Battle Angel Alita | Gunnm Hyper Future Vision
O subgênero Cyberpunk, oriundo da Ficção Científica, é um dos muitos que me atraem quase que instantaneamente. Obras como Deus Ex, Neuromancer e Ghost in the Shell são apenas algumas pelas quais tenho um enorme fascínio para com seus universos e personagens. E, como pôde ser notado, é uma paixão que atravessa mídias; nesse caso, games, livros e animes, respectivamente, ainda que GitS tenha começado como um mangá, lá em 1989. Um ano após o surgimento de Motoko Kusanagi, personagem feminina forte do meio, vimos Alita (ou Gally, no original) nascer no título Battle Angel Alita, do artista Yukito Kishiro.
E é justamente seu primeiro arco, Gunnm Hyper Future Vision, que será abordado nesta dissertação. Dividido em 9 edições, a Editora JBC optou por manter essa ordem em sua versão digital, enquanto que a impressa vinha no formato BIG, totalizando 4 edições gigantescas com mais de 400 páginas. Mesmo com seu acabamento simples, é difícil não se ver intimidado pelo seleto grupo de enormes tijolos. Confesso que demorei para ler tudo, e até para me interessar por completo pela jornada da jovem ciborgue. Um dos fatores que me impulsionaram a desbravar a obra de vez foi o lançamento do primeiro trailer da adaptação cinematográfica, batizada de Alita: Anjo de Combate. Com sua estreia chegando cada vez mais perto (14 de Fevereiro), me vi na obrigação moral de terminar esse enorme arco, que serve de inspiração ao filme.
Completei a leitura em exatos 4 dias, sendo um volume para cada. Estava completamente absorta naquele universo, o que me espantou. Assim que finalizava uma edição, já ansiava por começar a próxima, sem hesitação alguma. O ritmo da narrativa é tão bem coordenado que sequer sentimos nosso tempo passar. E isso, meus caros, é algo muitíssimo raro. Acompanhei Alita em sua jornada, e partilhei de seus sentimentos, dos simples aos mais complexos e/ou dúbios. Questionamos as mesmas situações. E mesmo quando não concordava plenamente com a personagem, eu compreendia certos atos sem pestanejar. Isso também é bastante raro.
Yukito Kishiro desenvolve boa parte dos seres que compõem esse mundo com genuinidade, mas dando-lhes a complexidade necessária para fazê-los críveis o suficiente. Da então ingênua Alita ao agora perverso Zapan; todas as decisões tomadas pelos personagens fazem sentido dentro do contexto do qual compartilham, logo as consequências que enfrentam são mais do que justas, por mais que não pareçam. Ao longo dessas 4 edições, não houve um momento no qual pensasse “Ora essa, isso não combina com a personalidade dele(a)” ou “Ele(a) mudou drasticamente, sem qualquer motivo”. Um ser influencia o outro, assim como o ambiente os modifica, fazendo com que entrem em contato com incontáveis ideologias no decorrer da jornada. O senso de progressão dos personagens é nada mais do que satisfatório, principalmente o de Alita, que descobre cada vez mais sobre seu passado, ao passo em que evolui psicológica e emocionalmente.
Por mais que a Cidade da Sucata e Zalem sejam as peças de sempre num conto futurista e distópico, não dá para não se “encantar” pela podridão e pela coletividade dos seres que habitam tais lugares. Por mais embasbacados que fiquemos com certos eventos pesados (e que nos são apresentados explicitamente) que ocorrem em ambos os locais, não dá para não notar que eles não diferem nem um pouco da realidade na qual vivemos, inclusive em termos de segregação social (o grande malefício por trás de inúmeros atos). A única diferença é que nosso dia a dia ainda não foi tomado por pessoas que possuem apenas o cérebro como lembrança de sua origem humana, enquanto que todo o resto é um emaranhado cibernético. Mas isso realmente faz diferença? Isso importa, no que tange a tão almejada humanidade?
Para costurar isso tudo da melhor forma possível, temos aqui uma arte impecável, que sabe nos situar no meio das cenas de ação, além de não nos poupar dos detalhes sórdidos de tais embates, com direito a cérebros sendo sugados e cabeças sendo estouradas. É uma mangá seinen, cujo público-alvo é mais maduro, então não haveria tanto sentido em ocultar esse tipo de conteúdo, principalmente dentro do ambiente aqui construído. Além disso, prestem atenção em toda e qualquer página que nos mostre pedaços da cidade e os ciborgues; é uma riqueza de detalhes estonteante, e que dá até vontade de pegar um papel e um lápis para tentar algo minimamente parecido.
Em suma, Battle Angel Alita - Gunnm Hyper Future Vision é uma baita duma viagem que merece ser vivenciada, seja você um fanático por cyberpunk em toda e qualquer mídia ou um ávido leitor de mangás dos mais diversos tipos.
Em tempo: A Editora JBC já lançou as duas primeiras edições do segundo arco, Last Order, e mal posso esperar para entrar em contato com essa nova etapa da jornada da jovem Alita.














