A importância do bem estar social
Fui no banheiro fazer xixi e me peguei pensando o quanto peidar na privada era a segunda melhor coisa que se poderia fazer em um banheiro.
O peido é certamente uma das características mais elementares do ser humano. Apesar de toda a nossa complexa diversidade, é uma necessidade fisiológica que nos une a todos, independentemente de cor, nacionalidade, religião, identidade de gênero ou orientação sexual. Todo mundo peida! Não tenho em mãos nenhum estudo acadêmico específico sobre essa questão, mas tenho bastante certeza que esse é um fato cientificamente comprovado.
Entretanto, ao longo do tempo, a sociedade foi desenvolvendo regras de como essa necessidade poderia ser manifestada, sem comprometer o bom convívio entre as pessoas e evitando conflitos sanguinários. Assim, foi sintetizando camadas de precauções que precisam ser tomadas para contribuir com o pacto civilizatório.
Há momentos e contextos que devemos analisar individualmente para tomarmos a decisão correta, que balanceia adequadamente a relação entre criar uma convulsão social ou manter um desconforto duradouro em benefício do bem estar geral.
Por exemplo: Alguém advogaria pelo direito de peidar no cinema? Um local de lazer fechado, com pessoas muito próximas, no ar condicionado e que frequentemente estão se alimentando? Então assim... acho prudente evitar um conflito biológico que poderia comprometer a diversão de dezenas de pessoas só pra evitar um desconforto que poderia ser facilmente resolvido com uma saída da sala.
O mesmo seria em um ônibus, avião ou qualquer meio de transporte coletivo. É legal? Não é legal! Não no sentido das leis do estado, que podem ter a sua importância em algumas situações, porém, nesse caso, não seriam nem possíveis de ser fiscalizadas, mas porque é um local onde tem pessoas trabalhando, viajando, a lazer, a trabalho, por vontade ou por obrigação e não tem absolutamente nada a ver com as minhas questões intestinais.
Por isso, a necessidade coletiva se sobrepõe às vontades individuais. Claro que eu adoraria deixar de gastar energia e concentração, que poderiam ser dedicadas à outras atividades, com o esforço constante de controlar as minhas pregas retais. Mas a gente aprende desde pequeno que não devemos fazer com os outros o que não gostaríamos que fizessem com nós mesmos. Então, do mesmo jeito que não considero correto que qualquer arrombado de bom senso duvidoso possa acabar com a minha alegria ou a de pessoas que eu amo, só porque não tem a boa vontade de trancar a porra do cu ou se dirigir à um ambiente adequado, também não posso me julgar o escolhido por deus detentor de um direito individual que não estou disposto a conceder aos meus pares.
Por outro lado, em ambientes controlados, limitados, em que sejam possíveis acordos individuais ou coletivos específicos, de forma tácita ou verbalizada, que não afetam outras comunidades ou grupos, como em um almoço de família, na casa de um amigo ou no cobertor com o namorado. A depender da intimidade, das disposições individuais, pode ser que sim, pode ser que não, desde que se respeite a relação pessoal que cada pessoa tem com seu peido ou de terceiros.
Ao ar livre, em casa ou no banheiro! Go crazy!!! Na privada, principalmente, que é um dos poucos lugares possíveis de se peidar sem quaisquer amarras da sociedade ou preocupação com acidentes de percurso que, em momentos adversos, podem causar constrangimentos, contratempos, abalar relações e arruinar roupas debaixo, provando exatamente o que o cu tem a ver com as calças, escancarando o fato que ambos vivem mundos distintos separados por uma fronteira em comum.
Dito isso, a melhor coisa que se pode fazer em um banheiro continua sendo um belo banho demorado, que além de todas as qualidades de uma longa chuveirada quente, relaxante, reflexiva, embalada por uma playlist ou podcast bacana, sempre deixa no ar a possibilidade de ainda assim soltar peidinhos sem grandes consequências materiais e sociais.