Segunda etapa de El Esencialismo, cumplida. Terminamos con control de textos. Pese a todo la consigna es avanzar. Estamos muy contentos.

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Segunda etapa de El Esencialismo, cumplida. Terminamos con control de textos. Pese a todo la consigna es avanzar. Estamos muy contentos.
.Narrativas Visuais.
.Narrativas Visuais.
Post 7 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 2 - Parte 2
Dia 2 – PARTE 2
Data 30/04/2017
Etapa: Guillena à Castiblanco de los Arroyos, Espanha
Distância: 19 km
Tempo: sol -> nublado -> sol -> nublado -> chuvisco -> tempo aberto
Sim, estávamos no meio do caminho até Santiago de Compostela, na verdade, bem no começo dele, aspirando horas, dias, quiçá até um mês, de meditação caminhante quando um grupeto de 3 espanhóis irrompe o silêncio da jornada. Não somente falavam alto, o que pode ser um pleonasmo para o povo espanhol, mas um deles, no caso, uma mulher, portava um aparelho de som portátil preso ao ombro através de uma tira. Apesar da estética “oitentista”, estávamos em 2017.
Futuramente, falarei de outro caso em que um peregrino me disse escutar música ao longo do caminho, longe de mim dizer o que está certo e errado na peregrinação, ditar regras e determinar como o espírito meditativo se obtém. No entanto, a experiência é única, provavelmente mais de 95% do caminho é em meio à natureza ou área rural, este último, praticamente o que há de mais “natural” para habitantes das urbes. Ou seja, você pode escutar a sua música preferida em qualquer dia da sua vida, porém, não é sempre que se tem tempo, recursos e saúde para peregrinar, e, quando os planetas se alinham, alguém o faz com trilha sonora artificial?
Não há nada de mais verdadeiro senão o cantar dos pássaros (e em breve das cegonhas), o farfalhar das folhas das árvores que fazem coro ao sopro do vento da primavera. Admito que por vezes, eu quebrava o silêncio para enviar áudios para amigos para relatar trechos do caminho, mas jamais perto de outro peregrino. Creio que a lei do silêncio é soberano. Quando não falamos, pensamos, quando pensamos, meditamos e assim segue o peregrino, ou, pelo menos, este que vos fala.
Neste caso, o absurdo do desperdício do caminho era ainda maior pela imposição ao outro. Assemelha-se ao bárbaro que leva uma caixa de som à praia para atrapalhar o sossego de todos, obrigando o mundo a escutar o seu gosto musical. Sim, a mulher nos obrigava a ouvir sua música sem qualquer pudor.
Fiquei revoltado, assim como fico agora ao lembrar do momento. Peregrino não é santo, seja pelo desrespeito de alguns e falta de paciência de outros (eu).
Embora tenhamos nos conhecido há pouco tempo, nem uma hora atrás, entreolhamo-nos, os 2 senhores e eu, e nos comunicamos pelos olhos. Desaceleramos o passo até que a música se dissipasse a nossa frente.
Seguíamos subindo, o meu guia impresso indicava que a inclinação era próxima daquela sofrida horas antes, entretanto, sem o atoleiro, o trecho atual parecia um paraíso. A trilha era de chão batido e ainda limitada por cercas nos 2 lados, estávamos num túnel sem teto. A caminhada rendeu, tanto em quilômetros como em conversas. Descobri que um dos senhores, o mais velho, provavelmente perto dos 60 era alemão, enquanto o outro, um holandês de 50 e poucos. O primeiro falava inglês, já o segundo, pouco. Eles se comunicavam basicamente em alemão e qualquer conversa entre o holandês e mim ocorria através do senhor alemão. (Para não confundir o hipotético leitor dessas memórias, chamarei esse holandês de holandês fotógrafo pois ele possuía uma câmera fantástica).
O senhor alemão contou que esse caminho peregrino não era seu primeiro, já era seu segundo (ou terceiro?) e que os 2 haviam se encontrado no primeiro caminho quando o senhor alemão saiu da Alemanha em direção à Santiago de Compostela e o holandês fotógrafo fez o mesmo, mas saindo de sua cidade na Holanda. Sim, eles caminharam aproximadamente 3 meses. Não se espante, é “comum” entre os europeus fazerem isso.
Neste trecho, passamos por diversas portelas (ou portões de fazendas) por onde deveríamos passar. Sim, estávamos passando por propriedades privadas, o importante a notar aqui é o respeito que os peregrinos possuíam com aquilo que não é seu. Deixar um portão aberto poderia acarretar na fuga de animais, o que irritaria os donos das propriedades e provável proibição passagem de peregrinos por elas. Peregrinos são santos? Não, só no último dia entenderia o vandalismo dos “santos” caminhantes que enxergaram um souvenir único ao passar pelos miliários. Mas mantenhamos a ordem dos fatos.
Depois de uma parada para comer e mais alguns quilômetros, deixamos o barro para trás e chegamos numa estrada asfaltada. Cruzamos ela e seguimos paralelamente a ela. Tec, tec, tec. Não precisou andarmos muito para chegarmos num povoado chamado de Urbanización da Colina, depois por um belo hotel no lado direto da estrada (será que já deveria queimar as fichas aproveitando uma cama confortável e ter o silêncio como companheiro de quarto?).
Seguimos reto até chegarmos em Castiblanco de los Arroyos, povoado pequeno, até menor que Guillena. Não faltou muito para chegar no albergue municipal no começo da tarde. O prédio de 2 pisos era maior do que do albergue do dia anterior. Aparentemente, a construção dividia espaço com outro órgão local, talvez escola. Ao ver o tamanho do local, relaxei, pois sabia que espaço não faltaria para mim ali.
Na entrada, havia alguns homens, 3 ou 4, e um deles era o muito solícito JM. Sim, era assim que deveríamos chamá-lo. Falei solícito? Bem, foi depois da comprovação de que éramos peregrinos. Precisamos mostrar nossa credencial de peregrino para que ele começasse a falar do lugar e das regras do local. Depois de assinarmos o livro do albergue, pagarmos a modesta taxa para ficar ali e termos nossas credenciais seladas, ou carimbadas, JM nos mostra o local.
O térreo não seria utilizado. Subimos as escadas. Primeira coisa que vimos foi o móvel de madeira onde as botas (com e sem chulé) deveriam permanecer. Recebemos jornal para rechear as botas e assim sugar sua umidade. Tanto no lado direito quanto esquerdo atrás da escada, havia banheiros. No lado direito, uma porta onde ficava o alojamento com os beliches. No lado esquerdo, uma porta levava à cozinha e, através dela, o terraço com o tanque para lavar roupa e o varal.
Momento para seguir com a rotina de todo recém-chegado no albergue: banho, comer e lavar roupa. Bem, não tão rápido. Os 2 banheiros tinham fila para tantos peregrinos. Quando entrei, vi que o banheiro era amplo com chuveiro, privada e pia. Havia ganchos na porta para pendurar os pertences. Nessa hora que os chinelos que não soltam as tiras e não dão cheio (não falarei a marca) entram em cena para garantir um pouco mais de higiene para os pés. Não sei se tanto assim, ao menos a consciência ficou mais tranquila. Acredite, o lugar é limpo e bem cuidado, mas é muita gente passando em pouco tempo. Então, melhor garantir.
Fui ao terraço para dar uma olhada. Lá vi um holandês com “mangas” vermelhas. Sim, aspas na palavra mangas porque, na verdade, eram seus braços (muito) queimados pelo sol da Andaluzia espanhola. Conversei com ele e tentei falar o óbvio de que ele deveria cuidar com o sol e passar protetor solar. Além disso, sugiro utilizar mangas compridas para proteger os braços. Mais quente, sim, mas como a peregrinação demanda horas por dia de caminhada, o calor era um dos cuidados a serem tomados e que pode ser remediado de outras formas. Esse homem branco, talvez mais do que eu, responde-me com um sorriso largo ao olhar para os braços, “agora eu já tenho mangas compridas”. Ok, ele estava levando na esportiva. Quem seria eu a querer dar de pai. Vi que uma de suas pernas estava esticada, ele comenta que possui um sério problema no joelho e que isso lhe dava muita dor ao caminhar, mesmo assim, não deixava de fazer seu caminho.
Antes de continuar, não se confundam com os personagens reais dessa jornada. Já cruzei por 3 holandeses, o jovem holandês que me abandonara no caminho, o holandês fotógrafo e, agora, o holandês das “mangas”. Não utilizarei seus nomes, não por receio de ser cobrado por direito de imagem, bem, citação, mas por outro motivo a ser dito no término do livro.
Os 2 senhores com quem caminhei me chamaram, o senhor alemão e o holandês fotógrafo. Comer seria em breve, primeiro, precisaríamos ir ao mercado para comprar mantimentos para o dia seguinte pois era domingo e essa pequena cidade não possuía nenhuma grande rede de supermercados com horário estendido de atendimento.
Não tivemos muito sucesso na primeira venda, fomos num outro. Pego frutas (maçãs e bananas, água, pão e outros). Ali, bato papo com o espanhol da venda enquanto os demais faziam suas compras. Ele me diz que eu tenho um espanhol europeu. Provavelmente por não usar termos e sotaque comuns entre os cisplatinos e vizinhos do cone sul. Só deixo claro que fui com um portunhol bem do mequetrefe. Ok, nunca se deve negar um elogio.
Voltamos ao albergue, deixamos os mantimentos para, já em seguida, almoçar. Decidimos ir no restaurante de tapas que passamos para ir ao mercado. Sentamos no lado de fora, os 2 senhores e eu. Ao redor outras mesas eram ocupadas por locais que falavam alto. O restaurante tinha um “jeitão” de restaurante espanhol pela decoração e atmosfera. Ao longo do caminho, veria vários lugares como esse. Difícil de explicar, mas indo em um, entende-se.
Somos atendidos por um homem nos seus 30 anos que nos pergunta o que queremos para beber. Um dos senhores, o alemão, vai direto ao ponto e pede uma radler. O que era isso? Cerveja com suco de limão, normalmente, improvisado com xarope de limão. Depois aprenderia que isso era na verdade uma cerveja bebida por ciclistas na Alemanha. A palavra radler quer dizer ciclista em alemão. Ok, vamos provar, 2 radlers. O holandês fotógrafo pede um refrigerante tipo cola (a primeira de muitas que o veria bebendo).
Vamos no menu do peregrino. Tudo estava ótimo, tamanho da porção e sabor, terminamos com um café. Sinto algo, acho que a ensaladilla (salada de batatas ou a nossa maionese) não caiu muito bem. Dou uma desculpa e deixo os 2 senhores para poder voltar para o albergue para poder ir ao banheiro. Pensando agora e sabendo o que eu sei, quanto aperto por algo tão simples...
Vou ao banheiro “correndo”. Depois de lidar com as necessidades fisiológicas, era hora de cuidar da roupa. Nada bom, já eram quase 4 da tarde e o tempo estava nublado. Lavo a roupa e as penduro para secar. Havia vento, mas não era quente.
Volto para o alojamento, deveria haver uns 20 a 30 peregrinos. Sim, estava nessa onda que me acompanharia nos primeiros dias até que começassem a ter a primeiras “quebras” ou os mais apressados querendo fazer mais quilômetros por dia. Em outras palavras, o espaço em albergues poderia ser um problema nos próximos dias. No entanto, não deveria pensar nisso agora, como dizia meu mantra “um passo por vez, uma etapa por dia”.
Faço o que todos fazem, tirar um cochilo pós-almoço. Levanto depois de 30 minutos ou 1 hora. Vou no varal, roupas bem úmidas ainda. Isso não seria bom. Decido tirar as roupas dali pois o tempo parecia indicar chuva.
Os 2 senhores se levantam e me chamam para jantar. Sim, jantar. Já estava ficando escuro.
Voltamos para o mesmo restaurante do almoço. Não queria gastar com mais um menu peregrino. Entretanto, 1 prato individual do menu custava pouco menos que o menu inteiro. Então, vamos comer tudo de novo: entrada, prato principal e sobremesa. Com uma radler para acompanhar e um cafezinho no final.
Novamente, sinto “algo” no estômago. Volto para o albergue. Vou ao banheiro. Abuso dos remédios que tinha comigo e bebo muita água para hidratar. Dia seguinte teria quase 30 quilômetros de caminhada e não poderia ter contratempos intestinais.
Volto ao varal para pôr a roupa para secar novamente sabendo que teríamos uma noite nublada e fresca. No alojamento, falo com a dinamarquesa do dia anterior. Após conversar sobre bolhas no pé e afins (sim, isso é papo de peregrino), ela pergunta se pode se unir ao nosso grupeto de caminhada do dia seguinte. Claro, eu acabara de entrar num outro grupo horas antes. Todo mundo seria bem-vindo, bem, quase todo mundo.
Nesse papo com ela, também aprendo algo importantíssimo para o peregrino, como cuidar dos combros ao se usar mochila. As mochilas de caminhada possuem uma fixação que abraça a cintura para que o peso da mochila seja apoiado no quadril e não nos ombros. Ela diz que ao prender corretamente, fica-se com 1 a 2 dedos livres entre os ombros e as alças da mochila. Depois disso, as dores passariam em poucos dias (spoiler, funciona). Uma coisa é a mochila do dia a dia com um laptop pesando alguns quilos em breves deslocamentos na cidade, outra coisa é carregar de 8 a 10 quilos por 15 a 30 quilômetros. Os detalhes fazem a diferença.
Hora de dormir, comecei os preparativos para organizar as coisas para o dia seguinte. Ali percebo uma de minhas genialidades cair por terra. Sim, o menino gênio e engenheiro que vos fala teve a maravilhosa ideia de usar sacos plásticos com fechamento zip lock para embalar, organizar e separar camisetas, meias, cuecas e calças dentro da mochila. Eu tinha 2 receios: 1) querer puxar uma coisa na mochila e vir as outras juntos, 2) caso chovesse, garantir que as roupas ficassem secas. A prova da redundância dos itens “e se...”. A mochila, apesar de permeável, seria a primeira proteção contra chuva. Além disso, eu possuía uma capa para ela e uma capa para mim que também ficaria sobre a mochila. A ideia era boa, mas sacos plásticos num alojamento daquele fazem tanto barulho quanto uma bomba. Sim, todos olhavam para mim quando mexia em minhas coisas. Em respeito aos peregrinos daquele dia e dos futuros, deveria dar um jeito nisso.
O tal jovem holandês que na noite passada havia desenroscado a lâmpada que o incomodava, utilizava uma lanterna de cabeça com luz vermelha para ler seu livro. As luzes já haviam sido apagadas e ele achava que sua luz vermelha não era luz. É verdade que o efeito é outro, mas é luz. Ponto final. Esperar que o mundo seja coerente é a maior das ilusões.
Coloco o despertador para mais cedo do que o planejado para ter mais tempo para o intestino funcionar na manhã seguinte antes de sair para a caminhada (já adianto, não funcionou).
Fecho os olhos e durmo, mas sem antes sofrer com os roncos emitidos em frequências que os protetores auriculares não protegem. A noite de sono não foi boa, acordei por diversas vezes, ademais dos ruídos noturnos, creio que ainda não estava acostumado a dormir no saco de dormir.
Post 6 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 2 - Parte 1
Dia 2 – PARTE 1
Data 30/04/2017
Etapa: Guillena à Castiblanco de los Arroyos, Espanha
Distância: 19 km
Tempo: sol -> nublado -> sol -> nublado -> chuvisco -> tempo aberto
Não sei como, o despertador do meu celular toca às 6 e eu acordo tranquilamente mesmo com os protetores auriculares nos ouvidos. Achei que esses tampões de orelha, cruciais para uma boa noite de sono considerando o ronco generalizado dos peregrinos, iriam me impedir de ouvir o alarme, grande preocupação que tive na noite anterior.
6 horas? Sim, decido acordar “cedo” pois a matemática entre número de peregrinos e número de banheiros não fechava. Precisava arrumar tudo para sair sem deixar nada para trás e com calma, fazendo tudo no seu devido tempo. De longe, o caminho não é uma corrida, porém, a quase falta de vaga no albergue no dia anterior me assustou um pouco e não queria passar por isso novamente.
Além disso, conheço e reconheço minha lerdeza pelas manhãs, inclusive do meu aparelho digestor. Logo, imaginei que ao acordar cedo, isso daria mais tempo para meu corpo “funcionar” enquanto eu possuía um banheiro disponível em vez da natureza.
Aproveito para ir no terraço onde se encontrava o varal para buscar minhas roupas que oxalá foram secas pela noite. Infelizmente, não. Continuavam úmidas e geladas, pois a temperatura à noite caía muito em relação a do dia. Pego o que é meu, devolvo os grampos de roupa para a dinamarquesa e faço o que ela dissera no dia anterior, pendurar as meias na mochila para secarem durante o dia ao longo dos 19 km que iria percorrer hoje.
Momento desapego. Dizem que um dos ensinamentos mais aprendidos, claros e metafóricos é o de se caminhar com a mochila leve. Ou seja, viver com pouco. Pois bem, depois de sentir nas costas e nos ombros o peso de uma mochila com sobrepeso, decido me desfazer do repetido e redundante. Sim, deixo 2 pares de meias novas high tech para trás, jogo 2 cuecas fora (inclusive a molhada), eu me desfaço de uma camiseta de manga curta, abandono a segunda pele da perna e “esqueço” a camisa para sair (sair onde? No próximo país da minha viagem pós-peregrinação, Portugal? Até lá, haveria mais de 1000 km e seria estupidez minha carregá-la esperando que a fosse usar). Ou seja, itens chamados de “e se...”. E se eu sair à noite? E se eu precisar do 4º e 5º pares de meias? E se ficar tão frio ao ponto de precisar de mais uma camada de tecido nas pernas? Jamais esses itens seriam usados e o futuro iria comprovar. A busca incessante pela certeza é a mais pesada dos enganos (mas teve mais itens inúteis que carreguei comigo).
Agora sim, mochila mais leve. Talvez meio quilo, pode não parecer muito, mas nos quase 20 mil passos deste dia que se despertava, meio quilo a menos faz toda a diferença, sem contar que o meu pé direito que não estava em sua melhor forma.
O sul-coreano parece já ter partido. Os demais peregrinos numa agilidade fora do comum se levantam e se ajeitam num piscar de olhos enquanto eu estava agindo em câmera lenta. Precisava me apressar, pois como dissera o cuidador do albergue no dia anterior: “vocês precisam sair até as 8 da manhã” num tom que tangenciava a expulsão. Como eu disse, esse senhor era muito estranho. No entanto, ele estava certo, os albergues possuem horários e regras bem rígidos que fazem o maior sentido, exceto o modo pelo qual ele se expressava. E mais estaria por vir em minutos.
Tudo quase acertado, vou tomar o sub café da manhã oferecido pelo albergue, café preto e uns bolinhos. Bem, não era muito, mas cavalo dado não se olha os dentes, principalmente, porque veria que o café raramente estava incluso. O holandês reclama dos dentes do cavalo e decide partir para comer seu café da manhã numa lanchonete/bar/restaurante (tal estabelecimento tradicionalíssimo na cultura espanhola, a meu ver, será amplamente descrito no futuro). Eu complemento o café modesto com um sanduíche de atum improvisado na hora.
Corpo nutrido, hora de conferir tudo antes de partir. Olho ao redor. Todos já foram! Mesmo sendo um dos primeiros a acordar, consegui ser um dos últimos a sair. Evento que não deixaria de se repetir por diversas vezes.
Falo com o cuidador do albergue que deixarei algumas peças de roupas aqui. O cuidador me responde forma agressiva: “o que farei com isso?!?” Na melhor das minhas intenções, respiro fundo e faço a réplica: “estou doando caso algum peregrino necessite”. Embora seja verdade que peregrinos emprestem ou doem equipamentos entre si, dificilmente alguém precisaria de algo já no segundo dia. Mesmo assim, vai saber. O cuidador do albergue resmunga algo. Decido treplicar seu gênio irritante: “se não tiver onde deixar, jogarei fora”. Ele percebe a situação e volta atrás. Diz que fará algo.
Deixo o albergue para trás e sigo através da adormecida Guillena seguindo as flechas amarelas marcadas em paredes, muros e latões de lixo.
Passo pelo prédio de onde seria o albergue público local no meu lado direito, felizmente fechado para reformas. O aspecto da construção era horrível, parecia uma prisão com poucas janelas dando uma sensação de claustrofobia só de olhar.
Sigo caminhando e volto a pensar no dia de ontem comparando com o de hoje. Novamente, deixado para trás pelo holandês, ele em seu passo e sua fome por um desayuno (café da manhã), e eu no meu caminho. É claro o fato, mas indigesto de aceitar. O dia de ontem foi a primeira vez, até mais de uma e também não seria a última. Teimava em me prender a isso. Bem, a teimosia se vence pelo cansaço dela através de eventos repetidos em doses homeopáticas.
Caminhando chego num rio, Río Rivera de Hueva, onde deveria cruzá-lo andando sobre pedras, pelo menos o guia impresso assim indicava. Penso bem, olho ao redor e vejo uma ponte um pouco mais para frente. Sim, por que sofrer? Cruzo a ponte, caminho algumas centenas de metros. Perco-me por 10 segundos, tiro o guia da mala. Quem vejo logo atrás de mim? O holandês (déjà vu?). Ajudo-o a encontrar o caminho de terra paralela à estrada de asfalto cuja dureza faz as pontas metálicas de meu bastão de caminhada fazer o insuportável barulho “tec, tec, tec”. Seguimos juntos até seu passo apertar. Cada um na sua, e eu, para trás. Dor é dor, individual, solitária e onipresente.
A trilha fazia uma curva a ponto de voltar para a estrada, cruzamos ela, havia um posto. Antes de seguir viagem, o holandês queria fazer uma parada fisiológica no banheiro. Decido esperar. Seguimos por ruas laterais até chegar na trilha, claro, sempre seguindo fielmente as flechas amarelas.
Era isso, chegamos a uma trilha em formato de corredor devido às cercas de 2 propriedades rurais que delimitavam o caminho. Dali em diante, não teríamos mais a cidade para nos apoiar.
Tal corredor era um caminho rural em aclive que estava completamente encharcado, melhor, enlameado. Parecia uma saboneteira de terra criada pelas chuvas na região dos dias anteriores.
Sim, aclive. Outro ponto muito importante a se destacar no caminho é a variação altimétrica da etapa. O guia indicava que Guillena ficava próximo ao nível do mar enquanto Catiblanco de los Arroyos próximos dos 370 metros. Acredite, a distância da etapa é secundária se considerarmos outros 2 fatores preponderantes na dificuldade do trecho. Um deles é fixo, a altimetria devido à geografia local. O sobe e desce afeta muito as pernas em sua plenitude. Coxas, panturrilhas, calcanhar, etc. Daí a uso “obrigatório” (não mando em ninguém) dos bastões de caminhada para poupá-las. O outro fator é variável conforme o dia, a meteorologia. No entanto, deixarei isso para outro momento.
Ia no meu passo, com as botas pesadas envoltas em botas de lama calçando minhas botas. Sim, a lama era funda. Se estivesse chovendo, este trecho seria quase impossível.
O holandês acelera e, sem dizer nada, some do radar. Olho para trás, um senhor me segue. Penso se a informação do cuidador do albergue era verdadeira, de que a próxima cidade possui um pequeno albergue. Haveria lugar para mim? Um passo por vez, tinha algo pior para lidar no momento. Sim, é possível que alguém esteja numa situação pior que a sua pois vejo um espanhol empurrando sua bicicleta aclive lamacento acima.
Para minha sorte, meu pé direito não dói muito apesar desta 1 hora de tortura movediça com ascendência constante. Para cada 2 passos que dava para frente, sentia voltar 1 (engraçado que meses depois estaria em situação semelhante numa duna na Mongólia, mas isso é papo para outro livro).
Passado o trecho da lama que meu guia carinhosamente chama de Toboganes (penso que a tradução é desnecessária), pareço ter chegado num ponto plano (foto). Ando por um caminho entre árvores frutíferas, no caso, laranjeiras (essa foi fácil de acertar, mas não se acostumem). Pássaros cantam coroando a chegada desta meta. Felizmente, isso se repetiria sem cessar, caminhando ou não.
Nesse plateau, eu me surpreendo ao encontrar o holandês ao celular tentando conseguir sinal para falar. Passo por ele. Ele me faz um sinal com os olhos. Sigo e deixe-o para trás.
Pouco tempo depois, eu no meu caminho e ritmo, vejo 2 senhores batendo fotos de vacas. Pareciam amigáveis (os senhores) e decidi segui-los. Quem diria que esses 2 iriam fazer parte do meu caminho por tanto tempo? Renovar a fé com o desconhecido, deixar para trás as expectativas.
Fazemos as perguntas clássicas iniciais para se conhecer enquanto andávamos. De repente, ouvimos um som de rádio ao fundo. Ué? Aparentemente, alguém que não queria se ouvir.
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