👻Hora do Medo👻
Chapéu de Palha x Leitora
Episódio 2: Medo Lutuoso
2/10 -> Episódio 1 / Episódio 3 (Em Breve)
~Boa Leitura! 🎃🧙♀️
Resumo: Era apenas mais uma noite comum, você dormia e seu marido estava no trabalho... de repente, seu filho começa a chorar.
Aviso: Cada episódio dessa mini série vai ser focado em algum membro da tripulação do Chapéu de Palha. Sustos leves, perseguição, assombro. Menção de morte. Universo Alternativo.
Gênero: Fanfic, inserção de leitor feminino, terror.
Palavras: 2.496
Postado também em: Wattpad.
A noite estava fria, escura, silenciosa, daquelas em que nem mesmo a Lua ousava aparecer para brilhar no céu. Você destrancou a casa e a adentrou com um suspiro de alívio por finalmente estar de volta ao seu lar; seus pés doíam, seus músculos estavam doloridos, principalmente os das costas.
A casa estava vazia e quieta, seus olhos pesados da fadiga piscavam com força enquanto você ligava as luzes; deu uma olhada em volta antes de se arrastar pelos corredores para o banheiro, tal qual um zumbi.
O banho ajudou seu corpo a relaxar, quando saiu dele, estava um pouco mais como humana e menos como cadáver ambulante. Dirigiu-se para a cozinha e preparou algo simples para jantar. Seu marido ainda estava no trabalho e só iria chegar de madrugada, então não se preocupou em esperá-lo, comeu sua parte e deixou a porção dele separada e protegida por guardanapos. Depois disso, fez todo o caminho de desligar as luzes novamente e se jogou na sua cama. Sequer lembrava-se em que momento tinha caído no sono, só sabia que havia apagado profundamente assim que sua cabeça encontrou o travesseiro.
Seu tão merecido e aguardado descanso foi repentinamente interrompido por um barulho alto e contínuo que arrancou-lhe do mundo onírico em um ímpeto impiedoso. O susto foi tão grande que seu corpo saltou na cama antes mesmo que você tivesse despertado de fato. Sentada, fitou o quarto com olhos arregalados. O cômodo — que era iluminado apenas pela luz bruxuleante do ar-condicionado — estava mais escuro do que antes, o que delatava que já havia passado umas boas horas desde que adormeceu, não sabia dizer quantas exatamente.
Você, que sequer lembrava o próprio nome no momento, muito sonolenta ainda para o cérebro estar em perfeito funcionamento, passou a mão no rosto e tirou o cabelo bagunçado da cara, piscando algumas vezes numa tentativa de recuperar corretamente a consciência, que parecia ainda estar presa no mundo onírico, embora seu coração batucasse em ritmo acelerado contra o seu peito.
Seu raciocínio lento demorou a perceber que o barulho repentino que a despertara tratava-se do choro de uma criança.
Não obstante o plangor, logo começou o apelo. "Mamãe!" Era o que dizia, a voz da criança ocupando quase toda a sua audição.
Quando tirou o cobertor de cima e forçou seu corpo pesado a levantar-se, a primeira e única coisa que conseguiu pensar foi: Chopper. Chopper está chorando.
Você cambaleou até a porta do quarto, sentindo certa dificuldade em se manter perfeitamente de pé. Quando atravessou o cômodo e chegou à sala de estar, tateou atrapalhadamente a parede, procurando o interruptor. Estava ainda tão entorpecida pelo cansaço que mal reconhecia a própria casa.
A luz se acendeu com um breve estalido do interruptor, iluminando o ambiente de uma forma ofuscante para suas íris sensíveis, você fechou os olhos e fez uma careta, piscou algumas vezes até que eles se acostumassem novamente e então olhou para a porta do quarto de seu filho.
Tinha uma placa de madeira com o nome dele gravado em uma caligrafia delicada e infantil, desenhos coloridos e fofos enfeitavam a placa e adornavam toda a extensão da porta, tornando-a colorida e cheia de uma história própria para se contar. Do outro lado dela, era possível identificar o choro abafado da criança.
Em um breve segundo você ficou parada no canto, apenas observando, por um momento, tentando formar algum pensamento lógico, coerente e menos exausto. Não conseguiu exatamente, então conformou-se e adentrou o quarto, deixando a porta dele escancarada, de modo que a luz lá de fora invadisse a escuridão do pequeno cômodo e iluminasse aquilo que tocava, deixando um rastro no chão, na cama e até mesmo na pequena figura da criança sentada.
━ Calma, meu amor. Está tudo bem ━ disse em um tom tranquilizador e suave, sentando-se na beira do colchão e puxando o garotinho para um abraço..Seus dedos se afundaram nas madeixas castanhas e bagunçadas dele. ━ O que aconteceu?
Chopper fungou algumas vezes ainda chorando, seus bracinhos correram pela sua cintura e a apertaram.
━ Eu tive um pesadelo, mamãe. Estou com medo! ━ Carpiu de forma trêmula.
Você o embalou enquanto chiava no intuito de acalmá-lo.
━ Já passou, já passou... quer me contar o que acontecia no pesadelo?
Ele negou com a cabeça. Você soltou um suspiro e deu batidinhas nas costas do pequeno garotinho, que seguia a vagir sem parar.
━ Vou buscar um pouco de água para você ━ avisou, erguendo-se.
A mão de Chopper alcançou seu pulso em um frenesi.
━ Não! Não! Não me deixa sozinho! ━ Desesperou-se, olhando para você com orbes arregaladas. ━ Dorme comigo, por favor. Estou com medo!
━ Chopper, eu não vou te deixar só. ━ Tranquilizou-o, acariciando sua a mãozinha até ele te soltar e depois segurando o pequeno rosto corado do garotinho. ━ Vou apenas na cozinha pegar água para te ajudar a se acalmar, ok? A porta do quarto vai ficar aberta, não vai acontecer nada com você, eu vou e volto rapidinho.
O petiz observou seu rosto, antes de aquiescer com a cabeça e soltar um barulho de concordância fraco. Você deu um pequeno sorriso para ele e beijou sua testa, então saiu do quarto e caminhou até a cozinha, era difícil cuidar de uma criança assustada quando ainda se estava grogue e pouquíssimo lúcida — como você se encontrava naquele momento.
Ligou a luz da cozinha, olhou para seu próprio reflexo na janela de vidro, como sempre costumava fazer, e alcançou um copo qualquer na prateleira. O som da água caindo contra a superfície do vidro se misturou aos berridos emitidos por um Chopper apavorado. Sua mente, ainda tomada por aquela névoa, entrou no modo automático, você procurou pelo seu celular com um pouco de morosidade e ligou para um número sem pensar muito na ação, por puro hábito.
Tocou algumas vezes antes de a chamada ser atendida. Era seu marido.
━ Alô? ━ Falou quase que imediatamente após atender. ━ Mulher, o que você está fazendo acordada a essa hora?
Você fez uma careta e fechou a torneira do bebedouro.
━ Ele está chorando.
Pausa, um breve momento de silêncio se seguiu. Do outro lado da linha, ouviu-se um som abafado de respiração.
━ Quem está chorando? ━ Zoro perguntou, parecendo confuso.
━ O bebê está chorando... ━ disse, bocejando. Suas pálpebras pesadas do cansaço lutavam para permanecerem abertas. ━ Vem logo para casa, amor, não estou conseguindo acalmar ele.
━ ... Que bebê?
Você puxou o copo, apertando as sobrancelhas.
━ Como assim "que bebê"? É o Chopper, quem mais seria?
O choro contínuo da criança rebombava dentro do quarto, invadindo toda a casa. O chamado ininterrupto do garotinho que voltara fazia alguns minutos saindo como miados.
"Mamãe!", "Mamãe!", "Mamãe!" Ele clamava.
━ Amor... ━ chamou em um tom cuidadoso, titubeando antes de falar. ━ Mas ele está morto.
━ O quê?
Você travou no lugar, sua consciência sonolenta e aturdida demais para o seu próprio bem.
━ Nosso filho morreu há dois anos atrás.
O mundo pareceu desabar diante de você, a sala caiu em um silêncio fúnebre. Você engoliu em seco. Se Chopper estava morto, quem era aquele no quarto? Seus dedos vacilaram, seus lábios estremeceram, seu coração de repente tornou-se inquieto; qualquer resquício de sono sumiu repentinamente de seu corpo, deixando para trás apenas o início de uma adrenalina e uma sensação de alerta que sacudiu todo o seu consciente brutalmente.
Demorou alguns pouquíssimos segundos, mas sua mente outrora dopada da fadiga logo recobrou e você lembrou que, de fato, seu filho estava morto.
Contudo, o que acabara de ver lhe confundiu o suficiente para que você se questionasse o que era real e o que não era.
━ M-mas... eu acabei de vê-lo no quarto.
Isso o preocupou.
━ Tem alguém aí dentro com você?
Você deslizou o celular um pouco para baixo, não prestando atenção no que o Zoro falava enquanto tentava ouvir algo no quarto.
... Nada, a casa estava completamente silenciosa. Não havia nenhum barulho, nenhum choro, nenhum soluço, era como se aquele berreiro todo de antes nunca tivesse acontecido.
Você olhou para o copo em sua mão. Será que havia alucinado tudo?
━ (Nome)? (Nome)!
━ Hã? ━ Piscando algumas vezes, você desviou o olhar e saiu do pequeno transe em que estava, colando o celular no ouvido novamente.
━ Não faz nada, se esconde e me espera. Eu já 'tô indo.
Uma nova sensação de medo surgiu em seu âmago, você soltou ar pela boca antes de responder:
━ O-ok...
Ao virar-se na direção do balcão, sua respiração engatou na garganta sem que nem percebesse. No reflexo do vidro da janela, havia atrás de você uma figura distorcida, grande e corcunda do Chopper que se aproximava lentamente, não parecia nada humano, seus olhos estavam vermelhos e brilhavam como se fossem dois pequenos semáforos, era como se ele tivesse se tornado alguma espécie de animal, seu braço esticava na tua direção e a mão parecia uma pata horrenda com garras afiadas. Foi uma visão verdadeiramente infernal, espantosa, principalmente porque era como ver uma versão indesejada e corrompida de seu amado filho.
Com um grito genuíno de pavor, você se virou para trás bruscamente e, por reflexo, jogou o copo na direção do bicho, apenas para perceber que não tinha ninguém na cozinha. O vidro se espatifou na parede com um barulho agudo e agoniante, se quebrando em vários pedaços que voaram longe pelo cômodo.
Seu peito subia e descia visivelmente, você ofegou desesperadamente enquanto seus olhos arregalados e trêmulos se agitavam pelos lados, procurando por algo, como se aquela criatura de antes pudesse estar escondida debaixo da mesa ou atrás do armário. No outro lado da linha, Zoro chamava seu nome, aflito com a ideia de você estar em perigo e sozinha.
━ O que aconteceu?!
━ Eu... eu vi...
Um rangido lento de porta sendo empurrada soou pela casa logo depois disso, fazendo você interromper sua fala com uma arfada assustada.
━ Tem alguma coisa aqui! ━ Começou a sussurrar com um novo ar de urgência, tomada pelo medo e a nova falta de oxigênio que lhe acometia.
Suas pernas falhavam e fraquejavam, você não queria sair do lugar, com medo de que qualquer movimento te condenasse, mas também não queria ficar ali parada, queria sumir, queria ajuda. Precisava de Zoro ali, ao seu lado, imediatamente.
━ Você ouviu o choro, não ouviu?
Seu marido se mexe freneticamente, você consegue ouvir o barulho das chaves balançando e logo em seguida do motor do carro sendo ligado. Ele demora para responder, um silêncio pensativo pairando, como se tentasse lembrar.
━ Sim, mas pensei que fosse da TV.
Tomando coragem para se mexer, você apressou-se e contornou o balcão, agachando-se entre ele e a geladeira e encolhendo-se colada à parede. Seus olhos ansiosos saltavam sem parar entre a parte de cima do balcão e a visão mais ou menos comprometida que tinha do restante da cozinha pelo vidro da janela. Se esforçando para fazer o mínimo de barulho possível, você tentou controlar a respiração desregulada e diminuiu ainda mais o tom da sua voz.
━ Não! A TV nem estava ligada. Eu estava dormindo e acordei do nada com alguém chorando e... ━ Pausa. Uma risadinha infantil e macabra rodopiou pela casa.
Seu coração batia tão alto que você conseguia senti-lo vibrar por todo o seu corpo. Era como se as palavras se embaralhassem na sua garganta e formassem um nó, seus lábios ficaram entreabertos.
━ ... E? O que aconteceu depois? ━ Zoro instigou quando seu silêncio se tornou longo demais.
Seu cérebro, no entanto, não processou o que ele dizia, preocupado demais com os repentinos barulhos de passos que rondavam pela casa. Era como se alguém estivesse correndo para lá e para cá, brincando, quase como uma criança, mas os pés afundavam no chão de uma forma que pezinhos pequenos como o de seu falecido filho jamais fariam.
Você se encolhe ainda mais, pressionando desconfortavelmente suas costas contra a superfície gelada da parede, desejando que ela te engolisse.
━ Mamãe. ━ Um cochicho estranho e distorcido zumbiu pelo seu corpo, a voz, por mais baixa que estivesse, parecia próxima, tão próxima que era quase como se ela tocasse sua alma, como se alguém estivesse atrás de você, lábios colados ao seu ouvido enquanto murmurava.
Você saltou inconscientemente, ofegando em choque. Sua cabeça virou bruscamente na direção da parede, mas não havia ninguém atrás de você. Por mais que isso te aliviasse por um lado, por outro te assombrava ainda mais; como era possível aquela coisa estranha que estava se passando pelo seu filho não estar ali, mas, mesmo assim, ter falado tão perto de ti?
Um forte e repentino arrepio torna a percorrer sua espinha, esse mais forte do que os outros, era estranho, te dava a sensação terrível de estar exposta, como se estivesse completamente escondida debaixo de um cobertor e, de repente, alguém o arrancasse do seu corpo.
Lentamente, como se já soubesse seu destino, você olhou para trás...
E então, o viu.
A temperatura da noite estava significativamente baixa, uma clara indicação de que o inverno já havia chegado. Devido a estas condições, o vidro do carro estava bastante embaçado. O silêncio presente dentro do veículo era abafadiço, havia apenas o som constante do limpador de para-brisas, que desembaçava o vidro por tempo suficiente para Zoro se localizar na estrada, antes que a diferença climática ofuscasse o caminho novamente; em qualquer outro dia, esse barulho seria reconfortante, mas dadas as circunstâncias em que se encontrava, hoje estava sendo sufocante, como um pesadelo, como se, cada vez que ele o escutasse, o tempo passasse mais rápido.
No telefone, tudo que o de madeixas esverdeadas conseguia identificar de sua amada era a respiração ofegante, alterada, assustada. Ele a chamou algumas vezes, sem resposta; uma mão no aparelho e outra no volante, ambas trêmulas e úmidas da tensão.
O homem forçava a audição, tentando captar alguma coisa a mais, como se isso fosse ajudá-lo a ter uma ideia do que estava acontecendo em casa, sua atenção dolorosamente dividida entre o trânsito e a ligação. Zoro dirigia tão rápido quanto podia, esperando que você o respondesse logo e acabasse com esse silêncio, que dissesse que estava tudo bem e que tinha sido apenas um engano da sua mente cansada. A ansiedade fazia um trabalho excepcional em deixá-lo transtornado, em definhá-lo no maldito silêncio.
Quando a sua resposta finalmente veio, não era nada que Zoro esperava ouvir. Foi um grito, um não só de susto, mas também de dor, medo e pavor, um que parecia quebrar o coração do homem em pedaços. Suas pernas falham, sua coordenação motora se torna desleixada e, por um momento, ele quase perde o controle do carro.
A quietude que se seguiu após o grito conseguia ser, de alguma forma, mais assustadora do que o próprio grito. Zoro entreabriu os lábios e te chamou com uma voz rouca.
Chamou uma, duas, três vezes, mas nada respondeu. "Está tudo bem? O que aconteceu?" Nada.
E, com um único ruído, a ligação foi finalizada; deixando para trás um Roronoa muito abalado.
Um Roronoa agora viúvo.

















