Comecei a nos ver como matéria mutável. Cada vez que respiro o seu calor, passo a ser calor eu mesma. Tranformo-me ao fitar seus olhos, as íris que mudam, o centro que distoa do resto. Há em você a energia necessária para elevar-me a outro estado. De corpo vestido a alma despida. E uma outra ordem de organização do que me compõe.
Fui derretida pelo seu beijo calmo e deslizando por você. Ambos lava recém expelida, misturando-se um ao outro. As pontas de meus dedos fundindo-se na sua pele arrepiada. Fomos água e sede, instável e insaciável.
Sob seus dedos, passei à ebulição. Condensando - me sob a sua existência de sopro. Respirei o que havia do seu cheiro, o ar impregnado com nosso estado gasoso, dificil de conter com as mãos. Éramos exatamente isso: essência leve, flutuante, preenchimento do pouco de espaço que ainda restava entre nós. Seus músculos percorridos por minhas mãos pareciam brisa de fim de tarde, quente e doce, amena e inexorável. Decorei seus caminhos ao flutuar por você.
Chovi em sua boca ávida. Éramos bonança de fim de tempestade. Um fluído bem tateado e sentido. A matéria mudando a cada toque e a língua úmida sentindo o gosto de âmbas as bocas. O interior borbulhando com um calor primaveril.
Por dentro, somos página nova. Poesia recém agrupada em versos. Somos o estado em transição. Água na boca do outro. Sólido sob as mãos. Dança ritmada entre as respirações que ofegam e os rostos que suspiram. Entre nossa constituição fluida e gasosa, somos nós. Unidos, plural e atados pela força de nossa presença conjunta. Você é as rimas que quero escrever em bom papel, em estrofes cantadas, sem ponto final.
Nós somos constituição própria à distância e o que se mistura através do olhar. Algo se enche conforme você sorri, se derrete quando se espraia em mim. Somos as mudanças de corpos e o que floresce em nosso âmago cada vez que seu aroma me marca e me chama para mais um ciclo de transformação. Juntos, imensos, inefáveis.
Somos matéria mutável e solúvel em nossos conteúdos. E nas palavras nos torno eterno.