Do dia para a noite, as coisas poderiam mudar drasticamente. A manhã de céu azul sem nuvens e um calor de trinta e tantos graus denunciaram mais um dia suado. Acordei, tomei café, saí para o trabalho ofegante dentro de um terno preto e apertado por uma gravata lilás. O piche preto lançava ondas térmicas para meu corpo já fervente. Paguei uma nota vermelha amassada no ônibus, que chacoalhou meu enjoo por uma hora e meia de trânsito. Saí da coisa metálica com o cabelo ensopado de suor e a pasta de couro marrom escorregando das mãos. Se o chefe me ver assim, digo adeus ao salário verde murcho do qual sou dependente. Compro lencinhos e me enxugo, torcendo para o terno preto esconder as demais manchas suadas. Na empresa, tomo mais um café aguado, e fixo os olhos na tela branca até o dia ficar colorido com o pôr do sol. Quando saio vejo chuva e uma quase noite cinza escura. Entro molhado no ônibus e desço dele com a carteira roubada. Mais problemas a serem resolvidos, além da falta de felicidade. Comecei a me questionar: eu não tinha uma vida. Era ela quem me tinha.