Cherry bomb || POV
Jezebel era orgulhosa. Sempre havia sido e sempre seria. Houve algo em crescer cuidando de si mesma que a fazia repelir a ideia de precisar de ajuda de quem quer que fosse e, no fundo, ela sabia que isso não era saudável e era um defeito perigoso - porém, Jazz era, de fato, muito orgulhosa para admitir isso. Pensava ela que essa era a razão de seu impasse na frente dos portões da grande casa dos Zabini, afinal, o que estava prestes a fazer seria um dos golpes mais duros que seu ego sofreria. Para entender melhor o que a havia levado até ali, era necessário voltar em um tempo no qual Jezebel sequer existia; quando seus progenitores viviam uma farsa e a chamavam de amor. Bem, pelo menos a velha Dolores chama, pois a morena pouco acreditava que Alfonso teve real sentimento pela mulher para além de uma aventura proibida. Alfonso era um Zabini, um bruxo de sangue puro, abastado e com um sobrenome a zelar, já Dolores Maverick era apenas uma trouxa de beleza exuberante que chamou sua atenção. Eles não podiam ficar juntos, sequer deveriam ter encontrado um ao outro - e como isso aconteceu, a mãe da garota nunca lhe contou. O romance acabou quando Dolores anunciou a gravidez, feliz com ilusão de que este seria o momento em que assumiram o amor de um pelo outro aos quatro ventos e teriam uma família feliz. Alfonso, como um bom canalha que era, deu a ela mil e uma justificativas do porquê aquilo não podia acontecer e desapareceu da vida mulher, deixando para trás desgosto e uma criança. Jezebel nunca teve a oportunidade de conhecer a mulher iluminada que sua mãe um dia havia sido e mantinha-se distante para a sanidade mental de ambas. Porém, a ex-Slytherin ficava a par do estado de saúde - física e mental - da mulher e prestava visitas vez ou outra; há algumas semanas, sua tia, a única pessoa que ainda tinha alguma decência para cuidar da irmã, comunicou que Dolores estava doente e que precisavam de dinheiro para o tratamento. Dinheiro que Jazz não tinha.
A tatuadora não era uma mulher de família, por assim dizer; desde que se entendia como gente, via aqueles pertencentes ao seu sangue como cacos, sua suposta família era um espelho quebrado que não poderia sequer ser colado, pois uma das peças estava sempre faltando - o reflexo de seu desejo infantil jamais se tornaria uma imagem real, com ou sem rachadura. Então, seria cômico se não fosse trágico vê-la mirando o portão da casa de seu pai com uma intensidade que podia fazer o ferro derreter a qualquer momento enquanto tinha a imagem de sua mãe acamada em mente. Diante da grade, Jezebel ponderou pela milésima vez como seria dar as costas àqueli tudo e esquecer por completo quem eram seus progenitores; porém, sabia que não conseguiria lidar com a culpa de não ter feito o que podia pela mãe, mesmo que desprezasse a mulher. - Let's get this fuckin’ over with. - vociferou para ninguém em particular e apertou a campainha com mais força do que era necessário. Quem lhe atendeu parecia ser uma funcionária da casa, que respondeu que Sr. Zabini estava em seu escritório e não conseguiu segurar Jezebel quando esta se pôs a caminhar confiante na direção indicada. - Hello, daddy, remember me? - seu tom era venenoso e o sorriso afiado. A expressão de espanto de reconhecê-la e de tê-la sob o teto de sua casa lhe deu uma certa satisfação; o que não durou muito, pois o velho passou a questionar o motivo da ilustre visita, deixando claro que não a queria ali. - Well, I am as disgusted with this situation as you are, but I need something you have plenty of. - não demorou para Alfonso lhe sorrir com escárnio, dizendo que sabia que esse momento iria chegar e que ela não levar um tostão sequer dele e dos seus verdadeiros filhos. A raiva que Jazz tinha em seu peito constantemente apenas fez crescer, mas sua expressão era de desprezo pelo o que ele acreditava ser uma provocação. - She is sick. Cancer, they say. The treatment is new and expensive. - obrigou-se a dizer, em uma última tentativa de fazê-lo notar que aquele não era apenas um golpe, mas um caso de necessidade.
Toda e qualquer intenção que Jezebel tinha de sair daquela casa com algum resquício de paz foi por água abaixo quando o velho apenas lhe responder que não se importava. - Well, if you don't care about the woman you destroyed, you might not care if I do the same with this dollhouse, right? - pior que seus socos e chutes, era sua ira fria. - Your demure wife and spoiled children don’t know about your little bastard or am I wrong? - não havia necessidade de resposta, a morena sabia que ele a havia enterrado a sete palmos, tão profundamente que provavelmente tinha esquecido de sua existência. - Well, the thing is, I need the money and you need me gone, do we have a deal? - os segundos de silêncio que se seguiram foram preenchidos por uma batalha de egos; dar o que a morena queria era mais do que ceder uma quantia razoável de dinheiro, era dar o braço a torcer, era abrir uma brecha para que aquilo se repetisse, era se tornar refém - e se Jazz fosse sincera, não negaria a possibilidade de usar a ameaça novamente em um outro momento de desespero, ainda que não fosse sua intenção. Alfonso podia ser muitas coisas, mas não iria abaixar a cabeça para uma pessoa como ela e sua resposta foi um claro e firme “não”.
- You asked for it. - foi o único aviso que Jezebel deu antes de dar as costas ao homem e trotar para fora do escritório, abrindo portas com violência e fazendo o maior barulho possível até chegar na área comum e encontrar três expressões confusas. - Hello, dear brother and sisters, how are you? Oh yes, let me introduce myself, I'm Jazz, the older daughter of your daddy that he forgot to mention. I think he also forgot to tell you the story of how he met my mother in his youth, deceived her, got her pregnant and abandoned her with nothing but an excuse. And with me, of course. - seu tom era alto e venenoso, com uma falsa cordialidade que não continha a raiva que sentia e fazia seu rosto queimar. Seu breve discurso foi dado enquanto os encarava, um a um. Pode notar o crescimento do mais velho, a quem havia reconhecidos nos seus dois últimos anos de escola não só pelo sobrenome, mas pelos traços que podia ver sua própria pele; reparou na garota mais velha e seu olhar curioso, que fez Jazz questionar se ela estava se divertindo com tudo aquilo; já a mais nova, aquela que a ex-Slytherin nunca havia posto os olhos em cima, era claramente a garotinha do papai. Jezebel os desprezava profundamente, pois via neles tudo o que podia ter tido e lhe foi negado. - Oh, I'm sorry, I didn't see you there, Mrs. Zabini. Well, I hope he treats you better than my he did to my mother. - dirigiu-se a mulher que havia entrado no cômodo depois dela, mas não perdeu muito tempo a mirando, ela era quem menos tinha envolvimento naquela história. - Well, it was great to have this little family reunion with you, dear ones. - deu o seu maior sorriso, antes de deixar a expressão de ira tomar conta de seu rosto e sua voz tornou-se grave, muito mais condizente com o que sentia. - Now fucking excuse me that I need to fucking work. - vociferou, pensando que isso era algo aquela gente não devia saber o que era, não era verdade. Deu as costas para o circo que começava a queimar, pouco se importante com a consequência de seus atos, afinal, não tinha nada a perder. Ao atravessar o portão da grande casa dos Zabini, sorriu com a satisfação de saber que não seria a única a ter seu dia arruinado.













