Dia 1 - Sonho Profético
Primeiro, estava tudo escuro. Ouvi gritos, senti o chão tremer.
Então, luz. Uma luz brilhante inundou o ambiente. Pensei que ia ficar cego, mas tão subitamente quanto apareceu, ela minguou. Eu podia enxergar agora. Um jardim? Talvez uma praça. Na minha frente, um enorme carvalho se erguia, emitindo uma luz anormal.
Ao pé do carvalho, flutuava uma linda mulher de longos cabelos louros. Ela tinha asas. Quatro delas, e um vestido branco, vazado, que mal lhe cobria as pernas.
A deusa Laima me olhou nos olhos, com uma expressão triste, quase de pena.
- …Você vê?
A voz dela ecoou pelos meus ouvidos. Era doce, mas aflita.
- Essa é a catástrofe que caiu sobre nós… Mas uma calamidade ainda maior está por vir. Os demônios estão atrás da luz da salvação.
Ela fez uma pausa, e pude perceber uma nota de exaustão em seu rosto divino. Ela vinha lutando contra isso a muito tempo, o que quer que fosse.
- Nesse ritmo - ela continuou - Toda vida neste mundo vai chegar ao fim.
Ela me encarou nos olhos, quase em súplica
- Por favor, me ajude…
Eu queria dizer alguma coisa, perguntar do que ela estava falando. Era sobre o Mezo Diena? Algo pior? Por onde as deusas andaram nos últimos anos e nos deixaram abandonados? Mas nenhum som saía da minha boca.
- Somente você… Somente o Revelador pode salvar esse mundo. Por favor, vá até Klaipeda.
E por favor…faça tudo que puder para manter a Luz da Salvação longe dos demônios.
Ela mal terminou de falar, e outro clarão intenso de luz a fez desaparecer, e tão logo o fez, todo o ambiente se consumiu em luz.
E então eu abri os olhos.
Estava suando frio, deitado numa posição desconfortável e meu travesseiro tinha caido da cama para o chão.
Me levantei ainda meio abalado e dei alguns passos até a cozinha para lavar o rosto.
Puxei uma cadeira e me sentei para comer o resto do almoço. Já estava frio, mas a alternativa era ficar com fome. Uma luz alaranjada que penetrava pela única janela na cabana me indicou que o sol estava nascendo.
Refleti durante as horas seguintes se deveria acreditar no sonho profético ou não. Tudo aquilo parecia absurdo demais, até para as deusas.
Decidi, por fim, que ir até Klaipeda não seria um problema, afinal eu já planejava visitar a cidade mineiradora a algum tempo, para aprender sob a tutela de uma grande mestra arqueira que residia lá.
Vesti meu gibão e o colete verde, calcei minhas botas e verifiquei se as calças estavam firmes antes de pegar meu arco e minha aljava - um velho arco que consegui muitos anos atrás e a aljava que eu improvisei com os parcos materiais que dispunha no vilarejo- e então, segui viagem. Meu vilarejo não ficava longe do Bosque Siulai de qualquer forma, e Klaipeda se localizava no meio do vasto bosque, assim como uma vila de mineiros que explorava as Minas de Cristal e vendia seus cristais para a cidade.
Sentindo que o destino tinha me reservado alguma surpresa, abri a porta da cabana e o vento frio agitou meu cabelo.
- Hora de trabalhar. - murmurei, e fechei a porta atrás de mim










