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“Você pensou em chamar outra pessoa antes de mim? Quer dizer,” o tom baixo e quase hesitante, por pura influência do fenômeno lunar que se aproximava, foi ouvido no intermédio de um pequeno rodopio, e, ao retornar, os corpos grudados resultaram em rostos quase nulos de distância. As írises azuladas examinaram o rosto alheio e, de repente, não havia mais ninguém no salão; o rosto dele era muito mais interessante que a lua, seus pais ou qualquer outra persona. “se não tivéssemos tido aquele momento no Castigo, teria chamado outra pessoa?” Pensou em ser mais direta — quis ser mais direta —, mas não conseguiu. O som cadavérico fazia o coração bater mais forte, junto ao dele, e passou a analisar cada minúcia de Theodore. Gostava de cada detalhe dele, desde uma infante, e passou a memorizar seus detalhes conforme cresciam — subitamente, ele pareceu diferente, uma outra pessoa. Lembrou-se de todas as vezes que esperou sua presença, enquanto namoravam, e ele apareceu horas depois, com o rosto machucado; lembrou de querer remover toda a sua dor no enterro de Belle e Adam; lembrou do próprio choro quando terminou com ele; lembrou de toda a euforia sentida quando as bocas se tocam; finalmente, lembrou de todos os momentos que sentiu-se abandonada e trocada por ele. Naquela fração de segundo, enquanto a lua cobria a cabeça de todos, não conseguiu conter-se diante das emoções estagnantes. Sem desviar o olhar do dele, sentiu o rosto enrubescer e as mãos formigarem; sentimentos comuns de quando seu poder era ativado, via sensações fortes. No entanto, estava diferente agora. Sentia o corpo inteiro ferver, numa febre de quarenta graus, e, sem conseguir olhar para qualquer ponto, exceto seu rosto, sabia que o corpo pequeno teria sucumbido, frágil, e caído, não fosse as mãos firmes alheias em seu corpo e os próprios dígitos segurando firme em seu pescoço. Poderia queimá-lo inteiro, e sabia que ele deixaria. Em troca, sabia que arriscaria a própria vida, assim como Adam Dubois e sua futura esposa, por ele — conseguia enxergar, agora claramente, que ele vinha sendo e seria o causador da sua ruína. O amor lhe deixava vulnerável e precisava aniquilar aquele sentimento sufocante.
Poderia queimar cada pessoa naquele salão, talvez até Merlin, e não se cansaria até encontrar paz. A música lhe conduzia à insanidade, pouco a pouco, e, após o vislumbre de um salão inteiro envenenado, sangrento, ela percebeu que estava queimando a roupa cara do melhor amigo e uma parte de seu pescoço, superficialmente. Ao fim da música, Eleanor não resistiu à tentação, fúria intoxicando os pulmões, e tomou os lábios tão conhecidos para si num selar violento, antes de morder o ínfero alheio com tamanha força que quase sangrou. “Desculpe.” Sussurrou, contra os lábios, depois de ouvir a fada madrinha. “Desculpe.” Pediu novamente, embora não soubesse ao que estava se referindo. Afastou-se dele, ainda atordoada, mas não se atreveu a soltar sua mão, sendo a última coisa que tocou antes de dar passos largos para trás. “Eu só...” Iniciou a fala, mas foi incapaz de terminar. A sensação desgastante voltara e sentiu, outra vez, o ardor passando a incomodar e sentindo uma vontade insaciável de machucar alguém. Cerrou os punhos, numa tentativa de escondê-los de toques humanos. “Eu amava você, amo ainda, e pra quê? Ugh.” A voz frágil não a permitia ser firme e tampouco esperou uma resposta antes de sair. “Preciso sair dessa merda desse baile.” Murmurou mais para si mesma e fez uma careta para alguns que esbarraram em si, resmungando algo sobre “sair da frente se não quiserem um soco envenenado”, antes de respirar fundo, como Merlin lhe ensinara. “Desculpe, pela terceira vez. Quis dizer que é meu melhor e eu lhe amo, mesmo que seja um idiota às vezes. Quase sempre.” Corrigiu, incerta do que sentia, voltando para perto e o puxando para fora da torre. Deu de ombros. “Só tive vontade de dizer isso. Vamos embora? Quero tirar esse vestido e esse sapato tá me apertando.”













