Mergulho
A lembrança de olhar para o mar e querer tocar suas ondas me encorajava. Essa era a fonte inesgotável da minha energia. Agora, porém, sentia que a qualquer segundo poderia me afogar naquele mar verde. Não haviam dúvidas que eu estava lutando para sobreviver. Não desperdice essa chance, lembre-se de quem você é e o que quer, essa é a saída, repetia como um escudo. Descia as escadas e os ombros desciam a cada degrau. Os olhares ao redor sempre tensos, alguns animalescos, alguns desesperançosos, quando iriamos sair dali? A perguntava estava em cada passo rumo à sala de aula.
Sentada na cadeira, olhava uma savana ao redor, leões e mais leões por todos os lados, eu era uma zebra. E estava sempre correndo. Correndo para ficar à frente deles e não ser engolida pelas bocas famintas do ego. Se eu corresse mais rápido, algum dia seria intimidadora e forte como eles? Permanecia falando baixo enquanto os embates aconteciam, não havia outra zebra ao redor para formar um bando. Corria e dura feito pedra me sentia sem voz, ouvindo as risadas dos leões sobre as zebras descartáveis pelo mundo, me forcava a rir junto, não queria ser devorada. Sentia que me tornava um leão, cada dia mais próxima de esquecer quem eu era realmente e o que queria de fato. Era apenas mais fácil decidir que não havia espaço para mim, se quisesse continuar a opção era ir voluntariosa cada vez mais fundo, atravessando o mar verde.
As noites eram momentos sublimes que não levavam ao sono. Livros se empilhavam sob a mesa, papeis pelo chão, a pele de leão sob a pele de zebra jogada pelo quarto. Ali inquieta, sem pele alguma me cobrindo, não sabia mais que animal era. Só sentia um peso gigantesco acumulando-se no peito, pensava e repensava sobre o que deveria sacrificar para garantir a sobrevivência antes que o mar me engolisse por completo.
Outro dia amanhecia, os olhos escuros de zebra escondiam minhas olheiras, descia as escadas, os ombros desciam junto. Outra sala de aula, outro grupo de leões, nenhuma zebra. Dessa vez um professor faz uma pergunta, estudei noite passada, estou tão cansada. Nenhuma resposta surge na ponta do lápis, leões rabiscam folhas com raiva, provas são jaulas e eles são livres. Saio da sala, o mar verde me ronda mais uma vez, ele agora fala comigo e me pergunta por que reluto tanto, procuro minha voz, mas não há nada ali. Mas já houve alguma vez? Tento me lembrar.
As noites são momentos sublimes que não levam ao sono. Sentada a mesa, o lápis rabisca furioso, me sinto furiosa. Porque não consigo correr como eles? Uma foto minha sorri para o meu reflexo a mesa, a foto sabe que aquela não sou eu. Lágrimas escorrem do rosto sobre os livros. Então quem eu sou?
Descia as escadas, os ombros desciam junto. O que você tem para mim hoje, o mar perguntava todos os dias, dentro de mim o vazio não respondia. A pele de leão, sob a pele de zebra, sob a minha pele tornava meus passos cansados, atravessar o mar nas pontas dos pés sob tanto peso deixava meu corpo em frangalhos.
Mulheres não entendem muito bem, não tem problema. Leões riem, minha pele arde, a boca queima, a voz some. Corra mais rápido, corra mais rápido. As noites agora são momentos para ficar estática, me sinto tão cansada. Não há mais fotos de mim, elas não sorriem mais, não há mais amigos para conversar, não há mais família para ver, tudo foi sacrificado para não me afogar no mar verde. Só preciso aguentar mais um pouco, lágrimas escorrem enquanto o lápis se torna um borrão molhado.
Por fim consigo nadar até o altar do Salvador, falta pouco para conseguir sair do mar. A alegria invade o peito, dali consigo ver o fim dele, respiro fundo. Algumas vozes sussurram pelo ar que eu não sou pura e naquele altar só os puros podem subir. Ignoro os avisos, falta tão pouco. Corro pela noite e seguro com força minhas peles. Preciso me tornar pura para terminar minha jornada.
O Salvador entra na sala, evangeliza e pinta sua tela, tento respirar fundo. Algo não está certo com o Salvador, mas como posso duvidar da palavra d’Ele? Ninguém questiona um salvador. Só Ele pode me ajudar a passar pelo último obstáculo que o mar impõe. Uma estranheza me ocorre quando o mar fica calmo e silencioso demais. Ignoro-o e ignoro que estou perdendo o fôlego cada vez mais. Sigo à risca as palavras do Salvador, entrego minhas peles, entrego minha fúria, entrego à religião cada pequeno fragmento que as noites sublimes deixam passar. A savana fica calma, todos os leões ficam quietos, nenhum rugido durante a aula é permitido, somente Ele pode falar, somente Ele tem voz. E Ele nos avisa que a hora está próxima.
As noites viram dias, os dias viram noites, perco a noção enquanto faço minhas orações, não há mais nada sublime. Desço as escadas. Caminho para a sala, o altar preparado, sento na cadeira, o silencio reina. Folhas são entregues, hora do sacrifício. Reúno a coragem que me resta e mergulho no mar mais uma vez, não há nada em mim que me puxe para baixo e nado com toda minha força. Ele sorri em sua mesa, o lápis fica parado sob o papel. Por um breve momento, vasculho meus pensamentos, busco por meu escudo, minha pele, minha voz, qualquer coisa que me sirva como boia. Não restou nada realmente. A prova termina, lhe entrego. Ele faz uma cara séria, mas sorri com os olhos, lágrimas escorrem pelo silencio. Ele é o Salvador para aqueles que precisam, repito. Neste momento, a epifania chega. Sou impura, mesmo que tenha me desfeito de tudo para conseguir chegar até aqui, sou impura desde quando coloquei os pés no mar.
Estou na cama, sem nenhuma pele, nem a minha, forço o ar tentando respirar. O mar verde me engoliu, calmo e sereno. Não tenho mais forças para nadar, as lágrimas se misturam ao sal e os olhos ardem. O pânico queima meus pulmões, mas não há voz no fundo para pedir socorro. Só há um peso, muito maior que a cobrança das peles atado a mim. O peso do fracasso me puxa com força para baixo. Desço em espiral até um lugar onde o verde se tornou negro, onde não há ar, luz e esperança, onde sinto que ninguém mais poderá me encontrar.
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Nota da autora: Nesta atividade nós tínhamos de criar um confronto. E nele alguma característica pessoal devia ser confrontada. É muito biográfico, como se pode perceber, mas escolhi meu confronto com as doenças mentais que a faculdade causou.


















