@erindavinci
A atmosfera de Bradcliff estava consumindo e ao mesmo tempo não incomodando Alicia. Em parte, pela predominância de sentimentos estar resumida ao medo, coisa que ela, melhor que muitos, sabia lidar, era mais fácil contorná-lo. Era medo pelo limite de suprimentos, por não poderem sair na rua sem correr risco de vida, enfim, por praticamente tudo. Agraciada ela por conseguir manipulá-lo e reunir coragem. “Mas não coragem o suficiente para agir sozinha” murmurou ela, ao amarrar os cadarços do coturno favorito. A indignação passou a acompanhar o medo depois daquele comunicado e tanto, lembrou Alicia. Poucos imaginavam que a cidade não passava de uma experiência, outros sequer haviam considerado isso, tais como os mutantes distantes das informações do Clube. Ela, depois da reunião, confirmou o que estivera pensando: sim, eles estavam sendo observados. Era quase óbvio! Tão óbvio que passou despercebido por tantos anos.
As janelas do apartamento estavam lacradas, e Alicia, de saída. Estava carregada, pois a loira seria boba se não passasse a andar armada. Antes mesmo do caos, já deveria tê-lo feito. Sua escolha fora um revólver de fácil manuseio, na parte de trás do jeans, e canivetes, um guardado também na calça, outro em um dos calçados. Como seu poder não era exatamente físico, e ainda precisava ser mais desenvolvido, sentia-se em desvantagem em relação a mutantes com mimetismo animais ou coisas semelhantes. Ainda assim, não trocaria sua habilidade por nada, pois, até em circunstâncias como aquela, poderia ser extremamente útil. Naquela manhã, havia prometido a si mesma que sairia para procurar comida. Os suprimentos de sua casa já estavam no limite e também precisaria encontrar outro lugar para ficar em breve; ela sempre sentia que alguém poderia invadir o local a qualquer momento, por isso esperou até a última lata de feijão para sair e procurar mais coisas. Colocaria o que conseguisse numa mochila e partiria, então, para um local mais seguro na cidade — se é que isso ainda existia.
As ruas de Bradcliff intimidaram e muito a moça, conforme ela andava na escuridão. A melhor opção, e atual escolha, fora fazer a procura durante tarde da noite, quando poucos estivessem acordados. Sentiu o seu poder se expandir assim que deixou o apartamento, pronto para afastar de si qualquer mutante curioso ou furioso. É claro, ela também expandiu o poder para si mesma, com efeito contrário, afim de controlar seu próprio medo. Não era imune ao sentimento e por vezes poderia sucumbir a ele, caso perdesse o controle. Essa não era mesmo uma opção no momento.
Por sorte, seu apartamento ficava próximo a um mercado, atualmente com portas da frente lacradas definitivamente. Eles não facilitariam para ninguém, uma vez decidido que queriam todos mortos. Na parte de trás, porém, Alicia entrou por uma janela quebrada. Jogou primeiro a bolsa para dentro e tentou não fazer careta ao se apoiar e cortar as palmas das mãos, lembrando-se, subitamente, que alguém mais poderia estar alí. O lugar estava silencioso, mas nada era suficientemente confiável. Nunca seria.













