Órfão. Ladrão. Pirata. Grisha. Assassino.
Cinco palavras que poderiam definir basicamente quem ele fora desde o início de sua vida, mas que jamais foram capazes de abarcar toda a incolumidade que se passava em sua cabeça com o passar dos anos. Djel sabe que Maxim nunca se sentiu confortável em ser categorizado como a maior parte das pessoas.
A primeira palavra que definiu a criatura não poderia deixar de segui-lo até mesmo hoje, de forma que ainda carrega os símbolos de uma infância pobre nas ruelas de Kerch. Natasha era conhecida por sua furtividade, pelos olhos perolados mais belos que Ravka já viu. Jovem, desinibida e extremamente atenta a qualquer sinal de perigo, escolher logo Anatoly como seu futuro parceiro não passou de uma fatalidade do destino que lhe custou a vida. O homem era um Druskëlle —— inexperiente, sim, mas de toda forma tão sanguinário quanto todos os outros de sua classe ——, e, por angústia do destino, os laços matrimoniais ligaram presa e caçador, ironicamente selando um pacto de vida e morte que não tardaria a acontecer. Ela não sabia de quem se tratava o noivo, tampouco ele tinha ciência dos poderes da mulher a quem escolheu tomar como esposa, mas a ironia de Djel não poderia deixar a família viver relativamente bem durante muito mais do que alguns meses. No mesmo dia em que descobriu sua gravidez, uma nova caçada se iniciou para Anatoly, a única forma de torna-lo um verdadeiro Druskëlle, segundo o líder de seu clã. Caçaria a Grisha que envenenara a sua mente e mistificara seus olhos, impedindo-o de ver claramente.
Natasha fugiu, sem ao menos pedir a permissão do Darkling, a quem se reportava mensalmente à época. Precisava se manter em segurança, se ver longe do homem que, por pouco não percebeu naquela noite, fedia a cerveja barata enquanto carregava uma lâmina afiada. Correr para todos os lugares de Ravka já não era mais eficiente ante a fúria do Druskëlle, de forma que uma Grisha grávida de sete meses embarcou em um navio rumo a Kerch. Não mais poderia voltar ao seu país natal, e se xingava mentalmente pelo fato, mas ao menos a criança que agora habitava em seu ventre poderia ter uma oportunidade de crescer. Detestava a ideia de ser mãe desde o início, mas os ensinamentos que recebera de seu lord não poderiam ser ignorados: gere mais Grishas, Natasha, quanto mais, melhor. Hospedada em um dos bordéis da cidade, a Sangradora buscou manter um perfil baixo, vivendo não como a dama da alta sociedade que era, mas como uma mísera comerciante de frutos. O teatro, contudo, não perdurou por muito tempo.
Anatoly a encontrou e demorou tempo suficiente para tortura-la. Por sorte, ou não, já tinha se livrado da criança, de forma que, ao menos no embate final, aquela pulga que parecia cravar em sua cabeça não a distrairia. Seu filho estaria a salvo, de toda forma, e assim que matasse Anatoly, ela mesma também estaria. Ledo engano, a cova de Natasha foi o próprio mar, que tanto detestara e o Druskëlle voltou a Fjerda vitorioso, a mão que antes exibia a aliança de Natasha putrefata. Um troféu da guerra contra os Grishas.
Crescer em um dos piores orfanatos de Kerch não poderia tê-lo tornado em nada diferente do que se tornou. Delinquência nunca esteve exatamente longe de crianças órfãs, e Maxim descobriu, desde pequeno, que ele deveria batalhar para conseguir o que queria —— figurativamente, já que preferia muito mais se apoiar no esforço dos outros ao furtar jóias, moedas de ouro e praticar os pequenos trabalhos que uma criança de pouco mais de quatro anos já conseguia exercer. Capaz de tornar os hóspedes mais quietos em criaturas vis, por onde passava o gênio parecia tocar as crianças de forma negativa. Ainda naquela época, o temperamento reativo o influenciava, de forma que sempre se via envolvido em brigas com o restante dos meninos do orfanato até o benfeitor dele expulsá-lo, depois que incinerou, ao seu ver inocentemente, o estoque de comida para o inverno.
Sem provisões ou perspectiva de sair da lata de lixo onde morou por toda a vida, ele vagou por Kerch durante o inverno. Fazia a vida em becos, bares de esquina, as mãos trabalhando bem o suficiente para que conseguisse ao menos um pão dormido ao final do dia, ou, quando tinha sorte, um pedaço de bolo que o padeiro de mal vontade lhe jogava assim que punha o dinheiro sobre o balcão, arrogância escorrendo das feições infantis. A rotina era praticamente diária, e Maxim não continuava em um lugar durante toda a semana, rodeando Kerch tantas vezes que, até mesmo hoje, as vielas e esquinas parecem parte de sua mente, como se ele se lembrasse delas a cada vez que falava o seu nome. Continuaria assim e talvez não fosse reconhecido pelos Grishas se o fizesse, mas o destino pareceu satisfeito em pô-lo no mesmo lugar e na mesma hora que o capitão do Krasnyy Drakon. Mikhail olhou para o órfão como se ele fosse a sarna da sociedade e ameaçou até mesmo cortar a sua mão pela insolência, mas, ao final, talvez não fosse de todo mal tê-lo consigo. Djel sabia que tempos difíceis viriam, e que ele precisaria de mãos leves como as do garoto que, com algum treinamento, se tornaria melhor do que um reles afanador de pertences. O garoto se tornou mais que isso, e o pirata jamais o admitiria, todavia.
Os anos subsequentes foram regados à brisa marítima e ao som da maresia, impregnando seu nariz como se fosse algum tipo de musgo. O garoto de seis anos que vivia enjoado com o movimento do navio deu lugar ao jovem de dezesseis que pouco medo tinha das peripécias do mar; piadas infantis se tornaram cada vez mais perigosas, e os costumes para com a bebida, cada vez mais perigosos. Estibordo se tornou praticamente sinônimo de direita; bombordo, de esquerda. Nós complicados se tornaram de fácil reconhecimento, e não poderia negar que as noites nas tavernas em terra tornavam tudo muito mais suportável. A fraqueza por motivos desconhecidos à época, contudo, não poderia ser esquecida, ou mesmo negada, de forma que os períodos prolongados o cansavam em demasia e as faíscas dos canhões sempre que se viam em confronto com a marinha de algum dos países parecia simplesmente chama-lo enquanto pessoa. Como imediato de Mikhail, aprendeu o suficiente para que ao menos se virasse, e o sucederia assim que viesse a falecer. Parecia realmente ser a única escolha de vida que Maxim teria, a mais acertada delas, pelo menos.
Gostava do mar, da imprevisibilidade que ele trazia, e os saques eram cada vez mais exímios a medida em que se especializava. As mãos hábeis de criança se tornaram calosas e rápidas na empunhadura de uma pistola ou mesmo de uma espada. Mikhail pode não ter tido a intenção de torna-lo seu pupilo quando o trouxe a bordo junto da tripulação do Krasnyy Drakon anos antes, mas não poderia dissociar os piratas desdentados de uma noção disforme de familiares. Não queria dizer, contudo, que não estivesse prestes a abandoná-los.
Aos dezoito anos, um homem formado e de porte físico bem constituído, em meio a mais um dos saques que desempenhariam num dos navios mercantis, a ironia não mais pôde ser ignorada em sua vida. No navio, um Grisha muito importante era levado para Kerch com o intuito de recolher os que estavam perdidos. O dom lhe falou mais alto e as habilidades de amplificador natural incandesceu o navio por completo, a chama dos lampiões embebendo a madeira de forma até mesmo poética. Maxim não salvaria o outro, e sequer sabia o motivo de tê-lo feito, visto que sua vida jamais foi a mesma desde então. Ao som da explosão do navio mercantil, ambos pularam ao mar, mas foi tudo o que o Grisha precisava para prendê-lo. Sabia nadar e a água o acalmava de forma quase arrebatadora, mas nem mesmo as habilidades foram suficientes para se desprender do casulo no qual o Grisha o pôs. Como um prisioneiro, foi levado à sede do Pequeno Palácio, e o Grisha que o tomou como prisioneiro não poderia parecer menos satisfeito. Maldito bastardo. Sob o olhar atendo do Darkling, as tentativas de fuga foram muitas, mas jamais chegou efetivamente a sair do palácio, de forma que se tornou sua prisão por cerca de dois anos.
O Darkling, contudo, viu algum tipo de fogo que poderia ser usado; a raiva que escondia sob camadas de sarcasmo e piadas sem graça e o conhecimento sobre grande parte das rotas marítimas. Maxim seria necessário, e o líder dos Grishas fez questão de tê-lo por perto, e, em especial, controlar aquele temperamento ao seu favor. Assim que se acalmou, um jato de água sobre seu corpo para que não fizesse nada que fosse se arrepender posteriormente, toda a sua origem foi explicada, bem como o tratamento de seus poderes.
Poucos anos depois de ter o seu treinamento terminado, o Darkling pensou que talvez fosse a hora de testar seu mais novo brinquedo, portanto o enviou em uma das mais suicidas missões que poderia ter enviado. Matar um duque que aparentemente estava se rebelando contra o conselheiro do rei parecia ser fácil, e ele não se opôs aos mandamentos do outro, especialmente por ansiar por liberdade. Mal poderia saber que sua vida agora pertencia ao líder, e que jamais deixaria de assim sê-lo. A morte do duque se deu em poucas semanas depois, e Maxim não saberia dizer exatamente o que sentiu assim que cortou a garganta do fidalgo, mas não se tratava de angústia ou mesmo de medo. Era um simples vazio com o toque agridoce que antecedeu o alívio.
Ligarem-no ao líder não seria proveitoso, de toda forma, então deixou que voltasse a navegar pelas águas do Verdadeiro Mar, voltasse à vida que tinha antes. Saqueou, pilhou, matou e, nesse último caso, o gosto que vinha em sua boca ainda remetia ao primeiro assassinato que cometera. Mikhail faleceu na manhã de seu vigésimo terceiro ano, e Maxim tomou o controle do navio pirata para si, mas tão logo o fez, o Darkling o chamou novamente ao Pequeno Palácio, e de lá só volta quando tem alguma missão a ser feita, usando do navio para justificar suas viagens. O período de férias aparentemente tinha acabado, e o moreno vendera sua alma ao líder —— ou ao diabo, não fazia uma real diferença, ainda que Svyatoslavich não pensasse dessa forma ——, tal como todos os Grishas sob o seu comando.
Não existe uma pessoa que tenha o conhecido e que goste efetivamente de sua forma de ser. Mesmo os companheiros do Krasnyy Drakon têm certas reservas conquanto ao capitão que deixa o navio sob o comando de seu imediato por semanas, chegando até mesmo a meses sem ver o mar. A vida reservou certas anomalias para Maxim, e ele não lidou com a maioria da melhor forma que poderia fazê-lo, de forma que, ainda que não demonstre efetivamente, não é exatamente o insensível desgraçado que a maior parte das pessoas veem. Insubordinado, irônico e extremamente despreocupado conquanto às suas funções e deveres dentro do Pequeno Palácio, Maxim basicamente cospe nas regras impostas pelo Darkling desde o dia em que pisou em Os Alta pela primeira vez, como um prisioneiro. Longe de ser a pessoa mais equilibrada dentro do palácio, ainda assim consegue pensar que manda em outros, tal como mandaria nos piratas de Red Dragon enquanto ele próprio não faz nada a respeito do que é necessário. Preguiçoso, inconsequente, despreocupado, mal-educado e extremamente sedutor, morais pudicas não o afetam como provavelmente afetariam o restante dos hóspedes do Darkling, seja por conta da criação libertina a qual foi sujeito, seja por estar impregnado em sua psique. Cabe ressaltar que o ego de Svyatoslavich é algo realmente desprezível em interpretação defeituosa de si, de forma que não é muito difícil que se veja completamente possesso por coisas esdrúxulas e que, a priori, não deveriam deixá-lo tão alterado —– culpa de seu poder, ao que tudo indica. A medida em que a água o acalma, o fogo só faz embebê-lo em uma lacônica bola de raiva.