Resenha #334: Allegro em Hip-Hop
No segundo livro da série Cidade da Música, você vai conhecer Camila. Ela é neta de japoneses e filha de pais muito rigorosos que têm grandes planos para ela e para sua irmã. Desde pequena, aprendeu que precisava se esforçar mais, que precisava ser melhor, que não existia tempo a perder na adolescência e que sua inteligência e seu talento deveriam levá-la longe. Camila, então, trocou as festas das amigas por treinos de balé, e a vontade de viajar o mundo afora pela consagrada Academia Margereth Vilela. Sua vida inteira estava programada e organizada. Até que uma crise de ansiedade a fez perceber que tudo ainda podia mudar e, depois de conhecer Vitor, um garoto desengonçado e cheio de sardas que tocava violino, a vida mostrou à Camila que uma dose de hiphop poderia fazer os dias dela mais felizes.
Vou começar essa resenha dizendo apenas umas coisa: se no livro anterior tive dificuldade para me conectar emocionalmente com a protagonista (confira a resenha aqui), nesse me identifiquei com a personagem principal de tantas maneiras que esse livro acabou se tornando meu favorito dos escritos pela Babi Dewet até agora.
A história acompanha dois protagonistas: Mila, uma garota descendente de japoneses que foi criada para apenas se concentrar no balé e não perder tempo com garotos. Seu maior sonho é se tornar uma bailarina profissional e ser reconhecida por algum olheiro internacional. O caminho para isso? Conseguir o papel principal na apresentação de O Lago dos Cines no fim do semestre. Mas, para isso, ela precisa fazer 32 fouettés perfeitos (e se você não faz ideia do que sejam fouettés e do qual difícil eles podem ser, assista esse vídeo aqui).
Do outro lado temos Vitor, um ruivinho super fofo que, apesar de amar música clássica e tocar violino, não resiste a um bom Hip-Hop. O desejo dele é de deixar alguma marca no mundo e fazer com que a Academia Margareth Vilela quebre o preconceito com ritmos mais modernos para que ele possa tocar Drake sem receio.
Só que, apesar de parecer tranquila por fora, Mila passa por um imenso turbilhão por dentro. A necessidade constante de sempre se provar como a melhor de todas acaba desencadeando uma série de crises de ansiedade que podem roubar seu maior sonho.
“Acho que as pessoas tendem a pensar que, porque somos bailarinas e porque ouvimos música clássica, dançamos com leveza e que por isso nossa cabeça não é uma bagunça. Mas tudo é uma bagunça, se querem saber! Desde a ponta dos meus dedos tortos do pé até os grampos do meu cabeço, que doem demais.”
Amei a forma como a autora fez a Mila lidar com sua ansiedade. Como alguém que passa pelo mesmo problema, é importante abordar esse tema em livros, especialmente juvenis, e lembrar a todos que sofrem da necessidade de ter controle sobre tudo que é necessário sim buscar ajuda profissional. E o que dizer do Vitor, gente? Ele foge do estereótipo de mocinho “boy lixo”, sendo um verdadeiro suporte para a Mila. A amizade que nasce entre os dois é muito linda de se ver e o romance acaba apenas se tornando consequência.
“Não sei se deveria odiar você por ter me beijado e ter feito a minha vida virar de cabeça pra baixo, porque... porque eu gostei. Sabe? Ou se eu deveria te agradecer, porque nunca pensei que meu coração fosse se sentir tão aquecido e tão confortável perto de alguém.”
A autora também aborda outros temas relevantes, como o preconceito que os descendentes de orientais passam ao ouvir piadas bobas e de como garotas podem e devem apoiar umas as outras. Tudo isso permeado por uma narrativa leve, doce, e cheia de música, tornando o segundo livro dessa série o meu favorito até o momento.
“Mila aprendeu a vida inteira, de forma muito brutal, que precisava ser a melhor de todas, mas agora ela estava começando a entender que, na verdade, precisava ser a melhor que podia ser. Sua melhor versão. Que existia uma enorme diferença entre uma coisa e outra.”
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