A distância não nos permite enxergar melhor, mas achamos que em cima daquele dragão está Melian Eorl, uma cavaleira de 23, que atualmente cursa a terceira série e faz parte dos Cavaleiras. Dizem que é corajosa, mas também inconsequente. Podemos confirmar quando ele descer, não é? Sua reputação é conhecida além das fronteiras, e dizem que se parece com Mia Wasikowska.
A vida de uma changling não é fácil, nunca foi, seres quase que amaldiçoados pela sorte ao nascer e fruto de um amor maldito por homens. Melian Eorl poderia ter fugido de sua sina se caso tivesse respeitado a natureza e permanecido natimorta como foi enviada a ser. Entretanto, o amor de sua mãe e sua força de vontade em desafiar o destino foi maior, e mesmo com os primeiros segundos de sua estadia naquele mundo sendo nada mais que um bebê pálido e sem vida, seu choro ecoou pela casa de sua mãe como um alerta que ela estava naquele mundo e não iria se retirar tão facilmente.
Melian apesar da boa saúde, possui aparência pálida e quase mórbida com uma insistente tosse que parece nunca a deixar. Seu cabelo loiro claro e olhos negros como a noite poderiam ser característicos de uma dama, mas constantemente ela era vista entre os animais e na copa das árvores. Seu espírito e personalidade fortes não passavam despercebidos, sempre respondendo ou arrumando alguma briga por algo que considerava necessário.
Após a morte da mãe, seu irmão mais velho, Lucien era quem cuidava de si. Eles eram inseparáveis e apesar das desavenças estavam sempre um pelo outro. Quando Lucien foi levado ao instituto Wülfhere Melian não teve escolha a não ser se alistar mentindo a idade para tal.
Mesmo muito jovem, Melian Eorl se destacou e se mostrou capaz de ter nervos fortes o suficiente para passar pelas provações. Com seus dezoito anos foi capaz de formar um laço com um dragão flamion que chamava de Fajra. A princípio Melian ficou extasiada em ver as escamas douradas e laranjas do animal, com os olhos em brasa. Em sua juventude ela pensou que domaria aquele ser a qualquer custo, mal sabendo ela que na verdade, o poder de escolha estava no dragão. Ainda sim, a primeira vez que montou Fajra e voou, foi como respirar pela primeira vez. Melian sabia que nasceu para isso.
Farja era menor do os dragões que estava acostumada, mas isso não a tornava menos majestosa aos olhos de Melian. Pela primeira vez, ela sentiu que algo valia a pena e sua vida poderia ao menos ter algum sentido. A conexão que tinha com Fajra era profunda, Melian sentia-se no dever de honrar a escolha do dragão.
Os ventos que seguiram o festival foram algo que surpreenderam até mesmo Melian. Apesar de já acostumada com situações caóticas, nem mesmo ela poderia pensar naquelas possibilidades. Aparentemente, tudo havia sido planejado o suficiente para que ninguém desconfiasse, e de fato foi realizado. A loira ainda tinha dificuldade de confiar nas boas intenções de qualquer Khajol, com a exceção de Zara. Ainda assim, continuava obrigada a aprender com os Kahjols sobre seus deuses na escola. O que era horrível em sua opinião. Mesmo sendo que deveria fazer Melian preferia dificultar a vida daqueles a sua volta. O que significava continua usando as pequenas falhas de segurança contra eles. Havia conseguido itens interessantes, em sua maior parte bebidas de boa qualidade, e uma ou outro item antigo que definitivamente daria para Cillian. Parte da diversão era ver os olhares quase que assustados, em especial quando chegava na escola em suas roubas de batalha, uma calça e uma blusa creme velha e manchada de sangue, que se quer se dava o trabalho em amarrar corretamente. Exatamente quando pensava ter esgotado as possibilidades de formas de acabar com a vida de seus professores reconheceu uma figura. O mesmo homem que havia roubado durante o festival. Seu sorriso apenas aumentou quando o viu na sala. Não sabia que ele era um dos professores. Decidindo pular a próxima aula esperou do lado de fora recostada em uma das paredes até que ele finalmente saiu da sala após os alunos. "Olha só. Conseguiu achar o caminho de casa?"
A inconformidade da mais nova o fazia sorrir vez ou outra, não por achar propriamente divertido, mas por ver o quão pavio curto ela podia ser às vezes. A proximidade entre ambos, no entanto, nada mais seria do que uma conveniência, até porque ainda a achava puramente irritante - como demonstrava agora, só que com os outros. Era difícil ignorar, no entanto, a preocupação que tivera na época em que esta permaneceu em descanso após o ataque, e foi a primeira vez que Kadaj sentiu mínima afeição para com a mesma. "Eu não pensei em te prejudicar," Mentiu. "apenas optei pelo mais divertido. Imagine se você realmente der sorte, que engraçado seria." Retrucava em meio aos xingamentos da mais nova diante de quem estava atirando agora. Até mesmo o soldado estava começando a ficar incomodado com a fila que não andava, olhando vez ou outra para o lado a fim de enxergar além das pessoas adiante. Mantinha seus braços cruzados, equilibrando-se com o peso ora em uma perna, ora n'outra. "Às vezes, eu só te trouxe aqui pra treinar essa sua visão. Claro, não sei como é pra você agora, mas, certamente, é algo a se adaptar após um longo tempo treinando. Se acertar em alguém... bom, paciência. Mas não vou passar mão na sua cabeça só porque está deficiente." Andaram mais alguns passos e após três avanços já estavam mais perto que longe da brincadeira, o que já permitia que Kadaj visse com mais liberdade por cima das cabeças os competidores. "Seu seon... Você o nomeou de quê? E como é estar ligado com um deles? Mesma coisa que um dragão?"
"Lucien..." Melian respondeu, seus olhos desceram passando a encarar o chão. Escolher o nome do irmão havia sido consciente demais. Havia pensando diversos nomes, alguns inclusive poucos usuais e até inadequados, mas havia certo conforto em poder dizer o nome em voz alta. Ter discussões com Lucien era algo comum no passado, nenhuma séria ou que realmente os afastasse, e desde que ele foi levado ela não tinha mais motivos para dizer o nome dele. Ao menos teria um bom motivo para dizer o nome dele alto agora. A loira voltou a fitar o mais velho, deixando de esconder o rosto entre os cabelos longos, e assumindo novamente o tom petulante e confiante. "Bom, se ele vai ficar falando na minha cabeça e enchendo o saco deve ter um motivo para isso." Andaram mais uma vez, chegando mais perto da atração. Ainda impaciente, a loira bufou enquanto contava mentalmente as pessoas a sua frente. Diferente de Kadaj ela não tinha a menor vontade de se misturar com os Khajols. "Não... É diferente. Eu e Ferja nos completamos, eu sinto o que ela sente. Não é algo racional." Voltou a olhar para a bola prata e azulada voando ao seu lado e por alguns segundos se permitiu pensar no que sentia por ele agora que o medo inicial havia passado. "Mas ele... Bom, é mais como duas cordas amarradas.! É um nó forte e geralmente é mais fácil quando não estamos puxando em lados opostos, mas as vezes acontece... Eu entendo o que ele quer e ele me entende, mas não quer dizer que queremos a mesma coisa. Não nos completamos, mas ele faz parte de mim, como se sentisse em minhas veias." Satisfeita com a explicação franziu o cenho ouvindo a voz em sua mente, como um elogio. Finalmente quando não haviam mais pessoas a sua frente avançou rápido empurrando Kadaj de leve para trás. "Eu vou primeiro!" A primeira varinha atingiu em cheio a lona fazendo Melian rir do próprio erro. A segunda foi melhor planejada, mas de longe atingiria o alvo, indo direto para o rosto do anfitrião da tenda -assim como a terceira. `Por fim a loira não conseguiu derrubar sequer um dos patos, apenas fazer com que o anfitrião se escondesse um pouco atrás a cada tentativa de Melian. "Droga!"
Comprimiu os lábios em uma tentativa de segurar o riso. Reclamar poderia ser uma tática, mas fazia parte de Melian e de sua natureza. Tivera tempo para conhecê-la melhor e sabia o quão marrenta era, cheia de autoridade e segurança, perturbando o juízo de qualquer pessoa que tentasse tirá-la do sério. Freyja mesmo era um exemplo de vítima, e agora que entendia e sabia como lidar, não se sentia mais intimidada. “Isso você não me ensinou nas aulas.” Deu de ombros com um sorriso discreto, não muito animada em irritá-la de verdade e optando por assistir ao jogo sabendo que a veria ter um ótimo resultado. Por pouco não sairiam dali cheias de dinheiro. Melian tinha uma habilidade excepcional, de forma que os músculos dos braços ficaram mais expostos conforme se atirou na brincadeira, algo que Freyja sequer podia comparar com os próprios. Tinha ganhado um pouco de massa magra, mas precisava ralar para chegar próximo do porte atlético da loira que era admirável, o que significava que ela não podia encarar muito. Sua dificuldade com limites era grande. Bateu palmas, fazendo com que os outros a acompanhasse, enquanto ela disparava a acidez contra os homens que mereciam ouvir coisa pior. “Brilhante!” Elogiou, os olhos faiscando de orgulho de sua tutora particular. “Devia ter ido primeiro, então. Vão devolver o frangotes em um instante.” Riu um pouco nervosa, tomando seu lugar para bater contra o alvo do martelo e sentindo a tensão descarregar pelo corpo conforme atingia a superfície rígida com o lado chato do martelo. Esperava que fosse um choque de adrenalina, mas o efeito foi o contrário. Ficou bastante distante da altura de Melian, quase na metade do alvo, e o que fez foi rir. Esperava algo muito pior. “Não sirvo para isso. Vou precisar de aulas dobradas se quiser ganhar decentemente.” Dramatizou ainda aos risos, anotando o próprio nome no caderno de pontuações que os responsáveis pelo jogo tinham. “Vou torcer para que você seja imbatível, e quando ganhar seu prêmio, vai poder me pagar uma bebida e três pães recheados.”
O sorriso de Melian aumentou ao perceber que havia ao menos impressionado Freyja, não poderia passar vergonha na frente de sua aluna. Observou enquanto a outra se aproximava do brinquedo, sua atenção focada também na forma que ela movimentava, como se estivesse atenta a qualquer deslize. Não esperava que um Khajol tivesse a força de alguém que já teve treinamento militar por tanto tempo, mas estava satisfeita em notar a evolução. Metade da barra era melhor do que a maioria deles. Voltou a encarar os homens apostando com um olhar mortal, indicando que não toleraria insultos. "Acho que estou pegando muito leve com você!" Respondeu despreocupada, quase que de forma maliciosa. Ter piedade de quem estava contra si em um campo de treino não era muito uma das características de Melian. "A partir de agora vamos treinar de verdade." Se colocou ao lado da morena, passando o braço pelo dela, enquanto a puxava para fora do espaço do brinquedo. Tinha certeza que aquilo era na verdade um esquema, havia algum tipo de trapaça que ainda não conseguia explicar. Não mencionaria isso a Freyja claro, deixaria ela pensar bem de sua força bruta. "Mas agora o que importa, eu quero muito uma pelúcia e você precisa me dar uma. Eu sou horrível em tiro ao alvo!" Confessou com certa dramatização. O festival continuava a fervilhar entre os convidados reais e os interessados, havia todo tipo de atração. "Quem sabe eu posso até usar o dinheiro que você me paga para comprar alguns pães recheados? Tudo depende de o quanto vou ou não ter a pelúcia que quero."
Embora agora os dois tivesse mais coisas em comum, sendo a criatura orgulhosa que era, o Essaex tinha começado a virar a cara toda vez que via o vislumbre de Melian por aí desde que ela feriu seu ego. Teria feito isso agora, mas era tarde demais quando percebeu ela logo ao lado, falando diretamente consigo. Vincent ergueu uma das sobrancelhas para ela, lançando um olhar afiado que a informava que a presença dela não era mais bem vinda. As palavras ásperas subiram até a ponta da língua, mas ficaram de lado com a oferta inesperada de ajuda da loira. ── Hum… ── Ela estava certa — se Vincent já não entendia muito sobre dragões, veja lá sobre um com seis séculos de idade! Eldritch não colaborava muito sendo ainda mais cabeça dura do que ele. Mas era duro admitir, porque o príncipe detestava ser ruim nas coisas. ── Até que seria útil. Ele está mesmo precisando de um lanchinho… ── Deslizou um olhar de cima para baixo, avaliando-a como uma carcaça de pouco valor, o vislumbre do bom humor perverso cintilando no Júnior quando emendou: ── Mas não sei se ele aceitaria colocar qualquer coisa na boca. ── Apesar do desdém, não podia esconder que a ideia o interessava… e que também estava um tanto confuso, porque, sinceramente, a tentativa de um pedido de desculpas era a última coisa que ele estava esperando ouvir dela. A encarou como se buscasse por uma explicação no semblante dela, ser saber ao certo como ler as intenções da loira. ── O que aconteceu? Thor mexeu com sua cabeça?
"Está tentando." Deu os ombros, forçando-se a não olhar para o Seon ao seu lado. Melian evitava a todo custo se lembrar do acontecimento, mas era impossível, a voz o tempo todo na cabeça, o constante lembrete que agora era parte de algum esquema divino... "Mas aposto que eu consigo deixar ele louco antes dele me deixar louca." Entendia de onde vinha a desconfiança do outro, e sabia que parte era de daquele sangue azul cheio de orgulho. Mas o príncipe estava longe de a conhecer de verdade, Melian era acostumada a pedir desculpas pela quantidade de merdas que já havia feito por impulso, e mesmo que o achasse um fresco por se sentir ofendido devia imaginar que uma pessoa cheia de não me toques se ofenderia por tão pouco. "Sabia que estou sendo coagida a frequentar Hexwood?" Perguntou, como se não fosse óbvio. A esta altura do campeonato todos deveriam saber, além de seu nome ser algo conhecido. "Pensei que adoraria ver o show que vou causar, tenho ótimas fofocas..." Novamente, Melian tinha o tom petulante de sempre com um toque quase infantil, como se montasse um novo plano infalível para dominar a rua. "Imagino como vai lidar com o campo de treino, quer dizer, ouvi que a maioria dos changelins não está nem um pouco feliz em saber que irá comparecer."
Ir naquela diversão talvez fosse a experiência mais parecida que iria ter de voar um dragão. Então, ela estava na fila, esperando que a sua vez chega-se. Foi quando viu um inseto aproximar-se nos cabelos dourados da garota que estava há sua frente.
Celestia alertou, mas parecia que tinha sido tarde demais. "Bichos maiores?" Questionou baixo. Agora a princesa estava curiosa que bichos a tinham mordido, as suas aventuras fora daquela escola " Talvez seja por medo de se machucarem." Respondeu há mulher que estava há sua frente. Mesmo que a maneira como a loira falou tenha sido extremamente rude, em parte concordava, aqueles vestidos não eram bons para um evento numa clareira. "Dizem que a paciência é um privilégio." Comentou ao aperceber que a outra se estressava bem rápido.
Melian apenas bufou com o comentário, como se não ligasse muito para o que foi mencionado. Seus olhos percorreram os da outra com certo dom de julgamento, até onde ela sabia, aquela era uma Essex. O mais aceitável deles, em sua opinião, era Vincent e unicamente por que ele tinha um dragão. "Bom, por mim que se machuquem." A loira ainda batia um dos pés, mudando o peso do corpo de uma perna para outra a cada segundo que tinha que esperar. "Bom, eu não sou uma mulher muito privilegiada se quer saber. Alguns de nós, bem..." Seu olhar caiu sobra a princesa quase que em tom julgador, como se analisasse cada detalhe e escolha tomada naquele segundo. "Acho que me entende." Sua mão passou sobre o local onde fora mordida sentindo uma irritação, nada comparado aos diversos ferimentos por veneno que havia acumulado nos últimos meses, mas ainda era levemente incomodo. "Ao que me consta você deveria estar acompanhada, não tem medo de ser roubada? Eu trabalho para os Byearne, não tenho obrigação de te proteger se der merda."
Melian deixou uma careta escapar com a possibilidade. Não era uma heroína, isso nunca seria. Era mais comum a ver em meio a confusão, entre os bandidos, na arena de luta, no bordel... Mas não sendo condecorada como uma heroína. Isso nunca. "Eu heroína?" Um sorriso quase que debochado surgiu nos lábios da loira. "Já pensou? Não combina comigo Clarinha." Ainda que fosse um soldado, um dos melhores inclusive, a má fama de Melian a perseguia. Não era por menos. Havia cometido mais crimes do que poderia contar, não tinha respeito pelas autoridades que a cercavam e constantemente se via desafiando qualquer tipo de ordem social. Ainda se admirava de não estar presa. Mas ao que parecia os ceus tinham planos diferentes. "Não vou esquecer de você nunca, e nem serei condecorada heroína. Queimo Hexwood antes disso rolar. Quando nos formarmos vou te levar pra morar comigo na casa que os Byearne me deram! É enorme!" Embora tudo que saísse da boca de Melian parecesse nada mais que uma grande piada, ela ainda tinha um fundo de verdade. "Além do mais, quem quer ser como eles? Os Khajols... Eu não."
"A ideia foi sua, e agora vamos entrar." Havia certa firmeza no tom de Melian, parecido com um desafio. A loira era tão superticiosa quanto inconsequente e por isso seques piscou ao dizer que entrariam. Embora tivesse medo das revelações, nada poderia ser pior do que já era ao seu ver. "Relaxa eu te protejo, eu tenho um dragão lembra? E agora posso fazer magia... Eu acho... Não sou muito boa, mas consigo destruir coisas." A confiança na voz da loira era quase convincente, embora as palavras fossem pouco animadoras.
Entraram na tenta, era quase que ambientado como um circo de enganações e trapaças. Ainda segurava o braço da amiga, sem muita certeza se mantinha o foco em achar a previsão ou apenas em fugir dali. "Ei, eu aposto uma moeda de ouro que a mulher vai apenas falar coisas óbvias e vamos sair rindo."
„Você nunca será como eles“ sussurrou Clara calmamente, acenando com a cabeça „mas, obviamente, os deuses têm um caminho definido para você, que você precisa seguir. Não sabemos o que nos espera e a diversão aqui não deve nos fazer relaxar, mas se tempos turbulentos estão por vir, existe a chance de você ter um papel importante na salvação de Aldanrae. Então, não importará quem é changelins e quem é khajols – todos estaremos do mesmo lado.“
Aqueles que passaram pelo treinamento militar deveriam estar preparados para o futuro perigoso que, em algum momento, os atingiria. A curandeira preferia não pensar nesse assunto e tentava viver sua vida dentro dos limites conhecidos de sua zona de conforto, mas, mesmo assim, estava pronta para fazer tudo o que fosse necessário. Sim, ela preferia tagarelar sem parar e provocar sarcasticamente os outros na academia, mas isso era a calmaria antes da verdadeira tempestade. Uthdon não desistiria de suas más intenções — a paz eterna não parecia possível. A jovem Erlithar acreditava no importante papel designado pelos deuses a Melian e tinha certeza de que isso ficaria evidente mais cedo ou mais tarde.
“Eu não recusaria viver em uma casa grande e bonita com você. Seria muito agradável estarmos juntos” Clara sorriu calorosamente. “Espero que seja exatamente isso que a madame Madge me prediga.”
Ela tentou mudar de assunto para algo mais positivo. Respirou fundo, reunindo toda a sua coragem — afinal, era apenas uma simples previsão, e Melian estava certa ao dizer que ela havia pedido para vir para cá. Suas palavras de que a protegeria com dragões e magia eram reconfortantes e isso fez seus olhos brilharem de alegria por ter uma amiga tão corajosa e boa.
A curandeira decidiu que precisava provar a si mesma e deu um passo corajoso à frente, chamando a atenção da adivinha. O sorriso da mulher era um tanto peculiar, como se ela tivesse percebido imediatamente a ansiedade da morena. Seus dedos apertaram os da mulher ao seu lado, e então a sessão começou.
A jovem Erlithar ergueu as sobrancelhas surpresa e virou a cabeça para a amiga assim que as cartas foram lançadas e examinadas com a maior atenção. Ela não tinha ouvido apenas o óbvio. Madame Madge havia revelado informações que poucos sabiam sobre Clara. Um suspiro de alívio escapou dos lábios da jovem, porque, para sua grande surpresa, ela só ouviu boas previsões. Será que elas realmente se tornariam realidade?
"Eu não diria que Thor tem um carinho por mim, a maior parte do tempo ele está em minha cabeça me chamando de rata inconsequente." A boa vontade da amiga sempre lhe surpreendia. Ainda tentava entender de onde ela tirava tanta esperança do mundo. Melian não tinha o olhar tão romântico quanto o dela. "Eu não acho que eles estão do nosso lado Clara."
"Eu aposto que ela dirá algo como encontrar o amor verdadeiro e qualquer besteira que deixem essas meninas Khajols suspirando." Melian olhava para as cartas com o cenho franzido, quase que em agonia com a espera. Não queria uma previsão ruim para a amiga, apesar de suspeitar que não passava de um esquema. Engoliu em seco quando as cartas foram jogadas, assuntos do passado voltando como um belo soco no nariz. Seus olhos focaram no rosto da amiga tentando decifrar o que ela sentia com aquilo. Não soltou a mão dela em momento algum, apertando vez ou outra apenas para a lembrar que estava ao seu lado.
Os ombros da loira relaxaram ao notar a boa predição, como se um enorme peso fosse lhe tirado. "Como eu disse apenas besteiras." Disse forçando a risada, o que fez a tarôloga curvar os lábios irritada. Melian não era petulante e não parecia ter qualquer tato social para a situação. O olhar de Madame Madge caiu sobre a loira, quase que de forma sombria enquanto reorganizava as cartas. Impertinente como era, se recusou a demonstrar qualquer tipo de medo, apenas erguendo o nariz e lançando um olhar de superioridade para a mulher.
As cartas desceram e Melian sentiu-se arrepiar. O passado conturbado apareceu, a loira sempre representada como algo que não deveria viver. Veio então o presente, representado pela perda e o futuro como algo grande e próspero... Mas havia um porém, uma quase maldição, algo que dizia que a loira traria a desgraça para aqueles que a rodeavam. "Parabéns, fez uma ótima pesquisa sobre a vida da heroína da reino." Rebateu sentindo a voz falhar um pouco. "Nada que as parteiras que me trouxeram ao mundo não tenham dito. Vamos Clara, essa mulher é nada mais que uma ilusionista. Vamos comprar algo para beber."
Um riso nervoso escapou dos lábios da curandeira. É claro que ela tinha ouvido falar da façanha da amiga e mentiria se dissesse que não tinha ficado preocupada com ela, embora sentisse mais orgulho. Ela sabia que essa era a vida delas — ainda havia muitos desafios e perigos pela frente. Afinal, elas eram militares e a aparente calmaria antes da tempestade não deveria fazê-las baixar a guarda. Seus dedos instintivamente procuraram os bolsos inexistentes de seu vestido, mas depois ela se esforçou para relaxá-los e voltar sua atenção para Melian. Um largo sorriso iluminou seu rosto e Clara deu um leve empurrão na mulher ao seu lado.
„Não se esqueça de mim quando você for condecorada e se tornar a maior heroína de Aldanrae“ brincou a jovem. „Mas, mesmo que você se esqueça, ficarei feliz por você. Apenas cuide de si mesma e tenha cuidado. Ainda quero que você me conte todos os detalhes quando tiver um tempo livre. Você é o nosso milagre!“
Ela tentou concentrar seus pensamentos na suposta leitura das cartas e apertou os olhos, avaliando a tenda da famosa cartomante. Sentiu seu coração acelerar e todo o seu corpo ficar tenso com as suposições que poderiam ser reveladas. Seriam boas ou ruins? Ela sairia assustada ou feliz? Perguntas para as quais não havia resposta.
„Já ouvi falar de bonecos de pano nos quais se espetam alfinetes, mas o feitiço vai ser mais útil para você“ disse Clara, mas sua voz soava rouca demais para parecer uma brincadeira. Ela respondeu ao forte aperto de Melian e se virou para ela para perguntar: „Tem certeza de que quer entrar?“
Como ela conseguiu ficar em Wülfhere por tanto tempo? Oh, como a jovem curandeira era medrosa.
Melian deixou uma careta escapar com a possibilidade. Não era uma heroína, isso nunca seria. Era mais comum a ver em meio a confusão, entre os bandidos, na arena de luta, no bordel... Mas não sendo condecorada como uma heroína. Isso nunca. "Eu heroína?" Um sorriso quase que debochado surgiu nos lábios da loira. "Já pensou? Não combina comigo Clarinha." Ainda que fosse um soldado, um dos melhores inclusive, a má fama de Melian a perseguia. Não era por menos. Havia cometido mais crimes do que poderia contar, não tinha respeito pelas autoridades que a cercavam e constantemente se via desafiando qualquer tipo de ordem social. Ainda se admirava de não estar presa. Mas ao que parecia os ceus tinham planos diferentes. "Não vou esquecer de você nunca, e nem serei condecorada heroína. Queimo Hexwood antes disso rolar. Quando nos formarmos vou te levar pra morar comigo na casa que os Byearne me deram! É enorme!" Embora tudo que saísse da boca de Melian parecesse nada mais que uma grande piada, ela ainda tinha um fundo de verdade. "Além do mais, quem quer ser como eles? Os Khajols... Eu não."
"A ideia foi sua, e agora vamos entrar." Havia certa firmeza no tom de Melian, parecido com um desafio. A loira era tão superticiosa quanto inconsequente e por isso seques piscou ao dizer que entrariam. Embora tivesse medo das revelações, nada poderia ser pior do que já era ao seu ver. "Relaxa eu te protejo, eu tenho um dragão lembra? E agora posso fazer magia... Eu acho... Não sou muito boa, mas consigo destruir coisas." A confiança na voz da loira era quase convincente, embora as palavras fossem pouco animadoras.
Entraram na tenta, era quase que ambientado como um circo de enganações e trapaças. Ainda segurava o braço da amiga, sem muita certeza se mantinha o foco em achar a previsão ou apenas em fugir dali. "Ei, eu aposto uma moeda de ouro que a mulher vai apenas falar coisas óbvias e vamos sair rindo."
De fato, Kael não fazia a menor ideia da fama daquela mulher, mas algo nela acendeu um alerta silencioso. Talvez fosse por pura intuição ou, talvez, fosse Noeul tentando lhe dizer alguma coisa. Apesar de sua relação com o seon fosse, no mínimo, conflituosa, vez ou outra Jin conseguia captar os sinais. Era uma conexão instável, de amor e ódio, mas funcional o bastante para reconhecer os avisos quando eles vinham. “Ah, essa é exatamente o tipo de resposta que uma pessoa suspeita daria” Comentou com um sorriso de canto, carregado de malícia. Havia diversão em seu olhar, como se a tensão do momento fosse, na verdade, um convite. Um desafio, era assim que ele definiria aquilo, e ele adorava desafios, especialmente os que faziam o coração bater naquele ritmo gostoso de antecipação. Por isso, não se afastou, ao contrário, se aproximou um pouco mais. “Você tá mesmo me atraindo para uma armadilha, não é, loirinha?” O brilho que surgiu em seus olhos era claro: Melian havia conseguido acender uma faísca, um jogo perigoso… e delicioso. Razão essa de ter envolvido o braço dela para puxa-la delicadamente até que pudessem estar em um lugar mais calmo. “Quer apostar pra ver? Quero ver até onde você vai com esse joguinho”
Melian sorriu, havia ganhado o jogo quando conseguiu despertar o interesse do outro, isso era fato. Sentiu a pressão dele em seu braço e não lutou contra. "Eu? Nunca faria isso." Embora mantivesse um olhar quase que inocente os lábios da loira se curvaram de uma forma quase maliciosa, como se escondesse um segredo e de fato fazia. "Acredite, eu sou uma ótima apostadora." Melian tinha um plano, não um plano muito bom, mas definitivamente um plano. Afinal se ele queria jogar ela também poderia. De certa forma, estava proporcionando o que ele tanto desejava, emoção. A changeling era uma especialista em arrumar problemas e em causar problemas para outras pessoas. Claro que uma pessoa mais avisada sequer teria sonhado em segui-la qualquer lugar que fosse, mas aparentemente, ele era dos aventureiros. Ela o deixou ser puxada por algum tempo, até notar uma brecha, um pequeno lugar entre duas atrações exatamente como queria, escondido entre duas tendas e algumas árvores. Não hesitou em puxa-lo para o local com uma risada quase brincalhona. "Rápido" O espaço era apertado, mas pelos planos de Melian seria o suficiente. Estavam próximos o suficiente para que pudesse sentir a respiração dele em seu rosto, suas mãos repousando sobre os ombros dele, mas sem o prender dando certa ilusão de liberdade. "Com medo é?Ainda pode fugir se quiser." Ela era impaciente, não esperou mais que alguns segundos pela resposta, a falta de uma negação era o suficiente para que selasse seus lábios aos dele.
Pelos dizeres de Melian, era fácil dizer que ela não sabia da metade da história, mas não ousou dizer uma palavra sequer enquanto ela discursava. Mesmo com certo receio e mágoa envoltos da changeling, ele tinha um nível de tolerância e de receptividade completamente parciais em relação a ela. Todos os medos que ela compartilhava eram justos e, ainda, não eram nada novidade para ele. Ele já tinha passado por todo aquele processo antes, desde o receio da família de Sigrid até a recusa dela. Podia dizer de olhos fechados que estava tranquilo sobre tudo aquilo porque confiava em Sigrid e no que estavam construindo juntos. Melian não entendia porque não sabia, e ele não podia julgá-la por isso. Quando ela finalmente terminou, ele respirou fundo, olhando para os cantos para tentar vê-la sem atrapalhar o artista — por experiência própria, não queria lápis arremessado na cabeça por ter mudado de pose. “Já passei por todas essas fases, Melian. Não conheci Sigrid há poucos meses… Conheci ela antes de me casar com Makaela.” Admitiu em voz baixa, um pouco menos tenso quando notou que a tenda da caricatura não estava cheia de pessoas curiosas e desesperadas por algum entretenimento. “Eu me casei com Makaela por causa dela, se quer saber. Fui eu quem recusei a ideia de amor por um casamento tradicional e respeitável para os changelings por querer tanto me tornar um dirigente, e você sabe o final da história.” A morte de Makaela, em sua mente, era total responsabilidade dele, de sua maldição e de sua arrogância desesperada por cada vez mais poder. “Não acho que a família de Sigrid pode me ferir de alguma outra forma que já não tenham feito antes, e ela também não está disposta a correr o risco. É tão difícil acreditar que ela praticamente me pediu em casamento?” Não conseguiu esconder o sorriso, o polegar coçando o anel escuro que usava desde o casamento dos pupilos do imperador. Era quase estranho se imaginar não usando ele porque era um lembrete de Sigrid e do que ela realmente queria. Ainda precisava de um tempo, mas faria o desejo mais profundo de ambos se concretizar. “Sabe que sinto muito por tudo que aconteceu com Lucian e que tentei fazer alguma coisa a respeito. Não quero apagar essa história, mas tenho esperança de que toda a loucura do imperador sirva de alguma coisa. Espero pelo melhor desde aquele outro circo dos horrores.” Mencionou a festa que acabou na morte da imperatriz, e mesmo com todos os acontecimentos, Seamus Essaex tinha levantado uma bandeira a favor de changelings e khajols juntos. “Tadhg está mais seguro do que você pensa, e eu também. Também me importo com você e te perdoo mesmo sem ter pedido perdão devidamente.” Deu um riso curto. “Só preciso que confie em mim dessa vez. Prometo que não vai precisar pensar em agir de alguma forma.”
Ouvir Cillian lhe dirigir a palavra diretamente foi um alívio, os danos que causou eram reversíveis ao menos. A surpresa veio de saber sobre uma parte da história que não lhe era conhecida, uma parte que sequer poderia imaginar. Estava surpresa em redescobrir uma parte da vida do professor que achava já conhecer. Melian se levantou em um impulso da cadeira. "O que?" A surpresa em seu rosto deu apenas lugar a raiva ao sentir o lápis do artista atingir sua cabeça. Ela olhou para ele como se estivesse pronta para atacar antes de se sentar novamente murmurando um xingamento inaudível. Voltou a manter a pose para a caricatura, sentada ao lado do professor, tentando não parecer surpresa demais. Na realidade estava, não imaginava que ele teria escondido algo tão importante de si. Mas não o julgava, em especial por que sabia o que ele queria evitar contando. "Eu sei, não foi culpa sua ou de ninguém... Só de quem deu a ordem. Ninguém pode fazer algo, nem mesmo Torin... Ele tentou achar qualquer pista que levasse a Lucien, e nada... É como se ele tivesse desaparecido. Não quero que aconteça com você." O nome do irmão era algo sensível, Melian ainda se culpava por não ir treinar aquele dia. Poderia ter feito algo? Não saber a matava por dentro. A loira olhou de soslaio para o professor, tentando não atrapalhar o desenhista novamente. "Eu não confio na boa vontade deles nos tratarem bem... Não acho que essa loucura do senhor pururuca seja um ato de bondade. Ele está planejando algo e vamos pagar por isso logo." Respondeu, se referindo mais a família real do que aos Khajols em si. Aprendeu que alguns deles não tinham tantos problemas com changelins, a maioria deles na verdade. Era tanto surpreendente, tinha que admitir. "Ele não me parecia seguro..." Ainda se lembrava de como Tadhg estava quando foi o visitar, havia ficado realmente preocupada, embora não demonstrasse. Não pode esconder o sorriso com as palavras do professor, se permitindo relaxar um pouco. Saber que estava tudo bem era como tirar um peso enorme das costas. "Tudo bem então? Sério? Eu tinha até escrito uma carta." Brincou, embora fosse verdade. Havia planejado muito bem seu pedido de desculpas. Embora soubesse do tratamento especial que recebia de Cillian, não achava que ele fosse a perdoar tão rápido. Nunca havia brigado com ele antes e tinha que admitir que foi uma das situações mais assustadoras que passou. "Eu confio... Eu... Só estou com medo... Mas juro que não vou mais jogar coisas em você quando estiver brava... E que vou lembrar de tentar perguntar primeiro."
AQUELAS PALAVRAS ficariam na memória da Byaerne pelo resto do dia, cozinhando até o momento certo de agir. Zara esperou longos e excruciantes minutos para que o brinquedo parasse, e, ao descer, teve que se segurar em um gradil e fechar os olhos durante alguns instantes para se recompor. Ela suspirou ao sentir-se novamente apta a caminhar. A sobriedade já lhe atingia junto ao vento fresco do final de tarde... Certa de que faria Melian engolir seus dizeres. Não era uma frangota--- seja lá o que aquilo significasse. E, pior! Se houvesse alguém capaz de assustar a Changeling, esse alguém era Zara. Ela ainda lembrava do grito fino provocado a Eirik, tornando momentos silenciosos recheados de risadinhas divertidas. "Agora estou me sentindo bem. Por que não vamos procurar algo mais para fazer? Afinal, o evento se encerra amanhã."
Esperou pacientemente que Zara se recuperasse, não apenas do álcool, mas também do susto. A loira não deu muita atenção para o que conversaram encima da roda gigante, a maior parte das coisas que falavam não eram planos ou algo complexo, apenas o que vinha em sua mente no momento. Mesmo considerando a amiga uma mulher forte chegou a pensar que havia pegado pesado demais, em especial por que ela não era acostumada com aquele caos. Do seu modo meio torto, Melian Havia associado que Zara era um dos seus e por isso acabava por trata-la de tal forma, mesmo ela sendo uma Lady nobre. As vezes era obrigada a se lembrar que Zara não havia passado pelo treinamento padrão militar. "Vamos, quero ver os malabaristas! Imagina se um cai no chão, seria engraçado." Sugeriu animada. Sem esperar muito já guiando-se para o local da apresentação enquanto não parava de tagarelar sobre as atrações.
Sua risada, semelhante à de um carrilhão, deixou seu pequeno ser ao sentir Melian ao seu lado. A alegria estava estampada em seu rosto e não podia deixar de transparecer naquele momento. A saudade de sua amiga nos últimos dias era palpável e Clara mal podia esperar para que elas passassem mais tempo juntas. A ocasião que as reuniu tornou as coisas ainda mais agradáveis, dando a esse momento um charme especial.
“Vamos para onde você disser, mas antes poderíamos comer e beber alguma coisa”, sugeriu a curandeira com um sorriso animado, lançando um olhar brilhante para a amiga, ”estou com tanta fome que poderia desafiar metade das pessoas aqui! Vou comer todas as sobremesas antes que eles pisquem.”
Clara estava exagerando, é claro, mas não havia mentira na afirmação de que os doces pareciam ser seu ponto fraco. E agora, sem nenhum arrependimento, ela levou Melian para a melhor parte da feira para desfrutar da comida que havia sido preparada.
“Como você está? O que aconteceu com você nos últimos dias?”, perguntou a morena com indisfarçável curiosidade, com o braço livre envolvendo a mulher ao seu lado. „Estou aqui para ajudá-la - vou ouvi-la com o maior prazer, depois, podemos procurar alguma atração que acolha tagarelas como nós.. Há tantos lugares interessantes. Estou me sentindo como uma criança.„
Clara fez uma pausa por um momento quando viu onde estavam, parando seu olhar na famosa tenda da cartomante. Ela se virou para sua amiga e perguntou em um sussurro:
“Você foi à casa da Madame Madge para ver suas cartas? Gostaria de saber se as previsões dela serão boas ou ruins? O que você acha?„
A curiosidade havia se infiltrado em sua alma, mas ela estava preocupada demais para ir e descobrir mais sobre seu futuro. Essas coisas sempre influenciam nosso destino – elas acabam guiando nossos pensamentos e, sem que percebamos, começam a ditar nossas ações.
"Sim, por favor. Sabia quem tem bebidas diferentes também?" Melian mencionou. Andava ao lado de Clara procurando as barraquinhas de comida, já havia visitado todas, mas adoraria relembrar cada um dos aperitivos disponíveis. O festival era o momento perfeito para tirar uma folga das recentes obrigações. Poderia comer a vontade, não a porcaria que comiam no acampamento militar, além de poder oficialmente encher o saco das pessoas com pegadinhas sem ser punida por isso. O ambiente perfeito para Melian.
Melian gargalhou levemente com a pergunta, como se fosse uma piada. Talvez fosse engraçado porque os últimos dias de sua vida foram agitados demais, quase foi morta por uma quimera e impediu o fina do mundo... Bom, poderia começar a considerar isso como uma quarta-feira normal. "Tudo normal, acho. Ficou sabendo que impedi o fim do mundo?" Provocou, claro que ela sabia, todos sabiam. "Acho que estou virando uma celebridade"
Ainda acompanhava Clara quando ela parou, seus olhos vagaram para onde os dela olhavam. Melian era uma pessoa supersticiosa apesar de tudo e uma leitura de cartas sempre era um motivo para ter o pé atrás. "Podemos ir se tiver vontade, mas eu pessoalmente não confio nessas feiticeiras." Respondeu apertando um pouco mais o braço de Clara. "Mas não sou uma covarde, então vamos." Puxou a amiga para dentro da tenda, observando o local quase que produzido demais. "Eu juro que se essa velha me der uma previsão ruim eu vou aprender um feitiço só pra jogar nela."
“Você reclama muito. Não tem nada parecido com Odin além de um olho faltando.” Deu um risinho com a associação, pensando que Melian ainda devia estar se acostumando com aquela novidade e detestando. A incentivaria como pudesse para trazê-la mais para perto da cultura divina dos khajols e não conseguia esconder o quão empolgante achava que Melian fosse hospedada por um deus de seu próprio panteão. “Eu posso tentar garantir os patinhos apesar de nunca ter usado uma arma na vida. Não deve ser tão difícil assim e você pode me dar umas dicas já que tem todos os dons do mundo.” Deu uma piscadinha para ela enquanto fazia um arco-e-flecha no ar com as próprias mãos. “Se não é ganhar, vamos jogar por que razão? Sou competitiva!” Protestou enquanto unia o braço ao dela, sentindo-se perdida no intuito da brincadeira. Freyja sabia que diversão era a verdadeira motivação, mas se dependesse dela e do próprio ego, estavam perdidas. Pelo menos Melian tinha braços fortes o suficiente para garantir alguma coisa. “Não vou usar um aon de força. É trapaça.” Corrigiu a loira com um rolar de olhos. “Já entendi que vou ser obrigada a acertar o martelo e só o farei para provar que aprendi alguma coisa, sim, nas aulas.” Empinou o nariz como sempre fazia quando queria se garantir para algo, seu rito de autoridade sendo quase um vício do próprio corpo. Tirou a moeda para pagar a brincadeira de dentro de um dos bolsos escondidos do vestido e se colocou no lugar na fila ao lado de Melian, olhando para ela com o olhar pidão. “Pode ir primeiro?”
Melian apenas suspirou dando de ombros com o comentário, como se não ligasse. Apesar de seu interesse em descobrir mais sobre o Deus que havia a escolhido, ainda era tudo muito novo. Não entendia muito bem o porque justo ela estava naquela situação, e não queria ser dramática e dizer que era o fim do mundo, mas estava longe de ser uma dádiva. Estar divida entre dois mundos, o que havia sido criada e o que estava sendo inserida - contra a própria vontade - era tanto desesperador. Entendia por que os cochichos de que era apenas uma vendida se espalhavam, apesar de no fundo se magoar com eles. Estava sendo vista mais rodeada de Khajols a cada dia, ela mesma não se reconheceria alguns anos atrás. Dizia para si mesma que eram apenas exceções e que a maioria deles ou eram diferentes ou apenas seriam úteis - mentiras que ela mesma não acreditava. "Reclamar é parte do plano, se seu inimigo estiver aborrecido o suficiente a luta é mais fácil." Brincou e usou a destra para empurrar Freya de leve, sem realmente a fazer perder o equilíbrio. "Gosto assim, quando meus aprendizes sabem que é o mestre." A medida que se aproximavam Melian parecia mais animada, os homens ao redor desfiados continuavam olhando com curiosidade. A loira teve seu tempo para apenas os encarar com um olhar desafiador, quase que dizendo que era melhor que todos eles. Atendendo ao pedido da morena se adiantou pegando o martelo, ouviu algumas gargalhadas e apenas sorriu. Analisando um pouco o local onde estava indicador de bater, percebeu o lado menos gasto e qual estava mais baixo. Era um truque, óbvio que era. Ergueu o martelo e usou o próprio embalo do corpo para o arremessar para frente deslocando um pouco para a direita. O peso subiu alto, não o suficiente para que ganhasse, mas podia dizer que foi perto. "Aprenderam frangotes?" Vociferou para a pequena plateia e voltou para Freya. "Deixei a vitória para você."
ELA NÃO costumava ser covarde. Na verdade, Zara apenas não queria devolver ao solo o que jazia no fundo do estômago, tendo tão pouca tolerância para bebidas alcóolicas como tinha. Mas... Melian nunca aceitava um não. E havia toda a história de manter a própria palavra, portanto, agora Zara erguia as mãos ao completar voltas na roda gigante. Era impressionante como a magia se comportava, equilibrando e movimentando o peso das estruturas. A Byaerne, porém, tinha outras coisas em mente. "É um feitiço! Mas você não vai conseguir fazer. Mal sabe conjurar o cortar, e olha que eu me esforcei aqui." Quando Melian começou a balançar o carrinho, Zara agarrou com força qualquer parte minimamente sobressalente e colocou a cabeça entre os joelhos. "Pelos Deuses, eu quero descer!!! Pare com isso já, ou nada de maçãs, ou peras, ou chocolates para você!" Rezando para que o mundo parasse de girar, ela ergueu a cabeça outra vez. Tinha reservado um olhar mortífero para a mais jovem. "Satisfeita?"
Melian gargalhou, mesmo se sentindo levemente insultada. Adorava o quanto Zara era sincera, em especial quando uma parte de sua cognição estava comprometida. "Você é uma péssima professora!" Melian gritou enquanto a montanha russa seguia seu curso, entre sobes e desces. Se admirava que Zara nunca havia voado em um dragão, fez o lembrete mental e a apresentar para Freja e a levar uma um voo em algum momento. "Eu não vou te deixar cair!" Disse ao receber o olhar mortal de Zara, o que não amedrontava em nada a loira. Já havia passado pela fase que se embebedava fácil e com sorte, no final da noite, estaria igual a morena, de preferência pior. "Covarde! Zara você é uma frangota! Aposto que não consegue me assustar." Provocou, apenas querendo testar os limites da amiga e talvez despertar alguma ideia.
As duas últimas coisas que queria para aquela noite eram ter uma caricatura sua e ter a conversa com Melian. No início, tentou ser compreensivo e digerir os sentimentos dela que pareciam facas afiadas tiradas do meio de chamas, mas até mesmo Cillian tinha um certo limite para a paciência. Não a culpava por se preocupar e sim pelos xingamentos, pela falta de confiança e pelo controle que ele julgou que ela gostaria de ter sobre sua vida. Para ele era ridículo, já que mal ficava sabendo da maior parte das coisas que ela fazia, sempre tendo notícias após o ocorrido, como o ataque monstruoso ao lado de Zara que era uma khajol como Sigrid. Sentado no banco para o desenhista começar os rabiscos, não pôde fazer muito — tinha um certo respeito por artistas já que ele mesmo tinha o dom com lápis, ainda que secretamente seu. Respirou fundo com os olhos tediosos, mirando em um ponto da parede de tecido qualquer. “Você nunca me escuta.” Rebateu como um adolescente mimada, entretanto, Cillian falava sério. Melian raramente seguia seus conselhos ou apenas os aderia quando já tinha feito a parte errada. Quando tentou falar um pouco mais sobre Sigrid, foi calado por dezenas de pragas verbais, como se precisasse mesmo de mais. A expressão final era minimamente respeitosa, e vinda dela, era grande coisa. No fundo, também não queria ficar em uma briga. Escutaria, diferente dela. “Quando o desenho acabar, seu tempo também acaba.”
Melian engoliu em seco, o barulho do lápis era como um timer. Sabia o que deveria falar, já havia pedido desculpas milhares de vezes para Lucien sobre este mesmo tópico, mas Lucien não estava ali e todos os seus medos se concretizaram. Não poderia tolerar que isso acontecesse com mais alguém assim como não poderia mais manter aquela situação de desavença causada por si mesma. Até mesmo ela sabia quando passava da linha. "Eu não tenho problema com vocês ou com o relacionamento." Começou, mesmo com todo seu discurso ensaiado ainda era difícil colocar tudo em palavras, em especial depois de tudo que aconteceu. "É só que... Céus. Todo o resto é uma merda." Virou-se para Cillian, não esperando uma reação, apenas por que era mais confortável falar assim, como um lembrete de que ele ainda estava seguro. "O que acha que vai acontecer quando a família dela quiser um casamento e ela se recusar por que te ama?" Melian nunca duvidou do amor que tinham, assim como nunca duvidou que Zara amava Lucien no passado. Mas sua experiência e sua vida já havia a lembrado que eram pessoas de segunda classe vezes demais para não pensar nisso. " Tenho medo de que façam com você o mesmo que fizeram com... Com Lucien." Falar do irmão em voz alta era doloroso e isso se refletia na voz de Melian, um dos poucos tópicos que ela não conseguia disfarçar com a dose de humor ácido de sempre. "Ele não fez nada de errado, mas está provavelmente apodrecendo em uma masmorra no fim do mundo." Ao menos era isso que ela sabia sobre ele. Ela passou a olhar novamente para o artista tomando alguns segundos para recompor o tom e não acabar gritando novamente. "Já faz quatro anos e eu não tenho sinal dele, eu não pude fazer nada o dia que levaram ele... Eu estou com medo de te perder também... Porque no fim, é isso que nos resta... Podem fingir que nos aceitam, mas sabe que nunca vai acontecer de verdade. Depois do casamento, que selaria a união, jogaram o Taghd direto na masmorra, nem tinham provas, ele estava acabado..." Mais uma vez a loira parou, pela primeira vez seu Seon completamente quieto em sua mente, enquanto ela tentava parecer o menos alterada possível. " Não vou suportar não poder agir novamente... Mesmo que não me perdoe, porque eu sei que não mereço... Eu gostaria que soubesse que me importo, da mesma forma que você foi o único que se importou comigo por muito tempo."
ALEC TINHA sido aporrinhado por um de seus subordinados para jogar aquele jogo maldito. Já tinha cumprido suas rotas e feito seu trabalho fácil (até então), quando, como uma verdadeira assombração, fora surpreendido por Melian. "Nem fo---" As mãos subiram aos fios de cabelo repicados e um suspiro saiu do peito em pura descrença, vendo o Soldado se afastar como um cão de rabo entre as pernas. "Eu não vou jogar com você." Sussurrou entredentes, num aviso. Fosse por respeito a Torin ou até uma sensação de dívida para com a Eorl mais jovem, Alec sentia que seria errado escalar aquela brincadeira. A fila de pessoas com as mãos cobertas de vergões, cheias de lágrimas nos olhos e presságios horrendos perturbando-lhes o sossego claramente indicava que não era um jogo tranquilo. Há! Talvez aquele fosse o plano de Melian desde o começo. Ela certamente lhe conhecia o suficiente para entender que não era um dos mais corajosos... "Não tenho medo de você." Ainda que a encarasse nos olhos ao colocar a mão na mesa, frente à dela, compreendendo que havia caído numa emboscada, estremecia por dentro com as possibilidades. Já tinha visto de perto que Melian possuía força bruta, e, mesmo que soubesse que naquele combate sairia por cima, não seria capaz de agir. Gostaria de poder pedir perdão ao irmão tendo a honra intacta. Mas aquilo não lhe impediria de tentar coagi-la do contrário. "Vai ganhar do pior jeito, Eorl? Você não tem muita ética, mesmo."
O horror no rosto de Alec não poderia ser mais gratificante e divertido. Melian não entendia como ele poderia ter tanto medo dela sendo que havia a segurado com facilidade quando precisou, mas quem era ela para julgar os medos do âmago de alguém. Parte da brincadeira era saber que o outro estaria com medo, mas a outra era quase que um teste, uma prenda. "É bom mesmo que não tenha." Sussurrou de volta, reclinando-se sobre a mesa com um sorriso que beirava a um desafio formal. quase macabro. "Afinal, você tem zero motivos para ter." A postura voltou a normal enquanto ela o encarava. Melian não desistiria. Alec era um alvo fácil para suas brincadeiras, mas em certo ponto havia um conforto em um rosto conhecido e certa empatia pelo momento difícil que ele passava. Claro que nada disso impedia que ela aproveitasse o desgosto no rosto dele. "Você não vai desistir, não é Líder da Infantaria!" Disse, talvez propositalmente alto demais. "Obrigada por me deixar começar!" Em um movimento rápido, passou a mão por debaixo da dele a segurando o pulso para garantir que ele não tiraria a mão por impulso. Sua mão livre se ergueu e sem muita força bateu sobre a palma dele. Melian quase não havia aplicado força, não ainda ao menos, jogos mentais também eram divertidos. "Sua vez." Disse com a voz doce soltando a mão que estava segura entre seus dedos.