aos poucos.
E foi quando Lyna menos percebeu, foi que as portas do term se abriram e uma onda de flashes a invadiu.
Freddie C. Odair, distrito 4/Desafio 1/Alistamento
E então Katniss Everdeen bate em minha porta. Primeiramente, eu me assusto com o pássaro que bate em minha janela, e depois caminho até a porta de madeira velha.
- Você não pode fazer isso – Katniss olha diretamente em meus olhos.
- Porque não?
- Sua mãe precisa de você. Até hoje ela não se tocou que seu pai está morto, Freddie – Ela retruca – E se você morrer...
- Eu preciso mostrar para eles que meu pai não foi apenas um vitorioso que morreu na guerra, Everdeen. Eu quero mostrar que meu pai salvou a vida do tordo. Do incrível tordo – Respondo, soluçando.
Então ouço os passos de minha mãe vindo da cozinha.
- Katniss! – Diz ela, surpresa.
- Olá, minha querida – E as duas se abraçam.
Elas vão conversando para dentro. Katniss costuma vir aqui em casa diariamente, e eu realmente não suporto isso. Ela causou a morte de meu pai, e ela tem que vir com aquele sorriso falso que me da vontade de jogar todo o café da manhã fora. Levanto-me e vou até o banheiro, passando pela minha mãe enquanto ela mostrava umas fotos a Katniss. A pia estava rachada pela parte de baixo e a porte tinha um corte profundo. Minha mãe diz que foi quando meu pai treinava com o tridente dentro de casa, causando um estrago em várias coisas. Observo que Noni estava deitado atrás da porta, porque quando empurrei a mesma para trás ouvi um grunhido. Ganhei Noni de Peeta, um dos filhotes do Buttercup. Ele deve ter uns 3 anos. Lembro quando ele veio para cá pela primeira vez, se agarrou na trança de Katniss e não queria se soltar para vir ao seu novo lar.
Abro a torneira enquanto Noni passa por debaixo dos meus pés, soltando seus pelos. Boto a mão sobre a água gelada que vem dos mares do 4, enchendo a mão e esfregando no rosto. É a hora, penso. Pego a toalha e seco meus rostos, e jogo ela encima da pia. Saio do banheiro, e vou até a cozinha, onde as duas estão sentadas, tomando um café quente que consigo ver o vapor daqui.
- Mãe, irei sair – Aviso.
- Aonde? – Ela pergunta.
- Irei me encontrar com Miles – Minto.
- Está bem – Ela dá um gole em seu café – Não volte tarde.
Katniss me fuzila um olhar. Ela sabe que agora irei me alistar nos jogos, e isso a deixa muito brava. Não tiro a razão dela, eu sei que se eu morrer será horrível para minha mãe. Calço as botas que estavam perto da porta e pego uma pequena corda que estava fazendo nós há alguns minutos atrás. Saio pela porta que range e então meu gato corre atrás de mim. O pego no colo e vou até o Edifício da Justiça. A fila estava até o fim do quarteirão como já era de se imaginar. Os jovens, ou não tão jovens assim, estão em grupos e falam mais altos que meus ouvidos podem ouvir. Risos e berros e pessoas correndo e mães chorando e mais berros e pessoas me empurram para andar e ai meu deus eu vou pirar. Paro no fim da fila e umas 3 pessoas já estão atrás de mim, um pouco mais altas que eu. Uma com o casaco laranja até os pés agarra meu braço. Viro-me, e ela está com um sorriso maior que o rosto.
- Você é o filho do Finnick Odair?
- É, sou eu – Respondo.
- Eu gostava muito de seu pai. Imagina se a gente for para os Jogos Vorazes juntos? Seriamos os novos amantes – Ela fala.
Rio. Isso vem acontecendo as vezes, mas isso foi a coisa mais louca que poderia ter acontecido. E Noni rosna.
-
1 hora depois
E agora era a minha vez. A última pessoa estava saindo, entregando a ficha a alguns pacificadores que estavam a atrás de uma parede de vidro. Quando chego perto do mesmo, o pacificador do meio me pergunta:
- Freddie Cubes Odair – Ele sita meu nome – Não é mesmo?
- É, senhor.
Ele me entrega uma ficha e sento em uma das cadeiras que estavam rasgadas ao meu lado. Boto Noni sobre minhas pernas enquanto ele se aconchega. As letras eram tão miúdas e que era quase impossível de ler, mas dava pra entender. Pego uma caneta que estava pendurada ao canto da parede e vou escrevendo.
“SEU NOME COMPLETO? FREDDIE CUBES ODAIR.
ENDEREÇO? RUA MOVELLIX, NÚMERO 218.
IDADE? 19 ANOS.
MOTIVO PARA SE ALISTAR AOS JOGOS VORAZES? EU REALMENTE NÃO PRECISARIA DE MOTIVO POR SER FILHO DE DOIS CAMPEÕES DOS JOGOS, ANNIE CRESTA E FINNICK ODAIR. E BOM, EU QUERIA DIVERTIR A CAPITAL QUE ANDA UM POUCO PARADA, NÃO ACHAM? EU QUERO MOSTRAR O QUE VOCÊS CLAMAM POR DÉCADAS. SANGUE”
Minto sobre a última parte. Bom, eu realmente queria mais sangue para que eu tenha o que beber sempre que minha sede por sangue aumente, mas eu realmente queria é honrar meu pai, e agora é só esperar meu nome ser convocado para participar da 76° edição dos Jogos Vorazes. Ou não.
-
Era exata 19h30min eu estava em casa. Quando cheguei, Everdeen já tinha ido embora, e minha mãe estava tomando um café encima do sofá. Quando ela me vê, dá um sorriso, e eu o retribuo. Caminho até o meu quarto e pego uma toalha que estava encima da cama, e vou até o banheiro. Retiro minhas pessoas suadas e entro para o banho. A água dessa vez estava quente, porém boa. Enquanto a água percorria meu corpo que agora estava fervendo, ouço um anúncio da TV.
“E é hoje que iremos saber quem ira ser escolhido para ir há Septuagésima sexta edição dos Jogos Vorazes”.
Reconheço essa voz. Gravil Flickerman, o filho do famoso Caesar Flickerman. Ele tem o substituído seu pai desde que ele morreu. Eu realmente não sei direito como ele morreu, porque as pessoas não costumam falar disso. Mas eu não ligo. Termino de tomar o banho e enrolo a toalha em minha cintura e caminho até meu quarto. Pego uma velha bermuda que era do meu pai e vou sem camisa para a sala.
- Boa noite, mãe – Digo.
- Oi – Ela responde – Você sabia que vai ter outra edição dos Jogos?
- Não – Minto.
Minha mãe não sabe de quase nada além do que eu e Katniss contamos a ela. Ela sai raramente de casa depois que meu pai morreu, vive em algum canto com seu café na mão e olhando os comerciais que passam da Capitol. Então a imagem da TV fica preta e aparece o símbolo da Capitol, com as letras escritas bem visíveis, diferente da ficha que preenchi, embaixo: May The Odds Be Ever in Your Favor. Então Gravil aparece, e minha mãe olha para mim. Pego em sua mão e então a abraço, dando um beijo em sua bochecha. Ele está vestido com um terno rosa totalmente brilhante, que por sorte não me cega. Sua maquiagem está tão exuberante e seu chapéu pareceu maior que o seu rosto, com um rosa parecido com a de seu terno.
- E agora, estamos abrindo a mais uma edição dos Jogos Vorazes – Ele da um berro um pouco mais alto e mais fino que seu pai dava – Nessa edição, as coisas serão diferentes. Não sortearemos ninguém, apenas escolheremos, porque são as pessoas que se alistam para participar. Iremos ter 20 tributos, e em cada distrito podemos pegar no máximo 5 pessoas, e a maior novidade: As pessoas da Capitol também podem se alistar. Bom, sem baboseiras, iremos começar agora. Primeiro pelos habitantes da nossa grande Capitol.
Então uma mulher vai até ele e entrega um papel. Ele o abre.
- E pela escolha dos idealizadores, temos 5 participantes. 1 menino e 4 meninas – E uma música tosca parecida com “Tan taram tan” começa a tocar – E eles são: Luke Snow, Charlotte Farewell, Frieda Hope Snow, que por incrível que pareça é uma descendente de Snow, Feelcy Klist, Tally Fairchild e Carter Fairchild. Algo me diz que Carter e Tally são irmãs, não?
Ele ri. Depois, foi passando de cada distrito até chegar ao 4.
- Já escolhemos da Capitol, do distrito 1, 2 e 3, e agora chegou a hora do 4 – E ele dá mais um daqueles berros insuportáveis e outra moça com um vestido com a estampa de mar entrega outro envelope para ele – E dessa vez só temos duas pessoas, um homem e uma mulher. Greyjoy O’Connor e Finnick Cubes Odair, filho dos dois vitoriosos, Annie Cresta e Finnick Odair.
O povo aplaude depois de ouvir meu nome e minha mãe está chorando e apertando minha mão mais forte e eu a abraço e agora nós dois estamos chorando e Noni corre para cima de mim e Peeta Mellark e Katniss Everdeen correm entrando pela casa. Os dois sentam do lado de minha mãe e então a abraçam e eu limpo suas lágrimas.
- Me desculpe – falo, soluçando.
- Você não poderia ter feito isso – Ela chora – Você está me abandonando.
E então a última coisa que me lembro foi de ver minha mãe cair sobre mim e eu desligar com uma seringa no peito.
-
Acordo com Peeta me sacudindo.
- Vá, acorde – Ele me sacudia mais – Os pacificadores vão chegar.
- O que aconteceu? – Pergunto.
- Me desculpe, mas tive que dar uma injeção para vocês dormirem e se acalmar.
- Como está minha mãe?
- Katniss está dando banho nela – Ele responde – Ela não está bem, Fred. Você não deveria ter feito isso.
Então eu lembro. Eu fui escolhido para os jogos. Minha mãe chorou feito uma condenada. Nos drogou para que podemos nos acalmar. Não irei brigar com eles, afinal, isso me ajudou muito. Tento me levantar, mas não consigo então Peeta me ajuda.
- Porque estou assim? E que horas são? – Pergunto.
- Você só precisar se alimentar – Ele me ajuda caminhar até a cozinha – E são quatro horas da manhã.
Uau. Sento-me na cadeira e Peeta bota uns pães com café na mesa.
- Você que fez? – Pergunto, dando a primeira mordida.
- Sim.
- Está muito bom – Delicio o pão.
- Obrigado.
Eu gosto de Peeta, ele é um cara legal e gentil. Meu pai salvou a vida dele na edição passada dos jogos. Minha mãe me contou que ele bateu no campo de força e morreu, mas com sorte meu pai o reviveu. Nunca tive trabalho de perguntar como, mas sempre tive vontade de perguntar.
- Como meu pai te salvou? – Pergunto, olhando para Peeta.
- Eu estava andando na frente, despercebido, quando Katniss berrou alguma coisa para mim, mas já era tarde de mais, eu bati no campo de força e fui lançado para trás. Daí seu pai fez respiração boca-a-boca em mim, e é só disso que me lembro.
- Ah, sim.
Katniss vem até a cozinha com uma cara de preocupada.
- Ela não está bem. Depois do banho, pediu para deitar e agora está dormindo. Você vai ter que se despedir dela dormindo. – Ela me fuzila um olhar.
- Eu preciso que vocês cuidem dela para mim – Sussurro.
- Iremos cuidar – Katniss fala – Iremos trazer Jay e Melody para cá e iremos ficar aqui até você voltar.
- Se eu voltar.
Então tudo fica em silêncio, que consigo escutar o barulho do mar de longe. Depois de tomar o café, me levanto e vou até meu quarto. Abro o antigo guarda-roupa e pego a roupa que já tinha deixado preparado para se eu fosse para a arena e visto, quando batem na porta e ouço Katniss berrar de lá:
- Os pacificadores vieram te buscar.
Vou até a cozinha.
- Já vou.
E corro para o quarto de minha mãe. Ela está dormindo de lado, e a coberta está até ao seus seios. Dou um beijo em sua testa e saio, quando avisto uma pessoa com uma roupa tão extravagante que me da vontade de rir, que está praticamente pulando quando viu os amantes desafortunados. Dou um abraço em Peeta e Katniss.
- Vocês prometem que irão cuidar dela?
- Prometo – Os dois falaram juntos.
Solto um sorriso. Pela primeira vez eu estava gostando de Katniss Everdeen. Saio pela porta e então Peeta a fecha. E essa foi a pior despedida de todas. Uma mulher um pouco mais baixa que eu começa a falar.
- Vamos, vamos. Não podemos perder tempo, é apenas 4 horas daqui a Capitol – Ela falou, mexendo em seu cabelo vermelho que chegava ao joelho – E antes que eu me esqueça, Grey, esse é Freddie, Fred, essa é Greyjoy. Vocês serão parceiros de distrito nessa edição.
- Olá – Digo estendendo a mão – Tudo bem?
Ela me ignora, e depois sai andando. Um homem que aparentava ter uns 23 anos passa seu braço pelo meu ombro.
- E aí, cara. Serei seu mentor e mentor da menininha brava – Ele ri.
- É... Legal – Solto um sorriso leve.
Vamos andando enquanto temos vários pacificadores em nossa volta, e todo mundo olhando. Freddie, sou eu. Escuto algo de longe. Um cara loiro, com o corpo sarado vem em minha direção. O estranho é que ele passa pelos pacificadores e ninguém nota ele. Ele continua berrando meu nome, e agora está 6 metros de distância a mim. Sua expressão é confundível, não dá para saber se ele está rindo ou chorando, quando ele me abraça. Meu filho. Ele fala em meu ouvido, e ninguém continua a notar ele. Paro.
- Se-se-seu filho? – Gaguejo – Cara, eu estou indo para os Jogos Vorazes, sem brincadeiras.
Então ele para de me abraçar, e finalmente vejo seu rosto. Pelo primeiro momento, eu empalideço. E então eu o reconheço. Uma vez, minha mãe tinha me mostrado um retrato de meu pai, eu seu casamento. Minha mãe disse que eles se casaram no distrito 13, antes da revolução começar (ou não). E então Maxxie, meu mentor, me puxa.
- Qual é? – Ele diz, rindo – Não está tão frio para você congelar.
Meu pai está vivo? Não, não estou. Irei te explicar depois. Eu te amo. Okay, tudo coisa da minha cabeça. Quando fomos para trás do Edifício da Justiça, tem um trem esperando por nós. Primeiro Grey, ou Joy, entra, e depois minha estilista entra. Entro no trem junto com Damien quando a porta se fecha, e o trem começa a andar.
- Vocês querem ouvir dicas, descansar?
- Descansar – Respondo.
- Dicas – Grey fala depois de mim.
Vou para um quarto, quando vejo meu pai sentado na cama.
Meu filho...
- É, olá pai – Choro.
Não chore. Bom, deixe eu te explicar. Sou eu, seu pai, Finnick Odair. Sim, estou morto. Só você pode me ouvir e ver. Super estranho, porque nem eu sei como posso fazer isso. Bom, eu irei te ajudar nos Jogos Vorazes, se precisar de alguma coisa.
- Incrível – Continuo chorando.
Ele se levanta e vem até a mim. Ele me abraça e depois limpa minhas lágrimas.
Se você continuar chorando, eu vou chorar junto.
Suspiro.
- Vou tomar um banho.
Tudo bem. Vou até o banheiro e tiro minhas roupas, e entro na banheira. Tinha uns botões na parte superior na esquerda da banheira, então aperto em Ligar, Espuma e Flores. Então vem uma mistura de espuma, água e pétalas de rosa sobre meu corpo nu. Boto a água para quente, e então vou para debaixo da água. A espuma sobe sobre meu cabelo, e então volto para cima. Banheira em trem, wow. Ensaboo-me quando Damien bate na porta. Enrolo-me na toalha e abro, quando ele me joga na cama. Ele sobe por cima de mim e ele tenta me beijar, mas desvio. Ele segura meu rosto.
- Ei, se acalme – Ele ri.
Ele tenta me beijar de novo, porém mordo sua língua, e ele sai gritando de cima de mim.
- Você não deveria ter feito isso – Ele retruca, berrando – Não deveria.
Meu pai já foi embora. E mais essa agora. Meu mentor tentou me agarrar.
- Filho de uma puta – Xingo.
Coloco uma roupa e saio. Vou até o outro vagão onde minha estilista e Grey estão comendo. Quando entro, observo que Damien também está ali, com a boca sangrando. Dou um sorriso direcionado a ele. Sento em uma cadeira a frente a Greyjoy, e a mesa está gigante com coisas que parecem deliciosas. Pego uma fatia de bolo, em forma de peixe, e coloco em meu prato, e então, começo a comer. Damien se levanta e sai indo para outro vagão, e dou uma gargalhada alta.
- O que houve? – Grey pergunta.
- Nada – Respondo.
E então vou para meu quarto.
-
Acordo com minha estilista, Marie, me chamando.
- Rápido, rápido – Ela diz, dando pulinhos de leve – Chegamos a Capitol.
Levanto correndo e vou até a janela. A galera vibrava e gritava e assoviava e pulava e se estapeavam e eles estão loucos? Espere, Capitolianos não estão loucos, eles são loucos.