As vezes me pego criando paranóias do tipo que nós daríamos certo

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As vezes me pego criando paranóias do tipo que nós daríamos certo
Será que sou o único ser humano desse planeta que não consegue se imaginar num relacionamento e tendo mais gente que não seja minha mãe me achando linda e cheirosa o tempo todo
【but I wonder where were you】— pyowon
As primeiras vinte e quatro horas depois do desaparecimento de uma criança são as mais importantes, as mais cruciais. Uma porcentagem assustadora não resistia às primeiras frações desse tempo curto, outras eram perdidas completamente, no anonimato, quando findava o período. Pyo só tomou conhecimento que esse tempo precioso escorria por entre os dedos como areia depois de quase 4 horas. Se dependesse dele denunciar, ou evidenciar, o sumiço já teria começado atrás. A criança em questão não era uma criança. Era independente em seus limites, não precisando de ninguém para realizar as funções mais básicas do ser humano. Sabia adquirir comida, usar garfo e faco, localizar um banheiro e pedir informações de maneira inteligível. Entretanto, a idade, o peso de toda sua história conhecida bem demais pelo pai e pelo professor colocavam-no na categoria mais urgente, e perigosa. Um dia. Um único dia.
E tinham se passado três.
A picape rolou para a vaga sem som, o motor já desligado enquanto a inércia o encaixava sem dificuldade. O professor ficou sentado no banco da cabine aquecida, os olhos sem foco atravessando o para-brisa sem enxergar nada. As mãos fechadas de qualquer jeito no volante, a respiração meio inútil de tão desprezada. Quantos dias teria que repetir essa cena? Papéis de cores berrante e neutras, de diversos tamanhos e formatos, com um único conteúdo repetido em todas. Uma foto colorida. Um sorriso inocente. Uma palavra negra, cruel, encimando o garoto alegre como um abutre à presa. PROCURA-SE. Os dois telefones disponíveis para contato não recebiam mais os mesmos números de chamadas dos primeiros dias, as pessoas também diminuíam a frequência. Se eles tiverem notícia avisam. Claro. Por que não eram eles que se preocupavam em encontrá-lo depois que mais uma esperança era apagada com o desligar do telefone. E não eram eles cujo coração ameaçava sair do peito toda vez que a tela se acendia com um número desconhecido. Quantos dias teria que repetir essa cena? Tantas vezes quanto forem necessárias. Até os papéis do mundo acabarem, até a tinta do mundo não soubesse criar nada que não seja a foto. até que todas as letras e palavras não formem mais além de Siwon. Siwon.
Pyo socou o volante com força, a buzina gritando em processo, reagindo tão rápido que seus ouvidos ficaram surdos. O timbre estridente perdurou, reverberando pelo espaço confinado, batendo nos dentes trincados que não deixavam nada entrar. Nem sair. Nenhum pio. Nenhuma prece a quem estava lá em cima nem às autoridades embaixo. --- Mais um dia. Mais um dia. --- Para quem não entendia, a frase parecia melancólica. De um homem que só vivia para mais um dia, sem esperanças de encontrar o que desejava. Para Pyo era uma espécie de boia, um lembrete para si mesmo de que Siwon não entraria na estatística e aguentaria mais um dia. Só precisava encontrá-lo. Só isso. Não podia ser difícil, certo? Certo? Abriu a caixa de papelão do passageiro e retirou as folhas de dentro, outras caixas gêmeas na caçamba e nos bancos traseiros. As vazias em número maior e mais dramáticas, caladas e silenciosas lembrando. Lembrando. Lembrando que tinha visitado ruas demais, cafés demais, postos de gasolina e restaurante, pregando posteres e perguntando se tinham visto o garoto. O grampeador tinha uma aparência estranha também, de um velho que tinha trabalhado demais e pedia um descanso.
Piscou e se viu na rua. Os cartazes coloridos esvoaçando em sua ingenuidade dolorida. Você me viu? Nos dê notícias. Click. Próximo poste. E o peso parecia aumentar enquanto percorria os quarteirões daquela madrugada antes das aulas da manhã. Cada barulho metálico acrescentando um quilo, uma tonelada nos ombros já encurvados de dor e cansaço. O peito torcia-se contorcia-se, uma sensação tão estranha quanto familiar. Íntima. YuKwon não tinha filhos, mesmo que sonhasse desde que adquirira uma certa estabilidade financeira, mas sabia que o que sentia assemelhava-se ao sentimento de um pai. Não ousa dizer que era o mesmo, mas era tão parecido. Tão igual. Tão dolorosamente mordaz. Uma ambiguidade de desesperança e esperança misturada com o foco e a desistência. Queria notícias, vivo ou morto. Não. Não. Queria vivo. Vivo e sorrindo. O sorriso em seu rosto surgia com dor, pior do que forçado, o professor apoiando-se na parede dos fundos de um restaurante de família e buscando fôlego para os pulmões em falência. Não podia chorar agora. Não quando tinha uma missão pela frente. Não quando cada pai e filho passeando no parque o lembravam do garoto.
Os dedos passaram nas bordas dos papéis bem alinhados, mais uma lágrima descendo pela bochecha. O telefone tocou e ele, correndo, tirou-o do bolso para decepcionar a cor de vida em seu rosto. Lembrete. Reunião da secretaria. Como era de praxe, o aviso emitia dois avisos. Um sonoro, o que tinha ouvido, e um luminoso, o flash da câmera piscando três vezes para o caso do celular estiver de cabeça para baixo. As luzes piscaram, programadas, mas a imagem que revelaram tiveram um efeito quase cinematográfico. Folhas voando para todas partes. Homem se jogando de joelhos ao lado do corpo mal-tratado. O sol, estúpido, nascendo e iluminando a cena. --- Siwon... --- Um murmúrio de alívio, indecente demais para se importar com a condição encontrada pelo mais velho. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, mesmo coberto e deformado. O alívio virou desespero num passagem de milésimo de segundo. --- Siwon. --- Chamou com mais força, mal e mal tocando no garoto para não machucá-lo mais. Que parte podia tocar? Que parte poderia mexer? Carregar não. O indicador e dedo médio pressionaram na lateral do pescoço, a cabeça quase encostada na boca alheia em busca dos sinais vitais. Coração, respiração, som e calor. O batimento estava fraco demais, mas podia ser sentido, e o ar soltado podia ter passado despercebido para alguém não treinado em primeiros socorros.
O professor discou o número da ambulância, encaixando o telefone entre o ombro e a orelha para realizar os primeiros passos do socorro. Primeiro bipe e o telefone quase escapou quando, levantando a blusa encrustada de sangue coagulado, encontrou lesões profundas demais para algo feito deliberadamente. --- Eu preciso de uma ambulância... --- Tirou o casaco que vestia, o coleto que usava por cima da camisa branca, e se pôs a trabalhar. Aqueles momentos eram ainda mais cruciais do que as 24 horas do desaparecimento. A vida dele estava por um fio, era possível de ver a olho nu. Cobriu a parte de cima com o casaco, preservando o pouco de calor que restava, e saindo da frente do sol para que os raios fizessem seu trabalho. --- Siwon, jebal, Siwon. --- Pressionou o colete dobrado sobre as facadas da barriga enquanto, delicadamente, acariciava o rosto do garoto dando-o uma espécie de estímulo, um lembrete, que o rosto existia e que podia ser movimentado.
Em forma de palavras a gente chora sem nem perceber. E esse choro espontâneo alivia o nosso ser.
Melancolizava.
E como tempo nublado ela vivia , remoendo e remoendo , suportando,suportando, ate que não aguentava e caia em tempestade...
Marry
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São tempos difícies para os sonhadores.