Quando tudo dizia não,
eu me disse sim.
Cheguei aos 29 anos
com mais silêncio
do que companhia.
Há dias em que o vazio faz barulho…
e ecoa justamente
onde deveria haver presença.
Às vezes, até os de casa
parecem distantes.
E isso pesa.
Pesa de um jeito
que não dá pra explicar direito.
O peito aperta,
o ar falha,
a respiração vem curta…
e as lágrimas ameaçam cair.
Mas eu paro.
Respiro.
Engulo tudo.
Me recomponho.
E sigo.
Sempre sigo.
Talvez seja por isso
que tudo tenha se tornado assim.
Eu sempre resolvo.
Sempre dou conta.
Sempre encontro um jeito.
E, com o tempo,
ninguém mais tenta entrar,
opinar,
ajudar…
Talvez porque nunca precisei —
ou nunca deixei parecer
que precisava.
Então ficou assim:
eu por mim.
Quando a tristeza veio,
eu me levantei.
Quando a angústia apertou,
eu me levantei.
Quando afundei,
fui eu quem mergulhou mais fundo…
e voltou à superfície.
Quando a ansiedade gritou,
eu a silenciei.
Quando a depressão tentou se instalar,
eu a expulsei à força.
Quando o mundo desabou,
fui eu quem sustentou os escombros.
Eu fui meu próprio abrigo.
Quando ninguém sonhou por mim,
eu sonhei.
Quando ninguém acreditou,
eu continuei.
Quando ninguém se importou…
eu lutei sozinho.
E, ainda assim,
houve momentos pequenos,
quase invisíveis,
que doeram mais
do que qualquer queda.
Como perceber
que ninguém se lembrou
de um gesto simples.
Um bolo qualquer.
Um símbolo mínimo
de que minha existência
não passou despercebida.
E doeu.
Doeu mais do que deveria…
ou talvez tenha doído
exatamente o quanto precisava doer.
Porque nunca foi sobre o bolo.
Foi sobre ser visto.
A verdade é que eu me tornei
tudo o que precisei ter.
Meu próprio porto seguro.
Meu abrigo em dias de tempestade.
Meu ombro amigo.
Minha voz de consolo.
Minhas próprias mãos
me segurando
quando tudo em mim
desmoronava.
Eu me acolhi.
Me reconstruí.
Me mantive de pé
quando não havia mais ninguém ali.
Mas há um preço nisso.
Cansa ser forte o tempo todo.
Cansa não ter
para onde voltar
quando tudo desaba.
Cansa ser casa para todo mundo…
e, ainda assim,
sentir que não tem um lar.
Às vezes,
me sinto perdido
dentro de mim mesmo.
Como se estivesse atravessando
um campo minado às cegas,
pisando em dores
que explodem por dentro,
uma após a outra.
E, a cada explosão,
sou eu quem recolhe
os próprios pedaços.
Espalhados.
Desordenados.
Partes minhas
que já nem sei mais
onde deveriam estar.
Há dias
em que sinto
que estou inteiro…
Mas, na verdade,
estou apenas
bem montado.
— eco de mim

















