Aqueles eram seus últimos dias de liberdade. O promotor do caso andava em seu encalço, tentando a qualquer custo colocá-lo novamente atrás das grandes. E Sungmin voltaria imediatamente, de bom grado, se não fosse aquela pendência que tinha para resolver. A justiça tarda, mas não falha. Mais cedo ou mais tarde o levariam de volta para a prisão, portanto, fazer todo o trabalho de maneira rápida e sem deixar pontas soltas era essencial. Sequer conseguia lidar com a possibilidade de deixar o serviço pela metade. O serviço que encomendara a si mesmo. O mais importante de sua vida e certamente o último.
Com a ajuda de um velho conhecido e facilitador, Eunhyuk, conseguira uma Desert Eagle, calibre .50. Não se preocuparia em ser discreto, pelo menos não daquela vez. Entretanto, só por precaução arrumou também um silenciador – poderia encontrar com um de seus alvos na rua, por exemplo; sendo assim, o silenciador viria muito a calhar. Além da arma, da munição e do supressor de ruídos, Eunhyuk lhe cedera uma cartela de um dos tranquilizantes mais potentes em seu estoque particular. Entregou-a a Sungmin assegurando-lhe que os remédios o ajudariam a dormir durante a noite. Descansado e bem armado, estava pronto para se vingar daqueles que se entrepuseram em seu caminho e no de Kyuhyun.
Eles iam pagar. Alguém tinha que pagar. Não suportaria aquela dor se não a equivalesse de alguma forma. E, se eles haviam tido a audácia de levar seu Kyuhyun de si, a única forma que tinha para sanar aquele aperto insuportável em seu peito era arrancar deles a própria vida.
Eles iam pagar. Os que mataram Kyuhyun, eles iam pagar.
Bateu à porta. Não houve resposta. Outra batida com os nós dos dedos esbranquiçados. A madeira machucando levemente suas falanges. Sem resposta. Lá dentro, havia alguém se borrando de medo, Sungmin não desconhecia esse fato. Pelo contrário. Ele mesmo provocara aquilo, o pavor, o terror. A certeza alheia de que não sairia vivo daquela. Sempre cultivara a curiosidade em saber o que rondava a mente de uma pessoa que sente que está prestes a ser assassinada. A ser estraçalhada pelas balas potentes e arrasadoras de uma arma como a que empunhava.
Gostaria de saber por quem Kim Heechul clamava naquele momento.
Atrás de si, havia um rastro de sangue e silêncio. Os mortos tinham esse costume de envolver o ambiente em quietude e solenidade. Ali, no escritório de seu antigo contratador, não era diferente. Às suas costas, os corpos inertes de Choi Siwon e Han Geng se quedaram, inertes e lacônicos. Nunca pareceram tão mudos, tão esvaziados de tudo. A alma, o espírito, a vida, seja lá que porra fosse, havia se ido e levado consigo qualquer coisa que por ventura tivesse sobrado. Deixaram para trás apenas um chefe amedrontado e acuado. Encurralado. Sem ter a quem se valer.
Sungmin estava cansado daquela brincadeira de gato e rato. Queria acabar logo com aquilo.
A arma que tinha nas mãos foi erguida de supetão. Tão repentinamente que poderia jurar que alguém tinha lhe forçado a levantá-la.
Sua mente estava limpa de qualquer pensamento quando disparou contra a fechadura, arrombando a porta que foi chutada pelo coturno grosso que usava. Detrás da mesa, os soluços incessantes de Kim Heechul sinalizavam onde ele decidira se esconder.
Como se houvesse chance de ele fugir da pontaria certeira e da sede de vingança desmedida de Lee Sungmin.
O disparo que se fez audível em seguida foi rasante, porém bem no alvo. Atingiu o chefe, fazendo a cabeça dele explodir e o sangue se espalhar por todo o cômodo. Uma bela cena, Sungmin deixava para trás uma bela cena. Sangue, miolos, corpos alvejados. O vermelho predominando em seu tom mais belo. Eles estavam tão mortos quanto Kyuhyun. Mas ainda não tão putrefatos. Eles continuavam a exalar um perfume que Kyuhyun há muito perdera.
Um quarto pestilento de um hotel barato da periferia de Seul era o que lhe servia de alcova. Os empregados dali não lhe importunavam, a privacidade e a discrição eram os únicos quesitos respeitados naquela espelunca. O serviço de quarto era horrível, as ‘camareiras’ faziam o trabalho apenas superficialmente. Sungmin, após o terceiro dia, passara a dispensar a presença de outrem em seus aposentos. Trouxera armas e munição e drogas. Desconfiava que isso o classificasse como um cliente comum daquele local, no entanto, não ia arriscar. Estivessem os empregados do hotel acostumados ou não, Sungmin era esperto o suficiente para não pagar para ver. Iria conduzir a sua jornada com sensatez e, sobretudo, sem alardes.
Foi obrigado a procurar sua mãe. Odiava ter que pedir dinheiro a ela e jamais se prestaria àquele papel de filho dependente se o dinheiro dela não fosse o seu dinheiro. Sua mãe, grata e maternal, nem titubeou em lhe enviar a quantia que o filho perdido solicitara. Em menos de vinte e quatro horas depois de ter recebido a condicional, Sungjin, seu único irmão, encontrara-se consigo num café deserto e lhe entregara uma bolsa com wons suficiente para que se mantivesse decentemente naquele curto período de tempo. Afora esse, não travou nenhum contato com quaisquer membros de sua família. Os evitava a todo custo. Fora muito bem sucedido em ignorar por completo a existência deles. Estava só e era assim que ficaria. Não havia necessidade de seus familiares se atolarem na lama na qual estava imerso até o pescoço.
Já prejudicara demais a quem amava com aquela história toda. Sungjin, sua omma e seu appa ficariam longe disso.
Pela noite adentro, Sungmin se revirou no rústico catre, o tosco arremedo de cama que havia disponível em suas acomodações. Havia tomado três cápsulas do medicamento que Eunhyuk lhe dissera ser infalível e nem assim conseguira pregar o olho. Seus olhos ardiam e seu corpo estava cansado, já a mente, por sua vez, não obedecia aos seus comandos, saindo de seu controle como se fosse algo independente. Estava atormentado, exausto. E tinha que repousar para que no dia seguinte se encontrasse em condições de dar cabo de outra parte de sua tarefa.
De todo modo, resolveu parar de insistir ou ficaria ainda mais irritadiço com aquela situação. Jogou o cobertor para longe e caminhou a passos duros até o cubículo de terrível aparência que chamavam de banheiro. Aquela peça era um tanto claustrofóbica demais. Teve a sensação de que as paredes se aproximavam, na intenção de prensar seu corpo até que este virasse uma massa disforme e repugnante. Em sua cabeça, por nenhuma razão aparente, imagens de animais abatidos lhe provocavam de uma forma que logo o deixou numa ânsia de vômito difícil de conter.
Esquecendo momentaneamente do quão opressor era aquele diminuto banheiro, curvou-se sobre o aparelho sanitário. Estava prestes a botar para fora até sua alma quando sentiu uma pressão leve em seu ombro esquerdo. Foi como se, num átimo, todas as suas preocupações se resumissem a pó. No mais fundo de si, uma esperança patética agitava seu interior e, unida a uma impressão conhecida de que havia gatos arranhando as paredes de seu estômago, Sungmin não podia pensar em mais nada, a não ser em uma coisa.
Virou-se, tentando achá-lo na semipenumbra do cômodo. Um bolo se formava em sua garganta e lágrimas pendiam no canto de seus orbes. Sofria todos os sintomas comuns a quem passa por situação semelhante. Mãos trêmulas, garganta seca, joelhos vacilantes e pernas bambas. A beira de um desmaio, a vista escurecia e perdia aos poucos o bom senso que era uma característica sua tão marcante.
De que importava? Kyuhyun estava ali.
Abrir mão de sua sanidade em troca da presença dele parecia justo.
A pressão em seu ombro esquerdo se converteu em outro corpo abraçando suas costas firmemente. Não era um abraço trivial entre duas pessoas. Era uma demonstração, uma afirmação física de que ele estava seguro. De que Kyuhyun estava ali e que não o abandonaria.
O suspiro que liberou foi tão pesado e intenso que o fez desfalecer nos braços do outro. Kyuhyun o ergueu, o virando para si gentilmente. Pela fresta de suas pálpebras semicerradas, Sungmin o contemplou, mal crendo na figura perante a si. Seu amante se apresentava da exata maneira como se recordava dele. Não mudara nada, continuava o mesmo. Ele retornara intacto.
“Está tudo bem”, o sorriso plácido nos lábios rosados e bem delineados era o bastante para que Sungmin se asserenasse. O mais velho meneou afirmativamente; não fora uma pergunta, mas ele sentira que devia responder. Sim, estava tudo bem. Quando Kyuhyun estava consigo, automaticamente tudo estava bem. “Eu disse que estaria com você até o fim dos meus dias”
Sungmin tentou imitar o sorriso, mas um esgar tosco foi o que resultou de sua tentativa vã. Kyuhyun sorriu mais ainda com aquela demonstração singela de seu hyung. Não iria exigir nada além daquilo. Não iria exigir nada, uma vez que tinha Sungmin preso tenazmente em seus braços. Não estava apenas sustentando-o, estava se certificando de que ele não ia se desvanecer no exato instante em que afrouxasse o aperto feito um pouco acima da cintura do menor. Assim como Sungmin temia que ele fosse uma aparição criada por sua mente alquebrada, Kyuhyun tinha seus receios também. Se aferrar ao mais velho era um jeito de se manter estável sobre a superfície.
“Eu não vou descumprir minha promessa”
Num impulso quase primitivo, Sungmin empurrou seu dongsaeng. Um grito desesperado foi estrangulado prematuramente. Seu instinto era de berrar, correr pra longe, se ver livre de tudo aquilo. Era uma mentira, apenas uma miragem. Deu-se conta de que o que enxergava não era real. Kyuhyun não podia estar ali, Kyuhyun estava morto. Podre, talvez até se decompondo, carcomido por vermes. Aquele não era o seu Kyuhyun.
“Seus dias acabaram!”, Sungmin cuspiu, exercendo um esforço considerável para ficar sobre os próprios pés. Kyuhyun fez menção de se aproximar, a fim de ajudá-lo, contudo, Sungmin o rechaçou, acertando-lhe um tapa seguro em sua mão estendida. “Eles chegaram ao fim! Acabou!”
Kyuhyun desviou o olhar, uma careta de desgosto se desenhando em sua face. Sungmin lhe deu as costas, caminhando de volta ao catre no qual passara horas se revirando de um lado para o outro. Sentou-se na beira do colchão e voltou a encarar o mais novo, sua expressão magoada evidenciando o quanto aquilo o que julgava ser uma brincadeira de mau gosto de seu cérebro lhe estava afetando.
“Por que você vem até aqui? Não faz mais sentido. Eu sei que você morreu e eu já estou morto junto com você, mas não de fato. Você entende, Kyuhyun? Você precisa sair daqui. Me deixar e nunca voltar. Se o que as pessoas falam sobre a vida após a morte for verdade, talvez a gente possa se encontrar. Mas, até lá, eu não quero você por perto”, não era como estivesse calmo, aquelas palavras eram ditas numa comoção poucas vezes vista. Entretanto, sua resolução em afastar tais tormentos era tamanha que encontrou forças para falar claramente. Kyuhyun o ouvia com atenção, sua cabeça baixa e o silêncio impenetrável com que regalava Sungmin eram a prova de que respeitava o luto alheio e não pretendia perturbá-lo mais. Como lhe era pedido, não ficaria por perto.
Todavia, desistir sem insistir muito antes não era de seu feitio. Não era em vida, tampouco seria em morte.
Sungmin compreendera bem. Conhecia Kyuhyun como a palma de sua mão. Ele tinha que persistir até onde era possível.
“Eu não posso. Eu não consigo. Eu tenho que ficar com você, eu tenho... Eu não sou capaz de ir a lugar nenhum sabendo que você está aqui, que eu te deixei sozinho. Você tem que me aceitar”
“Eu não tenho que fazer coisa alguma, Kyuhyun”
Ele era obstinado, Kyuhyun era uma mula quando empaca. Sungmin nunca teria argumentos que o convencessem a ir embora, a partir definitivamente.
Seu semblante era meio desesperado, meio amedrontado. Como uma criança acuada, encolhida no cantinho, escondida de um monstro que é a representação do que mais teme na vida. Kyuhyun transbordava medo. Medo de ser esquecido, de ser deixado para trás, de ser rejeitado. Sua morte não viera sozinha. Ela viera acompanhada de todo tipo de medo que jamais imaginara ter. E fitar Sungmin, decidido, impassível, enquanto o mandava ir embora era o pior castigo, a pior dor. Nem a morte lhe ferira tanto assim.
Sungmin parecia tão certo do que pedia que Kyuhyun concordaria em atendê-lo. Cumpriria seu desejo, pois não havia outra opção. Só faria um último contato... Era como ousara chamar aquela brusca aproximação.
“Você pode me tocar... E ver que eu sou de verdade!”
Levou as mãos aos ouvidos; seu desejo era abafar os sons, desprezar os cheiros, eclipsar as imagens. Mas Lee Sungmin imponentemente se pusera de pé diante de si, uma arma engatilhada apontada para o seu peito. Ele era impiedoso, não falhava. Victoria já podia sentir o perfume da morte, que lhe espreitava ofidicamente.
As crianças jaziam ensanguentadas na sala. Na cozinha, era acossada por aquele homem mau, pecador, imundo. Ele viera para assassiná-la, seus filhos foram só um bônus.
“Algum recado para Kyuhyun?”
Aquela sentença proferida num tom jocoso foi retrucada pela voz estridente e entrecortada de Victoria. Não tinha nenhuma simpatia por seu falecido marido, mas ouvir aquele criminoso tocar em seu nome daquela maneira tão desrespeitosa fez com que seu orgulho ressentido desse mostras de ainda existir.
Sungmin disparou a arma, atingindo Victoria diretamente no seio esquerdo. Ela agora era um emaranhado de sangue e de toda a merda que a compunha. Estava acabado pra ela.
Sungmin continuava digno.
Seu punho fechado acertou em cheio o rosto bonito de Kyuhyun. Não que Sungmin se preocupasse em não conspurcar as feições belas de seu amante. Afinal, ele também não dava a mínima pra isso. Que fosse socado, espancado... Qualquer coisa vinda do mais velho era válida. Queria sentir a pele dele contra a sua, nem que fosse por meio de um soco no nariz.
“Eu sou real. Eu sou seu”
Sungmin investia contra ele, que já fora levado ao chão. Fora chutado e esmurrado, mas segurava as pontas. Se seu hyung precisava extravasar a dor da perda, que ele o fizesse usando a si mesmo como saco de pancadas. Não iria protestar.
“Você está mentindo. Você não existe”
Aquilo fora a gota d’água. Segurou Sungmin pela gola da camisa surrada que vestia, levantando-o. Seus olhares colidiram. Usando de toda a sua força, Kyuhyun o deteve, deslizando as mãos da gola até os pulsos, apertando-os os pulsos num laço estreito, do qual Sungmin não pôde se desvencilhar.
“Então vá embora! Me deixe em paz! Eu vou enlouquecer...”
O braço estendido, a mão novamente empunhando a sua tão fiel Desert Eagle. Seu sorriso não poderia ser maior, não era sádico, era genuinamente feliz. Dispararia aquela arma e estaria acabado. Matou-os todos, um por um. Não tinha mais pendências. Sua vingança se completaria em breve e sua vida se findaria junto.
“Eu disse que você estava morto”
Zhou Mi não estava mais tão debochado e seguro de si, estava? O medo estava estampado em cada mínimo pedaço que lhe compunha.
“A troco de quê você o matou, Joomyuk? Eu não entendo...”
Vinte e quatro tiros. O dobro de tiros que Zhou Mi disparara contra Kyuhyun. Sungmin deixou um corpo estraçalhado para trás e levou consigo só a certeza de que agora estava tudo resolvido. Tudo bem.
Mas nunca iria entender o porquê.
“Você não tem ideia do quanto eu senti sua falta”
“Eu tenho. Acredite, eu tenho. Você me fez ter”
“Você é real agora, não é?”
“Eu sempre fui, Sungminnie”
“Você não vai me deixar, vai?”
“Eu nunca te deixei. Você não acredita em mim?”
“Eu acredito. Você estava lá”
“Não. De ninguém. Não faz diferença, não tenho interesse algum em saber deles”
“Somos só eu e você, certo?”
“Sim, Kyuhyun-ah. Só eu e você”