Clima lúgubre em casa, o desgosto estava na minha boca e era amargo como a visão de flores murchas. A xícara de café estava posta na mesa com meus dedos em volta da sua haste, eu fazia tanta pressão que podia sentir os nós dos meus dedos. Minhas articulações estavam rígidas e eu encarava o chão manchado com um olhar desprezível. Podia-se escutar o barulho dos passos dos meus pais no segundo andar. Minha mãe tinha um andar tenso porém leve, enquanto meu pai dava passos rígidos e enraivecidos. Era uma marcha incessante de passos que atordoava minha mente e me causava uma leve enxaqueca. Era imaginável o que eles estavam discutindo com tanta avidez: minha saída de casa. A fumaça que o café na xícara produzia estava se dissipando e o meu tempo ia junto com ela. Esperava ansiosa pela descida dos dois, para o inalcançável "Adeus". Mas eles pareciam adiar ao máximo esse momento. Finalmente a madeira da escada rangeu e eu me levantei, surpresa com meu movimento imediato, e me postei diante do fim da escada. Mamãe estava com os olhos inchados e meu pai com um olhar leviano. Não aguentei seu olhar e desviei, assim como ele o fez. _ Após viver com agente por tanto tempo, é assim que você vai?_ indagou minha mãe. A resposta estava engasgada na minha garganta, a impressão era de que se eu falasse, desabaria. _ Já vai tarde._ falou meu pai. As palavras pareciam ter afetado mais ele do que a mim._ Não posso te desejar nada mais do que felicidade..._disse, numa tentativa de corrigir o que foi dito. Não havia mais volta. Meu orgulho não permitia. _ Até mais, filha._ Foi a primeira vez que me chamaram de filha. Dei um sorriso amarelo e me virei de costas. Era a coisa certa, eu sabia. Não havia como permanecer na família perfeita sabendo que eu era a filha adotiva, a única que não se encaixava.
Sofia R. <>; Histórias das canções dos Beatles










