Tachados como escravos, como símbolos do pecado, tua raca carrega nas costas um fardo antigo, de peso semelhante ao de chumbo. As mãos suadas e feridas, infectadas e impregnadas pelos traços da raça clara, são as únicas semelhanças com seus chefes, porém não mencione isso, por favor, não! A cicatriz da chibata ainda arde nas tuas costas, mas não ouse falar isso! Abaixe a cabeça e siga reto, junte as mãos a ponto de ouvir o ranger das impiedosas correntes de ferro, tão assassinas quanto eles, debochadas e desumanas, inquebráveis e firmes, sempre lhes lembrado do seu lugar, seu lugar de nascença, imutável, constante e injusto... silêncio! Ouviu o barulho? É hora da comida, mas lembre-se, divida com os porcos, o preço deles é maior que o seu. A areia agride seus pés, lar de doenças e insetos, apenas mais alguns sanguessugas que também extraem sua forca e sua esperança, deixando apenas resíduos da dor, que aos poucos, se espalham, se multiplicam e propagam por ai a ultima noticia, a tão esperada recompensa por tanto sofrimento: a liberdade! Ora, mas não a liberdade espiritual, mas sim a física, seu corpo esta livre, corra pelos campos com o que lhe resta, gaste sua energia e desmaie... mas saiba que em seu consciente você ainda é preso, é escrevo. Lacaio da Senhora da Dor, você espera apenas pela sua sentença, sua verdadeira liberdade: a Dama das Trevas, Deusa da Escuridão e Serva das chamas. Por que isso soa ruim? São suas raízes não é mesmo? As trevas, as chamas, a escuridão são seus irmãos e irmãs, sua terra natal e seu local de concepção, não foi o que lhe disseram? A Morte é da sua cor, você ouvia. Da sua laia e da tua raca. Bem, talvez ela seja mesmo só mais uma irmã, cansada dos preconceitos e das judiações, pronta para lhe acolher e te libertar de verdade. No final, foi ela mesma, a Negra, que te abriu as portas para a luz.