Eu versus eles
Jean Vinícius
Caro leitor, você já teve rituais durante algum momento da sua vida? Seja fazer uma oração antes daquela temida prova, rezar o pai nosso para que a internet volte logo, comer primeiro os pés e a cabeça da tortuguita ou até mesmo colocar bombril na antena da tv para melhorar o sinal, dentre outras coisas mais.
No meu caso um tipo de ritual era diário. Antes de dormir havia toda uma preparação. Não era somente apagar as luzes, ou arrumar a cama. Havia todo um preparo para que os tão indesejados pernilongos não me incomodassem. Primeiramente, certificava-me que o incenso estava aceso e o ventilador ligado, posteriormente verificava se as janelas estavam fechadas e se meu corpo não estava com um possível ferômonio que os pudesse atrair. Quando nada disso resolvia, o jeito era embrulhar-me todo com o cobertor ou em casos extremos sair perseguindo-os com a raquete de choque.
E assim foi com o passar dos anos : nessa guerra travada entre eu versus essas criaturas. Mês passado fui viajar e muito antes da viagem fui avisado da quantidade de pernilongos que havia no lugar para onde estava indo. Desesperei-me. Logo imaginei que meus rituais diários não seriam necessários para afastá-los devido a quantidade de criaturas existentes no local. Em um primeiro momento, pensei em comprar uma raquete de choque, mas matar todos eles seria um genocídio contra a mãe natureza, pensei em levar aquelas roupas de apicultor mas elas não couberam na minha mala, ou até mesmo em uma roupa de astronauta, mas não consegui entrar em contato com a NASA para pedir uma emprestada. Após muito pensar, comprei o necessário: repelentes, óculos, chapéu, protetor, calças e blusas de manga comprida, principalmente, e segui viagem.
Feitas as malas, viajei com mais 32 pessoas em direção ao Pantanal e por lá ficamos durante nove dias. Fiquei hospedado em várias fazendas ao longo do rio Paraguai, e se eu já achava a quantidade de pernilongos em São Paulo grande, no Pantanal havia colônias, sociedades compostas de centenas ou até milhões dessas espécies nos esperando com seus bicos sug sug prontos para me atacar.
Quando anoitecia, a guerra começava. Eles saíam de suas tocas, de suas sociedades secretas atrás de mim. Portas e janelas continham telas para impedir que eles entrassem no quarto à noite. Mas dentro do quarto eu os via, olhava em seus olhos o fundo da sua alma e o desejo em meu sangue cheio de plaquetas e glóbulos vermelhos. Colocava mangas compridas, sempre usava calça e tomava banho de repelente e até mesmo usava capa de chuva em certos dias, mas nada adiantava. Enquanto estava nos quartos não era atingido, mas à noite quando saía para observar o céu ou ir jantar no refeitório que ficava próximo ao dormitório, a guerra mais uma vez iniciava-se.
Quando não estava no quarto eles vinham em minha direção e eu não enxergava nada pois não podia ligar a lanterna porque mais outros vinham na direção da luz. Eu dizia ‘’ Não, não caminhem pra luz’’ e todo o meu preparo que havia feito no quarto, pouco adiantava e qualquer parte de meu corpo descoberto, o mínimo que fosse, virava alvo. Pensava sempre em matá-los, mas ao mesmo tempo pensava em suas famílias e nos pequenos bebês pernilongos que ficariam sem pai e sem mãe após o tapa que iria dar e fazê-los cair no chão. Antes disso, tentava intoxicá-los com repelente ou espantá-los com o movimento de meus braços, em último caso metia-lhes a mão na cara. ''Desculpe, bebês''.
Passados os nove dias após essa batalha travada e tentando das mais diversas formas me livrar deles, o dia de meu retorno a São Paulo chegou e eu certamente sei que devo ter deixado por lá irmãos, companheiros sangue do meu sangue.













