Era final de tarde, e eu andava por entre a neve branca que havia caído durante todo a manhã, o clima estava agradável, o céu estava azul, não havia vento, e o sol que ainda estava alto no céu deixava o ar das montanhas mais confortável, tranquilo e aconchegante.
Estávamos em férias, apenas eu e meu filho, havíamos planejado aquela viagem a muito tempo.
Ele tinha ficado muito chateado, pois viajei para conhecer a neve e não o levei da primeira vez. Mas prometi que o levaria na próxima. E lá estávamos. Felizes, fazendo novos amigos e curtindo todos os passeios que nos eram propostos.
Eu estava em paz, sentia-me realizada em estar naquele lugar, tão lindo. Sorria sozinha, enquanto caminhava em direção a porta de entrada.
O Hotel que estávamos hospedados era extremamente luxuoso. A decoração dava um ar de um rústico e moderno. Sua construção principal era toda em madeira, revestida com um material que deixava suas paredes bem escuras. Seu pé direito tinha cerca de 5 metros, as janelas iam quase do piso ao teto, com grandes vidros transparentes que permitiam que a luz do sol iluminasse todo o ambiente. Através das janelas, podíamos ver todas as vilas que cresciam ao redor da montanha. A decoração era clara e trazia um ar de aconchego. Haviam muitos tapetes e cortinas por todo ambiente . Os sofás eram brancos em um couro macio, e ao lado dos sofás sempre haviam duas poltronas redondas, em uma cor que e ainda estava entendendo, não sabia se era um verde, ou um azul. A cada conjunto de sofás e poltronas havia uma mesa de centro de madeira com detalhes e tampo em vidro, com delas uma porção de revistas e alguns livros para os hóspedes.
Em todos os sofás, haviam sempre um par de almofadas em tons de terrosos, em tecidos diferentes, algumas com um veludo macio, outras num linho opaco, que favoreciam muito na decoração. Ao centro da recepção, havia uma lareira. Linda e imponente. Ela ia até o teto. Diferente das lareiras tradicionais, presas a uma parede, esta era ao centro, podíamos ver suas chamas de qualquer posição. Ela era revestida de pedra, com acabamento e detalhes num vidro muito grosso.
O piso era de um tom bem claro, feito de mármore polido, onde dava pra ver seu reflexo, também haviam muitas flores em todos os cantos, nas mesas de centro, no balcão da recepção, e em pequenas mesas de cantos posicionadas estrategicamente no salão. Ao entrar na recepção, o hospede se deparada com um lustre majestoso feito todo em cristais, gotas de cristal, as lâmpadas minúsculas se confundiam com o formato dos cristais. Estava ansiosa pra chegar a noite e ver o quão esplendoroso devia ser aquela iluminação.
Andei em direção a porta de entrada, onde dava para ver um pouco do sol que ainda estava no céu, devia passar das 5 da tarde. O chão estava coberto pela neve, e as plantas que ali decoravam a entrada, resistiam ao frio das montanhas. Muitos carros estavam estacionados um pouco mais abaixo da entrada. Estavam todos cobertos pela neve, era possível ver a estrada que chegava a montanha daquela posição.
O dia estava lindo e agradável, e eu me sentia feliz, me sentia grata por aquele momento, por cada detalhe da natureza, por cada brisa no rosto.
No horizonte, era possível ver um vale, algumas poucas casas, que formavam pequenas vilas ao redor da montanha.
Alguns casais que passaram por mim, me cumprimentavam com um singelo "boa tarde", e paravam no mesmo ponto que eu, para apreciar o céu, ainda azul.
Enquanto estávamos ali, por alguns minutos apreciando a paisagem, algo muito estranho e aterrorizante aconteceu.
Algo havia cruzado os céus, numa velocidade espantosa. Era grande, muito grande, não havia fogo em sua calda, nem qualquer vestígio de massa de desfazendo ao entrar na atmosfera.
Automaticamente nos assustávamos, e nos entreolhávamos, perguntando apenas pelo olhar se todos tinham visto aquilo. Conforme aquela "coisa" avançava, o céu se transformava, ficava vermelho e laranja, como se algo tivessem revestido a terra em papel celofane vermelho... era apavorante.
O medo tomou conta de mim, um tremor subia por minhas pernas, o peito doía de aflição, e a cabeça... haaa não conseguia pensar, eu estava em choque, totalmente paralisada.
Como era possível que aquilo realmente estava acontecendo. Eu estava sonhando, não pode ser, alguém me acorda por favor. - Eu pensava
O desespero já tomava conta de mim.
- Meu Deus! Vamos todos morrer!
Burburinhos começavam a ser ouvidos, e os hospedes da pousada passavam a falar sobre os últimos acontecimentos vistos na TV.
Eu estava de férias, totalmente desatualizada das últimas noticias, me permiti ficar sem celular por alguns dias, para viver a paz que havia me proposto.
Os hospedes conversavam, e diziam que no dia anterior, os noticiários passaram a falar da entrada de um objeto... de massa não identificada em nossa galáxia, que se movia de forma rápida, e totalmente diferente de qualquer outro corpo celeste já identificado pela humanidade. Não era um asteroide, nem um comenta, ou um óvni. Ninguém sabia do que se tratava, e estava muito rápido. Se chocaria com a terra a qualquer momento. Noticiavam o que parecia ser o fim do nosso mundo. Íamos todos morrer!
Tudo aconteceu de forma tão rápida, que ninguém sabia realmente o que estava acontecendo, apenas falavam que havia chegado o fim dos tempos. E aquilo me apavorava, como assim? Vamos todos morrer! Estávamos num lugar tão remoto, tão distante de qualquer civilização, que imaginávamos o desespero que devia estar nas cidades, o medo das pessoas, o caos. A Comunicação naquela montanha, era quase inexistente, os rádios já não funcionavam bem, internet se quer havia sinal, os satélites mal respondiam, a única coisa que ainda funcionava mais o menos era a TV, que estava pendurada por um suporte na recepção.
- Meu Deus, meu Filho!!!! .
O João não estava certo de mim, totalmente desesperada comecei a procura-lo... Onde ele estava, senhor?
Conforme a "coisa" se aproximava da terra, era possível ter mais clareza de sua forma. Era possível ver que sua ponta era mais fina que seu corpo, como uma munição. Rápida! direta.
Enquanto eu a analisava, a "coisa" atingiu o Terra, perfurou-a, como uma agulha que fura um tecido, de forma rápida, certeira, precisa e imperceptível. Por alguns instantes, nada aconteceu, mas segundos depois, uma grande poeira era vista no céus, não sabíamos quanto tempo levaria até sentirmos as consequências daquele choque.
Eu precisava ser forte, precisava encontrar o João, Meu Deus que desespero, que medo, quanta dor... sai em disparada para o salão de jogos, onde haviam alguns adolescentes desesperados, chorando, agarrados uns aos outros sentados no chão. Não vi o João. E meu medo só aumentava, Perguntei a um deles, onde estavam as outras crianças? E uma das garotas que se aproximava respondeu - Eles foram para o passeio de ônibus.
Meu Deus o passeio! tinha me esquecido totalmente do passeio para o Esqui. Voltei correndo para a entrada, quando avistei outras crianças chegando, chorando desesperadas, procurando pelos seus pais. Corri entre elas, desesperada, gritando pelo seu nome, João! João! João, filho onde você está? O desespero já tinha tomado conta de minha alma, a angustia estava em meu peito, e eu só sabia chorar, chorava desesperadamente. Ele estava sozinho, ele devia estar com medo, eu estava com medo! meu Deus, onde ele estava? Quero abraça-lo. Quero poder dizer pela última vez o quanto eu o Amo. E que eu estava ali.
Três adolescentes que passaram por mim, me ouviram gritar o nome do João.
Uma das garotas, me segurou pelo braço e disse - "O João não foi ao passeio, ele perdeu o ônibus".
Meu Deus, não sabia se ficava tranquila, pois ele estaria por ali, ou se entrava em desespero por não saber onde ele poderia estar. O Ônibus que trouxera as crianças ficou vazio, e realmente o João não desceu dali.
Neste instante, víamos no horizonte uma luz, uma grande e forte luz, luz laranja e vermelha, era fogo. Não era possível! Era lava! Não era possível.
O tal ser celeste que caiu do céu, perfurara o núcleo da Terra, liberando toda a lava lá contida, que se espalhou pela superfície de forma rápida e destruindo toda a vida na Terra. A "coisa" fora tão imperceptível, tão certeira ao atingir o solo, que a terra não moveu nenhum centímetro, era como se realmente uma agulha tivesse perfurado a terra e saído do outro lado, como um tiro.
Era um oceano de lava, que estava destruindo cada pedaço dela, como um tsunami que acabara de ser criado, mais alto que prédios inteiros, mais mortal do que qualquer coisa que já tínhamos presenciado na história, a lava engolia todo aquelas vilas que víamos em volta da montanha, abaixo de nós, eram como se ela cobrisse cada espaço vazio entre o oceano e as montanhas, transformando tudo em um única planície.
Íamos todos morrer, e ver a morte na sua frente era perturbador, porquê não morríamos logo?, de uma vez? sentiríamos a dor, por alguns segundos sendo consumidos ela lava, sentiríamos a dor, o medo e tudo se acabaria. E eu só conseguia pensar no meu filho, no medo que ele estava sentindo sozinho. Me sentia culpada, por deixar ele morrer, não queria morrer, não queria que meu bebe morresse. Meu Deus que fim cruel e trágico. Depois de tudo que sofremos em vida, de tudo que lutamos e conquistamos, íamos simplesmente morrer no fim do mundo?
Me lembrava que sempre dizia que queria morrer aos 98 anos linda e lúcida, dormindo, sem dor. Apenas passando para o outro plano.
Desde meus 15 anos questionava minha religião, coisas haviam acontecido comigo, coisas espirituais que minha religião jamais soube me explicar. E as respostas que eu recebia, não faziam sentido algum. E acreditava que a vida não era só aquilo. Havia algo mais depois dela, tinha que haver. Eu amava viver, apesar de toda a dor e o sofrimento, o beneficio de estar vivo me fascinava, me agarrava a ideia que teria uma segunda chance. Me agarrava a ideia da reencarnação. Mas agora, tudo estava se acabando, vida por vida. mesmo se sobrevivêssemos aquilo, morreríamos de fome, não haveria terras para plantar, a natureza não se reconstruiria assim tão fácil, com tanto magma em cima dela, sem falar que estávamos presos ao topo de uma montanha, num dos picos mais altos do planeta.
Aquele mar de lava se aproximava, meu Deus, imagina a velocidade, a terra já havia sido consumida, e todas a vida nela destruída. Só restávamos nós vivos, em cima daquela montanha? seriamos nós os responsáveis pela sobrevivência da humanidade? - Pensei comigo, num momento de loucura.
Eu queria achar meu filho, queria estar com ele, queria que morrêssemos juntos. Eu não podia desistir, tinha que encontrar meu João!
Sai em disparada, pela estrada, corria e gritava, João!, João!. Dois hospedes vendo meu desespero me acompanharam na minha corrida. Um pouco a frente, passava um rio, onde os adolescentes gostavam de ficar lá sentados, conversando e vendo a vida passar. Corri até o local que costumavam se encontrar.
A lava já chegara perto, e corria ao lado do rio que ainda tinha água. A visão era aterrorizante, uma faixa de lava e fogo, e apenas o rio nos separava da morte.
O Rio por sua vez, que naquele lugar deveria estar a muitos graus negativos, agora borbulhava em fervor com o calor do magma.
Mais a frente avistei umas roupas em cima de uma pedra. Eram as roupas do João. Uma blusa preta, e uma calça cinza, além das meias e do tênis, posicionados como se ele estivesse dormindo, dormindo de lado, com as mãos de baixo da cabeça, os pés cruzados uma sobre o outro, o tênis também estava na posição como quem estivera deitado. Mas eram apenas as roupas dele!
Eu não sabia o que fazer, e já imaginava a cena na minha cabeça!
Ele havia ido para o rio, pois estava triste por ter perdido o ônibus e ficado para trás, e se deitou na pedra para chorar. E algo acontecera, e ele sumiu! Como quem tivesse evaporado e deixado apenas suas roupas para trás. Mas o que tinha acontecido? Meu Deus, será que ele estava seguro? será que tinha sido engolido pela lava? Eu não tinha respostas. Cai no choro novamente.
Eu sabia que algo tinha acontecido, e estava relacionado com aquele céu vermelho, e toda aquela sequencia de desastres que estavam acontecendo.
Eu não sabia mais o que fazer, não podia acreditar que ele havia simplesmente evaporado! Impossível! voltei a andar, seguindo o rio, querendo encontrar mais sinais que ele estivera por ali. Alguma pista.
Foi quando eu avistei um grupo de pessoas subindo o rio, munidas de pedaços de madeira, pás, ancinhos, tesouras de podar e outras ferramentas impossíveis de descrever. Eles gritavam, tinham os olhos vermelhos e a pele azulada, como quem tivera sido congelados. Eles corriam em nossa direção, havia muito ódio e desejo de matar em seus olhos.
Meu Deus, metade da humanidade já tinha morrido e a outra metade estava querendo nos matar. Nada fazia sentido mais naquele momento.
Corremos de volta para a hospedagem, colocamos todos para dentro do prédio, trancamos as portas, nos munimos de todo e qualquer objeto que pudessem nos defender e esperamos, sem saber o que ia acontecer.
Os hospedes continuavam a falar.... diziam que no jornal mais cedo, haviam relatos de pessoas que tinha, sido infectadas por algo que estava na nuvem de poeira que surgiu logo após a entrada da "coisa" na atmosfera, e que esta poeira havia afetado o sistema nervoso e transformado algumas pessoas, em uma espécie de zumbis. Elas ainda estavam vivas, mas eram controladas por este vírus...
Realmente era o fim do mundo, íamos morrer, e eu não tinha encontrado meu filho ... e agora pessoas infectadas queriam nos matar...
É caro leitor, então eu acordei! Acordei tremendo de medo, morrendo por dentro, chorando e totalmente desesperada com o que eu acabara de ver em sonho. O fim do mundo!
Me levantei, fui no quarto do meu João ver se ele estava bem, e voltei pra cama. Angustiada! E confesso que ainda estou, principalmente revivendo cada segundo do sonho, enquanto eu escrevia-o para vocês.
Este sonho da uma bela história de Ficção Cientifica. Pois tem muitas perguntas não respondidas.
Onde esta o João? O que realmente aconteceu com ele? O que era aquilo que caiu do céu? que poeira era essa que afetava os poucos humanos ainda vivos? o que aconteceu com os hospedes que haviam sobrevivido? A lava avançou? Como raramente se sonha com a mesma coisa 2x nessa vida, agora é inventar e completar a história.