Post 16 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 5 - Parte 3
Dia 5 - Parte 3
Data 03/05/2017
Etapa: El Real de la Jara -> Monesterio, Espanha
Distância: 20,7 km
Tempo: sol -> sol
O suplício seguia ladeira acima. Tudo contra mim: sol escaldante de 30 graus, asfalto quente e íngreme, mochila de quase 9 quilos nas costas, os sons irritantes dos veículos que passavam por nós e o tal calcanhar direito que amarrava minha ascensão até o topo onde deveria encontrar a Cruz del Puerto. A distância era de aproximadamente 6 a 7 quilômetros, porém, o desnível me forçava escalar quase 200 metros.
O trecho era praticamente reto. À nossa direita, montanha, à nossa esquerda, campos.
A dor fazia o tempo parar e a cabeça pensar muito no que eu estava fazendo ali naquele estado enfermo. Tudo o que eu fazia, como tomar anti-inflamatório, passar pomada, dar banhos de água quente e fria na região do calcanhar conforme receitado pela médica em Sevilla parecia não fazer efeito considerando que todo dia eu acordava com uma missão de cruzar dezenas de quilômetros a pé.
Bem, havia outra receita que eu teimava em não fazer. Repousar. Talvez aqui a palavra tenha seu significado mais amplo de repousar mesmo e não parar por 10 a 15 minutos a cada X quilômetros.
No entanto, se assim fosse, todo o meu roteiro, datas programadas e metas estariam fadadas ao descumprimento. Ainda havia quase 900 quilômetros a minha frente e quase 30 e muitos dias de extensa caminhada a serem percorridos.
No meu lado esquerdo, passo por um grande camping.
Metas... troféus... vontades alheias... Não estava lá por isso, mas sim por mim mesmo. Isso não estava tão claro ainda, mas estaria em breve.
Aos poucos, a dor do pé veio para a cabeça onde a ideia se formulava. Desistir era a única saída, totalmente oposta àquela de terminar o caminho conforme o planejado (por quem?).
No entanto, antes de me decidir, eu precisava terminar essa etapa e, para tal, precisava fazer o mínimo esperado de um peregrino: dar um passo por vez e nada mais.
O meu mantra “um passo por vez, uma etapa por dia” nunca fez tanto sentido.
Passo após passo, esse "everest" perde força e eu subo.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Sinto um segundo coração no calcanhar (de Aquiles do peregrino) pulsar. Por ora, esqueço dele e olho à frente e acima.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Sim, abandonei a dor. Deixei-a para trás, sem saber que pagaria um preço alto por isso. Não me pergunte como, mas eu tolerei a dor física por mais de 1 hora enquanto fazia a subida dessa estrada.
“Um passo por vez, uma etapa por dia”.
Desligo a mente e imagens vêm a ela. Lembro de eventos duros do passado, de esforços físicos e mentais (meus anos de faculdade de engenharia) e de amigos e familiares me dando suporte.
Se elas estivessem ao meu lado naquela tortura física e mental, teriam feito o mesmo. Teriam me apoiado como aqueles que ficam nas calçadas apoiando aos berros ou batendo palmas aos corredores em grandes provas de corrida nas cidades pelo mundo.
Então, de seus gritos ouvidos pela mente, caminhei, andei e manquei até avistar a Cruz del Puerto e Monesterio logo atrás.
Agora, poderia pensar novamente no futuro.
Por ser um escritor amador, não posso retratar com palavras o sofrimento que foi essa 1 hora de caminhada com 1 pé e meio. Havia suado litros de suor sobre o suor das horas anteriores. O pé direito berrava. Sentia que havia uma bola de tênis no calcanhar. O esforço havia sido descomunal para a situação. Realmente, não sei como não me lesionei em outras partes do corpo além do calcanhar direito para, de alguma forma, compensar minha situação de coxo.
Claro, havia outra solução. Fazer ou desistir são escolhas como o preto e o branco. No entanto, havia a possibilidade de pedir carona, simples assim. Seria fácil obter uma? Não sei. Mas era uma das alternativas que até então eu não avistava nesse “túnel” que eu me enxergava no caminho de Santiago de Compostela. Sem contar que minha teimosia ainda me empurrava para que a meta fosse feita.
Lembro de termos parado por alguns minutos onde a tal cruz se localizava. Estávamos nas alturas vendo um vale sob nós. Ao olhar para o caminho em direção até Monesterio, percebi que havia um pouco mais a subir até chegar ao centro da cidade. O pé e o calcanhar direitos já não existiam mais, pois eu havia abdicado de sentir dor. Coloquei a vontade sobre ela para poder seguir, com dificuldade, meus companheiros de jornada.
Seguimos pelas ruas até o centro da cidade passando por casas e coméricos com calçadas estreitas. Esta cidade já era um pouco maior que os vilarejos pelos quais passamos anteriormente. Podíamos ver que as construções já eram maiores daquelas que vimos nos dias anteriores.
Parecia um caminho sem fim, o sofrimento tivera sido deveras prolongado. Só queria uma coisa, terminar essa etapa e nada mais.
Meus companheiros haviam reservado mais um aposento privado para esse dia em vez de pegar um albergue público na cidade. Era um pequeno e modesto hotel branco que ficava na praça central da cidade, ao menos era o que parecia ser.
Lembro-me muito bem, o sol seguia a pino como de costume nesses dias de primavera que antecedem os longos dias de verão.
Chegamos na recepção, uma mulher nos atendeu. Dêmos nossos nomes, pagamos, tivemos nosso passaporte peregrino carimbado e ela nos mostrou nossos aposentos no segundo piso.
O quarto era simples, mas era só meu! Sem roncos e outros sons noturnos para quebrar meu sono.
Conforme fazíamos todos (os poucos) dias até então. Iríamos realizar a rotina básica de tomar um (longo) banho, lavar a roupa e estendê-las. No terraço, terceiro piso, havia um espaço coberto onde poderíamos deixar nossas roupas para secar.
Após quase 30 ou 40 minutos de arrumação, saímos, como de costume, para tomar algumas merecidas canãs de cervezas ou raddlers.
Fomos ali na praça central (???) mesmo onde havia o bar e restaurante El Riconcillo com mesas externas onde poderíamos apreciar a vida pacata do meio da tarde. Estariam todos dormindo devido à siesta? Não sei. Embora não fosse um vilarejo como os anteriores, também não era um grande centro urbano. Mesmo para padrões espanhóis, Monesterio deve ser uma pequena cidade (segundo o Wikipedia, não há mais de 5 mil habitantes).
Tomamos uma mesa para nós próxima de um grupo de gringos (quem sou eu para falar). Ok, eram turistas internacionais. Suas roupas indicavam que não eram dali, com certeza. Suas cores de pele eram muito brancas para aquela região tão ensolarada. Não sei como, britânicos estavam em Monesterio fazendo sabe lá o quê. Você vai dizer: “ora, o que mais senão fazendo a peregrinação?”. Não, suas vestimentas era de turistões mesmo. Camisas floridas, sapatos com meias até a altura do joelho e bermudas estranhas, brega para dizer o mínimo.
Aí que ocorre mais um evento de choque cultural entre pessoas de países distintos.
Os turistas têm dificuldade de fazer seu pedido ao garçom que não fala inglês. Talvez qualquer outro turista teria usado a linguagem dos sinais ou o Google Translator para compreender o que cardápio dizia. O garçom se esforçou como pôde para receber o pedido, mas quando não se fala outra língua, ainda mais de outra raiz linguística, não há muito o que se fazer. Não estávamos em Madri ou Barcelona, estávamos em Monesterio, uma pequena cidade da Espanha profunda.
Quando o garçom se retira, os tais turistas britânicos começam a reclamar do atendimento e do garçom. Acreditavam que por serem turistas, deveriam ser recebidos com sua língua pátria onde fossem, praticamente com um tapete vermelho. No entanto, eu me questiono se não é papel do turista fazer sua parte.
Eu sei, você pode me questionar se na Holanda eu aprendi alguma coisa antes de ir ou então na Mongólia, países que visitei posteriormente ao caminho. Bem, daí, precisamos analisar caso a caso. A Holanda é um país bem mais desenvolvido que a Espanha, logo, seus habitantes falam o inglês. Já na Mongólia, eu sabia que o choque de cultura seria tamanho que a língua seria a menor de minhas preocupações. Sem contar que eu me divirto em comunicação gestual. Histórias não me faltam em viagens passadas na Rússia que desta vez eu iria visitar com um pacote básico de palavras para não fazer tão feio.
A arrogância de certas pessoas me irrita, e ali não foi diferente. Pensei eu: “fiz meu trabalho de casa estudando o espanhol para chegar aqui e enrolar num portunhol”. Eu sei, o português e o espanhol são línguas primas, muito mais próximas entre si que do inglês, mesmo assim, o básico não custa. Ainda mais que o turista só ganha ao poder absorver toda uma camada de experiências que jamais teria se fosse a um país como um ser humano praticamente mudo. Ok, o dinheiro faz qualquer negócio, mas nada mais que negócios.
Voltamos ao hotel esbranquiçado perto do começo da tarde, algo por volta das 17h30. Enquanto meus companheiros tratavam das suas coisas, saí para ir ao mercado mais próximo para comprar provisões para o dia seguinte.
Nesta caminhada, meu corpo já havia esfriado, inclusive meu calcanhar. Ali comecei a sentir os efeitos colaterais de ter negado minha condição ao “escalar” o morro que nos levara até Monesterio horas antes. No lugar da dor, havia um travamento dos músculos em torno do calcanhar. Sim, eu estava mancando. Andava torto. Quem me visse, jamais poderia acreditar que eu poderia ser um peregrino que usa, obviamente, os pés para tal empreendimento.
Fiz o que eu pude, comprei água, barras de cereal e frutas para o dia seguinte.
Na volta para o hotel, vi o holandês das “mangas vermelhas” e seu amigo suíço, um sujeito de óculos, bem sorridente e comunicativo. Estavam numa mesa externa de um bar.
Conversamos por um pouco tempo, o holandês ainda queimado de dias antes reclamava de seu joelho, o suíço de óculos me dissera que esse não era seu primeiro caminho até a cidade de Santiago de Compostela.
Deixava minhas compras no quarto quando o senhor alemão bate à minha porta dizendo que iriam comer um jámon ibérico pata negra comedor de bellota.
O senhor alemão vai num açougue local, compra algumas centenas de gramas dessa carne mundialmente famosa e sai. Sigo-o, como posso, até o outro lado da rua onde iríamos “farofar” num bar. Sim, comeríamos o tal jámon famoso na cara dura enquanto consumiríamos a cerveja local com limão, a tal radler. Estávamos na mesa externa, vendo o sol se pôr com a crème de la crème de porco com uma cerveja espanhola suavizada com um xarope ou suco de limão. Foi sem dúvida, naquele momento, que tivemos um estupendo quality time apesar de minha condição física.
Saímos dali e fomos em direção ao restaurante Meson Casa Juan. Creio que o guia em alemão do caminho do senhor alemão havia sugerido tal lugar devido à qualidade de suas refeições. Por que não? A mim, só restava segui-los... Ou tentar.
Nesta hora, senti o peso da fraqueza física. Eu estava mancando muito, eu dava um passo por vez e bem lentamente. Da minha panturrilha para baixo, estava tudo empedrado. Não havia articulações, músculos. Nada, só pedra. Ali bateu o desespero, “como poderia continuar?”.
Foi difícil acompanhar meus colegas de caminhada até o restaurante. Eles precisaram parar por diversas vezes para que eu pudesse alcançá-los. Agora eu via que havia pago um preço altíssimo por ter negado minha condição.
Enfim, chegamos ao tal restaurante que ficava a algumas quadras do hotel. Dentro dele, havia um aspecto todo amadeirado. O balcão do bar ficava à direita, as mesas ficavam ao centro e à esquerda. Havia uma lareira ao fundo. E como não poderia faltar, uma televisão de tela plana pendurada na parede mostrando algum esporte ou noticiário para quebrar o clima do ambiente.
Pedimos o prato da casa, um churrasco de cerdo (porco – o que mais você esperava nessa terra dos famosos porcos espanhóis?).
O lugar deveria ser realmente famoso, pois várias mesas estavam ocupadas, além do balcão do bar, onde os locais bebiam suas cervejas e comiam petiscos.
Ficamos ali, não mais de 1 hora. O dia havia sido puxado e precisávamos repousar o máximo que podíamos.
A volta foi outro suplício. Mais uma caminhada mancando fortemente até o hotel. Andei a passos de formiga até ele. Ao menos, no meio do caminho, pude reparar no céu que estava belíssimo com vários tons de azul. O silêncio era total. A noite parecia ser minha e das luzes das vielas (foto).
Num estilo meio Van Gogh, ou quiçá Monet, a cena da cidade à noite era uma pintura. A foto num celular de qualidade mediana e lente borrada aplicou um filtro sem querer.
Adentrei ao meu quarto, arrumei a minha mochila para o dia seguinte. Fiz os banhos de água quente e fria para tentar recuperar minha perna direita. Passei o que pude do creme para desinflamar o calcanhar. Só um milagre poderia me recuperar para o próximo dia.
Ajustei o alarme do celular para o dia seguinte. Não precisei de venda ou dos protetores auriculares para dormir. Estava só no quarto.
Dormi cedo, pois estava podre com P maiúsculo sem saber o que o dia seguinte me aguardava. Ao mesmo tempo, aliviado, sabendo que minha missão estava cumprida e que desistir não seria um problema, mas uma possibilidade.













