É notório entre os professores dos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) que os jovens adolescentes cultivam uma mística apreciação pela música. Reiteradas vezes ouço dos pais e familiares desses estudantes que é difícil aceitar o gosto musical deles. Em muitos casos esse gosto pela música não só é muito diferente do de seus responsáveis como se apresenta como algo de “ruim” no julgamento adulto. As reclamações se repetem a cada reunião de pais na escola “...o que eles escutam não é música...”, “...eles precisam escutar música boa...”, “...não suporto aquela coisa que eles ouvem...” e assim vai.
Por sua vez no outro lado dos acontecimentos estão os jovenzinhos munidos de seus smartphones, tabletes, e demais apetrechos tecnológicos onde armazenam e acessam suas músicas. O discurso desses estudantes é bastante familiar a mim, visto que na condição de professor de música ouço inúmeras histórias de como determinadas bandas, artistas, cantores e cantoras encantam o universo imaginário deles. É por ter acesso ao pensamento de ambos os atores dessa intrigante realidade que proponho refletir acerca do porque muitas vezes é tão difícil gostar das músicas que os adolescentes escutam.
Em primeiro lugar quero lembrar que meninos e meninas de onze, doze, treze e quatorze anos nem sempre tiveram essa idade. Isso mesmo papais e mamães, houve um tempo em que eram apenas bebês, somente depois de muito tempo ficaram grandinhos, e bota tempo nisso, mais de uma década para adolescerem. Pensando nisso comecei a observar a forma como as turminhas da educação infantil lidam com música na escola. Tão pequeninos, dois, três aninhos e se divertem tanto ao som de “qualquer coisa que lhe ofereçam” quer seja música clássica, funk carioca, Noel Rosa, David Gueta, Michael Jackson e Jackson do pandeiro sem que essas diferenças estilísticas interfiram na capacidade desses infantes curtirem um som. Desde que, é claro, o contexto seja direcionado por alguém cujo o vínculo afetivo esteja consolidado entre as crianças, e que saiba tratar as peculiaridades Piagetianas dos pimpolhinhos, mas de resto “tá tranquilo, tá favorável” pra qualquer música.
Minha curiosidade não parou na observação pré-escolar, segui e foquei atenção nos estudantes das séries iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano), turminhas com seus seis, sete, oito, nove e dez aninhos de idade. Sei que sempre há o “Joãozinho ou Mariazinha” que, ao escutar aquilo que não está acostumado, dá aquela “risadinha marota”, mas no decorrer dos anos vão aprendendo o que é esperado deles e nos momentos de escuta acabam se divertindo. Para essa faixa etária, respeitando a idiossincrasia musical que eles já estão desenvolvendo, costumam dar certo atividades correlacionadas ao movimento e a canção, o que ajuda na construção do senso de pulso, compasso ao mesmo tempo que o texto vincula a algo que faz sentido a eles, lembro que rever os princípios Dalcrozianos nunca é demais para criar boas experiência sonoras nos primeiros anos escolares. Os papais e mamães, no geral, não reclamam do repertório musical dos seus pequenos nessa idade. Há uma espécie de consenso de que aquilo que é oferecido não encontra resistência. O que tenho observado é a existência de graus diferentes de atenção apresentados pelos estudantes a determinados estímulos musicais.
O que precisamos compreender é que o gosto musical de um adolescente se constrói ao longo dos anos, tendo início desde a barriga da mamãe, quando a capacidade de ouvir já está desenvolvida, seguindo por toda primeira infância, percorrendo as experiências sonoro-musicais da segunda infância que se acumulam até a adolescência. Pensando nisso concordo muito com Maura Penna (2008) quando diz que a música:
"não é uma questão mística ou de empatia, não se refere a uma sensibilidade dada, nem a razões de vontade individual ou de dom inato. Trata-se, na verdade, de uma sensibilidade adquirida, construída num processo - muitas vezes não-consciente - em que as potencial idades de cada indivíduo (sua capacidade de discriminação auditiva, sua motividade etc.) são trabalhadas e preparadas de modo a reagir ao estímulo musical.” (p.29)
Nesse entendimento os pais, familiares, responsáveis e professores de música têm o dever de musicalizar os pequenos para que não sejam tão arredios a determinadas músicas quando chegarem na adolescência. Temos que ser capazes de:
[...] desenvolver os instrumentos de percepção necessários para que o indivíduo possa ser sensível à música, apreendê-la, recebendo o material sonoro/musical como significativo. Pois nada é significativo no vazio, mas apenas quando relacionado e articulado ao quadro das experiências acumuladas, quando compatível com os esquemas de percepção desenvolvidos. (PENNA, p. 31).
Não deixei de observar também os adolescentes que apresentavam empatia para com músicas diferentes daquelas nomeadas por seus pares. Busquei entender os motivos de tal manifestação de gosto, e o interessante foi que, no geral, esses estudantes atribuíam terem sido apresentados a esse repertório por seus pais e familiares próximos (irmãos mais velhos, avós). Ao conversar com os responsáveis percebi proximidade entre estes e os adolescentes. Os relatos sugeriam que muito tempo havia sido gasto em atividades onde os adultos direcionavam o repertório a ser apreciado, e o contexto era de alegria, contentamento, satisfação e afeto. Situações tais como o de e ouvir músicas juntos, no carro, em casa, assistindo shows, no cinema e vendo vídeos na internet.
Enfim, percebo que quanto menos é trabalhado no jovenzinho para que aprenda a ser sensível aos diversos sons musicais, mais difícil é expandir o gosto musical quando ele chega na adolescência. Nos casos em que esse treinamento apreciativo musical não ocorre entendo que os pais, familiares e professores de músicas se tornam cada vez mais reféns de uma musicalidade raquítica, limitada, medíocre e pouco aberta à novas possibilidades. Não porque as músicas apreciadas por determinados grupos juvenis é inferior às dos adultos, mas porque não se desenvolveu neles habilidades fundamentais para que suportem a diversidade musical vigente. Meu conselho é que não esperem seus filhos crescerem para apresentar a eles a diversidade musical que inclui o seu gosto adulto, mas crie desde de cedo um ambiente musical diverso, afetivo, rico em timbres, alturas, intensidades, durações, harmonias, estilos, gêneros e ritmos. Apresente-lhes tanto a canção como a música instrumental, divirtam-se juntos ao som de músicas de diversas épocas. Amem seus filhos ouvindo música clássica, jazz, pop, rock funk, e o que mais puder escutar. Viva intensamente com seus filhos sob a trilha sonora de animações maravilhosas, filmes interessantes e peças de teatro fascinantes. Faça isso por treze longos anos e você ficará surpreso que em algum momento, sem que você faça absolutamente nada, seu filho incluirá na playlist do celular dele algumas músicas que vocês já ouviram juntos em algum momento das suas vidas.
Texto: Samuel Cintra
Samuel Cintra é músico, violonista, produtor, Bacharel em composição e regência, Mestre em educação musical e professor de música no ensino fundamental
"- Xotezinho bom, forrozinho pé de serra. É ai q o cabra se acaba a noite toda no salão. Da pra dançar e dá pra namorar, é bom de mais. Vai só machucando..." Palavras de Dominguinhos. #pedeserra #xote #dominguinhos #brasileirissimos #eucurtoisso #gostomusical