Catástofres humanas e naturais
E ASSIM CHOVE NA HUMANIDADE
Quem já viu os zelliges (mosaicos geométricos), os trabalhos em estuque e as madeiras entalhadas nos palácios e mesquitas do mundo islâmico, seja em Marrakesh, Istambul, Sevilha, ou em outros tantos lugares por onde a civilização moura passou, feitos em simetrias perfeitas e executados por artesãos sem nossa tecnologia atual, fica a imaginar como puderam conceber aqueles painési deslumbrantes. Não havia "zoom extend" e "zoom windows", "copy", "mirror", "off set" e tantos outros comandos que facilitaram as nossas vidas, assim como ocorre desde a Revolução Industrial.
Assistimos ao efeito bola de neve decorrente da evolução da linha do tempo da civilização, em que quanto mais a tecnologia evolui, mais as soluções se sofisticam e em tempo cada vez menor. O que hoje nos impresisona em uma obra, como as últimas de Frank Ghery, logo será suplantado por algo mais inimaginável. E assim caminha a natureza humana... a natureza natural que se adapte. Ou não, como estamos assistindo, desolados, a tantas catástrofes naturais.
A tecnologia está construindo prédios mais inteligentes, sofisticados e altos como o novo Wolrd Trade Center, as Torres Petronas, o Burj Dubai. Constroem-se estações de esqui em pleno deserto, cultivam-se raízes em condições de microgavidade em estações espaciais. Isso nos faz pensar como nós, humanos, nanocriaturas deste Universo, somos expertos (ou ex-perto). Ou não (o velho Eram os deuses astronautas?).
O fato de que toda essa tecnologia e suas aplicações ocorram em países ricos é compreensível, pois recursos feram recursos. Por que não levar água, alimentos e suprimentos básicos para uma sobrevivência menos indigna na África, por exemplo, ao invés de neve e construções faraônicas nos Emirados Árabes? Ou pesquisas espaciais preocupadas com um futuro saturado neste planeta, quando, no presente, temos quase todo um continente que poderia servir de laboratório para que essas pesquisas fossem aplicadas, beneficiando imediatamente milhares de pessoas que tiveram a falta de sorte de terem nascido no local "errado"? Simplesmente porque assim caminha a Humanidade.
Não estou fazendo um revival de We are the world, mas constatando que onde há recursos de quaisquer ordens, há ganância, também de quaisquer ordens. E quem padece sempre são os menos afortunados do ponto de vista intelectossocioeconômico. Pois assim caminha a Humanidade...
Fazendo um "zoom Windows" e voltando para a terrinha nossa, que nem é Mumbai, muito menos Dubai, o que estamos vendo são as tormentas anuais pré-carnavalescas, com aquela faixa da população que, além de perder familiares, vê suas habitações (construções de poucos cômodos, como costumam dizer) desabarem. E aqueles um pouco mais "afortunados" veem seus veículos serem destruídos (não vemos nenhum Audi, Mercedes nem Ferraris boiando ou soterrados).
Toda vez, a cada uma dessas tragédias anunciadas, o que se ouve das autoridades, das quais se espera uma solução, são promessas que se transformam, após o carnaval, em futuro-do-pretérito, ou futuro-do-pretexto, quando feitas em épocas eleitorais. Políticos conhecidos pelas locupletações abomináveis feitas-debaixo-dos-nossos-narizes, ao prometerem soluções para os problemas catastróficos de ordem natural, continuam sendo eleitos, em geral pela faixa da população que é vítima direta dessas tragédias. É o velho círculo vicioso, que seria interrompido se essa faixa da população de menores recursos (infelizmente a maioria esmagadora da eleitores no nosso país) pudesse ter acesso a melhores condições de ensino, educação e informação, decorrentes de uma melhora na sua condição econômica - outra das promessas desses políticos, em campanha...
E para quem já viu de perto, ou por imagens, as maravilhas citadas no início deste artigo (que, perdoem-me, por causa das antíteses, quase ganhou cara de panfleto), fica aqui a pergunta: diante de tantas belezas feitas pelo homem artesanalmente séculos atrás, por que, atualmente, não somos capazes de melhorar o padrão de vida daqueles, sem os quais, mesmo com toda a tecnologia, esses magníficos edifícios não seriam erguidos?
Até quando vamos aguentar essas enxurradas? De chuva? De chuva de promessas? De promessas não cumpridas? De compridas chuvas?
Fonte: Revista aU, fevereiro 2011, num. 203 - Crônicas Agudas, pág. 76)