Aquela maldição era engraçada. Rasputin vivera vários anos, conhecera várias coisas, inúmeras pessoas e ambientes. Mas os anos gastos na Turquia, sendo criado por uma avó mafiosa em um bairro unido e de forte identidade cultural… bem, aquilo não havia acontecido. E ainda sim, parecia tão forte em sua memória como qualquer uma das suas experienciais reais. Era realmente como se tivesse vivido várias vidas, e tivesse plena lembrança de todas. Ele não diria a ninguém, mas gostava. Claro, havia desgraça naquela vida também com a perda dos pais e do irmão, mas de alguma forma ele podia ao menos se recordar de anos fantasmas em que alguém havia de fato cuidado dele. Em que havia feito parte de uma comunidade, de pessoas que o apreciavam, o respeitavam. Em que não estivera sozinho. Ah, lá vinham os malditos sentimentos! Acontecia todas as vezes que visitava o amigo (palavra forte, sim, mas não o impedia de gastar por aí até com quem não gostava dele) em seu bairro. “Pronto, agora porque tá com trabalho chique já tá com nariz em pé” Provocou, em tom de brincadeira, conforme observava Mazhar se aproximar com traje formal. “Naber, Abi?” Cumprimentou, segurando o rosto do outro e lhe dando um beijo desnecessário e exagerado na testa. Não podiam dizer que Ruzgar era um cara frio!! A proximidade com a família Arslan era inevitável, estando o próprio Ölüm envolvido no mesmo tipo de negócio que eles, mas as visitas não costumavam ser muito comuns. Em primeiro lugar para não levantar tantas suspeitas sobre seus interesses ali, mas principalmente pelos incômodos sentimentos que remexiam em si toda vez que começavam a tocar uma das músicas que o lembravam de uma infância que ele teoricamente não tivera, mas que fazia parte de si ainda sim. “Neriman Teyze, seu filho é como um leão, olha só!” Deu uns tapas no peito do outro homem, observando a mulher que parecia orgulhosa de fato. “O chá tava ótimo, muito obrigado. Mas agora… vou roubar seu filho um instantinho, tamam?” Avisou, piscando um dos olhos para a mulher, utilizando todo o charme antes de pisar para fora da casa com Mazhar. “E aí? Qual foi o emprego que Pierre conseguiu para você?”