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@perfectlindsay
❛ — ✧ Os olhos castanhos da marginal percorreram o doce de maneira desconfiada, não controlando a careta com a comida quase enfiada em seu rosto. — Isso ta envenenado? — Ela perguntou, mais curiosa do que preocupada. — Não que eu esteja interessada, mas o que você poderia fazer que eu queira?
“Você acha que eu envenenaria um doce, Daniels?” O seu rosto pareceu petrificado, mesmo que houvesse um pingo de humor embaixo da expressão. Lindsay sabia o que todos os marginais pensavam dela e orgulhava-se daquela reputação. “Depende dos seus desejos. Thomas? Chuck? Ou até mesmo a Darcy.” Uma risada escapou dos seus lábios enquanto os olhos brilhavam de diversão. É claro que as fofocas haviam chegado ao seus ouvidos, nada escapando da loira. “Mas acho que esses você consegue por vontade própria.”
Um sorriso misto de desdém e diversão estampava o rosto, incerta de que o desdém ou era pela estratégia de Lindsay que ela bem conhecia e ficava esquisita quando aplicada em outrem, ou pelo ‘especialmente’ contido na frase. “É, bem especialmente, né, Lind?” semicerrou os olhos, negando com a cabeça, como se dissesse que a outra não tinha jeito. Pegou um dos doces na bandeja, enquanto tirava a quantia de dinheiro necessária da Prada, depositando o valor correto sobre o balcão. “É uma troca bastante perigosa, amiga, tem cada louco que negociaria um doce por um desejo.” deu de ombros, examinando a figura feminina com certa malícia, analisando a proposta dada. “Por que eu acho que você está esperando para que alguém venha com um pedido peculiar para comprar o bolinho?”
“Especialmente.” Um sorriso inocente apareceu em seu rosto, fazendo-se desentendida diante da frase proferida por Beatrice. Pretendia vender o máximo de doces que conseguiria, independente dos custos para que isso ocorresse. Se não vencessem, daria o seu tão famoso jeito; tinha certeza que os pais não se importariam de ter alguns dólares faltando no orçamento. “Você acha que alguém se aproveitaria disso?” Colocou a mão sobre o peito, fingindo-se de desentendida enquanto pegava a quantia que a outra havia deixado sobre o balcão. Sempre podia contar com a generosidade de Beatrice em momentos como aquele e as palavras dela eram muito bem-vindas em seu negócio. “Vender bolinhos é algo muito entediante, sabia? Hoje mesmo aquela Ophelia veio querer me ofender. Acho que não fará isso tão cedo, mas pelo menos me rendeu algumas boas risadas. Você deveria ter visto a cara dela!” Uma risada escapou dos lábios de Lindsay ao lembrar-se do rosto alheio, voltando a atenção a Tris logo depois. “Hoje é um desejo, amanhã talvez venda bolinhos com um ingrediente especial... É sempre bom dar uma mudada na propaganda, não acha?”
Demorou para compreender o que significava aquele incentivo inicial e mesmo quando chegou a uma conclusão, teve suas dúvidas, mas o receio de perguntar fez com que se calasse, apenas assentindo com a cabeça. “Isso é bom.” Comentou, dando uma olhada nos doces que estavam muito apetitosos. Não faria mal pegar um, certo? Emily subiu o olhar para a líder de torcida, com um sorriso fraco diante da brincadeira. Ainda não tinha certeza se poderia confiar completamente em Lindsay. Cada hora pensava uma coisa diferente e essa instabilidade a deixava bastante incomodada. Um dia queria ser amiga, no outro já não estava tão certa disso. “Não precisa, não estou fazendo nada demais… Qualquer um poderia te ajudar.” Deu de ombros, não querendo trazer a ideia de que aquilo foi um grande esforço ou coisa parecida. Não era um grande gesto, era só ela sendo ela. “Isso é muito bom, eu acho…” Passou a mão discretamente no pescoço, apontando para um cupcake com a mão livre. “Vou querer esse…”
A Johnson não sabia mais o que fazer para Emily voltar a confiar nela. Já havia dado todas as provas que poderia que estava tentando realmente a falar com ela, sem se preocupar com todos olhando, mas a outra hesitava ainda toda vez que conversavam. Continuava, mesmo assim, todos os dias, tentando novamente e novamente, esperando que pudessem conversar sem qualquer nervosismo ou insegurança alheia, voltando a ser o que costumavam ser um dia. Aquele talvez fosse o seu maior desejo a respeito do relacionamento das duas. Sentia falta da amiga em seu dia, de alguém em quem pudesse confiar sem questionar a amizade. Tinha aquilo com a morena, pretendendo recuperá-la independente do custo. “Mas mesmo assim é algo que eu agradeço. Não só por isso, mas...” Sabia que forçava demais o sentimento, mas tinha que se permitir a tentativa. “Por todo o resto.” Comentou com um sorriso fraco nos lábios, colocando a mecha de cabelo loiro atrás da orelha. Não sabia exatamente porque sentia-se nervosa tão abruptamente. Olhou para o cupcake que a outra havia apontado, pegando-o com um guardanapo e a oferecendo. “Aqui está. Eu que fiz. Espero que goste.
Foi um grande erro achar que aquele tipo de gente deixaria sair sem pelo menos atirar alguma coisa em suas costas. Ou melhor, esfregar algo. Quando sentiu já era tarde demais, então apenas deixou acontecer, virando devagar para encará-la, nem um pouco surpresa com a atitude dela, mas sem dúvidas, aquela era uma situação incômoda. Era incrível como a garota preferia perder dois cupcakes, um prejuízo digamos assim, do que simplesmente aceitar uma derrota. Era uma atleta, poderia esperar menos? Hayden limpou os olhos sujos de doce, somente ouvindo, aguardando pelo fim daquele show desnecessário. “Uau, Lindsay.” Bateu palmas vagarosamente, com um sorriso irônico no rosto. “Eu tinha esquecido como vocês só vivem de aparência limpa. Meu erro. Mas muito obrigada por relembrar tudo isso.” Sem mais delongas, abraçou a garota, deixando seu rosto sujo ir na curva do pescoço dela e obviamente, limpou um pouco ali, sem pressa em soltá-la. “Engraçado você me chamar de Frankenstein. Me diga, de onde tirou esse apelido?” Perguntou com uma falsa curiosidade. “Porque se é pelo fato de ser lésbica… Não acho que somos tão diferentes assim.” A soltou do abraço apertado e, embora estivesse coberta de doce, parecendo derrotada, não se sentia como uma. “De qualquer forma… Divirta-se convencendo as pessoas a comprarem seus doces.” Forçando um sorriso, passou seu dedo indicador em onde acreditava ainda ter um pouco de glacê, passando na ponta do nariz da líder de torcida. “Você definitivamente sabe como agradar um cliente.”
Ao sentir o abraço, os olhos reviraram automaticamente. A morena pensava que aquilo a irritaria de alguma forma? Precisaria bem mais para vê-la sequer com uma careta, a expressão de garota sorridente permanecendo mesmo quando sentiu o pescoço lambuzar-se de glacê. Para quem havia produzido tantos, mais um pouco de sujeira representava nada. Uma gargalhada escapou dos seus lábios, lágrimas saindo dos seus olhos com o esforço, precisando de algum tempo para recuperar-se. “Você não pode estar falando sério!” Sua voz saiu alto em meio às risadas, precisando cobrir a boca com a mão. “Pelo amor de Deus! Olhe só para você, Ophelia. Quer se comparar mesmo comigo? Estou te chamando de Frankenstein porque você é um monstro, não porque você dorme com garotas.” Cruzou os braços em frente ao peito, mais em um sinal de deboche do que fragilidade, achando muita graça em tudo que a outra falava. “Está tentando implicar comigo porque quer me beijar? Falando que somos parecidas e tudo mais... Que flerte horrível. Não me surpreende que não consiga ninguém assim.” Um sorriso debochado apareceu facilmente em seus lábios, enquanto jogava o cabelo para trás. Onde será que a morena gostaria de chegar com aquela conversa? Deveria agradecer de sequer ser notada por Lindsay para que ela se importasse em fazer alguma coisa com Ophelia. “Desculpa, mas gente como você não faz meu tipo.” Deixou claro a parte em específico, dedicada em fazer o que fazia tão bem. Passar tanto tempo em meio aos atletas tornava algumas coisas muito mais fáceis, principalmente em destruir gente que tentava mexer com Lindsay Johnson. Sentiu o glace em seu nariz, mas aquilo não a fez tirar o sorriso do rosto em nenhum momento. Sentia-se vitoriosa, uma risadinha escapando dos seus lábios. “E eu ainda te dei uma amostra grátis. Depois falam que não sou bondosa. Agora, se me dá a licença, tenho que fazer algo útil com a minha vida.” Com isso, acenou com a mão para Ophelia, virando-se e voltando para a barraca de doces.
O que era para ser uma simples venda de doces, agora parecia mais um jogo entre dominador e dominado. Lindsay parecia achar que estava conseguindo convencer a morena, o que não era mentira, mas ao ter um estalo em sua cabeça, relembrando o clique alheio e o quanto detestaria contribuir para eles, mudou seus planos. “Minha criatividade, huh? Ok.” Com um sorriso divertido, ela aproximou mais, o suficiente para que encostasse na mesa da barraca, apoiando as mãos na mesma, precisando inclinar-se para ficar o mais próxima possível da outra. “Eu quero que você… Enfie esse docinho na sua bunda.” O sorriso dócil junto com o tom baixo e sereno foi substituído por uma expressão fechada, enquanto se afastava. “Mas pode ser na das suas colegas também. Não é assim que funciona as líderes de torcidas? Todas juntas e muito amigas?” Zombou dela, sarcástica e deixando um sorriso maldoso aparecer aos poucos. “Agora se me der licença… Vou atrás de algo que realmente me interesse.” Piscou para ela antes de começar a andar, parte de si satisfeita por teoricamente ter vencido aquilo. Não se submeteu aos encantos da garota e ainda teve uma chance maravilhosa de provocá-la. Ou seria humilhar? Nem se importava mais. A sensação era prazerosa o suficiente para que desfrutasse sozinha, já que não tinha intenções de contar aos demais.
Escutou as palavras sem muito interesse. Nada que não fosse esperado de alguém tão de baixo nível quanto Ophelia, mesmo que esperasse o mínimo de classe dela. As líderes de torcida pareceram ofendidas ao seu redor, quase como se ofender a capitã fosse um grande erro e fosse como ofender uma rainha. A Johnson manteve uma expressão de descaso, com seu típico sorrisinho, seu olhar mudando de sorridente para resplandecente, algo que com certeza era preocupante. Apenas usava aquela expressão quando estava prestes a fazer alguma coisa, mas não havia como a morena saber daquilo, acreditando que poderia sair ilesa daquilo. Suspirou quando a outra terminava a fala, quase como se estivesse cansada daquilo. Retirou as luvas de renda que utilizava para combinar com os seus sapatos, repousando-as a bancada sem nenhuma demora. Se ela desejava não manter a classe, Lindsay a lembraria de como tratar alguém superior. Pegou dois de seus cupcakes, as líderes de torcida observando Ophelia sair como se tivesse ganhado aquela batalha. Oh, pobre garota achando que a loira deixaria ela sair tão fácil. Quando ficou próxima o bastante, pegou um dos cupcake e esmagou-o nas costas alheias, subindo-o rapidamente até o cabelo da garota, deixando uma trilha de glacê e bolo. “Oh, me desculpe, eu esqueci completamente que isso aqui estava na minha mão.” Um sorriso culpado apareceu em seus lábios, mas logo se desfez quando esfregou o outro cupcake no rosto alheio. Uma risadinha escapou dos seus lábios ao passar o dedo indicador pelo maxilar de Ophelia, colocando-o na boca suavemente, provando o sabor que invadia sua boca. “É realmente delicioso.” Exclamou com felicidade surpreendente, uma risada escapando dos seus lábios, demorando alguns segundos para se recompor. “Fale mais alguma coisa de mim ou das minhas líderes, Frankenstein, e será a última coisa que falará.”
Uma de suas sobrancelhas se ergueu num gesto desafiador, assim como os seus braços cruzaram, aguardando a replica da loira. Ficou um tanto surpresa com a atitude dela, muito mais determinada do que via nos corredores e aquilo, de certa forma, deixou a morena muito mais interessada. Entretanto, não ia ceder tão fácil assim. “Ainda não estou impressionada. Me dê opções do que faria para mim caso eu comprasse um desses docinhos. Já que está me vendendo seus serviços, quero saber quais suas especialidades e se sabe agradar um cliente.”
Poderia muito facilmente falar que estava arrependida de suas palavras, mas arrepender-se e demonstrar isso não era uma característica presente em Lindsay. Queria vencer aquela pequena competição mais do que tudo, não aceitando qualquer outro resultado além das líderes de torcida ganharem aquilo. A outra possuía a atitude que esperava, um sorriso aparecendo em seus lábios. “Vamos lá, Ophelia. Eu tenho certeza que pode ser criativa.” Uma risadinha escapou dos seus lábios, quase como se fingisse uma certa ingenuidade sobre a outra. “Minhas especialidades são todas, é só você pedir. O que mais deseja?”
Com as mãos no bolso, Emily observou a antiga amiga tentar vender doces para alguém que passava e antes mesmo que processasse algum pensamento completo, já estava andando na direção dela, somente acenando discretamente com uma das mãos quando o potencial cliente negou e seguiu em frente. “Ei.” A cumprimentou com um pequeno sorriso, dando uma breve olhada nos doces. “Quais são os doces que tem?” Perguntou interessada, relembrando vagamente do que a loira ofereceu anteriormente. Mesmo que não se tratasse de uma oferta para si, achou melhor explicar-se, deixando claro que suas intenções ao se aproximar não tinham conexão com aquilo. “Você não… Quer dizer, eu vim pelos doces. Para te ajudar. Não precisa… Hm, fazer algo que eu queira. Se acha que vim aqui só por isso… É.” Percebendo sua fala extremamente desajeitada, pigarreou, arrependida de ter falado aquilo. “Mas então… Como estão as vendas?”
Que cara grosso foi a primeira coisa quando viu o garoto se afastar sem sequer olhar para ela. Sinceramente, que tipo de pessoa fazia aquilo com Lindsay Johnson? Se uma líder de torcida olhasse e sorrisse para algum deles, a tendência era que comprasse vários e vários doces. Pelo menos, era o que todos estavam fazendo. Não era uma surpresa que cuidar da venda estivesse sendo tão fácil. Quando viu Emily, um sorriso apareceu em seus lábios, leve o suficiente para que se demonstrasse confortável na presença alheia, algo que conseguia surpreender até mesmo ela. “Ei, Ems.” Cumprimentou de volta, ficando animada com a próxima pergunta. “Temos todos os tipos de doces: de balas a cupcakes. Graças ao nosso... Incentivo inicial conseguimos produzir uma variedade muito grande.” E com incentivo inicial queria dizer a grande quantidade de dinheiro oferecida acima de tudo pelos pais daquelas que eram da realeza, afinal eles tinham dinheiro para gastar com o que as filhas queriam. Lindsay pode ter dado uma ajuda também para convencer às líderes a convenceram os pais talvez. “Seria um prazer fazer algo por você, Ems. Principalmente depois de tanta ajuda que você me deu ultimamente.” Piscou com um olho para ela, tentando fazer o nervosismo da outra desaparecer. Sabia que, mesmo após de tanto que haviam conversado, a outra possuía um pé atrás com Lindsay e isso era algo que pretendia mudar. “Estamos vendendo tão bem, não me surpreenderá se ganharmos disparado.”
Ophelia não tinha intenções de aparecer no evento, mas como seus pais estavam em casa, não teve opões senão sair dela, escolhendo o festival para passar o tempo. Conforme andava entre as atrações, parou na barraca de doces, ouvindo com atenção o que a líder de torcida dizia, aproximando devagar. “Algo que eu queira?” Repetiu duvidosa, abrindo um sorriso debochado. “Não acho que você tem algo para me oferecer, Lindsay. Sem ofensas.”
As palavras da outra trouxeram um sorriso nos lábios de Lindsay, vitoriosa que a outra havia parado e dado ouvidos ao que estava falando. “Eu não tenho nada para te oferecer?” Os olhos delas brilharam quando inclinou-se sobre a divisória que parecia afastá-las, a fim de olhá-la mais profundamente nos olhos. Comportava-se como um leão caçando a sua presa, que no momento tratava-se de Ophelia ou, mais especificamente, do dinheiro que ela possuía. “Eu tenho tudo a oferecer a você. Eu posso dar qualquer coisa que você queira.”
Participar das barracas de comidas era algo que adorava fazer, principalmente quando seu lado competitivo era ativado de maneira tão furtiva. Lindsay teria como garantia que venceria aquilo com suas garotas, custe o que custasse. “Por que você não compra um desses doces deliciosos que as líderes de torcida fizeram especialmente para vocês?” Colocava o máximo de tentação enquanto apontava todas as opções que tinham, um sorriso controlado em seu rosto. “Vamos fazer assim, você compra um doce e eu faço algo que você queira.”
Nunca foi uma pessoa muito controlada, fosse com seus sentimentos ou até mesmo com suas ações. Uma prova disso foi envolver-se com Billie mesmo quando namorava Barry, movida por suas inseguranças pessoais que eram tão frequentes, contrariando as atitudes confiantes de Lindsay. Aquela não seria uma noite que pensaria no que havia acontecido na noite do baile, acreditando que todas as partes haviam sofrido o suficiente; ou pelo menos, quase todas. Aliviou o coração pesado com um copo atrás do outro, sequer percebendo quando suas risadas começaram a ficar cada vez mais altas, mesmo que houvesse ainda aquele toque doce tão característico em sua voz. Não pensava em qualquer limite, mas milagrosamente continuava com uma parte de sua consciência depois de tanto álcool ingerido. Tentava esquecer tudo por uma noite e pensar apenas na diversão, como fazia antes do seu acidente. Ninguém poderia julgá-la por aquilo, certo? Saiu no objetivo de tomar um pouco de ar para que pudesse aproveitar o resto da noite mais tranquilamente, equilibrando o copo em uma das mãos. Quando viu a figura masculina aproximando-se pelo canto de olho, virou o resto do líquido do seu copo rapidamente. Precisaria daquilo. “Acabou se perdendo?”
Por quanto tempo mais ela continuaria negando? “Jamais inventaria uma coisa assim.”, dissera, e o peso daquelas palavras fora capaz de balançar a maior certeza de Ursula. Será que existia a ínfima possibilidade de não ter sido Lindsay a causadora de todo o recente estrago em sua vida? Parecia impossível quando os motivos para o ato se encaixavam tão bem. Um blefe. Claro. Era um blefe. Mas a Wheeler queria uma confissão. Estava disposta a ir tão fundo quanto necessário naquele joguinho se isso significasse a confirmação de suas teorias, mesmo que para isso tivesse de ir de encontro aos próprios princípios. “ —– Ah, é?” Perguntou provocativa, segundos antes de sentir os lábios contra os seus. Ursula fechou os olhos, permitindo-se realmente desfrutar do gesto. A princípio, pensou que sentiria nojo, repulsa; mas foi com surpresa que percebeu não haver a mínima diferença entre um beijo masculino e aquele que a Johnson a dava. É claro que alguns rapazes roçavam-lhe a barba, o que por vezes conseguia ser bastante incômodo — mas a essência, o lábio no lábio, era exatamente igual. Até mesmo a mão em sua cintura, pressionando e aproximando os corpos, não deixava a desejar. Talvez a única diferença real fosse que agora precisava olhar para baixo e não para cima, como estava acostumada. “ —– Não me vejo implorando.” Soltou baixinho ao findar do beijo casto, zombando-a com malícia; não havia se afastado mais que dez centímetros. A mão que estava em seu queixo foi à bochecha, acariciando-a com o polegar. “ —– Mas já você…” Como um encantador de serpentes, olhava-a profundamente nas íris. Os dedos logo deslizaram até a nuca, entrelaçando-se à raiz dos cabelos. “ —– Quero ouvir a verdade…” Aproximou-se novamente da boca dela num gesto vagaroso, encostando-lhe os lábios, mas sem beijá-la de fato. A ponta da língua então percorreu a região de baixo a cima com sensualidade. “ —– Sei que foi você, Lindsay. Por que não admite?”
Não era o tipo de pessoa que costumava beijar garotas frequentemente, principalmente considerando os boatos que poderiam aparecer caso pegassem ela fazendo tal coisa. A última havia sido aquela que mais tinha amado, para quem havia entregado o seu coração e foi obrigada a estraçalhá-lo pelo medo que sentia se alguém um dia ousasse falar algo contra ela. Beijar Ursula tornava-se um desafio não apenas contra toda a controvérsia da sua sexualidade, mas sim também contra os próprios sentimentos; Lindsay nunca foi a pessoa que não colocava um pouco de expectativa sobre cada sinal de afeto, consequência de sempre desejar o amor. Por motivos óbvios, não era possível nutrir qualquer desses sentimentos tão profundos e singelos pela outra, considerando por tudo o que haviam passado, desfrutando da inimizade recém cultivada. Não entendia o porquê de Ursula continuar insistindo que foi a Johnson que espalhou os diversos boatos sobre ela, mas sabia quem havia sido, auxiliando só um pouco em tudo aquilo. Na época, desejava apenas conseguir firmar o seu lugar em meio às líderes de torcida, falando e fazendo qualquer coisa para que se tornasse aceita entre todas. “Você quer me fazer implorar?” Respondeu com zombaria, uma risada de escárnio saindo dos seus lábios. A proximidade entre as bocas continuava sendo tentadora, quase implorando para ser inexistente. Não era ingênua, no entanto, para não perceber o jogo que Wheeler parecia jogar, interessada em participar também. “Porque eu ainda nem comecei.” Continuou com o tom maliciosa que estava tornando-se tão comum em sua voz, desejando provocá-la até que ela desistisse da ideia de fazê-la confessar algo que não havia feito. Quando sentiu a umidade da língua da outra em seus lábios, uma espécie de formigamento pareceu tomar conta da pele sensível, desejando acabar com a tortura, mas não seria fraca o suficiente. A mão de Lindsay, que anteriormente segurava a cabeça alheia, começou a deslizar para o pescoço, o indicador traçando uma linha imaginária, os olhos da Johnson focados no movimento que fazia. “Tem tanta certeza que fui eu?” Desviou o olhar do pescoço para os olhos alheios, afastando os lábios com um sorriso. “Ao invés de olhar para mim, devia olhar para aqueles que chama de amigos...” Piscou suavemente com um dos olhos, demonstrando um pouco do que sabia sobre aquele mistério. Aproximou os lábios da orelha alheia como se fosse contar algo que ninguém mais sabia, algo que temesse que alguém fosse escutar; ironicamente, eram as únicas presentes no cômodo, mas não deixaria de provocá-la até onde achasse possível. “As verdadeiras cobras não estão no topo.” Com isso, deslizou os lábios lentamente até o pescoço alheio, provando a pele que possuía aquele inebriante aroma de flores, que tornava-a ainda mais tentadora, distribuindo beijos e mordidas, destinada a fazê-la sentir-se exatamente como desejava. Uma das mãos segurou a nuca, enquanto a outra deslizava para o limite do quadril, tornando o espaço entre os corpos praticamente nulo, pressionando-o contra si sem nenhuma hesitação.
O relacionamento com Andrew não era o mais simples de se entender. Eram amigos quando era apenas uma cérebro, mas aí distanciou-se de todos com quem mantinha algum laço para depois juntar-se as líderes de torcida. Mesmo que tivesse feito inconscientemente, havia machucado muitas pessoas na sua trajetória até o tão desejado lugar em meio aos atletas, mas dizia para si mesma que valeu a pena cada amizade perdida. Depois de quase um ano e meio longe do clique ao qual pertenceu e principalmente após o acidente que sofreu, começou a perceber as coisas que realmente valiam na vida, acreditando que tudo aquilo de clique era passageiro, mesmo que continuasse com muito da sua personalidade de capitã das líderes de torcida: a pessoa inflexível e calculista, planejando cada palavra com intenção de ofender o outro. Emily estava a ajudando em se tornar uma pessoa melhor, mesmo que fosse um tanto difícil para Lindsay fazer com que todos não ficassem com medo dela acabar soltando alguma fofoca sem fundamento sobre a pessoa. Quando viu as costas um tanto conhecidas, um sorriso apareceu em seus lábios, forçando-se para que parecesse normal. “Andie!” Chamou-o pelo apelido que costumava usar, um copo de cerveja em sua mão direita. “Você jogou muito bem hoje, se me permite dizer.”
@perfectlindsay
Muitos poderiam dizer que o jogo em questão não fazia seu estilo, mas como qualquer um ali, era em distração que o Foster estava pensando quando se inscreveu. Além disso, a quantidade de bebida ingerida fazia sua parte quando se tratava da tomada de decisões imprudentes, até que ele se visse esperando a garrafa girar, apontando, com uma das extremidades para ele — parado de braços cruzados no círculo — e a outra para Lindsey Johnson. O arquear de sobrancelhas e o sorriso arrogante foram os únicos sinais de que ele estava satisfeito com o resultado, embora sempre tivesse algum garoto atrás da loira, com quem ele não gostaria de se complicar. Foi com um menear de cabeça que ele apontou a porta aberta do armário, deixando que a líder de torcida ingressasse no espaço. Chuck tinha alguma familiaridade com armários como aquele, e era até irônico que pessoas se sentissem incomodadas ou clastrofóbicas de entrarem em espaço como aquele. Ele próprio puxou a porta, ouvindo o clique do lado fora, ficando ambos na semi-escuridão. ❛ Que sorte a sua, hein, Lind? ❜ — foi tudo o que disse, em tom convencido, olhando-a de cima a baixo.
Nunca foi o tipo de pessoa que participava de jogos de festas, principalmente durante o namoro com o Barry, achando que aquilo não passava de uma besteira, ainda mais quando tinha tanto a se preocupar. Quando todos começaram a reunir-se em um círculo, no entanto, decidiu participar com certa hesitação, sabendo que talvez parasse em pessoas com quem desejava manter certa distância. A garrafa acabou apontando para Chuck e ela, o que não sabia exatamente se era um alívio ou se aquilo a deixava mais nervosa. Mesmo que já tivessem feito algumas coisas juntos, não tinha certeza se deveria acalmar o seu coração das batidas frenéticas, sabendo que aquilo poderia resultar em algo não muito bom para sua reputação recém-manchada pela traição com Billie. Caminhou até o armário sem muita certeza, dando um sorrisinho sem graça para aqueles que mantinham seus olhos focados neles. A voz alheia atingiu o ouvido da Johnson, produzindo uma risada com um tom levemente malicioso. As íris fitaram-no com firmeza, não desejando desviar o olhar de Chuck. “Não é o contrário?”
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“Posso dizer o mesmo de você. Foi um movimento esperto aquele... Muito, muito inteligente.” As suas palavras saíram baixas, quase sussurradas, apenas para que Ursula fosse capaz de escutá-las. O coração estava acelerado contra o peito devido a aproximação das duas, os lábios em um sorriso malicioso que era destinado exclusivamente àquele momento. Encontravam-se sozinhas, sabendo que os outros jamais imaginaram o que as duas estariam fazendo; provavelmente estapeando-se ou brigando por mais algum motivo. Muitos estavam tão bêbados que se vissem qualquer coisa, Lindsay e Ursula conseguiriam convencer a pessoa que não passava de uma loucura. “Para ser sincera, jamais inventaria uma coisa assim. Havia superado o Billie naquela época, mas... Com certeza já imaginei algumas coisas. Muitas delas não posso dizer que me orgulho.” A mão alheia em seu queixo fez com que uma energia percorresse seu corpo, fazendo-a ofegar por um momento e fechar os olhos, como se estivesse apreciando o toque contra sua pele. Estava andando em um campo minado, em que não tinha certeza se era um jogo. Eram consideradas inimigas imortais, incapazes de nutrir qualquer coisa além de ódio uma pela outro, mas algo se remexia dentro de Lindsay, implorando para que fizesse o que sempre desejou, independente da raiva que sentia. “Eu poderia ter pedido...” Abriu os olhos, encarando os outros olhos com bastante intensidade. “Mas seria mais interessante escutá-la implorar.” Com isso, aproximou os lábios para que não houvesse mais distância, a mão na cintura alheia auxiliando no processo.