A Noite II
Sentindo o pulsar louco das minhas veias, levantei em um pulo. Puxei a mochila para o ombro e comecei uma corrida frenética. O guincho da criatura era horripilante, não olhei para trás, mas era provável que ela estava vindo até mim. A escada era a única solução no meio dos entulhos, só havia mais um andar. Subi depressa, o barulho das escadas cedendo no primeiro piso me alertou da proximidade.
O teto do terceiro andar havia desabado e os prédios ao redor eram menores. Pular? não havia como. Atirar? Essa maldita coisa não conseguiria deter a coisa negra sem pelo menos 15 tiros. A respiração ofegante embaçava a máscara de gás. Pense, pense.
A corda. Eu poderia descer, abri a mochila e corri para um dos pilares, fiz um nó firme na corda ao seu redor. Acho que consigo me balançar até o próximo prédio e tentar escapar para algum galpão. O uivo dos mordedores chegou até mim, eles tinham me encontrado. Não havia tempo, a criatura negra não era rápida, ainda subia pela escada quase destruída que por alguma merda, não cedeu sobre seu peso.
Olhei para a lateral, eles podem pular também, mas a Criatura não vai conseguir. Destravei a arma e soltei três tiros no monstro maior, ela desabou quando dois deles atingiram sua cabeça. A menor vinha até mim, mas não havia tempo para ela, comecei a correr e me lancei pelo ar. Agora eu saberia se a corda era segura.
O puxão da corda machucou minha cintura, mas podia me balançar para o prédio seguinte. Como em um balanço, empurrei até conseguir cortar a corda e cair no meio do que parecia ser uma sala. Minhas costas gritavam e o ar faltava, tentei me recompor rapidamente, já que o mordedor se preparava para pular e a criatura negra guinchava com ódio pela presa perdida.
Procurei por uma saída, com um chute na porta da sala, ela se abriu para um corredor. Merda. Liguei a lanterna acoplada na arma e vi muitas outras portas, chutei a próxima, ela não se abriu. Corri para a segunda, chutei com força, ela cedeu, mas era uma sala vazia. Um estrondo na outra sala me dizia que o mordedor conseguiu pular com sucesso. Saindo da sala, fui direto para última porta. Atirei no fecho e empurrei, ótimo janelas. O mordedor agora estava no corredor farejando, os olhos sensíveis acostumados à escuridão me achariam facilmente. Agachei sobre a janela maior e lancei a luz sobre ele. Como sempre o efeito foi o mesmo, deixei o bichinho com raiva. Ele se lançou para a luz com ódio rosnando mais alto ainda. Quando chegou ao início da sala, pude atirar, mas apesar de ser menor era mais ágil e a bala atingiu seu dorso. A bala atravessou a couraça e o sangue podre saia pelo buraco. Mesmo assim ele não parou. Parcialmente cego pela luz, consegui me mover até perto de uma estante. Ele farejava o ar, enquanto sua visão ainda estava fraca. Era o momento. A criatura caiu no chão com um estrondo quando minha última bala atingiu sua cabeça. Infelizmente, no mesmo momento o teto cedeu.
Caímos em uma avalanche. O impacto da queda foi enorme, se antes minhas costas doíam, agora tinha certeza que uma ou duas costelas estavam fraturadas. Um amontoado de coisas estava sobre mim, a maioria de velhos moveis. Recuperando aos poucos os músculos comecei a tirar os destroços, com sorte nada teria cortado a proteção. Minha mascara estava coberta de poeira e o visor completamente embaçado. Mas o que me assustou não vinha da minha mochila. Um som simples e aterrorizante.
Bip. Bip. Bip. Bip. Bip. Bip. Bip. Bip.
O som repetia com mais intensidade, dezenas ou centenas de vezes. Cada uma das vezes o entendimento do que significava era maior. O som do teto quebrado, os uivos e a Criatura tinham acordado qualquer animal em um raio de um quilometro. E agora eles estavam indo para o centro da cidade. Eu os atrai diretamente para as entradas de Columbus. Eu tinha me encarregado de trazer todos os tipos de demônio para a cidade. E com a porcaria de armamento que eles tinham, só uma bomba podia pará-los. Que merda que eu tinha feito?!
Terminei de empurrar as coisas de mim, o Mordedor estava morto ao meu lado, seu sangue fedido espalhado pelo meu uniforme podia ser bom, disfarçaria o cheiro. Peguei o radar, relíquia da antiga tecnologia, que mostrava um mapa da cidade e os pontos ativados. Contava 79 pontos ao redor do marco zero. Os demônios iam demorar uma hora para encontrar as entradas. Columbus não tinha armas para lidar com um ataque tão grande. Na situação de um ataque como este, eu podia chamar reforços do Hangar, mas eles demorariam muito pra chegar até aqui. Então eu tinha uma hora para afastar o máximo possível das entradas. E fazer um pedido ao hangar para lançar uma bomba, o problema é que talvez a cidade subterrânea não aguentasse bem o bombardeio. De qualquer forma, aquela maldita colônia estava entrando na minha lista de lugares infernais.
O mapa me mostrava para ir o máximo para o leste, onde havia uma boa área aberta, longe das entradas e sem prédios altos que pudessem desabar com qualquer coisa. Vasculhando a mochila, ainda haviam 5 cápsulas de sangue e alguns outros explosivos… Talvez, podia fazer uma trilha longe o suficiente para distraí-los e então pedir os reforços. Só teria que cuidar de dois problemas. A Criatura negra ainda me seguiria. E se conseguisse matar os demônios acabaria me matando também.









