aviso de conteúdo : violência, sangue, automutilação.
O por do sol reluzia, refletindo em suas escamas douradas e laranja, o cheiro da primavera enchendo a narina da dragão enquanto cochilava sobre o toque suave de sua montadora. Era quase noite e logo Melian iria se deitar, mas ela sempre tirava um tempo para estar com sua dragão. A dragão bocejou preguiçosamente ao sentir a loira se movimentar e abriu os olhos seguindo os passos da outra até que a visse perto de sua cabeça. Sentiu a mão em seu focinho e fechou os olhos encostando a parte de cima da cabeça no tronco de Melian, como uma despedida. Ela e rolou sobre o chão de seu ninho vendo a montadora se afastar e bufou, como se rejeitasse a ação, mas nada fez. Vagarosamente e voltou a fechar os olhos para dormir.
Ainda que a noite fosse calma, a brisa fria das noites de primavera fazia a dragão se encolher ainda mais em seu ninho, sem voos noturnos quase de forma preguiçosa. A rotina que havia sido habituada incluía alguns treinos e um voo breve pela manhã.
Mesmo com o atraso de sua montadora Ferja esperou, a calda se debatendo como um chicote contra o ar. Apesar das irresponsabilidades de Melian, descumprir com seu compromisso com a dragão nunca fora cometido gerando ansiedade no animal. A conexão com o montador era algo sagrado, um elo a ser respeitado e sempre mantido. Ferja podia sentir algo errado, seus instintos se aflorando e fazendo bufar a cada segundo. Algumas horas passaram do combinado e pela primeira vez Ferja rosnou em seu ninho, espantando os animais ao redor.
A dragão urrou sentindo uma dor lacerante nas costelas, como se fosse realmente atacada. Em certo desespero ela se levantou se debatendo nas paredes do ninho com força causando um alvoroço ao seu redor. Ela estava fora de controle. Ferja cambaleou até a ponta do ninho lançando voo sem sua montadora, um voo desajeitado, quase que desesperado enquanto gritava. Ela não planou mais que alguns segundos antes de cair no chão se contorcendo.
Ferja sentia a dor, parecia estar desesperada e com medo, ela rugia e labaredas saiam de suas boca sem rumo. Qualquer um que passasse perto do dragão poderia estar condenado. Quase que de forma louca a dragão se debatia, soltava suas chamas em desespero. A dor lacerante que ela sentia não era de ferimentos seus, mas de sua montadora.
Ferja sentiu o olho queimar, o olho esquerdo parecia ser inundado por fogo. A dragão se agitou ainda mais com a sensação estranha e dolorosa, não poderia ser ferida por fogo, mas ainda sim sentia aquilo. Ainda no chão ela rosnou, esfregando o lado esquerdo do rosto na terra para limpar, mas não funcionou. No auge do desespero a dragão enfiou uma das garras dentro de seu globo ocular arrancando por completo como um instinto de sobrevivência.
Com um último urro de dor Ferja se deitou no chão bufando. Ela lambeu o sangue da própria pata a passou no ferimento fresco. Voou novamente para seu ninho se deitando no fundo com um suspiro longo deixando que a fumaça saísse pelo próprio focinho resfriando seu corpo. A calda grande do animal ficou na porta como um aviso que não deveria ser perturbada, um ar quase deprimido pairou na dragão agora reclusa que se recusava a sair de sua toca por um tempo.