Meses atrás, a simples possibilidade daquela cena faria Ursula gargalhar alto. Dividir uma mesa com cérebros e... estudar? Estudar de verdade? Somente se parte de uma aposta fosse, e nem assim sabia se conseguiria manter a farsa por muito mais do que o tempo em que olhares questionadores começariam a fitá-la, indagando o que fazia tão longe de sua ‘corte’. É claro que mantinha diálogo com eles --- afinal, de quem compraria as lições de matemática? --- mas nunca, jamais, havia se dado ao luxo do cultivar de uma amizade. Quero dizer, se é que poderia chamar assim o que agora acontecia entre as duas garotas, ambas sentadas num dos espaços mais escondidos da biblioteca pública de Riverside.
Os lábios em gloss da Wheeler foram partindo à gradual proporção na qual a caneta, de cuja ponta oposta pendia um pequeníssimo pom-pom rosado de lã, rabiscava os últimos números da equação na folha de seu caderno. E os faziam porque, por mais esdrúxula que aquela afirmação pudesse soar, ela sabia que estava no caminho certo. Bastava somar os dois algarismos restantes, com a devida atenção à regra dos sinais, é claro, para então chegar ao resultado do problema matemático. E assim que o conferira, tendo finalmente a certeza de que o solucionara com maestria, uma sensação estranha preencheu seu interior repentinamente. Era algo semelhante a euforia, como quando ganhava uma partida de tênis ou um debate acirrado, e não menos do que um sorriso largo foi o que direcionou àquela que fizera possível a inacreditável façanha. “Eu... acertei.” Disse, os olhos arregalados em admirada descrença, trazendo o caderno para o campo de visão de Emily. “Can you believe it?! Eu acertei!” O ligeiro ascender do tom de voz era pura animação, e, graças ao silêncio regra do local, foi o suficiente para incitar o desagrado da bibliotecária. Mas nem mesmo o sonoro ‘shhhhh’ de advertência seria capaz de expulsar o sorriso bobo dos lábios da Wheeler, orgulhosa como era e estava. Pelo contrário, a fez rir ainda mais, embora baixinho --- dessa vez, em diversão.