Condicionando Sentimentos em Histórias
Ele abre a porta. O que de diabos ela estaria fazendo alí às 2 da madrugada com uma garrafa de vinho?
Amanda caminhava pelo parque da cidade naquele fim de tarde. Fazia bem respirar um pouco de ar fresco e ver o sol se por. Ultimamente andava muito confusa com sua própria vida. Trabalho exigindo coisas que ela não concordava e pouca abertura para mudanças, projetos pessoais que exigiam uma equipe de apoio que ela não conseguia achar uma qualificada, já fazia tempos que não conversava com Caio… Até pareciam que tiveram um relacionamento mal resolvido. O que estava mal resolvido mesmo, era ela.
Sentou no banco mais afastado das pessoas e ficou a observar por um tempo. Uma alegria que já não se via em seu próprio rosto mais. Assumira seu diagnóstico como adultecimento.
"O que vou fazer agora?” ecoava na sua cabeça de tempos em tempos. Meditação nunca fora seu forte. E estava num ambiente limpo como todos diziam que facilitava esse tipo de atividade. Quis focar em profissão, quis focar em relacionamentos, quis focar em atividades físicas, mas nada parecia ir para frente. Decreto de insuficiência.
Puxou o ar novamente e acendeu o cigarro, com a consciência de que aquilo faria mal para sua própria saúde, mas dava um tom de esquecimento momentâneo.
- Eu ainda não acredito em você! - De repente sua paz fora interrompida por uma voz familiar.
- Angélica? - Disse Amanda soprando a fumaça no ar. - O que está fazendo aqui?
- Você é inacreditável, Amanda! Ainda não me desce que você voltou atras daquele Lucas pela quinta vez! Você não cansa de sofrer?!
- Sinceramente, eu não precisava de ser lembrada disso novamente! - Deu de ombros olhando um casal qualquer que passava - E olha só quem está reclamando, foi você que dizia que ser impulsiva era a melhor coisa que você fazia pois evitava o sofrimento antecipado…
- Sim, sou impulsiva, mas não fico insistindo no mesmo erro sempre...
- Ahaaam! Porque insistir no erro é totalmente diferente de ser impulsivo…
- Ok! você me convenceu… Me conta o que foi dessa vez… - Disse Angélica, entregando a garrava de vinho que trazia na bolsa.
Já havia um tempo em que as duas tinham se tornado amigas próximas. Amanda não gostava de assumir que pessoas mudam, mas Angélica tinha se mostrado o melhor exemplo de que ela estava errada.
Desde as confusões e extremismo de ciúmes dela com Caio, as duas tinham se aproximado bastante. Parte da vontade de Angélica de tentar vigiá-lo bem de perto, mas nada do que boas aulas de sobriedade regadas a bons vinhos com Amanda não tivessem resolvido. Por mais amiga que era de Caio, ela sabia o tipo de mal investimento que ele era. E assim acabaram criando a cultura sempre experimentar bons vinhos em prol de uma amizade certeira em vez de gastarem bebidas baratas por amores não resolvidos.
- Não sei o que quer ouvir… Já te disse que estou me convencendo de que o Lucas é o mesmo erro de sempre, que o fato dele ter se mudado de casa, dentro da mesma cidade distante não mudou o fato dele ser um perfeito idiot…
- O perfeito idiota que te fez querer ir lá conhecer a nova residência… Você não em engana, Mends! Fica pagando dessa pose toda de mulherão bem resolvido, don’t have feelings, i am more than you all… Mas você vai ser sempre uma Angélica ciumenta!
- Sabe o que é?! Que nada disso faz sentido sabe? Nem fui por causa dele…
- Foi sim! só não quer assumir!
- Convencida! Não fui! Estava precisando de um ar diferente desse aqui, algo que me fizesse esquecer toda essa vida de merda que eu to vivendo.. Tentar fazer meu coração bater descompassado novamente e me fazer sentir viva…
- E você ainda diz que não foi por conta dele - murmurou Angélica antes de colocar a garrafa na boca novamente.
- Tentei fazer uma aposta diferente, ir à praia, mas pelos amigos… - Amanda tomou ar antes de continuar - Ok, sou uma Angélica ciumenta,…
“Cheguei lá de manhã e estava chovendo… Tenho que assumir, por mais que os meteorologistas digam que chove em cidades praianas como em qualquer outra cidade, por mais que eu já tenha morado numa cidade praiana congelante, não consigo aceitar cidades praianas chuvosas em minha visita! Gosto da chuva, me faz acreditar que meus males vão escoar agua a fora, mas isso nunca acontece…
"Passei a viagem toda repensando maneiras de tentar falar com ele que eu estava na cidade. Só a Bela sabia que eu ia. E ela me fez prometer que eu não iria falar com ele, mesmo porque ela tem os problemas dela com o Rafa. Mas eu sou tola e você sabe… Depois de uma tarde de loucuras na casa dela, fomos pra festa… Fiz meu papel de detetive particular bem feito… Sabia que o Lucas não ia à festa por mais que fosse próxima a casa dele.
“O que eu queria com aquela informação, eu não fazia ideia… Mas a versão updated da Amangélica ciumenta bêbada tinha certeza do que ia fazer. Avisei pra Bela que ia respirar um ar fresco na praia antes do sol nascer e que ela poderia voltar para casa sem mim… o que dava pra ela a liberdade de ser feliz por uma noite com o cara da vez.
“eu estava igual a você agora. A garrafa de vinho na bolsa junto da câmera e sabia o que queria.
“Fui a te a casa do Lucas com a maior certeza da vida. Iríamos tirar todas as fotos que nos prometemos tirar. Dois fanáticos por fotografias, uma boa luz da manhã, a janela de frente pro mar que ele disse que tinha nessa nova casa, vinho e velas.
- Mas você adora minhas fotografias!
“Parte de mim queria isso tudo, parte de mim tinha certeza que daria a merda que deu… Mas nada que a caipirinha do Copo Sujo não resolveria… e fui…
“Para chegar lá e ver os mesmos olhos distantes que… não precisei de nem meia porta aberta para querer colocar os óculos escuros e esconder meus olhos lacrimejantes - Disse Amanda tirando os óculos da bolsa e colocando no roso… Mesmo sendo fim de tarde…
“Sabe?! Você uma vez disse que o Caio tinha te bloqueado nas redes sociais porque você era invasiva de mais… Sabe o que é? Nunca vi Caio reclamando de você invadindo a intimidade/privacidade dele… E mesmo assim ele bloqueou… Acho que ter olhado nos olhos do Lucas naquele momento me fez sentir exatamente isso… Não, eu não fui invasiva e nem ele tinha me bloqueado nas redes… Mas eu acho que eu preferiria que tivesse a ter a certeza de que ele me enganou com palavras bonitas, dizeres de saudade e promessas de que nunca me faria de troxa…