flashback | heather + finn
tw: overdose, suicídio
Era uma cena digna de filme de Hollywood. O melodrama escorria pelas paredes da elegante residência dos Andrews, cenário que, combinado à trilha sonora fornecida pelo choro histérico da matriarca, parecia quase artificial. Aquele seria o momento em que os espectadores sentiriam um nó na garganta e se perguntariam, na privacidade da sala de cinema, o que fariam diante da tragédia que lhes era exibida. Ou talvez aquela cena funcionasse melhor como alguma propaganda perturbadora do governo. O jovem filho voltando do exército para cuidar das três mocinhas desamparadas de sua família, honrando o legado e a memória do pai, que dera a vida para proteger o país? Era perfeitamente catastrófico. As fotos dos cinco membros sorridentes da família, espalhadas por toda a sala, eram a cereja no bolo.
Heather era a terceira na fila para cumprimentar Finn. Ela provavelmente deveria estar chorando, mas agora era tarde demais para forçar as lágrimas a aparecerem. Nem sabia se conseguiria, na verdade, não com as doses generosas de Prozac que vinha receitando a si mesma. Ela não era idiota, tinha pesquisado e sabia exatamente até onde podia ir. O limite entre a dormência, que era exatamente o que ela queria, e a overdose, que era a última coisa que podia fazer, era tênue. Mas Heather sempre fora inteligente, em poucos dias já sabia administrar a ingestão do antidepressivo. Estava orgulhosa de si mesma. Sabia que o medo de que ela “tentasse tirar a própria vida” (palavras de sua mãe) novamente pairava sobre a família como um fantasma, mas essa era a última coisa na cabeça da jovem. Na verdade, por mais que ninguém acreditasse, ela sequer tinha essa intenção à época do episódio. Assim como agora, tudo o que ela queria era parar de sentir por um tempo. A diferença é que agora ela sabia como fazer isso.
Quando Finn passou sua atenção da irmã mais nova para Heather, ela o recebeu com um sorriso triste. Ou, pelo menos, o que esperava que fosse um sorriso triste. Assim como as duas outras mulheres, prontamente abraçou o irmão. “Bem-vindo de volta.” disse “Quer ajuda com as malas?” Nos últimos dias, mais do que nunca, Heather havia se mostrado extremamente solícita. Afinal de contas, enquanto todo mundo desmoronava em lágrimas e dissecava os sentimentos em público, alguém precisava cuidar das questões práticas. Era um trabalho que ela estava acostumada a fazer.








