24ª Edição do Sofar Sounds Lisbon: a universalidade da música em quatro compassos
A 24ª Edição do Sofar Sounds Lisbon assinalou o final de mais uma temporada de concertos que só regressará em Setembro. No jardim do Lisb’on Hostel ouvimos as composições gentilmente tocadas por Rogério Cardoso Pires, o folk acústico errante dos The Loafing Heroes, os ritmos tropicais de LG Lopes (Graveola e Lixo Polifônico) e Gustavito (TiãoDuá), e a electrónica de Elotee. Talvez a música faça os lugares, talvez os lugares contribuam muito para a música que temos como nossa, mas a verdade é que neste hostel no Bairro Alto, casa que já nos conhece bem por ter sido palco da nossa 5ª Edição, criamos sempre memórias inesquecíveis.
Rogério Cardoso Pires: a beleza das pequenas coisas
O primeiro concerto deste final de tarde foi o de Rogério Cardoso Pires, guitarrista com um percurso notável, tendo já partilhado palco com artistas como Zeca Medeiros e Rodrigo Leão. Rogério veio apresentar-nos as suas Bagatelas (2016), um conjunto de composições escritas em diversos momentos da sua vida que resultaram no seu primeiro disco a solo.
O músico elaborou sublimes instrumentais de guitarra clássica para nos falar destas memórias. Assistimos ao raiar do sol depois da tempestade em Depois da Chuva - tema que foi escrito após uma altura em que choveu muito - e olhámos as luzes da ilha de São Jorge enquanto estávamos na Ilha Terceira, visão que transmite uma “sensação de calma como a que está aqui hoje”, disse-nos Rogério. O concerto terminou com a belíssima Tesi, música baptizada com o nome de um cão, supostamente surdo, que se voltava para trás e reagia sempre que o músico tocava este tema. Rogério não descarta a possibilidade de ter sido tudo uma coincidência, mas nós estamos em crer que não foi, de todo, por acaso.
De Bossa-Nova misturada com Flamenco a uma guitarra transformada em bandolim para uma incrível Dança Céltica, o músico elaborou uma majestosa performance que sublinha o talento evidenciado por todos aqueles que já tiveram o privilégio de tocar com Rogério. A par do talento, a simplicidade com que se apresenta para nos tocar as suas gentis melodias só nos faz ganhar mais respeito por este senhor que tem vindo a marcar a música portuguesa com as suas diversas colaborações. Foi um enorme prazer ouvir estas bagatelas que, afinal de contas, têm tanto valor.
The Loafing Heroes: a fuga da cidade para a floresta
The Loafing Heroes foram os protagonistas da segunda actuação deste final de tarde. A banda que resultou de um “encontro internacional de mentes musicais” estabeleceu-se em Portugal, sendo que todos os seus membros vêm de países diferentes. “As personagens nos concertos são sempre diferentes”, diz-nos Bartholomew Ryan, o vocalista irlandês, que se fazia acompanhar da italiana Giulia Gallina e do português João Tordo, ficando a faltar os outros três elementos elementos que compõem a banda.
O cenário criado pela banda combina perfeitamente com o espaço em que estavámos. Uma guitarra, um teclado, uma concertina e um contrabaixo criam o conjunto sonoro das histórias cantadas por Bartholomew e Giulia em Baron In The Trees (2016), o último álbum do grupo. Fugimos para a floresta e seguimos o rasto de Gypsy Waltz e, já longe da cidade, ouvimos um bonito tributo a Bruce Springsteen, com um cover de I’m on Fire. Em Collapsing Star perguntam “Are you alive or a collapsing star?” e em God’s Spies chegam à resposta dizendo “You are a collapsing star”. Por fim, os Loafing Heroes homenageiam a importante poetisa irlandesa Caitlín Maude num tema homónimo.
Nada em The Loafing Heroes é vulgar. Desde a formação sui generis da banda à lírica singular, o folk acústico destes heróis vagabundos alerta-nos para o decadentismo da sociedade e interpela-nos, fazendo-nos pensar no nosso papel na sociedade. Numa postura errante, com as músicas de Loafing Heroes estamos em constante movimento à procura de um lugar melhor onde podemos ser verdadeiramente espíritos livres. São heróis assim que admiramos.
LG Lopes e Gustavito: a surpresa de última hora
Nesta edição, para além das três surpresas que compõem o alinhamento, durante o dia surgiu a oportunidade de fazer uma quarta surpresa ao público do Sofar Sounds. Vindos directamente do Sul de Espanha, a primeira paragem dos brasileiros Luiz Gabriel Lopes (Graveola e o Lixo Polifônico) e Gustavito (TiãoDuá) foi o Sofar Sounds Lisbon.
Por entre ritmos tão coloridos como as suas camisas, ouvimos um Lembrete que os músicos fizeram para eles próprios, para que não se esqueçam do que os move enquanto artistas. Segue-se Maquinário, que nos fala sobre o desejo de voar. Luiz e Gustavito preparam mais uma surpresa para nós: apresentam-nos Sete, uma música composta pelos dois músicos e finalizada horas antes do concerto.
Os dois músicos de Belo Horizonte trazem ao jardim do Lisb’on Hostel a música popular brasileira no seu esplendor, num concerto que contagiou cada um de nós pela sua energia. Do Brasil chegam sempre ao Sofar Sounds Lisbon artistas que nos trazem sempre um pouco desse verão que só existe no outro lado do oceano e que nos aquece tanto o coração. Este concerto não foi excepção. Visitas surpresa destas serão sempre bem-vindas.
Elotee: entre a volúpia e o amor
No último concerto deste final de tarde, abandonamos o registo acústico dos outros três concertos e deixamo-nos seduzir pela electrónica dos Elotee, o mais recente projecto a solo de Pedro Sacchetti - que já tinha estado connosco com os For Pete Sake - e de José Evangelista.
A sonoridade voluptuosa de Elotee explora as possibilidades de atracção entre duas pessoas e todo o processo de conquista que lhe sucede. Em Staying in Tonight, a tensão é criada e Pedro assume a voz de um alter-ego sedutor determinado a conquistar a sua femme fatale, independentemente do que ela possa dizer. Fazemos uma pausa nesta narrativa. Pedro Sacchetti não resiste e presta uma homenagem aos Graveola tocando um excerto de Dois Lados da Canção. “Não acredito que estou a tocar isto à tua frente” diz, nervoso, a LG Lopes. Depois de Pedro dedicar este segundo concerto de Elotee à sua mulher e filha, voltamos à acção e conhecemos a little troublemaker desejada em Mary Jane, o único single lançado deste projecto.
Longe de cair no banal, as composições do projecto de Pedro Sachetti e José Evangelista demonstram uma grande sensibilidade no que toca à pop e à electrónica. As melodias são viciantes, as histórias fazem-nos passar por um “espectro de emoções” que exige ser explorado ao máximo. Não podíamos ter pedido por melhor forma de encerrar esta edição. Ainda vamos ouvir falar muito das conquistas deste encantador alter-ego.
Texto: Inês Henriques
Fotografias: Gennaro Serra di Cassano
Rogério Cardoso Pires: https://www.facebook.com/rogeriocardosopires/?fref=ts
The Loafing Heroes: https://www.facebook.com/TheLoafingHeroes/?fref=ts
LG Lopes: https://www.facebook.com/lglopeslglopes/?fref=ts
Gustavito Amaral: https://www.facebook.com/gustavitoamaral/?fref=ts
Elotee: https://www.facebook.com/eloteemusic/?fref=ts
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