O Velho Homem.
Era visível a cara de frustração daquele senhor, que aos seus mais de 70 anos ainda tinha que educar e criar seu único filho, um homem adulto e preguiçoso que passava dos quarenta anos e não assumia suas responsabilidades.
Marcelo parecia não crescer, se comportava como um adolescente rebelde, se aproveitava do amor dos seus pais para fazer oque queria. Enquanto seu pai fosse vivo, ele viveria como se não houvesse amanhã, pois sabia que teria alguém sempre ali para defende-lo e que resolveria todos os seus problemas, sem se quer ser punido.
Seu pai sabia que cometia sempre o mesmo erro, a cada problema que Marcelo trazia ele não conseguia fazer com que ele se responsabilizasse, e acabava resolvendo todos os problemas do filho. Aquilo lhe corroía dia após dia. Não saber o que fazer e como agir era uma angústia diária. Mas ele anda tinha fé, quem um dia Marcelo acordaria para a vida.
Marcelo por sua vez, vivia como um verdadeiro vagabundo, não trabalhava, era sustentado pelo pai, vivia bêbado na noite e com prostitutas. Sua mãe havia morrido anos antes, com um desgosto enorme por seu filho não ter se transformado no homem, que seu marido havia sido para ela.
Uma certa noite precisavam visitar uma propriedade da família, que a muito tempo havia sido abandonada, o velho homem esperou ansiosamente por anos, para que seu único filho pudesse tomar conta dos bens da família. Mas infelizmente Marcelo estava longe de ser este homem.
Naquela noite, chegaram a casa da família, uma propriedade muito distante da civilização e que há muito tempo não visitavam, a casa estava ao ermo, totalmente abandonada. As janelas de ferro que iam do teto ao chão, estavam totalmente corroídas pelo tempo, e todas as vidraças estavam quebradas. Já não havia energia elétrica a muitos anos naquele lugar. O mato ao redor havia crescido rápido, e tomava conta de todos os cantos. Sujeira e ferrugem faziam parte da mobília que ainda restava lá. Não haviam mais portas, pois estavam todas destruídas pelo tempo. A casa tinha dois andares, seu pé direito era alto, em algum momento de um passado bem distante, deveria ser uma obra de arte sua construção, que era muito moderna para sua época.
Marcelo, como sempre estava totalmente alcoolizado, e tentava se segurar pelas paredes, até cair bêbado num sofá velho que havia em um dos cômodos.
Ao analisar a casa abandonada, a tristeza invadiu o coração daquele homem velho, ele já não tinha mais forças, estava cansado, queria muito que Marcelo tivesse se tornado o homem que ele foi na sua idade, queria muito poder contar com seu único filho, pra ter uma velhice tranquila. Mas seu filho, lhe dará mais trabalho na vida adulta, do que em toda sua juventude.
O velho homem apoiou uma das mãos no batente da porta, e a outra na cintura analisando atentamente aquele quintal, que só se podia se ver pois a lua estava iluminando-o lá do alto.
Algo havia lhe chamado a atenção, a grama não estava tão alta, quanto no quintal ao redor da casa, a terra estava remexida, havia muita sujeira espalhada. Alguém havia estado ali. Ele pensou.
Olhou atentamente para cada canto daquele gramado, observando cada pedaço de terra mexida, cada objeto estranho jogado. Ele sabia que havia algo errado. Chegou mais perto, e pode sentir que a terra estava fofa.
Viu muito sangue fresco em vários pontos, encontrou roupas velhas, rasgadas e sujas, calçados faltando um par.
Seus olhos arregalavam-se a cada associação que fazia aos objetos encontrados e aquele lugar. Seu coração acelerava e o medo começava a domina-lo.
Levantou a cabeça, e olhou ao seu redor, procurando por alguém que pudesse estar por ali, mas nada via. Estava noite e não podia ver nada além do que sua lanterna e a lua iluminavam.
Não havia mais ninguém, era só ele, e Marcelo desmaiado no sofá, a propriedade era longe demais de qualquer civilização, aquelas terras haviam sido esquecidas por Deus.
Correu em direção ao seu filho, contando oque havia visto, chacoalhava-o em vão. Marcelo estava totalmente em coma pelo álcool que havia ingerido horas antes.
O velho correu pela casa, atravessou o quintal da frente entrou no carro e dirigiu ao redor do terreno, estacionou num local que pudesse iluminar o máximo possível.
Voltou pra dentro da casa, para procurar ferramentas, algo que ele pudesse demarcar o terreno e cavar as partes que estavam fofas. Neste momento o desespero já tomava conta dos seus pensamentos.
Encontrou muitas ferramentas de jardinagem nas quais ele desconhecia, fazia tantos anos que não estivera ali, que estranhou. Diferente do restante da casa... as ferramentas pareciam novas. O medo e a curiosidade do que ia encontrar só aumentava. O velho tremia, transpirava, ofegava. E isso só o fazia ficar mais frenético, mais enérgico. O medo dominava seu corpo, e ele não conseguia parar.
Ele começou a demarcar cada pedaço do quintal, cada terra remexida, cada objeto encontrado, cada poça de sangue. Tirava foto de tudo que encontravam, cada foto era um de seus pensamentos e associações do que via.
O dia já estava amanhecendo quando ele terminou a demarcação do terreno, e decidiu que deveria cavar um ponto especifico do quintal, algo ali estava mais estranho que as outras demarcações.
A cada enxadada, uma gota de suor escorria no seu rosto, o homem estava coberto por lama, terra e grama e se sentia cansado. Mas o medo que passava pelas suas veias o deixava forte, e ele não descansou ...
Após cavar pouco mais de um metro ele viu... viu o que temia, seu corpo todo começou a tremer, suas mãos transpiravam mais, seu estômago passou a revirar e uma dor de cabeça fortíssima o atingiu...
Era uma ossada, um corpo já totalmente consumida pela tempo. Seu estômago revirou, sua cabeça começou a girar e o velho homem vomitou todo aquele sentimento de medo que o estava consumindo.
Mas ele continuou e com cuidado para não tirar nada do lugar ele limpou toda a terra em volta daquele corpo. Concluiu que era uma corpo de um jovem, um adolescente talvez, baixa estatura. Estranhou pois seu crânio era maior do que o restante do corpo, não parecia ser algo normal. As roupas, uma camisa polo azul marinho, e uma bermuda preta ainda estavam ao redor do corpo, já corroídas pelo tempo que estivera ali.
O dia amanheceu, e ele caiu na terra, chocado com aquela monstruosidade que acabava de ver. Haviam muitas perguntas sem resposta, e ele não sabia o que fazer.
Num salto, levantou da terra, e foi em direção a casa. Passou por Marcelo que ainda dormia, pegou o celular do bolso e ligou para a policia, contou tudo que tinha acontecido naquela noite e no corpo que havia encontrado em seu quintal. A delegacia mais próxima, ficava a mais de 50km do local, e socorro iria demorar para chegar.
O velho homem então desabou de cansaço no canto da casa, e cochilou. Mas sua cabeça não parava de pensar. Ninguém sabia daquela casa, daquele endereço tão distante. Quem poderia conhecer aquele lugar? quem fez isso? o que mais encontraria naquelas terras?
Algum tempo depois, ouviu um barulho na estrada, e se levantou para ver quem era. Acreditava ser a policia... mas não era, conforme o carro se aproximava, via que nele havia um homem sozinho, e quanto mais perto chegava, via-o olhando fixamente em sua direção, era possivel ver sua expressão de raiva, dava pra ver o ódio explodindo pelo seus olhos. Sua pele branca, estava vermelha e suas mãos apertavam fixamente o volante, que dava pra sentir a força.
No mesmo instante o velho homem sabia que ele era o responsável pelas atrocidades que acabará de descobrir em sua casa.
O velho homem correu, e chamou desesperadamente por Marcelo.
- Acordaaaaa precisamos sair daqui agora!
Marcelo totalmente desorientado, caiu da cama, na tentativa de se levantar, engatinhou alguns metros e seguiu seu pai.
- O que esta acontecendoooo, por que estamos correndo??? Gritava Marcelo pela casa.
Neste instante o homem apareceu na porta da entrada, segurando um machado. Seu olhar estava fixo em Marcelo e em seu pai.
Era um homem branco, alto e magro, cabelo raspado, suas roupas eram claras estavam limpas e bem ajustadas ao corpo. Parecia um homem comum, pai de filhos, marido.... Mas seu olhar era frio e calculista, dava pra sentir que naquele corpo não havia uma alma.
Ele andou calmamente em direção aos homens que ali estavam, segurando seu machado com força.
Sem saída, Marcelo e seu pai subiram as escadas correndo, na esperança de se trancar em algum cômodo a espera da policia. Tolice! Todos os cômodos estavam sem portas e a única saída era pela varanda de uma das suítes, onde havia uma escada que dava ao jardim. Antes que pudessem pensar nesta possibilidade, o homem branco apareceu na escada e deu o primeiro golpe de machado, que passou raspando pelo rosto de Marcelo, que puxou seu pai e correram de volta pelas escadas que haviam subido. O machado ficou preso no batente da porta, e assim ganharam alguns minutos...
Correram desesperadamente para fora da casa, em direção a estrada.... foi quando avistaram o primeiro carro de policia... Continuaram correndo em direção aos carros, gritando por socorro, balançando os braços desesperadamente. Marcelo ao alcançar o primeiro carro disse "Ele esta lá, dentro da casa, nós o vimos"...
Os policiais ligaram as sirenes e foram em direção a casa...
O velho homem, cansado, caiu de joelhos no chão, chorando e agradecendo por não precisar mais fugir... O medo havia o deixado.















