Periscópio 2 - por Rui Lobato Bahia Junior
A FIGURAÇÃO DO CIGANO EM NARRATIVAS MODERNISTAS: LEITURA DE GRACILIANO RAMOS E DE GUIMARÃES ROSA
Rui Lobato BAHIA JUNIOR (PIBIC-CNPq/UFPA) - Orientador: Prof. Dr. Sílvio Augusto de Oliveira HOLANDA (UFPA)
Afinal, a qualidade e a categoria de uma obra literária não resultam nem das condições históricas ou biográficas de seu nascimento, nem tão-somente de seu posicionamento no contexto sucessório do desenvolvimento de um gênero, mas sim dos critérios da recepção, do efeito produzido pela obra e de sua fama junto à posteridade, critérios estes de mais difícil apreensão.
Hans Robert Jauss
Tutaméia (Terceiras Estórias, 1967) foi o último livro organizado por João Guimarães Rosa (1908-1967), configurando-se como uma coletânea de 40 contos; sendo 39 deles coligidos a partir de uma parcela do que o escritor havia produzido na revista Pulso — Periódico de médicos — entre 1965 e 1967, acrescida de “Melim-Meloso”, publicado em O Globo, na data de 22.04.1961. Para melhor situar a obra no tempo, deve-se dizer que Tutaméia sucede a Primeiras estórias (1962) e que é demarcada pelo autor como figurando no rol das “terceiras estórias”, esclarecimento que o próprio subtítulo nos dá; sugerindo, assim, que havia ocorrido, então, a interrupção de linearidade produtiva, a quebra do encadeamento lógico da ocorrência dos fatos sem, contudo, trazer prejuízo à sua compreensão e, neste sentido, pode-se até mesmo investigar uma proposta antirrealista do autor, não com viés subversivo infundado, mas com o intento assentado em fortes convicções de afastamento ao “lugar-comum”, ao convencionalismo, distanciamento que, segundo Simões ( 1988, p. 187), cria um terreno propício para o “surgimento e uso de neologismos”, e que tem como consequência imediata a proposição de uma dimensão independente e construtiva de realidades, e não a simples reiteração de realidades já postas ou, dependendo da perspectiva, de realidades impostas como únicas e imutáveis.
Para a obtenção do objetivo tencionado, qual seja, o de mostrar que as construções narrativas podem-se fazer de formas diferentes, o autor apropria-se de outros recursos, além daqueles já mencionados. Assim, há que se ressaltar também as inovações léxico-sintáticas realizadas; o estabelecimento de significativas relações intertextuais e, sobretudo no caso de “Zingarêsca”, intratextuais, na medida em que cientifica o leitor quanto ao espaço de reencontro que é o texto em tela.
Sobrando por enquanto sossêgo no sítio do dono novo Zepaz, rumo a rumo com o re-curral e a Água-boa, semelhantes diversas sortes de pessoas, de contrários lados, iam acudir àquela parte.
A boiada, do norte.
Antes, porém, os ciganos de roupagem e de linguagem, tribo de gente e a tropa cavalar. (ROSA, 1967, p.189)
Antes da discussão de alguns aspectos da recepção do conto em questão, esclarece-se a abordagem teórica norteadora deste trabalho: é fundada nos preceitos do estudioso alemão Hans Robert Jauss (1921-1997) e vinculada à Estética da Recepção.
Para Jauss, um dos processos centrais a orientar o diálogo que se estabelece entre produtor e receptor, e recepetores entre si — em função de uma produção e fruição poética vivenciadas pelo artista [poiesis], de uma percepção continuamente renovada pelo receptor [Aisthesis], e da comunicação de possibilidades, tanto de ação do indivíduo, graças à sua condição de ser no mundo (referência à dimensão social), quanto de libertação do espectador ou receptor (dimensão ideal, estética) — é o processo hermenêutico-literário que se assenta em uma estrutura triádica e não-hierárquica de seus elementos e que sedimenta, segundo o estudioso, um como processo orgânico [Interpretation], anteriormente abordado por Hans Georg Gadamer (1900-2002) — com base nas lições apreendidas, sobretudo em função do contato direto, com o filósofo, também alemão, Martin Heidegger (1889-1976)—, mas registrado na obra Ästhetische Erfahrung und literarische Hermeneutik (1997), cujo autor foi Jauss.
Desta forma, levando-se em consideração a Interpretation enquanto processo, é possível entendê-la como uma unidade de três momentos: a compreensão [Verstehen], a interpretação [Auslegung] e a aplicação [Anwendung]. Por compreensão, o teórico alemão entende o primeiro contanto da obra com o público; podendo ser compreendida ou rejeitada pelos receptores. Com respeito à interpretação, tem-se que é o desenvolvimento da recepção histórica do próprio texto literário; desenvolvimento que, em função da experiência estética, pode proporcionar o surgimento de vários fenômenos entre o leitor e obra de arte. E, por último, há a aplicação: momento que enseja ao receptor do presente saber como o texto literário foi recepcionado no passado, acontecimento que cria, assim, um novo horizonte de expectativas, porque mesmo que compreenda o texto literário como era compreendido no passado, o horizonte do presente é rigorosamente outro — aqui é oportuno fazer menção ao que Jauss rotula como fusão de horizontes [Horizontverschmelzung].
Dando continuidade às ponderações inicialmente elaboradas acerca dos objetos-foco deste trabalho, é possível dizer que Vera Novis (1989) destaca-se como autora de um dos mais importantes trabalhos acerca da crítica de Tutaméia. Nesse contexto, “Zingarêsca”, na verdade, é um grande painel, uma vez que narra os encontros dos caminhos de personagens de outras “estórias” da obra. Ciganos de “Faraó e a água do rio”, vaqueiros e o cachorro de “Intruge-se” e de “Vida ensinada”, além de persongens de “O Outro ou o outro” reúnem-se a novos personagens para compor o que Novis chamou de gran finale. Duas figuras que surgem no texto e que reiteram a característica de retomada e de remissão a outros contos do livro são o cego e o seu guia, referência direta a “Antiperipléia”, o primeiro conto de Tutaméia. O gran finale de Novis vai ao encontro do que pensa Rónai (1990) quando reputa “Faraó e a água do rio”, “O outro ou o outro” e “Zingarêsca” como “três leves amostras” da grande epopeia cigana que, segundo ele ventila, poder-se-ia ter consumado, caso a morte prematura de Guimarães Rosa não houvesse supreendido a todos. “Neste livro afloram três leves amostras [...] provas de atração especial que exercia sobre o erudito e o poeta esse povo de irracionais, ébrios de aventura e de cor, refratários à integração social, artistas da palavra e do gesto”. (RÓNAI, 1990, p.21).
Grosso modo, pode-se pensar que Guimarães Rosa trabalhou suas construções textuais de modo a buscar não a “verdade”, mas uma “verdade”, fundamento para a edificação de realidades sui generis, suas, próprias, coadunadas a particularidades de um espaço que era imageticamente dele, contudo, mitica e fisicamente de todos os que compunham aquelas paragens incrivelmente atípicas; enfim, pode-se dizer que Rosa (1967) soube condensar o mundo no sertão, para depois devolvê-lo novamente ao mundo, desta feita, transformado, miscível, com a face bem definida de uma unidade com identidade própria, todavia pertencente ao conjunto universal de cultura, seja pelo muito que conseguiu em termos de desenvolvimento da língua em sua virtualidades, seja pela perspicaz capacidade de situar no mesmo enredo personagens aparentemente tão distantes, v.g, a figura do insólito habitante que aparece reiteradas vezes em suas “estórias”, como o cigano, que não é senão um estrangeiro no espaço singularíssimo retratado com intimidade por Guimarães Rosa: o sertão das veredas.
O filósofo Vilém Flusser, para quem língua e realidade são sinônimos, assinalou-a como uma das fontes do estilo rosiano. Em seu esforço criador, diz ele, “Guimarães Rosa se apóia tanto sobre o sertão como sobre a biblioteca. Viaja com os vaqueiros em busca de palavras e formas...Mas, simultaneamente, mergulha nos compêndios, anota e compara formas de gramática latina, húngara, sânscrita ou japonesa para penetrar o tecido da língua e desvendar-lhe a estrutura”. (RÓNAI, 1990, p. 24)
Para Fantini (2003), o campo narrativo próprio de Guimarães Rosa é marcado pelo tensionamento entre “colonialismo residual e a modernidade”, situado no que ela chamou de um “entre-lugar liminar e disjuntivo onde emergem várias temporalidades, culturas e territórios em confronto” (p. 75), esclarecendo que o conceito de “entre-lugar” foi primeiramente discutido pelo crítico mineiro Silviano Santiago. Ainda utilizando as palavras de Fantini (2003) para corroborar a ideia aqui defendida de que Rosa (1908-1967) “praticou” uma literatura universal, pela via da condensação do mundo no sertão, é possível utilizar o que ela registrou em Guimarães Rosa:fronteiras, margens, passagens:
“Na vasta territorialidade do grande sertão mineiro remanejado pela pena de Rosa [...] um sem-número de leituras de mundo, com o imbricamento e a superposição de línguas contrabandeadas de formações culturais de variadas procedências desfilam nas móveis fronteiras ficcionalmente concebidas [...]. É a partir de suportes dessa natureza que [...] contribui para a valorização do hibridismo linguístico e da heterogeinade cultural que permeiam o regionalismo transnacional praticado em sua literatura” (FANTINI, 2003, p. 75)
Além de toda a estrutura linguística bem trabalhada, é interessante notar como Guimarães Rosa acrescenta às suas construções narrativas um diálogo constante entre o caos e o cosmos, entre a desordem e a ordem, um pouco como um ir e vir constante aos “mundos” sensível e inteligível de Platão.
É assim que, no conto “Zingarêsca”, como ocorre em toda a obra Tutaméia, também há o enfoque em personagens que supostamente surgem para compor a figuração da desordem e, ao que parece, essa desordem não abarca o sentido pejorativo de subversão, mas um sentido de mudança na ordem e na estrutura das “estórias”, por isso, então, elementos socialmente marginalizados são chamados a figurar — diferentemente do que ocorria até então — na ficção rosiana como personagens de primeiro plano. No caso em questão, além do bizarro, veiculado pela imagem do anão corcunda, do cego que carrega uma cruz, do padre esquisito e da mulher que decide surrar o marido, encontra-se uma coletividade cigana — geralmente associada à alegria, ao colorido, à sedução, à liberdade e à sabedoria — sendo retratada em “Zingarêsca” como o elemento detonador da desordem anteriormente mencionada, elemento capaz de despertar sentimentos totalmente inaceitáveis ou inimagináveis dentro de um contexto no qual vige o convencionalismo. Exemplos claros disso são: a mulher que bate no marido, Zepaz, apesar de pertencer a uma sociedade patriarcal e machista; o Padre que talvez não “aguentasse remir mundo tão em desordenância” (ROSA, 1967, p.192) caso não ingerisse bebida alcoólica, e o anão Didinhão que serve de guia a um cego. Fenômeno estético-recepcional ao qual Hans Robert Jauss (1921- 1997) chamou de “mudança de horizonte” [Horizonterwartung], também abordado por Holub (1984) em seu livro Reception Theory, e definido como um “sistema intersubjetivo ou estrutura de espera, um ‘sistema de referências’ ou um esquema mental que um indivíduo hipotético pode trazer a qualquer texto” (p. 59).
É relevante frisar, neste momento, que o conceito de “horizonte” e todos os outros derivados dele estão fundados no “conhecer e experimentar” [lernen und erfahrung] husserliano. Conceitos advindos dos estudos hermenêuticos, a exemplo de “efeito”, “emancipação’, “estrutura de apelo’, “experiência estética” e “história dos efeitos” serão reunidos ao de Horizonte de Expectativa para dar maior embasamento teórico a este trabalho.
Aproveitando o ensejo, é importante mostrar como o texto “Transação de Cigano” — de autoria do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), encontrado no livro póstumo Viventes das Alagoas (1975) — e “Zingarêsca” aproximam-se neste ponto. Na crônica de Ramos, há uma série de trapaças narradas, contudo uma das coisas que chama a atenção e que configura uma “quebra” no horizonte de expectativas do leitor da época, dentre outras coisas que serão abordadas posteriormente, é o ludíbrio perpetrado por um senhor de engenho contra o cigano-chefe, porque “caso digno de interesse é engabelar um sujeito sabido” (RAMOS, 1975, p.98). Engambelo que também ocorre em “Zingarêsca”, desta feita praticado por dois elementos socialmente marginalizados, o anão Didinhão, “capaz de qualquer arlequinada” (ROSA, 1967, p.191) — palavra que faz remissão a arlequim, cujo significado encontrado em Martins (2008) é farsante, truão, fanfarrão etc —, que consegue furtar um flautim dos ciganos e se vangloria por ter alcançado tal feito, quando afirma “sou um pecador de Deus... — se volta para todos, para louvor” —, e a mulher de Zepaz, mulher casada é bom que se relembre, que pratica adultério com o cigano Vai-e-Volta — “eles se estiveram, os dois debaixo de um mantão...” (ROSA, 1967, p.191).
Retomando os pontos que aproximam Guimarães Rosa (1908-1967) e Graciliano Ramos (1892-1953), deve-se destacar o que Galvão (2000) chamou de “uma manifestação literária que em parte se opunha ao que ocorria nas matrizes européias, por isso reivindicando a representação da realidade local, e em parte as prolongava, ao aceitar normas que de lá emanavam”. (p. 14)
Salientando que essa “manifestação”, segundo a autora, configurou-se sob um modelo hierarquizado: apresentando-se primeiramente como sertanismo, à guisa de um subproduto da escola romântica. Anos depois, sob o influxo do naturalismo, veio novamente à baila, desta feita como uma reação ao romantismo e como proposta de novos métodos e objetivos de sondagem, enfocando no determinismo, na ciência, no pessimismo, no fatalismo e na busca de descrição dos fatos, de maneira desapaixonada.
É possível ainda, segundo a autora, afiliar-se a este “segundo regionalismo” de viés naturalista alguns autores pré-modernistas, sobretudo de São Paulo, que dedicaram especial atenção à cultura caipira e à mimese da oralidade, sendo importante dizer que, antes da terceira e última expressão do regionalismo surgir, para completar uma espécie de tríade ideológica expressiva, houve a condensação das duas primeiras manifestações, plasmando, desta forma, uma como síntese, assentada em questões relevantes para as construções literárias do período sob apreciação. O mapeamento da paisagem, das condições sociais e a pesquisa dos tipos humanos que se encontravam país afora, principalmente aqueles socialmente marginalizados, ganharam voz e vez, e, sobretudo o estatuto de personagens dignas de figurarem nas narrativas da época, a exemplo do cigano, do sertanejo, do caboclo, do caipira, do bandido, do jagunço, do cangaceiro, do vaqueiro, do beato, do tropeiro, do capanga, dentre tantos outros. “No entanto, o filão regionalista mostrava-se tão rico que ainda não se esgotara e voltaria com forças renovadas após o modernismo dos anos 20”. (GALVÃO, 2000, p. 17).
A nova “aparição” do regionalismo apresentar-se-ia como uma expressão de engajamento político-social: era o “regionalismo de 30” (que tinha um vínculo bastante estreito com o “Romance Social norte-americano”), impulsionado pelas consequências diretas da Revolução de 1930; revolução que, segundo Candido (2003, p. 181), representou “um eixo catalisador: um eixo em torno do qual girou de certo modo a cultura brasileira, catalisando elementos dispersos para dispô-los numa configuração nova”.
Com relação especificamente à literatura da época, ainda segundo Candido,
Verificam-se nela alguns traços que, embora característicos do período aberto pelo movimento revolucionário, são na maioria ‘atualizações’ (no sentido de ‘passagem de potência ao ato’) daquilo que se esboçara ou definira nos anos 20. É o caso do enfraquecimento progressivo da literatura acadêmica; da aceitação consciente ou inconsciente das inovações formais e temáticas; do alargamento das ‘literaturas regionais’ à escala nacional; da polarização ideológica. (CANDIDO, 2003, p.185)
Candido defende a ideia de que até 1930 a literatura brasileira ajustava-se predominante a uma ideologia de permanência, assentada em purismos gramaticais e na adoção da literatura portuguesa como padrão, medidas que, para ele, atestavam uma correspondência às expectativas oficiais da República Velha, e que, conforme previu, culminariam com a cristalização da língua e a sedimentação de uma “cultura de fachada”.
Segundo o crítico, a incorporação das inovações formais e temáticas do Modernismo, que se deram em dois níveis — quais sejam, em um nível específico, que alterou a fisionomia da obra, e em um nível genérico, que instigou a rejeição dos velhos padrões — ajudaram
Quase todos os escritores de qualidade que acabaram escrevendo como beneficiários da libertação operada pelos modernistas, que acarretava a depuração antioratória da linguagem, com a busca de uma simplificação crescente e dos torneios coloquiais que rompem o tipo anterior de artificialismo. (CANDIDO, 2003, p. 186)
Traço interessante diz respeito aos posicionamentos por parte de Galvão (2000) e Candido (2003), quanto às manifestações regionais. A primeira, fala dos eventos de forma quase imparcial, analisando-os de maneira a não expor, explicitamente, juízos de valor; diferentemente do que ocorre considerando o outro estudioso, que se pronuncia criticamente, contundentemente, tanto no que diz respeito ao que ele considera positivo — “O regionalismo foi uma etapa necessária, que fez a literatura, sobretudo o romance e o conto, focalizar a realidade local” (2003, p.159) —, quanto o que reputa como algo negativo — “enquanto a forma mais espúria foi com certeza um dado “sertanejismo” brasileiro do começo do século XX” (p.159) —, ou quando se pronuncia, dizendo: “Na fase de pré-consciência do subdesenvolvimento, ali pelos anos de 1930 e 1940, tivemos o regionalismo problemático, que se chamou de ‘romance social’, ‘indigenismo’, ‘romance do Nordeste’” (p. 160).
O importante é que ambos são concordes em reconhecer as contribuições literário-culturais que realizaram e que deixaram como legado para o povo brasileiro, tanto Guimarães Rosa (1908-1967) quanto Graciliano Ramos (1892-1953). Galvão (2000), por exemplo, diz que “é nesse panorama literário que Guimarães Rosa vai fazer sua aparição, operando como que uma síntese” do período, “algo assim como um regionalismo com introspecção, um espiritualismo em roupagens setanejas” (p.26); por seu turno, assim se pronuncia Candido (2003) acerca do escritor alagoano: “e talvez um artista de grande nível, como Graciliano Ramos, tenha sido mais valorizado pelo temário, considerado inconformista e contundente, do que pela rara qualidade da fatura, que lhe permitiu fazer obras realmente válidas” (p.198).
Muitas questões têm sido discutidas até aqui, inclusive acerca de como Guimarães Rosa trabalhava os elementos narrativos para alcançar os fins buscados, mesmo que esses fins envolvessem uma simples instigação ao leitor quanto a pensar sobre o porquê de ter sido usado este ou aquele personagem, em vez de outro. Caso típico disso é a figura do cigano, que surge tanto em “Zingarêsca” quanto no texto “Transação de cigano”, de Graciliano Ramos.
O primeiro questionamento que vem à tona e que é seguramente plausível, levando-se em consideração tanto o escrito de Rosa quanto o de Ramos, envolve a busca de compreensão, por parte de que lê, com relação ao fato de como é possível encontrar indivíduos ciganos em um espaço tão próprio do Brasil, o sertão, no qual os aspectos e características locais são acentuadamente evidenciados. Em função dessa, outras perguntas desdobram-se. Simplificadamente, pode-se dizer que nas duas narrativas o cigano aparece como um personagem insólito, deslocado; um estrangeiro.
De origem incerta, os zíngaros geralmente são associados ao movimento indefinido, à liberdade, à astúcia, à sabedoria; talvez, graças a isso, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos os tenham escolhido para figurar em seus respectivos textos, ora mostrando-os como símbolos de assimilação ora como símbolos de resistência. Assimilação por serem caracteristicamente um povo errante, e em função do relativo intercâmbio cultural que estabelecem com outros povos com os quais entram em contato; e resistência, porque essas trocas possuem limites bem definidos, a fim de resguardar particularidades culturais desta coletividade: eles se relacionam com outras sociedades, todavia não se deixam ser absorvidos por elas.
Algo que chama a atenção, ainda com relação às características do povo cigano, é o fato de não possuírem uma linguagem escrita; portanto, todos os seus costumes e ensinamentos são transmitidos pela via da oralidade, com forte valorização da tradição e de ciclos de aprendizados que nunca se fecham — nesse ponto, algo bem similar ao que, segundo Turrer (2002), ocorre em Tutaméia, pois, para ela, os prefácios da referida obra “apresentam [..] a idéia de um livro que não se fecha sobre si mesmo e que [...] subverte totalmente o tempo da escrita no espaço do livro” (p. 81) — porque a vida, para eles, está em constante mudança, como o rio heraclitiano1 que jamais é o mesmo. Considerando essa informação, há evidências de que ambos os escritores tenham tentado vinculá-los, além de tudo o que já se expôs anteriormente, à ideia de valorização da linguagem. Acerca disso, Fantini (2003), por exemplo, esposa o conceito de “desterritorialização da pátria”, supostamente praticada por Guimarães Rosa, quando defendia a “afinidade entre a escrita e a vida, levando sobretudo em conta que, como esta, também aquela deve evoluir” (p.91). Infelizmente, aí reside uma grande contradição:
Se tal diversidade linguística é objeto de admiração de críticos e tradutores que acompanham a obra de Rosa desde suas primeiras publicações, essa mesma razão transforma-se, paradoxalmente, num dos maiores empecilhos à recepção de sua obra por parte de leitores não-iniciados”. (FANTINI, 2003, p. 92)
No texto “Transação de Cigano”, a linguagem também é exaltada como mecanismo de demarcação de espaços, de sedimentação de poder perante o restante do organismo social: “usavam uma algaravia arrastada, para ganhar importância” (p.97). Desta maneira, o autor deixa implícito que dominar recursos linguísticos não-ordinários possibilita a obtenção de status social privilegiado e de ganhos materiais consideráveis, a exemplo do que acontece com os “trocadores”, conforme se verifica:
Há os trocadores. Andam nas fazendas e nas povoações do interior, buscando roceiros inexperientes, e se os descobrem, oferecem logo, em conversas abundantes e repisadas, cheias de exclamações, alguma pequenina besta de cangalha. [...]. Desafiam a réplica, entram em longas discussões obscuras [...]. Não se apressam. Vencem as objeções com amabilidades ou injúrias, conforme as circunstâncias, fatigam os adversários, acabam impingindo-Ihes quartaus esparavonados, recebendo outros menos ruins e algum dinheiro, que não admitem barganha sem isto. (RAMOS, 1975, p. 97-98)
Para os zíngaros, assim como para Rosa, especificamnte, o idioma é signo de união e de liberdade, e deve ser trabalhado como manifestação própria, não com sentido forçosamente egoístico, mas como sinônimo de expressividade de autonomia. Ao que parece, há um ponto de interseção entre eles: a intenção de estar no mundo, de conhecê-lo, sem, contudo, ser submisso a ele e às regras previamente estabelecidas e posteriormente impostas. Outra questão que aproxima “Zingarêca” e “Transação de Cigano” envolve certo cuidado em tentar mostar ao leitor uma ambiguidade instaurada, porque ora o cigano é mostrado como figura digna de respeito — “Os de mais respeito são os ciganos” (RAMOS, p. 97), “Antes, porém, os ciganos de roupagem e de linguagem, tribo de gente [...]” (ROSA, p.189) —, ora como figura marginalizda — “[...] os vaqueiros repeliam êsses malandantes, sofreavam as bridas, sem vez de negócio nem conversação” (ROSA, p. 189), “O sertanejo evita-os, nega-lhes um caneco d’água em tempo de seca e, invariavelmente, ensina-lhes o caminho errado” (RAMOS, 1975, p. 97).
Dando continuidade à análise comparada entre “Zingarêsca” e “Transação de Cigano”, aspectos relevantes, porém dissonantes, entre os textos sob apreciação, ao nosso ver, foram: “o olhar” direcionado que os autores puseram sobre o elemento cigano e a ideia da existência de determinismos, encontráveis em “Transação de Cigano”, mas que não aparecem em “Zingarêsca”.
Um punguista me afirmou há tempo que a sociedade se compõe de malandros e otários. Não seria possível achar um terceiro grupo: até nos indivíduos mais inexpressivos há, latentes, as qualidades que determinam uma das duas categorias. Inútil querermos destruir a ordem natural. O malandro veio ao mundo para esfolar, o otário deve ser esfolado — e, quer estejamos de acordo quer não estejamos, a operação dolorosa tem de realizar-se, porque isto é a vontade de Deus. (RAMOS, 1975, p. 96)
Guimarães Rosa falou do cigano, sobretudo, sob um viés entnográfico, ao passo que Gracialiano Ramos o fez mais enfaticamente focalizando uma visão carnavalizada2, sendo importante esclarecer que essa observações não se fazem unânimes em nenhum dos textos, porque, tanto há carnavalização no texto de Rosa — “O padre bebe ou reza, por êste mundo torto, diz-se que êle bebe particular” (p.190), ou “[...] o Padre sopesava a cruz... A cruz continha um vazio, nem seu guia soubesse disso, ali êle ocultava o lucro das esmolas” (p. 191). Nessas passagens, os elementos carnavalizados são o Padre (que trangride as normas, as convenções religiosas e sociais; inclusive leva a cruz que o Cego carregava consigo, como um verdadeiro objeto de penitência) e a cruz (que é representada como um objeto oco, vazio; preenchido pela astúcia e por anseios humanos) que para muitos povos, desde a mais alta Antiguidade, é símbolo sagrado, “é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais (segundo CHAS)”, e deu origem “à linguagem mais rica e mais universal (CHEVALIER, 1993, p. 309) — quanto referência a aspectos descritivos da cultura cigana no texto de Ramos, abordando, por exemplo, a errência e a organização em agrupamentos, respectivamente (“Os de mais respeito são os ciganos, que já não são ciganos e talvez nem tenham nenhum sangue deles, mas vivem à toa, aboletam-se no campo ou em pontas de rua” (p. 97), ou “O chefe dos ciganos atravessou a porteira, deixou o bando aí, aproximou-se da casa-grande [...]”) (p. 98).
Retomando o que foi dito, no que tange aos aspectos etnográfico-culturais dos ciganos, identificados na obra rosiana, podem-se citar, a fim de não se alongar muito, dois exemplos de relevo: os rituais religiosos e as festas, sendo que a base destas últimas era a antiga e alegre tradição da dança. Quanto ao ritual religioso e à morte, note-se esta passagem:
“Tinham alugado ali uma árvore! — o que confirmou o prêto Mozart, servo morador: dês que sepultado debaixo do oiti um dêles, só para sinalaram onde, ou com figuração pagâ, por crerem em espíritos e nas fadas; e pago o prêto Mozart para, durado de semana, verter goles de vinho na cova” (ROSA, 1967, p. 189) .
Segundo material que expõe em seu website, a escritora e astróloga carioca Ishani D. D. Miranda, que se dedica a realizar estudos sobre povos antigos, filosofia e religião, a morte para os ciganos é um momento bem significativo. Geralmente é acompanhada por uma expressão demorada de luto e por um número considerável de rituais, em função da crença de continuação da vida; um exemplo disso é a cerimônia com água, flores, frutas e as comidas prediletas que costumam oferecer às almas de seus entes queridos, com o objetivo de estimular com que estes se libertem das coisas da Terra. Supondo-se que Guimarães Rosa tivesse conhecimento acerca desse tipo de ocorrência, parece lógico pensar que talvez nisto resida a base para a construção de passagens como a que fora supracitada, na qual ele evidenciou a crença dos ciganos na vida após a morte do corpo físico, a vivência demorada de luto e o ritual de oferenda de alimentos aos espíritos dos mortos.
A festa e a dança, além da lida com animais e o uso de instrumentos musicais no dia a dia, aspectos de cunho igualmente etnográfico, também são trazidos a lume em “Zingarêsca”, como se constata em “Vozeiam os ciganos, os sapos, percebem para si a noite tôda. Dão festa [...]. Fazem isto sem horas, doma de cavalos e burros, entanto dançam, furupa, tocam instrumentos; mesmo alegres já tristes, logo tristes de mais alegres”. (ROSA, 1967, p. 190)
Sobre esses aspectos, é importante perceber que possuem uma estreita relação com o nomadismo e com a proximidade à natureza, ambos cultivados pelo povo cigano — “[...] dão mão à natureza” (ROSA, 1967, p. 191) — e por Guimarães Rosa.
Com respeito àqueles, pode-se dizer que em “Zingarêsca” há uma forte vinculação dos personagens a uma gama de características animais, variando desde a liberdade dos pássaros e a malandragem do sapo, até a ida aos extremos opostos, com a remissão à sabedoria da coruja ou à preguiça do socó. A lida com os cavalos representa outra mostra a aproximação da narrativa à natureza; aparecendo como uma atividade de celebração, como evento ritualístico e de socialização entre os zíngaros.
No que toca ao escritor, as aproximações acima referidas se dão de forma direta — no caso de culto e valorização da natureza — quando, por exemplo, expõe minúcias do espaço sertanejo, e de maneira simbólico-metafórica, quando aborda em suas narrativas o nomadismo, em função da
[...] recorrente tendência rosiana em explorar — sob os vetores da “traduzadaptação”, da “transculturação”, da “hibridez cultural”, da “heterogeneidade” e da “diglossia” — a transição e a interatividade entre sistemas que, via de regra, são enfocados de forma dicotômica: natureza e cultura, mythos e logos, arcaico e moderno, regional e transnacional” (FANTINI, 2003, p. 73)
“Nomadismo” possivelmente iniciado nas experiências do autor como diplomata, e rematado no transplantar da “transculturação”, a ele idiossincrática, para a literatura. A fim de reforçar esse pensamento, que dito de outra maneira poderia ser entendido como a percepção de Guimarães Rosa no exercício do “discurso do entre-lugar”, prática esta que o situaria em uma “zona intersticial”, citam-se a seguir as palavras de Fantini:
Posto (sic) se tratar de posturas e linguagens diferenciadas, há uma zona intersticial onde distintas formas de representação, adotadas respectivamente pelo Guimarães Rosa escritor e pelo Guimarães Rosa diplomata, são permeadas pelo eixo comum da plasticidade cultural, sob cuja intervenção ele agencia a negociação e a permeabilização entre vários planos anacrônicos e mesmo contraditórios entre si. (FANTINI, 2003, p. 74)
Ainda quanto aos aspectos de similaridade encontráveis nos textos de Rosa e de Ramos, fica evidente, nos respectivos escritos, a adoção de uma linguagem próxima à linguagem popular, com o uso de provérbios e de palavras que apenas fazem sentido em determinados contextos e espaços. Em “Zingarêsca”, v.g., tem-se: “pago o prêto Mozart para, durado de semana[...]” (p.189), “Zepaz estava com o juízo quente” (p. 189), “porque cego nasceu com culpas encarnadas” (p.190), “espia com sm-vergonhez as ciganas” (p.190), “religião deles é remedada” (p.190) e como uso proverbial, para finalizar algumas citações que sustentam o que fora dito acerca da linguagem popular, “O rico é um buraco, o pobre é um pedregulho” (p.191). Por sua vez, em “Transação de Cigano”, há, entre tantos outros exemplos: “O malandro veio ao mundo para esfolar, o otário deve ser esfolado” (p.96), “Os sertanejos [...] coçam a cabeça, murmurando [...] frases que se repetiram [...] e se transformaram em provérbios: — Quem é do chão não se trepa. Quem nasceu para vintém não chega a tostão” (p. 96), “há os negociantes de cavalos [...] inspiram antipatia ao agricultor [...] são hábeis, ardilosos, capazes de dar lições a rato [...] Têm partes com o diabo, deitam poeira nos olhos dum cristão” (p. 97), “jogo em que a patota dá prestígio a quem sabe utilizá-la” (p.98), “Negócio é negócio” (p.99).
Deve-se mencionar ainda, por chamar atenção em ambos os textos, o posicionamento, no mesmo cenário narrativo, de membros de classes sociais diversas e de questões atinentes à alteridade, como fator importante no desdobrar das tramas textuais; em função de uma dupla visão enfatizada do mundo, abarcando o “eu” e o “outro”.
Sobre os aspectos estético-recepcionais da figuração do Cigano em “Zingarêsca” e “Transação de Cigano” é possível dizer, de modo sucinto, que as categorias jaussianas, já mencionadas em outro momento, são o aparato que sustentam uma experiência de aproximação e comparação entre Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, e que a construção do “horizonte de expectativas” que se foi registrando e percebendo, ao longo deste trabalho, mostrou-se como produto paradoxal, uma vez que os ciganos ora são temidos, ora desprezados, ora, ainda, desprezados e temidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Tutaméia foi a última obra publicada por Guimarães Rosa em vida e permitiu, como vimos, uma vasta amplitude de temáticas abordadas, a exemplo da identidade cultural, das possibilidades criadoras da língua, e da renovação da forma de narrar, dentre tantas outras. Em um conjunto de quarenta contos, organizadas sequencialmente de “a” a “z”, “Zingarêsca”, um dos focos deste trabalho, ocupou o espaço da última narrativa do livro.
No que tange à crítica, tanto de Tutaméia quanto da obra rosiana, lato sensu, foram trazidos para dar sustentação a este estudo, v.g., Fantini e suas considerações acerca dos tensionamentos narrativos, da literatura universal e do hermetismo linguístico, praticados por Rosa; Walnice Galvão e Antonio Candido com ponderações acerca do contexto regionalista, no qual, segundo eles, é possível inserir o autor; Vera Novis e Paulo Rónai, mostrando Tutaméia como espaço integrativo de personagens e de temáticas recorrentes e, à guisa de fecho, cita-se a estudiosa Irene Simões e o destaque que dá ao distaciamento estabelecido por Guimarães Rosa quanto ao “lugar-comum”.
Paralelamente aos posicionamentos dos intérpretes expôs-se a proposta de comparação da figura do cigano, circunscrita ao âmbito do Modernismo brasileiro, aos textos “Zingarêsca” — de Guimarães Rosa — e “Transação de Cigano” — de autoria de Graciliano Ramos —, e à fundamentação teórica baseada sobretudo nos pressupostos estético-recepcionais jaussianos.
Quanto às constatações, é importante dizer que Rosa estabeleceu uma abordagem bastante tolerante à figura do cigano, em conrtaposição a Ramos, que a tratou sob uma perspectiva jocosa, anedótica, exótica, acidental; apenas como um mote de “causo”, ambientado no nordeste. Em termos de pontos comuns encontráveis nos textos em questão, citam-se: as aproximações à linguagem popular e as caracterizações das atividades desenvolvidas por povos ciganos, como o conserto de tachos e a lida com animais domésticos ou semidomésticos, por exemplo.
Em suma, ao longo da narrativa rosiana foi possível perceber uma tentativa de aproximação à cultura cigana, como um fim em si mesmo, ao passo que no escrito de Graciliano Ramos o intento deu mostras de ser outro, qual seja, o de contar uma história com humor, na qual um elemento culturalmente associado à sabedoria é carnavalizado, tornando-se motivo de riso e de quebra de expectativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Ática, 1994. 78 p.
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MARTINS, Sant’Anna Nilce. O léxico de Guimarães Rosa. 3. ed. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 2008. 536 p.
NOVIS, Vera. Tutaméia: engenho e arte. São Paulo: Perspectiva, 1989. 138 p.
PIRES, Ires Cristina Nishitami de Oliveira. Plasmacões do grotesco em “Zingarêsca, de João Guimarães Rosa. Universidade estadudal de Londrina. Londrina. 2006. 111p.
RAMOS, Graciliano. “Transação de cigano”. In: Viventes das Alagoas. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 1975. p. 96-99.
RÓNAI, Paulo. Pois é: ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 300 p.
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SIMÕES, Irene Gilberto. Guimarães Rosa: as paragens mágicas. São Paulo: Perspectiva; Brasília: MCT/CNPq, 1988. 193 p.
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ZILBERMAN, Regina. A estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989. 124 p.
NA INTERNET: Ciganos, o povo que veio do Oriente. Dinponível em: http://www.ciganosopovoqueveiodooriente.blogspot.com.br
1 Aqui me refiro a noção clássica de devir do filósofo Heráclito, que utilizou a guerra como metáfora para explorar a constante luta e mudança entre os opostos, por exemplo, o seco molha, o quente esfria, o dia anoitece etc. Assim se concebe que: "Para dentro dos mesmos rios descemos e não descemos; somos e não somos." (BERGE, 1969, p. 259). Ou seja, tudo está sempre mudando e nem o próprio homem pode permanecer ele mesmo, e se não se percebe a mudança é porque os sentidos o enganam.
O fragmento de Heráclito em grego: "ποταμοῖς τοῖς αὐτοῖς ἐμβαίνομέν τε καὶ οὐκ ἐμβαίνομεν, εἶμέν τε καὶ οὐκ εἶμεν." (BERGE, 1969, p. 258)
2 A noção de carnavalização aqui adotada tem como fundamento as ideias do pensador russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), defendidas em A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1965).












