Quando, há alguns meses cruzou a porta vermelha que apareceu em algum ponto da Irlanda, Eileen não poderia imaginar o quão aquilo transformaria seu último ano. Agora estava diante de uma porta tão semelhante aquela que lhe levara ali. Ainda que da primeira vez enfrentara o desconhecido, o ímpeto de abrir a maçaneta da tal porta misteriosa, não fazendo idéia do que encontraria do lado oposto, e nem mesmo sem saber o porque o fizera, mas naquele momento de desespero era o certo a fazer, e não estivera errada. Mesmo sem saber encontrara um refúgio para os problemas que deixara na terra, para sua eterna e lamentável solidão, para suas escolhas tortas e seus receios. E agora ali, estava diante daquela mesma situação, mas sabia o que encontraria do lado oposto, sabia que aquele era o caminho que a levaria de volta para cara. Mas o que a esperava? Não tinha mais pais, não tinha mais o irmão, afastara as pessoas que amava, e por mais bizarramente estranho que pudesse parecer, aquele lugar cheio de mistérios que levara tanto para se acostumar chegara perto da definição de casa - uma bem esquisita diga-se de passagem - encontrara velhos amigos a quem ainda devia muitas explicações e conhecera pessoas que não imaginaria se ver trocando qualquer palavra na terra, afinal aquele grupo que mantinha os mais diferentes hábitos, costumes,idiomas pareciam tão iguais em tantas outras coisas, e Eileen não se sentia deslocada como a tanto tempo. Era muito o que ponderar em pouco tempo e o mesmo corria severamente. Esse mesmo tempo cruel transcorrera nas últimas semanas, em meio ás reviravoltas de sua vida que pareceram dar-se em uma pestana, uma vez que tomara um rumo diferente, tal como uma discussão com amigos, algumas frases ditas, alguns acontecimentos que num primeiro momento pareciam insignificantes e agora haviam tomado uma proporção um pouco maior, tal como suas decisões, Eileen tivera algumas iniciativas, até se empreitara em aprender auto defesa. Interessantemente pensar naquela situação instigara ainda mais pensamentos que naquele momento Eileen decidiu banir afinal estava tentando ser o mais coerente possível na sua decisão.
De um lado ficar em Gael lhe permitiria muita coisa, mas lhe privaria de outras demais. Estava ali tendo a paz que lhe parecia impossível na terra, como se ali fosse sua gaiola dourada, estava presa mas se sentia livre de tanta coisa. Talvez é porque estivera presa a vida toda seja ás decisões dos pais ou nas consequências das suas - salvo algumas vezes na adolescência que se permitira esquecer de muita coisa quando estava com os melhores amigos. No entanto, ainda existia um mundo todo para vêr, lugares para conhecer e melodias para ouvir e talvez pudesse ter a oportunidade de reencontrar aquele sentimento na terra. Aquela vontade de viver. Gael havia lhe trazido algo de volta, algo que achou não mais encontrar, a fez achar a si mesma, mas sabia que ainda tinha tanto para descobrir, mas a verdade era que, independente de onde estivesse poderia fazê-lo porque agora Eileen sabia que seu destino não estava nas mãos de ninguém além das suas próprias, e ainda que ficar lhe fosse deveras tentador estava a considerar como aquele lugar parecia está, afinal não comia direito a tanto tempo, aos poucos muitas pessoas deixariam ali também, Porque o destino não dependia do lugar onde fosse traçado, dependia de como o fosse, e Gael lhe havia ensinado isso, nas suas férias do mundo real, mas férias costumavam acabar em algum momento.
Fora nesse ponto que a jovem tivera certeza do que faria, talvez em algum momento encontrasse outra porta vermelha que a levasse para outro lugar, talvez algum disse visse todas aquelas pessoas e tivesse uma chance de se explicar para Nathaniel e Daniel. Tantos "talvez" percorriam a cabeça de Eileen que os pensamentos em vida própria se perdiam em seu próprios flashes, Mas agora eram as rédeas da sua vida que pela primeira vez seriam tomadas por si mesma. E o tempo continuava correndo como se toda a ampulheta estivesse se aproximando dos últimos grãos de areia. Fora o impulso para finalmente encher os pulmões de ar e lidar com a situação que estava a tanto adiar. Revirou a pequena bolsa com seus poucos pertences ali, tirando um pedaço de papel, era um pedaço de papel pardo, nem sabia que estava ali, afinal era o que sempre guardava seus pedidos no Mad Cafe. E com uma caneta que falhava bastante escreveu algo em um pedaço de papel, um telefone e um email, seguido da frase "eu ainda vou ganhar de você, russian boy! Morrighan E. K, caso não se lembre." Não soube de onde tirara senso de humor naquele momento e nem como o tirara, entretanto, num ímpeto de ação, quando o Petrovich descuidou-se de seu violino por alguns instante, a morena viu uma oportunidade de enfiá-lo numa brecha, quando passou pelo menos. Estava decidida á seguir pela porta, o vermelho parecia ainda mais vivo, muitas pessoas já haviam passado por ali, era a sua vez agora. Ao virar-se para todos, parou o olhar em Nathaniel e Dan, como que se desculpasse por algo, se ainda se vissem ela saberia exatamente o que fazer, teriam muito o que conversar. Aquela altura imaginou que ambos fariam a mesma coisa, eles provavelmente se veriam em casa. Ou talvez não, ainda que naquele momento Eileen se decidira apenas por si mesma, pela primeira vez não tinha ninguem decidindo por si, e a única coisa que pensou era o quanto era difícil. Afinal não tinha ninguém para culpar. A consequência seria fruto exclusivamente de si mesma. Parou o olhar numa outra pessoa, não estava ali antes, o rapaz parecera cogitar dizer algo - já o vira pela cidade mas nunca conversaram na verdade - mas fora apenas impressão da morena. Dera uma última olhada para a cidade perdida atrás dos ombros dos colegas. Suspirou e reunindo uma grande força necessária para mover a mão alguns centímetros á frente, girou-a no sentido anti horário. A maçaneta era fria, Gael estava fria e de repente tudo se dissipou.
Abriu os olhos quando enfim percebera aonde estava. Os prédios, algumas buzinas, parecia tão igual quando vira pela última vez, estava em Belfast, atrás de si um muro de concreto, não tinha porta vermelha, não tinha Gael, era ela, sozinha novamente. Mas ainda não havia retornado para casa, o faria apenas quando pegasse o trem, na semana seguinte. Quando fechasse a matrícula da faculdade, deixasse as coisas em ordem. Eileen não voltara para casa quando passou pela porta vermelha, voltou para casa quando embarcou no trem que a levaria de volta ´Ballymena. Mas aquela era apenas uma parada, antes que a morena fizesse algo que estaria ansiando por anos, ser uma cidadã de Gael a fizera agora tornar-se uma cidadã do mundo. Não saberia quanto tempo demoraria para as coisas se ajeitarem, nem se elas se ajeitariam um dia. O que restava a fazer era seguir, mas seguir parecia tão mais difícil que fugir. O que não daria por uma porta vermelha aparecer do nada novamente?